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Informação:
Observatório
da Imprensa - 30/11/2004
Robson
Sávio Reis Souza (*)
A
mídia deveria ser o espelho fiel das contradições
e conflitos existentes na sociedade. Da mesma forma que atualmente
a imprensa está mais sensível a temas como a violência
contra as crianças, é também verdade que
ela continua pouco preocupada com outros assuntos importantes,
como os direitos das minorias.
É
comum nas emissoras de TV aberta, por exemplo, a exaltação
da violência de diversas formas: a violência real
estampada nos telejornais, a violência representada nos
filmes e novelas e a violência simbólica, apresentada
principalmente em programas que banalizam o crime, fazem chacotas
com as lideranças sociais e religiosas, massacram as
minorias e ridicularizam aqueles que fogem dos padrões
impostos pela sociedade de consumo.
Assim,
a onipresença da violência na mídia pode
estimular muito mais as ações violentas para a
resolução de simples conflitos cotidianos do que
atos pacíficos e de respeito aos outros e a si mesmo.
Numa sociedade tão violenta como a nossa (que ostenta,
por exemplo, mais de 40 mil homicídios por ano, segundo
dados do governo), é preciso mudar essa situação.
A
espetacularização da desgraça dos excluídos
e de pessoas que fogem ao padrão estético imposto
via mídia, em programas televisivos e em publicações
impressas demonstra a banalização da violência
pelos meios de comunicação social.
Questões
sociais
Podemos
pensar em muitas violências propagadas insistentemente
pela mídia. E o descontentamento da população
pode ser dimensionado em ações como as desenvolvidas
pela campanha "quem financia a baixaria é contra
a cidadania". Esse tipo de mobilização se
constitui num dos instrumentos fundamentais para inserir no
debate sobre a violência na mídia estratos da cidadania
que, via de regra, não têm instrumentos para vocalizar
suas demandas, manifestações e frustrações.
O pior é que a sensação de impotência
frente à dramatização desproporcional da
violência parece corroborar um sentimento de resignação
social que impede as pessoas de se indignarem frente à
barbárie cotidiana estampada em nossos veículos
de comunicação social.
Mas
não podemos deixar de reconhecer que a mídia,
por outro lado, tem desempenhado importante papel social na
atualidade. Temos percebido uma crescente preocupação
da imprensa, de modo geral, em pautar as questões locais
de forma a dar mais visibilidade às mazelas que atormentam
o cotidiano dos cidadãos. Aquela mesmice que era evidente
há pouco, quando todos os telejornais noturnos noticiavam
as mesmas coisas, sob os mesmos ângulos e, no dia seguinte,
os jornais impressos registravam os mesmos acontecimentos, parece,
aos poucos, estar mudando. As editorias locais e regionais e
a criação de novos veículos de difusão
têm levado, paulatinamente, as grandes empresas de comunicação
a prestar mais atenção na realidade vivida pelos
cidadãos.
Ainda
se deve registrar que a cobertura do noticiário nacional
pela grande mídia tem se pautado no tratamento de questões
sociais relevantes. Nunca a mídia foi tão importante
para denunciar mazelas antes silenciadas por segmentos corruptos
das elites. É verdade que nosso jornalismo investigativo
é muito limitado, inclusive pelo fato de as empresas
de comunicação não investirem e valorizarem
esse tipo de atuação profissional. Mas cada vez
mais a imprensa tem acesso a informações que são
vitais para desmascarar as falcatruas cometidas por figurões
das elites que, antes, eram intocáveis.
Patrocínio
público
Alguns
problemas afetam a qualidade e a efetividade da mídia
no Brasil: seu atrelamento a setores altamente conservadores
e sua concentração nas mãos de poucos afortunados.
Além desses dois fatores, outra questão é
fundamental: a origem das verbas publicitárias. Alguns
estudos apontam que cerca de 70% da sobrevivência da grande
mídia vem do patrocínio governamental, seja via
administração direta, indireta ou das empresas
estatais. Esse tipo de situação gera evidente
promiscuidade entre a imprensa e os governos. Falar de isenção
e independência, para quem conhece por dentro as redações
dos grandes jornais, emissoras de televisão e rádio,
soa como chacota.
Os
dados abaixo foram retirados da Secretaria de Comunicação
de Governo e Gestão Estratégica, órgão
da Presidência da República. Observemos os investimentos
em mídia feitos a nível federal pela Administração
Direta e Indireta, nos últimos anos. Vale ressaltar o
que está registrado na nota de rodapé de número
3, informando que nesses valores não estão incluídos
os gatos com publicidade legal, produção e patrocínio.
Em 2001, por exemplo, foram mais de 900 milhões de reais
investidos somente no nível federal. Não esqueçamos
que estados e municípios, com seus poderes executivo,
legislativo e judiciário não estão inclusos
nessas astronômicas cifras.

Outro
exemplo: durante uma semana, estivemos monitorando os telejornais
exibidos pelas principais emissoras de televisão de Minas
Gerais. Também ouvimos as principais emissoras de rádio.
Vários dos noticiários são patrocinados
por empresas públicas. Inclusive, usa-se a estratégia
de divulgar as ações do governo através
destas empresas. Não que isso seja ilegítimo;
porém, fica claro o patrocínio governamental.
Outros noticiários exibem nos intervalos comerciais,
sistematicamente, os anúncios dessas mesmas empresas
públicas, dando a (falsa) percepção ao
telespectador menos atento de que o noticiário não
tem qualquer vínculo com patrocínio governamental.
Por
que o estardalhaço?
O
anúncio de que Minas Gerais teria alcançado o
déficit zero mobilizou uma das mais intensas campanhas
de mídia. Veja o que diz Antônio Siúves,
da coluna Mídia Minas (jornal O Tempo, 25/11/2004):
Há
muito não se via no país um esquema de
comunicação do mesmo porte. A proclamação
do déficit zero em Minas, ancorado pesadamente
em inserções publicitárias em mídia
nacional multidirecionada, foi abrigado no noticiário
dos principais veículos nacionais. Anteontem
(23), data da divulgação, o acerto de
contas mineiro anunciado pelo governador Aécio
Neves – transmitido ao vivo pela (rádio)
Inconfidência, Rede Minas (de televisão)
e, parcialmente, pela (TV) Globo Minas – surgiu
no Jornal Nacional, maior de todas as nossas vitrinas.
Era o ponto alto da repercussão aberta ainda
no sábado por Veja e a reportagem "Uma empresa
chamada Minas". |
O
colunista Nelson de Sá, na Folha de S.Paulo (26/11/04)
escreveu:
Surgiu
nas redes um comercial do governador e presidenciável
Aécio Neves. Locução com música
ao fundo: "O governo de Minas fez um choque de
gestão... Equilibrou as contas do Estado... Reduziu
o salário do governador... Coragem e criatividade". |
O
mais interessante, neste exemplo, é que a questão
do equacionamento do déficit público não
é nada mais que obrigação e responsabilidade
de todo e qualquer administrador público. Por que tanto
estardalhaço?
Conselho
ineficaz
Se
temos jornalistas e profissionais da comunicação
com indiscutível postura ética, por outro lado
temos editores, diretores e chefes de redação
que, não menos éticos, têm de se explicar
constantemente a seus patrões sobre determinados assuntos
que desagradam à empresa de comunicação.
Como ser livre e isento dessa forma?
Conheço
jornalistas, da mais alta estirpe profissional e ética,
que não se cansam de reclamar dos cerceamentos reais
e simbólicos a que são submetidos cotidianamente
só pelo fato de, partindo da premissa do bom jornalismo,
desejarem equilibrar as opiniões de partes discordantes
quando essas opiniões contrariam acordos ou negociatas
que envolvem a empresa e o governo, por exemplo.
As
emissoras de TV – que lideram o "ranking" na
exibição da violência – e as rádios
operam como serviço de concessão pública.
Por isso, deveriam ter uma "função social",
com uma programação centrada na educação
e no resgate dos valores culturais e simbólicos da sociedade.
Apesar
de a Constituição Federal de 1988 ter criado o
Conselho de Comunicação Social e a Lei 8.389/91
ter regulamentado esse importante órgão –
um dos mais modernos instrumentos de controle da radiodifusão
e da televisão –, a "tradição
editorial tupiniquim" continua fechando as portas aos que
desafiam os oligopólios, e esse Conselho, apesar de ter
"saído do papel", ainda não é
efetivo na sua (esperada) ação.
A
possibilidade da ditadura
Em
toda democracia, órgãos e mecanismos de controle
externo são necessários. Todas as vezes em que
se discute, no Brasil, um órgão de controle para
a mídia cria-se uma celeuma. Rememora-se o discurso da
censura e teme-se a volta da ditadura.
Quando
defendemos um órgão de controle externo estamos
falando de um mecanismo representativo da sociedade civil, portanto,
um órgão de Estado, e não do governo de
plantão.
O
controle externo da mídia seria a melhor forma de se
controlar a violência desenfreada que campeia nos veículos
de comunicação. Também serviria para minimizar
os efeitos maléficos dos ditames do capital nas empresas
de comunicação. E ainda, garantiria aos bons profissionais
da comunicação a possibilidade da apuração
isenta de possíveis violações pelos patrões
do exercício profissional. Por que, então, temer?
Será que muitos jornalistas, bem-intencionados, não
estariam defendendo os interesses dos oligopólios midiáticos
ao repugnarem qualquer forma de controle social da mídia?
Diante
do poder mirabolante da mídia é preciso discutir,
sem reservas e de forma democrática e transparente, qual
o caminho que a sociedade brasileira quer percorrer. Se repugnamos
a idéia do controle externo não deixemos de considerar
a possibilidade, cada vez mais presente, da ditadura da mídia.
(*)
Filósofo, especialista em Teoria e Prática da
Comunicação Social (USF) e em Estudos de Criminalidade
e Segurança Pública (UFMG), mestre em Administração
Pública. Professor de Políticas Públicas
da PUC-Minas, integrante da União Cristã Brasileira
de Comunicação Social, colaborador em veículos
impressos e rádios, na área de direitos humanos
e cidadania, entre outras
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