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Informação:
Observatório
da Imprensa - 16/11/2004
Nelson
Hoineff
O
novo quadro que se desenha no audiovisual brasileiro, a partir
principalmente da discussão do controvertido projeto
da Ancinav, passou a gerar também um importante reagrupamento
associativo dentro da atividade. A conseqüência disso
deverá ser uma possibilidade de manifestação
mais plural de cada área, mas também o enfraquecimento
de setores que até agora falavam – ou davam a impressão
de falar – em sintonia, malgrado suas grandes diferenças
internas.
Aparecem
mais peças e afloram mais interesses no tabuleiro político
do cinema e da televisão brasileiros, justamente no momento
em que se prepara a reunião do plenário do Conselho
Superior de Cinema, marcado para 9 de dezembro, uma quinta-feira.
Nesta reunião, o comitê civil do Conselho –
que esteve por mais de três meses examinando o assunto
– produzirá, junto com os nove ministros de Estado,
o texto final do projeto a ser remetido ao Presidente da República,
que o apreciará antes de enviá-lo ao Congresso
Nacional.
No
âmbito das emissoras de TV, o racha mais expressivo já
vinha se configurando muito antes da apresentação
do projeto do governo para o setor do audiovisual – e
nada tem a ver com ele. As dissidências na Abert se estendem
há anos e já produziram algumas formas de associação
alternativas até chegar à recém-criada
Abra, que reúne as principais concorrentes da Globo (SBT,
Record, RedeTV! e Band).
A
nova entidade evidencia que a grande rede de televisão
brasileira é muito diferente de todas as outras, tanto
no ideário quanto na ação. Não falam
a mesma língua, apesar de estarem no mesmo negócio
– não tendo, portanto, condições
de estarem representadas, neste momento, por uma única
entidade.
Oficialmente,
o que separa a Globo das demais redes de televisão é
a percepção, por suas concorrentes, de que a rede
que detém mais de 80% do bolo publicitário utiliza
métodos desleais para atingir este resultado. Na prática,
existe um abismo entre a Globo e as demais emissoras na maneira
de enxergar o negócio televisão, com fortes reflexos
sobre a adoção de modelos de construção
de conteúdo nacional.
A
Globo tem insistentemente batido na tecla de que não
apenas conta com um índice de nacionalização
superior a 80% na sua programação, como é
responsável pela mais extensa e diversificada produção
audiovisual brasileira (tomando como base o fato de que produz
1.200 horas/ano de dramaturgia, vinte vezes mais do que o próprio
cinema). É nisso que reside a tragédia da televisão
brasileira. O que a Globo diz é a expressão da
verdade. O que ela deixa de dizer são duas coisas: que
um nível tão alto de conteúdo nacional
de qualidade não deveria ser a exceção,
mas o padrão de toda a televisão brasileira; e
que todos teriam a ganhar se grande parte desta produção
se diversificasse.
Há
meios de sobra para que isso aconteça. Não é
estatisticamente aceitável que para cada grande autor
ou artista que estejam na Globo não existam 20 outros,
entre 170 milhões de pessoas, que estejam simplesmente
tentando demonstrar seus talentos – e suas capacidades
de gerar programas competitivos, do ponto de vista comercial
– para qualquer outra emissora. Mas o modelo de televisão
praticado no país não apenas impede que esses
trabalhos cheguem ao vídeo (estabelecendo assim uma censura
velada à criação intelectual) como faz
com que pelo menos cinco grandes redes comerciais, além
das emissoras públicas, tenham que dividir uma faixa
de 20% de todo o faturamento publicitário das TVs.
Não
existe uma só razão, portanto, para que a Globo
defenda a manutenção de um modelo que ela mesma
não segue e que levou a televisão brasileira ao
pior momento de sua história; a não ser que ela
tema que o incentivo à diversificação da
produção, e ao aparecimento dos talentos que estão
vetados pela TV, possa resultar no fortalecimento das outras
emissoras. Mas se isso for verdadeiro, então a tese da
urgência dessa diversificação estará
consagrada.
Última
hora
É
aí que entram as dissidências que estão
explodindo nos outros setores. Elas não se relacionam
diretamente com a construção de conteúdo
para televisão, mas com os mecanismos de produção
e comercialização do produto audiovisual brasileiro
para todos os meios.
Na
sexta-feira, 29 de outubro, por exemplo, o Sindicato da Indústria
Cinematográfica e do Audiovisual (Sicav) anunciou seu
desligamento do Congresso Brasileiro de Cinema (CBC). O CBC
é uma espécie de federação de entidades
do setor, criada logo depois do III Congresso Brasileiro de
Cinema, realizado há quatro anos em Porto Alegre (os
nomes são idênticos, o que pode causar alguma confusão
ao leitor desavisado – mas uma coisa é o evento,
outra a entidade).
Na
época da realização do III Congresso, o
cinema vinha de um longo período de desarticulação,
tanto que o II Congresso havia ocorrido 40 anos antes. O clima
de grande euforia que se criou é que fez com que uma
federação pudesse ser criada naquele momento,
congregando dezenas de entidades ligadas a produtores, distribuidores,
exibidores, curta-metragistas etc, que tinham em comum o desejo
de que a área voltasse a se organizar – mas guardassem,
cada qual, seus próprios interesses e expectativas.
Deste
congresso nasceu não apenas o CBC como também,
de forma indireta, a própria Agência Nacional do
Cinema (Ancine), criada a partir de articulação
de um grupo de ativistas da área com o então ministro
Pedro Parente, do Gabinete Civil, que resultou no Grupo Executivo
para o Desenvolvimento da Indústria do Cinema (Gedic)
– do qual saiu a agência, por meio da Medida Provisória
2228-1, de 6 de setembro de 2001.
A
Ancine, que iria regular não apenas o cinema mas também
a televisão e se chamaria Ancinav, na última hora
acabou restrita ao cinema por força da pressão
dos radiodifusores.
Motivação
principal
O
CBC chegou a congregar mais de 50 entidades, que nem sempre
tinham interesses convergentes, mas, juntas, criavam a impressão
de força e unidade do setor. O desligamento do Sindicato
da Indústria Cinematográfica e do Audiovisual,
em outubro, ocorreu quase simultaneamente à saída
de entidades representativas dos principais distribuidores e
exibidores de cinema, e poucos dias depois de uma audiência
com o presidente Lula, na qual, capitaneados pelo CBC, cinco
dezenas de entidades e quase três centenas de produtores
foram levar o apoio à criação da Ancinav.
É
importante entender a razão da necessidade dessa manifestação.
Oficialmente, ela aparece logo no dia seguinte ao vazamento
do texto do projeto, dois dias antes de sua apresentação
ao Conselho Superior do Cinema (CSC), em agosto deste ano.
Naquele
momento, a mídia em peso atacou com violência o
que considerava um tom autoritário e dirigista do projeto
da Ancinav, para não falar da sua grande abrangência.
Duas
semanas depois, representantes dos grandes produtores, exibidores
e distribuidores, ao lado de representantes da televisão,
criaram um grupo (apelidado de "grupo dos 18", que
incluía três membros do próprio CSC) para
apresentar ao governo um substitutivo (apelidado de "emendão")
ao projeto que estava sendo examinado pelo Conselho –
este, criado exatamente com essa atribuição pela
Casa Civil da Presidência da República, por solicitação
do Ministério da Cultura (MinC).
O
grupo dissidente argumentava que o próprio ministro Gilberto
Gil havia encomendado o substitutivo, mas o MinC garantia que
essa contribuição iria apenas se juntar às
mais de 400 outras recebidas durante a consulta pública
a que o projeto da Ancinav esteve submetido. Neste cenário
confuso, evidenciaram-se as divergências que já
eram marcantes há muito tempo – e que o circunstancial
consenso do CBC havia se encarregado de camuflar enquanto isso
foi possível.
As
divergências estão presentes em toda parte. No
sábado (13/11), o conselheiro Carlos Eduardo Rodrigues,
que representa a Globo no CSC, falou ao Globo e à revista
eletrônica Tela Viva News. Expressou publicamente muitas
dessas divergências e faz críticas ao presidente
do Comitê Civil do CSC, Juca Ferreira, que por sua vez
garantiu ao mesmo Tela Viva News que o Conselho avançou
bastante rumo ao consenso.
Quatro
dias antes, durante a cerimônia de entrega da Ordem do
Mérito Cultural no Palácio do Planalto, o presidente
da República fez, de improviso, uma defesa apaixonada
do projeto da Ancinav e deu uma estocada no que considera a
razão de seus opositores. Depois de dizer que o ministro
Gilberto Gil já "apanhou o que tinha que apanhar"
pela confecção do projeto, Lula afirmou que "enfrentamos
uma adversidade muito grande porque estamos mexendo com hábitos,
estamos mexendo com pseudodireitos, com costumes, e tudo isso
é sempre muito complicado".
Nesta
terça-feira (16/11), parte do chamado "grupo dos
18" está formalizando a criação de
um fórum setorial constituído por empresas e entidades
representativas do setor dito "industrial" do audiovisual
brasileiro. A capa "industrial" serve ao grupo para
justificar a dissidência; e criar uma oposição
entre os setores ligados ao mercado e os comprometidos apenas
com aspectos considerados "culturais" da atividade.
Trata-se de grandes produtores, distribuidores e exibidores,
que ao lado do setor de televisão (mais especificamente
da Rede Globo) institucionalizam assim o racha com o grupo do
CBC – formando, com o Fórum, uma espécie
de "CBC do B".
Não
há dúvida de que a motivação principal
dessa nova federação é esvaziar o Congresso
Brasileiro de Cinema, que em 2005 será um importantíssimo
ator nas discussões que o Congresso Nacional travará
sobre o projeto da Ancinav. A manobra visa impedir que o CBC
possa falar em nome de toda a atividade.
Baixo
clero, alto clero
O
CBC tem tido uma atuação parlamentar importante,
inclusive junto ao Conselho de Comunicação Social,
e seu atual presidente – o cineasta Geraldo Moraes –,
que já foi secretário do Audiovisual do MinC,
reside em Brasília. Por outro lado, não deixa
de ser razoável que uma atividade que conta com mais
de 50 entidades (sem mencionar as duas federações
das emissoras de televisão) se manifeste não por
meio de uma apenas, mas de um conjunto de federações.
Por muito menos, o presidente da Radiobrás Eugênio
Bucci defendeu na versão televisiva do Observatório
da Imprensa que a Fenaj seja subdividida, já que a mesma
entidade não pode representar jornalistas e assessores
de imprensa.
O
que essas divisões estão sinalizando é
que o universo do audiovisual é tão plural quanto
o que está do lado de fora – e que, como em muitas
atividades, os movimentos obedecem a interesses circunstanciais.
Cada novo agrupamento que surge tem em sua gênese a defesa
de interesses comuns, mas também e sobretudo a necessidade
circunstancial de resolver situações emergenciais.
Em
meio às dissenções de hoje podem ser garimpadas
questões delicadas que têm sido discutidas com
muita reserva – como os Funcines ou o projeto Mais Cinema.
Ninguém tem dúvida, por exemplo, que a aliança
que hoje une a Rede Globo a muitos dos produtores tem prazo
de validade estampado na bula, assim como o tiveram as alianças
que garantiram a trajetória uníssona do CBC até
aqui. O próprio conceito de "baixo clero" e
"alto clero", que tem sido usado para designar os
agentes mais ricos e menos ricos deste processo (ou, como se
costuma dizer, os mais capazes e menos capazes de movimentar
o PIB) é de altíssima volaticidade.
Identidade
cultural
Tudo
isso é brincadeira de criança se comparado aos
interesses que começam a ser postos na mesa ante a iminência
de implantação das plataformas de transmissão
e recepção digitais de televisão –
e a surpreendente omissão do governo em lidar imediatamente
com a questão da construção do conteúdo.
Essa preocupação pode ser identificada na questão
da abrangência da Ancinav, mas o decreto que cria a agência
não tem o poder de estabelecer a política nacional
para a TV digital, que pertence a outra esfera.
O
cinema e a televisão brasileiros têm sido pródigos
em eleger grandes inimigos circunstanciais para que a união
na luta contra eles crie a aparência de consensos inabaláveis.
Durante muito tempo os grandes exibidores foram considerados
pelos produtores como inimigos número 1 do cinema brasileiro.
Hoje, são aliados. Depois, os distribuidores estrangeiros,
em especial as majors, foram a bola da vez. Hoje estão
aliados. A Globo, que já foi nomeada a mãe de
todas as inimigas, também está aliada –
e é ela mesma, quem diria, que vê como inimiga
principal da televisão brasileira a produção
cinematográfica estrangeira.
A
televisão brasileira e o seu cinema, o governo e toda
a atividade audiovisual, têm de se acostumar à
convivência com o contrário e a relativizar a importância
do consenso. Diante das importantes decisões que serão
tomadas pelo Congresso, o novo quadro que se desenha na representação
do setor – para não falar da emergência de
novas mídias e de novas composições políticas
na esfera do governo – impõe o reconhecimento de
que estamos diante de uma situação complexa, repleta
de interesses momentâneos e de ambigüidades, que
exigem análises profundas de seu impacto das decisões.
Os
interesses econômicos são imensos, mas o que está
no campo minado é a identidade cultural da nação
brasileira.
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