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O poder das imagens e o futuro da TV.


 

Informação: Comunique-se - 23/07/2004

Antonio Brasil

“Você esta prestes a começar a ler. Melhor fechar a porta; a TV está sempre ligada na sala ao lado. Diga logo aos outros”;
- “Não, eu não quero ver TV”!
Fale mais alto. Senão, eles não vão ouvi-lo.
- “Eu estou lendo! Não quero ser incomodado!”
Com tanto barulho, talvez eles não tenham ouvido; fale mais alto, grite:
- “EU ESTOU LENDO...!”
Ítalo Calvino

Ítalo Calvino, sábio escritor italiano, em um de seus melhores momentos já anunciava os perigos da televisão. Esta semana algumas matérias publicadas na imprensa brasileira e internacional nos ajudam a repensar o poder e os riscos de uma exposição exagerada às imagens, a televisão e as promessas do futuro do jornalismo multimídia.

Segundo matéria divulgada pela Folha Online desta semana:

Aluno do ensino médio entende mais imagem do que texto
Os alunos do ensino médio da rede estadual paulista tendem a compreender mais imagens do que textos. É o que revela uma análise da porcentagem do aproveitamento dos estudantes nas questões do Saresp 2003 (sistema de avaliação do ensino estadual.

A mesma pesquisa indica que “questões classificadas como ‘visuais’ (que incluem fotografia e pintura) tiveram um índice de acerto maior comparada às demais, classificadas como ‘imprensa’ (artigos e charges, por exemplo)... Estas são relacionadas, em maior ou menor grau, à compreensão de textos”.

Os estudantes teriam mais facilidade com a parte visual porque, atualmente, há um apelo maior para as imagens. “O aluno já acorda bombardeado por imagens de TV, fotografia de jornal e propaganda. Por outro lado, a população lê cada vez menos."

Na mesma matéria afirma-se que "na sociedade contemporânea os alunos são muito estimulados visualmente", o que explicaria o resultado. Ele afirmou que não poderia fazer comentários específicos sobre o Saresp, por não tê-lo analisado.

Por outro lado, artigo divulgado pela revista neo-zelandesa The Lancet procura alertar principalmente os pais sobre os perigos de uma exposição exagerada às imagens da televisão.

Muita TV na infância pode gerar hábitos pouco saudáveis

Um estudo neozelandês sugere que assistir muita televisão na infância pode influenciar as pessoas a terem hábitos pouco saudáveis na idade adulta.

O artigo conclui que “adultos que foram espectadores ávidos de televisão durante a infância têm maior probabilidade de serem obesos, de fumar e de ter colesterol alto. Esse impacto pode ser esperado caso as crianças assistam à televisão por mais do que duas horas diárias.”

Outra pesquisa divulgada pela BBC conclui que as crianças expostas a doses exageradas de TV apresentam distúrbios hormonais que “aceleram” a puberdade em crianças. Caso os dados da pesquisa sejam confirmados, este será a primeira prova de que a televisão é capaz de alterar o metabolismo de nossas crianças. Ou seja, a televisão engorda, faz fumar, aumenta o colesterol e contribui para que crianças se tornem adultos ou “meros consumidores” antes da hora.

Os males e ameaças da televisão
O problema obviamente não é do meio. Televisão costuma ser debatida pela crítica como “meio transportador de conteúdos”. No entanto, a televisão é muito mais poderosa. Principalmente em um país como o Brasil, que se confunde com a própria TV. Como bem diz Eugênio Bucci no seu livro, Videologias, “O que seria do Brasil sem a TV. Se tirássemos a TV de dentro do Brasil, o Brasil desapareceria”. Pode ser exagero, mas também pode ser premonição perigosa ou alerta urgente.

Mas, em verdade, televisão se confunde com seu conteúdo. E, em doses exageradas, entorpece e cria “hábitos pouco saudáveis”. O pior de todos, entre a obesidade, colesterol ou puberdade precoce, pode ser uma indução constante da passividade, torpeza ou mesmo “burrice”. Quem vê muita TV não costuma ler. Quem não lê, vota em qualquer um. E assim segue o círculo vicioso. No país da TV, democracia de verdade só com TV de verdade.

Mas também não custa lembrar e insistir que abandonar o hábito de ver tanta TV não é tarefa fácil. Bobagens na TV viciam.

O futuro da TV
Mas uma nova forma de fazer televisão desponta no caminho. Pode ser ainda pior, mas seguramente será diferente. A Associated Press anunciou esta semana que a rede americana ABC News estará pela primeira vez lançando uma televisão com noticiário 24 horas no sistema digital em banda larga pela Internet. Segue os passos da CNN que já experimenta o novo meio há alguns anos. A migração da TV e dos seus noticiários para a Internet prossegue em ritmo acelerado.

A boa notícia para quem aposta no crescimento das TVs na Internet é que nos EUA também foi anunciado recentemente que os usuários da rede que utilizam a banda larga já ultrapassam mais da metade do mercado. Apesar das resistências e dos custos, com a chegada da banda larga, acaba o período da Pré-Historia da Internet. Estamos finalmente no ano zero de uma nova forma de pensar a comunicação e o mundo.

Essa é uma boa notícia para aqueles que acreditam em jornalismo, novas alternativas e “boas” imagens na TV.

Por outro lado, em pesquisa anunciada esta semana pelo Prof. Rosental Calmon Alves, da Universidade do Texas, somos surpreendidos com a lentidão de tantos jornais em acreditar nas novas tecnologias como forma de evitar uma longa decadência e adiar um fim que muitos consideram inevitável. Segundo a pesquisa, de 30 sites de jornais americanos monitorados, somente 12 atualizavam seus sites com freqüência. Os demais faziam poucas ou nenhuma atualização no decorrer do dia. O estudo mostra a dificuldade da mídia impressa em quebrar paradigmas estabelecidos e adaptar-se não só as novas tecnologias, mas principalmente adaptar-se a um novo público e a uma nova forma de consumir notícias audiovisuais e multimídias.

Sobre esse tema, e nadando contra a corrente do pessimismo e da condenação do presente, das novas tecnologias e das novas gerações, o professor de jornalismo da Universidade de Nova Iorque Mitchell Stephens, publicou um livro excelente com em defesa de uma nova forma de entender o mundo com sons e imagens: the rise of the image the fall of the Word, A ascensão da imagem e a queda da palavra. Trata-se de um livro sério com argumentos bem fundamentados. Contribui para a discussão do tema imagem versus palavra com uma visão alternativa de imagens com sons e palavras.

O jornalismo multimídia é uma ferramenta poderosa para quem acredita na evolução cada vez mais “complexa” do conhecimento humano. Se algum dia pretendemos sair dessa encruzilhada histórica, desse “buraco negro” comunicacional que nos metemos, Deus sabe como, temos que estar dispostos a enfrentar as ameaças de uma “iconoclastia moderna” que condena as imagens por todos os males da humanidade. Temos que aprender a utilizar todos os meios, inclusive as imagens, a televisão e a Internet para solucionar problemas que nos parecem insolúveis e enfrentarmos novos desafios. Assim caminha a humanidade, quer queiram ou não, com mais imagens, palavras, novas tecnologias e menos preconceitos.

Enquanto a TV do futuro não chega, faça como Ítalo Calvino. Peça para desligar a TV e leia mais. Pode ser em livros ou mesmo aqui, na Internet.