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“Você
esta prestes a começar a ler. Melhor fechar a porta;
a TV está sempre ligada na sala ao lado. Diga logo aos
outros”;
- “Não, eu não quero ver TV”!
Fale mais alto. Senão, eles não vão ouvi-lo.
- “Eu estou lendo! Não quero ser incomodado!”
Com tanto barulho, talvez eles não tenham ouvido; fale
mais alto, grite:
- “EU ESTOU LENDO...!”
Ítalo Calvino
Ítalo
Calvino, sábio escritor italiano, em um de seus melhores
momentos já anunciava os perigos da televisão.
Esta semana algumas matérias publicadas na imprensa brasileira
e internacional nos ajudam a repensar o poder e os riscos de
uma exposição exagerada às imagens, a televisão
e as promessas do futuro do jornalismo multimídia.
Segundo
matéria divulgada pela Folha Online desta semana:
Aluno
do ensino médio entende mais imagem do que texto
Os alunos do ensino médio da rede estadual paulista tendem
a compreender mais imagens do que textos. É o que revela
uma análise da porcentagem do aproveitamento dos estudantes
nas questões do Saresp 2003 (sistema de avaliação
do ensino estadual.
A
mesma pesquisa indica que “questões classificadas
como ‘visuais’ (que incluem fotografia e pintura)
tiveram um índice de acerto maior comparada às
demais, classificadas como ‘imprensa’ (artigos e
charges, por exemplo)... Estas são relacionadas, em maior
ou menor grau, à compreensão de textos”.
Os
estudantes teriam mais facilidade com a parte visual porque,
atualmente, há um apelo maior para as imagens. “O
aluno já acorda bombardeado por imagens de TV, fotografia
de jornal e propaganda. Por outro lado, a população
lê cada vez menos."
Na
mesma matéria afirma-se que "na sociedade contemporânea
os alunos são muito estimulados visualmente", o
que explicaria o resultado. Ele afirmou que não poderia
fazer comentários específicos sobre o Saresp,
por não tê-lo analisado.
Por
outro lado, artigo divulgado pela revista neo-zelandesa The
Lancet procura alertar principalmente os pais sobre os perigos
de uma exposição exagerada às imagens da
televisão.
Muita TV na infância pode gerar hábitos pouco saudáveis
Um
estudo neozelandês sugere que assistir muita televisão
na infância pode influenciar as pessoas a terem hábitos
pouco saudáveis na idade adulta.
O
artigo conclui que “adultos que foram espectadores ávidos
de televisão durante a infância têm maior
probabilidade de serem obesos, de fumar e de ter colesterol
alto. Esse impacto pode ser esperado caso as crianças
assistam à televisão por mais do que duas horas
diárias.”
Outra
pesquisa divulgada pela BBC conclui que as crianças expostas
a doses exageradas de TV apresentam distúrbios hormonais
que “aceleram” a puberdade em crianças. Caso
os dados da pesquisa sejam confirmados, este será a primeira
prova de que a televisão é capaz de alterar o
metabolismo de nossas crianças. Ou seja, a televisão
engorda, faz fumar, aumenta o colesterol e contribui para que
crianças se tornem adultos ou “meros consumidores”
antes da hora.
Os
males e ameaças da televisão
O problema obviamente não é do meio. Televisão
costuma ser debatida pela crítica como “meio transportador
de conteúdos”. No entanto, a televisão é
muito mais poderosa. Principalmente em um país como o
Brasil, que se confunde com a própria TV. Como bem diz
Eugênio Bucci no seu livro, Videologias, “O que
seria do Brasil sem a TV. Se tirássemos a TV de dentro
do Brasil, o Brasil desapareceria”. Pode ser exagero,
mas também pode ser premonição perigosa
ou alerta urgente.
Mas,
em verdade, televisão se confunde com seu conteúdo.
E, em doses exageradas, entorpece e cria “hábitos
pouco saudáveis”. O pior de todos, entre a obesidade,
colesterol ou puberdade precoce, pode ser uma indução
constante da passividade, torpeza ou mesmo “burrice”.
Quem vê muita TV não costuma ler. Quem não
lê, vota em qualquer um. E assim segue o círculo
vicioso. No país da TV, democracia de verdade só
com TV de verdade.
Mas
também não custa lembrar e insistir que abandonar
o hábito de ver tanta TV não é tarefa fácil.
Bobagens na TV viciam.
O
futuro da TV
Mas uma nova forma de fazer televisão desponta no caminho.
Pode ser ainda pior, mas seguramente será diferente.
A Associated Press anunciou esta semana que a rede americana
ABC News estará pela primeira vez lançando uma
televisão com noticiário 24 horas no sistema digital
em banda larga pela Internet. Segue os passos da CNN que já
experimenta o novo meio há alguns anos. A migração
da TV e dos seus noticiários para a Internet prossegue
em ritmo acelerado.
A
boa notícia para quem aposta no crescimento das TVs na
Internet é que nos EUA também foi anunciado recentemente
que os usuários da rede que utilizam a banda larga já
ultrapassam mais da metade do mercado. Apesar das resistências
e dos custos, com a chegada da banda larga, acaba o período
da Pré-Historia da Internet. Estamos finalmente no ano
zero de uma nova forma de pensar a comunicação
e o mundo.
Essa
é uma boa notícia para aqueles que acreditam em
jornalismo, novas alternativas e “boas” imagens
na TV.
Por
outro lado, em pesquisa anunciada esta semana pelo Prof. Rosental
Calmon Alves, da Universidade do Texas, somos surpreendidos
com a lentidão de tantos jornais em acreditar nas novas
tecnologias como forma de evitar uma longa decadência
e adiar um fim que muitos consideram inevitável. Segundo
a pesquisa, de 30 sites de jornais americanos monitorados, somente
12 atualizavam seus sites com freqüência. Os demais
faziam poucas ou nenhuma atualização no decorrer
do dia. O estudo mostra a dificuldade da mídia impressa
em quebrar paradigmas estabelecidos e adaptar-se não
só as novas tecnologias, mas principalmente adaptar-se
a um novo público e a uma nova forma de consumir notícias
audiovisuais e multimídias.
Sobre
esse tema, e nadando contra a corrente do pessimismo e da condenação
do presente, das novas tecnologias e das novas gerações,
o professor de jornalismo da Universidade de Nova Iorque Mitchell
Stephens, publicou um livro excelente com em defesa de uma nova
forma de entender o mundo com sons e imagens: the rise
of the image the fall of the Word, A ascensão
da imagem e a queda da palavra. Trata-se de um livro sério
com argumentos bem fundamentados. Contribui para a discussão
do tema imagem versus palavra com uma visão alternativa
de imagens com sons e palavras.
O
jornalismo multimídia é uma ferramenta poderosa
para quem acredita na evolução cada vez mais “complexa”
do conhecimento humano. Se algum dia pretendemos sair dessa
encruzilhada histórica, desse “buraco negro”
comunicacional que nos metemos, Deus sabe como, temos que estar
dispostos a enfrentar as ameaças de uma “iconoclastia
moderna” que condena as imagens por todos os males da
humanidade. Temos que aprender a utilizar todos os meios, inclusive
as imagens, a televisão e a Internet para solucionar
problemas que nos parecem insolúveis e enfrentarmos novos
desafios. Assim caminha a humanidade, quer queiram ou não,
com mais imagens, palavras, novas tecnologias e menos preconceitos.
Enquanto
a TV do futuro não chega, faça como Ítalo
Calvino. Peça para desligar a TV e leia mais. Pode ser
em livros ou mesmo aqui, na Internet.
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