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Informação:
Comunique-se
- 29/10/2004
Pedro
J. Bondaczuk (*)
A forma de se fazer jornal, hoje em dia – seja qual for
a sua periodicidade (sobretudo quando diária) –
tem recebido muitas críticas, quer de leigos, quer de
profissionais da área ainda em atividade, quer dos que
já se retiraram do jornalismo. Critica-se, por exemplo,
o número pequeno (no entender desses críticos)
de reportagens de fôlego, sobretudo as investigativas,
além da linguagem adotada e da forma de edição.
Outra
restrição que ouço muita gente fazer amiúde
é quanto ao conteúdo. Essas pessoas afirmam (com
uma convicção que sequer sei se de fato têm)
que os editores priorizam o visual, as imagens, a apresentação
gráfica (como se esses fatores não fossem importantes),
em detrimento da extensão e da profundidade das matérias.
Bobagens, evidentemente. Há jornais e Jornais (com jota
maiúsculo) e jornalistas e Jornalistas. Não se
pode generalizar.
Como
profissional do meio (e felizmente ainda na ativa, a despeito
de décadas de jornalismo), todavia, empenhado, há
mais de quarenta anos, em edição de jornal –
quer os grandes diários, quer informativos de bairros,
escolas, sindicatos etc. – de periodicidade semanal, ou
quinzenal, ou mensal, ou até mais extensa, respeitosamente
discordo desses críticos afoitos, ou desmemoriados, ou,
no mínimo, apressados. Não creio, porém,
que sejam mal-intencionados, pelo menos a maioria.
Não
raro topo com saudosistas, que asseguram que o jornalismo de
cem, cinqüenta ou trinta anos atrás era muito melhor
do que o de hoje. Só não dizem no que se baseiam
para afirmar isso com tanta convicção. Não
apresentam uma única prova que sustente suas afirmações.
Resolvi,
em um raro fim de semana de pauta vazia, conferir, para saber
até que ponto as críticas em questão têm
ou não procedência. Consultei, por exemplo, minha
coleção de recortes de jornais, que abrange um
período de 74 anos (bastante anterior ao meu nascimento,
portanto), com olhar crítico e isento de preconceito.
Não
contente, freqüentei bibliotecas e, pacientemente, dei
uma passada de olhos nas coleções encadernadas
de três dos mais importantes diários do Estado:
dois da Capital, de circulação nacional, e um
do Interior, da minha cidade, que já conquistou três
Prêmios Esso pela sua qualidade (um dos quais, para meu
orgulho, com a minha participação, integrando
a equipe vencedora). E fiquei mais convicto do que nunca de
que o jornalismo que se pratica hoje em dia, se não é
perfeito (a perfeição é inacessível
a nós, humanos), está muito longe de ser medíocre,
como é acusado.
Claro
que para demonstrar isso, um simples e despretensioso artigo,
como este, não seria suficiente. Prometo voltar, oportunamente,
ao assunto. Em termos visuais, nem se discute. Os jornais de
passado ainda recente perdem, e muito, para os atuais. Claro
que hoje dispomos de recursos com os quais os editores de antigamente
sequer sonhavam. O computador, o celular, a fotografia digital
e outras tantas engenhocas de alta tecnologia, vieram facilitar
não somente o nosso trabalho, mas dar qualidade e beleza
ao produto jornal.
“Então
o jornalismo de hoje é perfeito e não tem no que
melhorar?”, deve estar se perguntando o céptico
leitor, em tom de ironia, achando que endoidei, tendo à
frente dados estatísticos comprovando abrupta queda de
vendas dos principais diários do País. Outros
tantos apontam erros e mais erros de grafia, de gramática,
de estilo e até de conceito em “n” jornais,
como se os informativos do passado não os tivessem, e
em quantidade muito maior.
Ouço
e leio todos os dias que “o jornalismo está em
crise”. Qual a instituição que não
está? A política? A economia? O Judiciário?
Qual delas? Ademais, é preciso definir, com exatidão,
o que se entende por “crise”.
Prefiro
o conceito chinês. Na língua desse povo, de cultura
milenar, essa palavra é escrita com a utilização
de dois ideogramas. Um, significa “perigo” (o significado
que nós, ocidentais, geralmente adotamos como sendo o
único). Mas o outro quer dizer “oportunidade”.
Esta é que deve ser aproveitada, para uma positiva, e
construtiva, virada de mesa. Não tenho sequer a pretensão
de ser original ao mencionar isso. E de fato não sou.
O ex-presidente norte-americano John Kennedy citou essa formação
da palavra em chinês, em memorável discurso feito
em setembro de 1961, a propósito da questão dos
mísseis soviéticos em Cuba. Crises, portanto,
houve, há e sempre haverá na vida das pessoas
e dos povos. Mas elas têm que ser aproveitadas para promover
a contínua evolução de indivíduos,
grupos, instituições e países e jamais
para justificar desânimo, inação ou incompetência.
Claro
que o jornalismo, hoje, não é a maravilha das
maravilhas, mas nunca o foi. E sequer me refiro à parte
burocrática das empresas jornalísticas, muitas
administradas de maneira extremamente incompetente (daí
diários tradicionais estarem fechando as portas ou em
vias de chegar a esse extremo) e muito menos a determinados
“responsáveis” por redações,
nem sempre preparados para a incumbência de definir qual
será a política, a linha de ação,
a filosofia, o conteúdo do seu jornal.
Idiotas,
travestidos de chefetes, temos em todas as profissões
e atividades. Creio que sempre os tivemos. Não é,
e nunca foi, pois, prerrogativa do jornalismo e sequer do que
se pratica hoje. Os jornais que aí estão satisfazem
plenamente as expectativas dos seus leitores? Claro que não!
Mas os do passado também não satisfizeram, daí
muitos não existirem mais. Eles podem ser melhores, em
todos os aspectos, principalmente nos éticos e conceituais
e não somente os estéticos? Claro que sim! E,
principalmente, devem! Acredito, piamente, que o serão.
Caso não cresse, há muito já teria me afastado
da atividade que, ademais (salvo raras e honrosas exceções)
sequer é a que melhor remunera. Pelo contrário!
Mas
esta evolução constante tem que ser um objetivo
a ser buscado de forma permanente e incansável por nós,
profissionais da área. Afinal, temos na atividade muito
mais do que mero ganha pão. Reitero o que afirmei, no
primeiro artigo que divulguei aqui no Comunique-se, há
dois anos (afirmação muito contestada na ocasião):
“jornalismo é, sobretudo, paixão”...aliada,
sem dúvida, à razão!!!! E estamos conversados.
(*)
Jornalista e escritor
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