| Informação:
Observatório
da Imprensa - 29/03/2005
Mário
Augusto Jakobskind
Versão
em português de artigo publicado no semanário
uruguaio Brecha (http://www.brecha.com.uy),
edição nº 1008, de 18 a 25/3/2005
A
TV Globo, das Organizações Roberto Marinho, a
emissora de maior audiência no Brasil, é considerada
por vários setores de esquerda como um verdadeiro partido
político. Dona Lily Marinho, a viúva do patriarca
do grupo, recentemente falecido, deixou claro em um livro que
o seu marido elegeu Collor (ex-presidente Fernando Collor de
Mello) e posteriormente o retirou da Presidência, o que
não está longe da verdade.
A
TV Globo, de fato, em 1989, na primeira eleição
direta para a Presidência da República, teve participação
intensa na campanha. Roberto Marinho, o empresário proprietário
do império de comunicação, apostou em Fernando
Collor de Mello, por entender que naquele momento o ex-governador
do Estado nordestino de Alagoas seria alternativa às
candidaturas do governador do Estado do Rio de Janeiro, Leonel
Brizola, ou de Luiz Inácio Lula da Silva, que apareciam
muito bem cotados nas pesquisas de opinião pública.
Na concepção de Roberto Marinho, a eleição
de Brizola ou Lula poderia criar problemas para o seu grupo
e outros setores empresariais.
Collor
acabou disputando o segundo turno com Lula e ganhou um empurrão
da TV Globo, principalmente na edição do Jornal
Nacional, com uma audiência de cerca de 60 milhões
de telespectadores, sobre o último debate entre os dois
candidatos finalistas.
Hoje,
ao mais puro estilo stalinista e de historiadores vinculados
a regimes ditatoriais de direita, a própria TV Globo
lança livros de retrospectivas sobre décadas de
atuação do telejornalismo, simplesmente omitindo
fatos que possam comprometer a imagem do grupo, assinalando
a correção dos seus noticiários.
A
intromissão grosseira da TV Globo em assuntos da política
brasileira não se resume à campanha eleitoral
de 1989. Bem antes disso, em pleno período ditatorial,
a emissora se fazia presente no cenário político
nacional.
Para
se ter uma idéia, o empresário Roberto Marinho
sempre gozou de privilégios governamentais, mesmo antes
do início das transmissões da TV Globo. Até
mesmo nos curtos espaços em que o seu jornal, O Globo,
não estava alinhado com o governo, como aconteceu no
início da década de 1950, no segundo período
do presidente Getúlio Vargas (1951-54), o grupo Marinho
recebia polpudas verbas publicitárias do Estado brasileiro.
O
Globo, considerado até hoje um dos maiores jornais do
país, fazia então dura oposição
a Vargas, principalmente devido às posições
nacionalistas e antiimperialistas assumidas pelo presidente
que se suicidou, em 24 de agosto de 1954, quando estava praticamente
deposto pelos militares depois de uma grave crise política.
O Globo e outros jornais conservadores recebiam as mesmas verbas
de publicidade do governo que as destinadas a jornais como a
Última Hora, que apoiavam a política de Vargas.
Dez
anos depois, o grupo colocava todo o seu poderio midiático,
no caso rádios e jornais, em favor dos conspiradores,
civis e militares, que acabaram derrubando o Presidente constitucional
João Goulart, ingressando o Brasil em um período
de trevas que durou 21 anos.
Time-Life
Os
poucos políticos que até hoje questionam o poderio
praticamente ilimitado das Organizações Globo
costumam afirmar que o grupo "engordou nas estufas da ditadura",
ou seja, que o atual poder da família Marinho se deve
em grande medida aos favores conseguidos na época da
ditadura.
A
TV Globo, por sinal, nasce de uma forma ilegal, através
de um acordo com o grupo estadunidense Time-Life. A legislação
brasileira, mesmo na época da ditadura, não permitia
a associação de empresas nacionais do setor de
comunicação com grupos estrangeiros.
Roberto
Marinho passou por cima desse obstáculo. A associação
Globo/Time-Life chegou a ser objeto de uma Comissão Parlamentar
de Inquérito (CPI), em 1966. O relator dessa Comissão,
o então deputado Roberto Saturnino Braga, apontou as
irregularidades, inclusive a entrada ilegal no país de
caros equipamentos, mas tudo ficou por isso mesmo – ou
como diz o dito popular "a CPI (do acordo Globo/Time-Life)
acabou em pizza".
Saturnino
Braga amargou mais de 30 anos de ostracismo na TV Globo. Ele
tornou-se uma das personalidades brasileiras impedidas de aparecer
na tela da TV Globo, mesmo tendo sido nesse período senador
pelo estado do Rio e prefeito do município do Rio de
Janeiro na década de 1980. Só recentemente, o
atual senador pelo Partido dos Trabalhadores (PT) voltou a aparecer
na tela da Globo. Há quem diga que essa trégua
aconteceu porque o atual partido do senador, o mesmo de Lula,
tem um acordo operacional com a empresa, em troca de maiores
espaços nos telejornais da emissora e apoio político.
Como
retribuição aos favores também concedidos
pelos governos militares durante 21 anos, as Organizações
Globo deram integral apoio ao regime ditatorial, inclusive através
de noticiários que enalteciam os generais de plantão
ou mesmo justificavam a repressão que se abateu sobre
o povo brasileiro.
Falsificação
de documentos
É
neste período que acontece um fato grave, que está
para ser julgado nas próximas semanas: a compra irregular
da TV Paulista, que veio a se tornar a TV Globo de São
Paulo, o atual carro-chefe financeiro da emissora. O fato só
foi divulgado por um único jornal diário do Rio
de Janeiro, a Tribuna da Imprensa, e pelo semanário
Brasil de Fato. Os demais veículos silenciaram
totalmente.
A
história é a seguinte: a juíza Maria Helena
Pinto Machado Martins, da 42ª Vara Cível, será
responsável pelo julgamento do processo que os herdeiros
da família Ortiz Monteiro movem contra o espólio
de Roberto Marinho e a TV Globo Ltda, com objetivo de retomar
o controle da antiga TV Paulista (hoje, TV Globo São
Paulo), responsável por mais de 50% do faturamento da
rede.
Os
autores da ação alegam que Roberto Marinho assumiu
o controle da emissora utilizando documentos falsificados, segundo
laudo pericial emitido pelo Instituto Del Picchia de Documentoscopia.
Assim, se a juíza reconhecer a inexistência do
ato jurídico (a suposta venda das ações
majoritárias da TV Paulista a Roberto Marinho), a propriedade
da emissora terá de ser devolvida à família
Ortiz Monteiro.
O
processo contra o espólio de Roberto Marinho é
acompanhado com atenção especial em função
não somente de seu ineditismo, mas também pelo
poderio econômico das partes envolvidas. Também
desperta atenção no meio forense o procedimento
dos advogados da família Marinho e da TV Globo Ltda.,
que têm tentado inviabilizar a tramitação
do processo.
Para
impedir o prosseguimento da ação, eles chegaram
a fixar o valor da causa em aproximadamente 100 milhões
de reaos (cerca de 38 milhões de dólares), buscando
desestimular os autores da ação, diante dos riscos
da chamada sucumbência (em caso de derrota, eles teriam
de pagar algo como 10 milhões de reais, ou 3,8 milhões
de dólares, aos advogados da TV Globo Ltda. e do espólio
e Marinho).
Na
disputa sobre o valor da causa, os irmãos Marinho (Roberto
Irineu, João Roberto e José Roberto) foram derrotados
em primeira e segunda instâncias, com o Tribunal de Justiça
do Estado do Rio de Janeiro reconhecendo que deveria ser tomado
como padrão o valor do contrato da época da suposta
negociação, e não o valor atualizado da
TV Globo de São Paulo. Derrotados nessa disputa, os advogados
da família Marinho sequer tentaram recorrer ao Superior
Tribunal de Justiça.
Acusações
pesadas
Segundo
o laudo pericial do Instituto Del Picchia de Documentoscopia,
todos os documentos usados por Roberto Marinho para assumir
o controle da emissora, que foram anexados ao processo pelos
próprios advogados do espólio e da TV Globo, são
espúrios, com datas fictícias e conteúdo
contraditório, tendo sido grosseiramente falsificados.
Diante
dessa constatação do Instituto Del Picchia, os
autores da ação denunciaram formalmente a falsidade
dos documentos, e a técnica documentoscopista Denise
Gonçalves Rivera foi então nomeada para atuar
como perita judicial no processo.
Em
seu laudo, a especialista Denise Rivera também reconheceu
que os documentos (recibos, procurações e substabelecimentos)
eram falsos, pois apesar de ostentarem datas de 1953 e 1964,
todos foram produzidos em 1975, em uma mesma máquina
de datilografia. A perita afiançou que outros recibos,
datados de 5 de dezembro de 1964, também teriam sido
datilografados depois de 1971, visto que a máquina usada
só foi lançada no Brasil naquele ano.
Também
o laudo do documentoscopista Celso Del Picchia mostra que houve
uma farsa, montada com os documentos reprográficos (cópias
xerox, sem originais), que foram anexados ao processo pela família
Marinho para tentar justificar a ilegal transferência
do controle acionário da emissora de São Paulo.
Como
jamais poderá ser aceita judicialmente a alegação
de que Roberto Marinho comprara a Rádio Televisão
Paulista S.A. usando os documentos já declarados falsos,
os advogados do espólio do jornalista e da TV Globo decidiram
mudar a versão. Passaram a sustentar que, de fato, Roberto
Marinho não fizera negócio com os irmãos
Ortiz Monteiro, que eram os controladores da TV Paulista.
Nessa
nova versão, os advogados dos irmãos Marinho começaram
a afirmar em juízo que as ações da TV Paulista
foram adquiridas do executivo Victor Costa Petraglia Geraldine
Júnior, que as teria herdado de seu pai, Victor Costa,
que, por sua vez, as teria adquirido em 1955 da família
Ortiz Monteiro.
É
claro que os herdeiros de Roberto Marinho ainda esperam conseguir
se livrar dessas pesadas acusações – que
de alguma forma confirmam o poder das Organizações
Globo e ainda a possibilidade da continuação da
impunidade, caso venha a ser absolvida na Justiça.
Tentativa
de fraude eleitoral
A
TV Globo viu-se envolvida em outro fato político grave
ao tentar, em 1982, evitar, de todas as formas, a eleição
de um inimigo histórico do grupo para o governo do Estado
do Rio de Janeiro.
Leonel
Brizola era candidato a governador e vencia a disputa. Só
que através de um sistema eletrônico diferenciado,
a TV Globo apresentava os resultados da apuração
dando mais peso ao voto do interior e tentando anular a diferença
que se apresentava no maior colégio eleitoral, o município
do Rio de Janeiro, em favor de Brizola.
Alertado
por seus assessores, Brizola conseguiu abortar a manobra, que
visava dar a vitória ao candidato do regime militar.
Brizola conseguiu se eleger e tomar posse, mas contou com uma
violenta oposição da TV Globo durante os quatro
anos de seu mandato – o que, no entanto, não impediu
que se reelegesse em 1990.
Na
ocasião, a campanha contra o seu governo se acirrou de
tal forma, sobretudo na questão da violência urbana,
que Brizola, mesmo depois de morto, é considerado pelo
senso comum até hoje como o principal responsável
pela onda de violência que assola o Rio.
Depois
dessa guerra, ou linchamento, Brizola nunca mais conseguiu se
eleger para cargo nenhum e só foi "recuperado"
pela TV Globo depois de ter comparecido ao velório do
arquiinimigo Roberto Marinho. A TV Globo, hipocritamente, esquecendo-se
inclusive das desavenças do passado, transformou Brizola,
após a sua morte, em um verdadeiro santo ou um político
sem defeitos. Foi o enterro definitivo de Brizola.
Na
verdade, escrever sobre todo o poder das Organizações
Globo no Brasil se torna, mais do que um artigo ou reportagem,
uma tarefa para a elaboração de um livro ou uma
tese acadêmica.
Mesmo
agora, em que o Grupo Globo atravessa período de dificuldades
financeiras resultantes da desastrosa experiência na área
de TV a cabo, por ter o grupo dado integral apoio à política
econômica neoliberal do então presidente Fernando
Henrique Cardoso e se endividado devido à então
equiparação do dólar com a moeda brasileira,
o real, o poder político da TV Globo continua forte.
A emissora tem dado respaldo ao governo Lula, principalmente
em função da política econômica,
que aprofunda o modelo neoliberal de FHC.
Ainda
na área da TV a cabo, a TV Globo conseguiu dobrar a resistência
de setores políticos que sempre estiveram em desacordo
com o ingresso do capital estrangeiro na mídia. A própria
Globo durante um tempo não apoiou essa estratégia,
só mudando de posição em função
da débâcle provocada pela TV a cabo. Para não
sucumbir, a Globopar teve de correr atrás de um parceiro
forâneo e se associou a Rupert Murdoch, do grupo Fox,
entusiasta do governo de George W. Bush.
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