| Informação:
Observatório
da Imprensa - 26/04/2005
Luiz
Weis
A
última vez que se escolheu um papa – aliás,
dois, porque o primeiro morreu aos 33 dias de pontificado –
foi em 1978, quando a maioria dos atuais jornalistas brasileiros
que participaram de alguma forma da cobertura da eleição
de Bento 16 provavelmente ainda não eram nem projeto
de foca.
Começou
por aí o desafio de contar da melhor forma a história
de um evento de interesse mundial cuja mais recente versão
se deu há 27 anos – e ainda por cima para um país
onde o catolicismo, embora em queda ininterrupta desde 1950
e acelerada desde 1980, ainda é, de longe, a religião
predominante, com o maior número de fiéis do mundo.
Sem
falar que o trabalho da mídia passou nessas quase três
décadas por uma mudança muito mais radical do
que a substituição da pena pela máquina
de escrever, nas redações, ou do advento do fotolito
e da composição a frio, nas oficinas.
"Quando
João Paulo II foi eleito", comentou David Carr sábado
passado, 23, no New York Times, "não havia imprensa
livre na Polônia, muito menos a internet e a cobertura
24 horas por dia das TVs a cabo, obrigando a mídia a
confiar nas biografias oficiais do Vaticano, acompanhadas de
entrevistas aparentemente aleatórias com cidadãos
poloneses". "Muito diferente é o mundo da mídia
que saúda Bento", escreveu ele no artigo "A
mídia e o Vaticano: metas opostas".
As
implicações são claras. Daquela vez se
tratava de descobrir, com as mencionadas limitações
políticas e técnicas, quem era esse tal de Karol
Wojtyla – a respeito de quem a desinformação
geral era agravada por ser ele polonês e não italiano
–, por que o colégio cardinalício tomou
tão extraordinária decisão e o que se poderia
esperar do seu pontificado.
Desta
vez, a imprensa banhada em olor de tecnologia – os repórteres
credenciados recebiam os alertas do Vaticano nos seus celulares
– tinha diante de si um ilustre conhecido, "que entrou
papa e assim saiu do conclave", conforme o fecho glorioso,
como se diz em jornalês, de um texto de Marcelo Godoy,
no Estado de S.Paulo de quarta-feira, graças a uma votação
em que "deu ao mesmo tempo a lógica e a zebra",
na bem empregada terminologia esportiva do colunista Luis Fernando
Verissimo, no Globo de domingo.
Avaliação
e garimpo
O
muito que já se sabia sobre o bávaro Joseph Ratzinger
– as expressões Panzerkardinal e Rottweiler aus
Gott ("cardeal-tanque" e "rottweiler de Deus"),
cunhadas por seus opositores da geralmente arquiliberal Igreja
alemã, têm extensa quilometragem – empurrou
a grande imprensa estrangeira a duas principais e complementares
direções.
De
um lado, privilegiar a avaliação crítica
desse muito-que-já-se-sabia, no plano das origens, formação
intelectual e carreira acadêmica do agora Bento 16; de
sua ascensão na Cúria; de suas palavras e atos
como braço direito do papa que o nomeara prefeito da
Congregação para a Doutrina da Fé (sucessora,
todo mundo lembrou, da Santa Inquisição).
Isso,
entre outras coisas, porque as suas idéias sobre a religião
e o mundo, quando foi levado a Roma pela primeira vez, em 1962,
para ser uma espécie de consultor teológico do
seu compatriota quase cego cardeal Josef Frings, no Concílio
Vaticano II, ele próprio excomunhou, aterrorizado pela
rebelião estudantil de 1968 contra a Autoridade.
E
porque o Ratzinger pós-1968, já crítico
militante dos "excessos" conciliares, disse, escreveu
e principalmente fez coisas que o indispuseram profundamente
com a parcela do catolicismo aggiornata em face das normas clericais,
do conflito social ou dos novos padrões relativos à
família e à sexualidade.
Ao
liderar a reação conservadora da Santa Sé
e ao concentrar ali o poder sobre essa que é a maior
corporação do globo, o cardeal entrincheirou o
politburo de João Paulo II – de quem, já
se disse, era o "tira mau" – e dividiu os católicos
pelo mundo afora.
Nada
mais notícia, em sentido amplo, do que isso, na hora
em que, por maioria esmagadora de votos, em apenas dois dias
e quatro escrutínios, chega a papa um fundamentalista
assumido, prometendo liderar uma cruzada contra "uma ditadura
do relativismo que não reconhece nada como definitivo
e deixa como última medida somente o próprio eu
e as próprias vontades" – ou seja, as condutas
fundadas no livre-arbítrio e na consciência de
cada qual.
O
segundo caminho da imprensa foi garimpar, ou revisitar, como
se diz hoje em dia, o muito-que-já-se-sabia, a começar
da adolescência de Ratzinger, como membro da Juventude
Hitlerista e soldado da Wehrmacht – embora só a
talentosa torpeza dos mancheteiros do Sun de Londres, para provável
desgosto até de seu inescrupuloso dono, Rupert Murdoch,
tenha incluído a passagem do futuro cardeal pela "Hitler
Youth" no título que anunciava o "Papa Ratzi".
Detalhe
revelador
Eis,
em suma, a pauta que o passado, menos ou mais recente, praticamente
impôs aos jornais na terça-feira da fumaça
que custou a branquear no Vaticano. Se assim é, ela contém
os critérios talvez mais apropriados para avaliar as
40 páginas de cadernos especiais – sem contar,
portanto, as primeiras páginas, os editoriais, as cartas
de leitores e demais textos em outros espaços –
oferecidos no dia seguinte pelos três grandes: Folha de
S.Paulo (14 páginas), Globo (16) e Estado (10).
Dessa
tentativa de saber se o leitorado brasileiro recebeu a mercadoria
a que os seus reais lhe dariam direito se exclui um jornal de
relevo, o Valor, mas não a ponto de deixar de registrar
que em uma única página e três textos, um
dos quais do Financial Times, o diário econômico
deu conta do recado, com admirável poder de síntese.
Por
maior que seja o respeito com que a imprensa deve tratar as
religiões, escreveu o já citado David Carr, no
NYT, "ela também tem que fazer o seu serviço:
discernir e descrever os pés de barro de toda figura
pública". Ainda mais, acrescente-se, quando a megainstituição
que essa figura comanda aprendeu a competir com qualquer outra
em matéria de uso da mídia para se promover a
si e aos seus.
A
propósito, o chamado detalhe revelador, captado sem querer
pela câmara do cinegrafista do Vaticano que acompanhava
Bento 16 aos aposentos papais, fechados desde a morte de João
Paulo II. O mundo inteiro pôde ver a solene abertura,
a chave, da porta que lhes dá acesso. Destrancada a porta
e enquanto por ela entrava o novo pontífice, foi possível
ver de relance ao fundo, desprevenido, o fotógrafo do
Vaticano que registrava a cena do lado de dentro – onde
não deveria haver viva alma.
De
quebra, lembre-se ainda que em 2002 o guardião da fé
católica disse o seguinte sobre os escândalos de
pedofilia na Igreja: "Estou pessoalmente convencido que
a constante presença na imprensa dos pecados de padres
católicos, especialmente nos Estados Unidos, é
uma campanha planejada já que a porcentagem dessas ofensas
entre padres não é maior do que em outras categorias
e talvez seja até menor". Vai ver vem daí
a leniência com que Ratzinger tratou os pedófilos
da categoria eclesiástica.
Segundo
a repórter Laurie Goodstein, no NYT de sábado
– numa demonstração do que pode significar
para um jornalista americano, no caso, descrever os pés
de barro de uma figura pública – "durante
os últimos quatro anos o homem que agora é o papa
Bento XVI teve mais responsabilidade do que qualquer outro cardeal
de decidir se e como seriam punidos os padres católicos
acusados de abuso sexual".
Editoriais
divergentes
Em
geral, nenhum dos jornalões brasileiros fez feio ao apresentar
o sucessor de João de Deus com os devidos pertences.
Mas houve importantes variações de abordagem e
ênfase. Começando pela primeira página:
enquanto a Folha falou em "conservador alemão"
já na manchete, e o Globo em "conservador puro e
duro", além de "Panzer Kardinal" no título
de uma chamada e "Divisão no Brasil" em outro,
o mais perto da controvérsia que o Estado se permitiu
chegar está na última frase da chamadona: "Na
Alemanha, a nomeação foi recebida com considerável
reserva".
Já
o Globo não precisava dizer logo de saída que
Ratzinger fala 10 línguas como exemplo de sua "consistência
intelectual". Por esse critério, Silvia Broome,
a personagem vivida por Nicole Kidman no filme A intérprete
teria um intelecto mais notável do que o seu rosto.
As
discrepâncias das primeiras páginas se repetiram
nos editoriais. A Folha ("Bento 16, opção
ortodoxa") disse que a sua eleição "representa
uma inequívoca vitória da ala mais conservadora
da Igreja Católica". Já o Estado ("O
sucessor natural de Wojtyla") não viu no conclave
"vencedores e vencidos". O Globo ("Enigmas romanos")
se perguntou "se este seria o nome mais indicado para atender
às atuais expectativas de católicos e não
católicos em face da Igreja de Roma".
Nessa
mesma linha, a Folha sustentou que os cardeais fizeram "uma
aposta de risco", ao escolher um "europeu, centralizador,
arquiconservador", responsável pela "grande
proximidade (de João Paulo II) com prelazias tradicionalistas,
como o Opus Dei".
Se
dos três diários a Folha foi o mais crítico
– lembrando ainda que Ratzinger, além de próximo
de um "fundamentalismo católico", acredita
que o catolicismo é superior às outras igrejas
cristãs, "e mais ainda sobre outros credos"
–, o Estado foi o mais "católico".
Afirmando
que em 1978 foi Ratzinger quem propôs o nome de Wojtyla,
como "alguém com autoridade moral para conter os
excessos e capaz de produzir uma nova evangelização",
o jornal opinou: "O rebanho católico quer um timoneiro
de mão firme no comando da barca de Pedro".
No
entanto, uma enquete do Portal Estadão, na véspera,
deu que 68% dos respondentes não gostaram da escolha
do papa (32% gostaram).
Dezessete
a sete
Valham
o que valerem como termômetro da opinião dos brasileiros,
as cartas dos leitores publicadas na quarta-feira foram pelo
mesmo caminho. No Estado, 4 a 3 contra Ratzinger. Na Folha,
3 a 1, também contra. No Globo, que dá mais espaço
a quem o lê, 10 a 3. Ao todo, 17 a 7. A frustração
com o fato de D. Claudio Hummes ter saído do conclave
tão cardeal como entrou deve ter ajudado.
Fora
dos cadernos especiais, a Folha publicou um artigo do professor
gaúcho Denis Lerrer Rosenfield – mais conhecido
do público por seus textos antipetistas – favorável
a Ratzinger, enquanto, no Globo, Miriam Leitão traçou
na sua coluna diária "Panorama Econômico"
um sombrio panorama da Santa Sé e do seu novo ungido.
Diferentes
como água e vinho, os dois textos mereciam sair lado
a lado em algum lugar, para o leitor vislumbrar algumas das
coisas que vão pela cabeça de partidários
e adversários do "pastor alemão", como
o apelidou esses dias, com requintada contundência, um
jornalista inglês. (No gênero, ninguém os
supera.)
Mas
foi nos artigos e reportagens dos especiais que cada matutino
disse a que veio – sempre pelo critério de usar
o tal do muito-do-que-já-se-sabia como ponto de partida
para uma incursão jornalística ao mais longe e
ao mais fundo da momentosa personagem.
Desse
ângulo, o forte do alentado e informativo caderno do Globo
foram os artigos de Renato Galeno, um sobre "a formação
de um papa", outro sobre a "linha-dura" do interlocutor
intelectual mais próximo de João Paulo II, além
das entrevistas com os suspeitos de sempre – os teólogos
Hans Küng e Leonardo Boff, à esquerda; o cardeal
D. Eugenio Salles, à direita; e o vaticanólogo
Juan Arias, ao centro. [Arias foi entrevistado também
pela Folha. Ela e o Estado deram matéria com Küng
e Boff.] Palmas ainda pela idéia de transcrever o excelente
artigo "Defensor do anti-relativismo" do colunista
E. J. Dionne, Jr., do Washington Post.
A
Folha foi quem mais se empenhou em apontar o que seriam, para
um liberal, os "pés de barro" de Ratzinger.
Vejam-se, por exemplo, os títulos "Homilia de Ratzinger
defende o fundamentalismo" e "Conservadorismo nunca
foi dissimulado", e o destaque dado à reação
da Opus Dei, sob o título em 3 colunas "Grupo Opus
Dei manifesta ‘grande felicidade’ pela eleição
de Bento 16". O melhor do caderno está no perfil
de Ratzinger assinado pelo correspondente do La Repubblica no
Vaticano, Marco Politi, e na pensata do seu enviado especial
Igor Gielow sobre as afinidades ideológicas entre Ratzinger
e George W. Bush ("Onda conservadora ocidental é
reforçada").
O
Estado fez uma festa editorial e gráfica com Bento 16.
"Entusiástico" talvez seja um bom adjetivo
para qualificar o seu caderno, embora ali se registrasse que
a indicação "surpreende" a Alemanha,
que os franceses esperavam um papa "mais ligado a questões
sociais" e que "Ratzinger presidia a versão
moderna do Tribunal do Santo Ofício". À maneira
da Folha com Dionne, o Estadão teve a boa idéia
de tomar do Guardian o comedido comentário do seu especialista
em religião Stephen Bates ("Uma aposta no fim da
ditadura do relativismo"), que por sinal já estava
na edição online do jornal londrino quando ainda
se ouvia o eco dos sinos do Vaticano.
Letras
garrafais
Seis
palavras – "Eu não sou o grande inquisidor"
– deram o tom da abordagem do Estado. Não apenas
por endossar a imagem positiva que Ratzinger quis que se tivesse
dele, no sermão de Sexta-Feira Santa do ainda cardeal,
mas por compor o mais exuberante (e definitivamente extravagante,
para os padrões da casa) título que se há
de ter visto naquele dia em toda a imprensa mainstream do mundo.
Dele
se diria, no tempo em que Ratzinger ainda estava no seminário,
que era "berrante", "estampado em letras garrafais".
Ou não? Atravessando a dupla central, tem 6 cm de altura
na caixa alta (alguns pontos a mais do que a manchete do caderno,
maior, por sua vez, do que a da primeira página). O texto
que se lhe segue é equilibrado e objetivo. Mas vale o
que está escrito no titulaço.
A
simpatia pelo novo papa se faz sentir no caderno do começo
ao fim. Na última página, sob o título
"O dia em que conheci Ratzinger", e abraçando
uma foto de bom tamanho, o leitor encontra um depoimento pessoal
do ex-correspondente da Veja em Roma e atual colunista de gastronomia
do Estado, J. A. Dias Lopes. Depois de descrever o seu encontro
fortuito com o cardeal, na Áustria, em 1996, o jornalista
conclui: "Sendo homem inteligente e culto, além
de grande teólogo, deverá ser um bom papa".
A
previsão não passaria sem o elogio de outro colaborador
do jornal, Carlos Alberto Di Franco, que mesmo quando escreve
sobre religião, como no artigo de segunda-feira ("Bento
XVI, o papa da continuidade") em que cita Dias Lopes, não
se identifica como adepto da Opus Dei.
Não
é importante, mas não custa mencionar, até
em honra do ditado de que Deus está nos detalhes. No
seu texto, Dias Lopes lembra que pediu ao fotógrafo que
o acompanhava, Gladstone Campos, que documentasse o encontro
com o cardeal. Uma das fotos que Gladstone fez ilustra o artigo.
Mas o jornal a creditou a "Eduardo Nicolau/AE".
A
Turquia distante
Fecha
parêntese. Os três jornais deram, cada qual a seu
modo, as informações essenciais sobre o pensamento
de Ratzinger. A Folha e o Estado, especialmente, deram ao todo,
com destaque, 33 aspas do cardeal. Elas justificam a matéria
da Folha "Conservadorismo nunca foi dissimulado".
Permitem
saber que ele acha que o mundo muçulmano não está
totalmente errado quando censura o Ocidente pela decadência
moral; que o homossexualismo é, "mais ou menos",
uma maldade moral intrínseca; que o uso da camisinha
para prevenir a Aids seria um caminho "não suficientemente
comprovado no aspecto técnico"; que a clonagem é
uma ameaça mais perigosa que as armas de destruição
em massa; que as outras igrejas cristãs não devem
se considerar irmãs da Igreja Católica porque
esta é a mãe de todas; que os shows de rock se
opõem ao culto cristão.
Mas
nenhuma dessas citações soltas e íntegras
de textos de Ratzinger têm importância política
comparável, agora que é papa, ao seu "veto"
ao ingresso da Turquia na União Européia, para
ele "um erro enorme" e "uma decisão contra
a história". Os turcos, sugeriu, melhor fariam se
se alinhassem a outras nações muçulmanas
(declarações de 2004).
O
pano de fundo disso é a concepção da Igreja
de que a Europa é filha do cristianismo, daí a
famosa "civilização ocidental e cristã",
cujas origens remontam a Carlos Magno, coroado pelo papa Leão
III imperador da Europa, no ano 800, a que se seguiu o Sacro
Império Romano Germânico. Se dependesse dos partidos
democrata-cristãos, a Constituição da União
Européia consagraria o seu caráter cristão.
A
questão está mencionada, pelo menos uma vez, nos
cadernos papais da grande imprensa brasileira, mas, aparentemente,
nem a Folha, nem o Globo, nem o Estado acharam que ela merecia
mais do que teve. Já o NYT dedicou-lhe todo o segundo
e robusto parágrafo do seu editorial sobre Bento 16.
Quando
poucas coisas são mais importantes do que reconciliar
o mundo islâmico com o Ocidente não-islâmico,
"seria extremamente perturbador se o papa se tornasse uma
cunha desnecessária", observou o Times. "Seria
também um distanciamento da herança de João
Paulo II – o qual, com todo o seu conservantismo doutrinário,
era conhecido por estender a mão aos povos de outras
crenças."
À
primeira vista, o leitor brasileiro está a anos-luz do
problema da entrada da Turquia na União Européia.
Mas uma das funções da imprensa em países
como o Brasil é encurtar, pela informação
e a análise, as distâncias entre o seu público
e o mundo exterior. E nada melhor do que um acontecimento do
porte da sagração de um novo papa para pôr
no radar do noticiário assuntos tidos como remotos.
Afirmação
contestada
O
que remete ao nazismo na biografia do papa – filho de
um policial do reduto nazista da Bavária que tinha a
peculiaridade de não gostar de Hitler.
O
Estado tratou do assunto em dois parágrafos no perfil
achatado pelo megatítulo que já se comentou. No
rodapé cronológico, deu a conhecida foto do recruta
Ratzinger, em 1943, mas omitiu o ano de 1941 de sua falada filiação
à Juventude Hitlerista. A omissão se repete na
cronologia da Folha.
No
Globo, a "polêmica" mereceu matéria à
parte. Nela se lê, como em toda parte, que, sob o nazismo,
todo alemão ao completar 14 anos tinha de se inscrever
na Hitlerjugend, onde se ensinava aos rapazes o culto ao Fürher
e o credo monstruoso do regime. O texto acrescenta, porém,
que segundo John Allen Jr., o biógrafo de Ratzinger,
ele jamais participou de uma reunião do movimento. Faria
diferença se ele tivesse participado?
Já
a Folha, na matéria "Na Alemanha, de soldado a teólogo",
informa que ele "foi dispensado do movimento por causa
de sua intenção de se tornar padre". De fato,
em 1939, aos 12 anos, Joseph tinha entrado para um seminário.
[Nas edições dessa quarta-feira, nenhum jornal
explicou direito o que o fez querer ser padre. No sábado,
o Estado publicou um resumo da matéria do NYT segundo
a qual tudo começou com o deslumbramento do menino Joseph,
de 5 anos, com os trajes principescos de um cardeal que visitava
a sua aldeia.]
A
Folha lembra que "Ratzinger disse em entrevistas subseqüentes
que, embora fosse contrário ao nazismo, ele não
pôde opor-se ao regime abertamente – uma afirmação
contestada por alguns especialistas em Segunda Guerra Mundial".
Está-se
em terreno pantanoso. No dia da eleição, o jornal
israelense Haaretz ouviu de entrevistados que não passaria
pela cabeça de um judeu que Ratzinger tivesse simpatizado
com o nazismo ou sido anti-semita. Mas os mesmos entrevistados
contrastavam a militância antinazista do polonês
Karol Wojtyla com o fato de seu sucessor ter servido o exército
alemão [do qual desertou pouco antes do fim da guerra,
correndo o risco de ser fuzilado sumariamente].
Rígida
ortodoxia
O
especialista em religão do Guardian, Stephen Bates, diz
no artigo transcrito pelo Estado não ser estritamente
verdadeira a alegação de Ratzinger de que não
poderia ter evitado o serviço militar naquelas circunstâncias.
"Outros o fizeram", pondera Bates, "e talvez
ele pudesse ter invocado a sua condição de seminarista"
para ser dispensado.
Talvez.
Para julgar o comportamento alheio em situações-limite,
só passando por elas – o que os jornalistas às
vezes parecem ser os primeiros a esquecer. Têm razão,
por isso, os alemães furiosos com a "nazificação"
de Ratzinger na imprensa inglesa, citados pela correspondente
do Globo em Berlim, Graça Magalhães-Ruether.
Uma
coisa, porém, se podia dizer – não propriamente
sobre o que o papa fez ou deixou de fazer, debaixo da mais feroz
das tiranias, mas sobre como a teologia de Ratzinger julgaria
o seminarista Ratzinger.
E
quem o disse não foi nenhum jornal brasileiro, mas o
Independent de Londres: "A rígida ortodoxia católica
que ele defende ensina que não existe justificativa para
a ausência de culpa por cometer um pecado, mesmo que seja
o da omissão".
Eis
um juízo sobre o papa de 78 anos que recusa a pecha de
"inquisidor". Outros juízos, mais benignos,
têm saído na imprensa brasileira. Por isso, se
é verdade que, apesar do muito-que-já-se-sabia
sobre Ratzinger, "ainda não sabemos o que habemus",
na expressão magistral de Verissimo, domingo no Globo,
durante longo tempo ainda a imprensa terá o que garimpar
e avaliar a respeito de Benedictus XVI. Melhor que o faça
a frio.
[Texto
fechado às 17h59 de 25/4]
BENTO 16, CARDEAL RATZINGER
Quando a massa de matérias não evita erros de
avaliação
Informação:
Observatório
da Imprensa - 26/04/2005
Alberto
Dines
A
cobertura por saturação cansa o leitor e confunde
o editor. Pouco adiantaram as toneladas de matérias publicadas
depois da morte de João Paulo II até o início
do processo de escolha do seu sucessor.
Ao
acreditar que a quantidade de informações é
garantia de que não haverá surpresas, o editor
se distrai: não avalia os textos, não percebe
sutilezas e "manda ver", isto é, fecha a página
no tapa. Resultado: deixa escapar ou não valoriza a informação
menos retumbante e, às vezes, a mais importante.
Foi
o que aconteceu com a homilia do cardeal Ratzinger na abertura
do conclave, na missa "Pro Eligendo Papa" (segunda-feira,
18/4, publicada nos jornais do dia seguinte). Como já
foi ressaltado neste Observatório, a homilia foi a peça-chave
para a eleição de Ratzinger. Não pediu
votos, proclamou a necessidade de uma Igreja coesa em torno
da sua doutrina. O cardeal alemão foi eleito 24 horas
depois num dos pleitos mais rápidos da história
moderna do Vaticano.
Falsa
dicotomia
Nossos
três jornalões escorregaram: dois puxaram o teor
da fala de Ratzinger para a primeira página (menos a
Folha de S.Paulo), porém nenhum deles deu o texto na
integra, apenas trechos. E graças a uma leitura apressada
sapecaram nas edições do dia seguinte a tese de
que o papa Bento 16 será um papa conservador.
Apesar
do tropeço na edição de terça (19/4),
a Folha assumiu a falha e reagiu corretamente na edição
seguinte: publicou a homilia na integra. Converteu-se em referência,
pois com este texto pode-se entender o que se passou na capela
Sistina.
As
manifestações de Ratzinger nos dias seguintes
à sua escolha desvendaram o erro de avaliação
da mídia internacional, inclusive da brasileira: justamente
porque apresentou-se como um "conservador" o novo
pontífice será capaz de promover avanços.
Faltou
treino, faltou perspicácia para avaliar que a cobertura
de um parlamento cardinalício não segue os mesmos
parâmetros da cobertura dos parlamentos temporais.
Nossos jornais preocuparam-se demais com as frustrações
de Leonardo Boff e de menos com as realidades do Vaticano.
Nenhuma
religião escolhe o caminho da divisão ou da dissidência.
Foi exatamente isso que Ratzinger proclamou horas antes de converter-se
em Bento 16. Distraídos pelos rankings dos favoritos
e amarrados à falsa dicotomia ideológica (conservadores
vs. progressistas), os editores de plantão não
souberam valorizar aquela prédica que seria fundamental,
horas depois, na escolha do novo papa.
Moral
da história: jornalismo de saturação é
enganador para quem faz e para quem lê jornal.
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