Informação:
Observatório
da Imprensa - 28/09/2004
Nelson
Hoineff
A criação de um
ombudsman para a TV atende a uma demanda historicamente produzida
por várias organizações (como a ONG TVer,
por exemplo). O que está sendo criado no Brasil, entretanto,
não é um ombudsman para a TV, mas para a TV Cultura,
de São Paulo. Nesse aspecto, não vai alterar em
nada os rumos da televisão brasileira.
Osvaldo Martins, o novo ombudsman,
admite que, já que não existem outros, falará
também sobre as demais emissoras. Na prática,
qualquer um pode fazer isso. Trata-se de exercer o direito de
crítica, ainda que o próprio ombudsman da Cultura
reconheça que não é crítico de TV.
No que tange à emissora em que atua, no entanto, a condição
de ombudsman lhe dá prerrogativas especiais. A mais importante
não está na sua própria crítica
à emissora, mas na sua interlocução com
o telespectador.
O telespectador brasileiro não
tem tradição de dialogar com as emissoras a que
assiste, muito menos de ser crítico em relação
a elas. As várias campanhas que vez por outra são
lançadas com o objetivo de levar o espectador a pensar
sobre a qualidade do que está vendo tendem a ficar no
meio do caminho. A resposta do público à campanha
"Quem financia a baixaria é contra a cidadania",
por exemplo, foi decepcionante. O espectador acredita firmemente
que sua parte no diálogo consiste em escrever cartas
de amor às atrizes das telenovelas.
A TV no Brasil, salvo as exceções
de praxe, trata seu público como autêntico débil
mental. Infringe a legislação até mesmo
ao debochar dos débeis mentais. Na maior parte dos casos,
ficar algum tempo diante do aparelho de TV é assinar
um atestado de insanidade.
Não deveria ser assim.
Se assim é, é porque a televisão brasileira
goza de uma impunidade tácita em relação
aos crimes que comete contra a sociedade. O mal não está
no veículo, mas na forma como a sociedade brasileira
permitiu até agora que ele fosse administrado. O Estado
dá às emissoras uma concessão para explorar
serviços de radiodifusão. Não lhes dá,
no entanto, a licença para ter o monopólio da
produção, muito menos para entorpecer e mediocrizar
milhões de brasileiros sem lhes conceder o direito de
defesa. A isso chama-se terrorismo.
Piores
e menores
Não há como sustentar
os privilégios que a televisão deva ter em relação
a qualquer outra indústria. Ao autorizar o funcionamento
de uma fábrica de queijos, o Estado não determina
ao fabricante o tipo de queijo que ele deva produzir. Mas vigia
a produção, da extração do leite
à estocagem no supermercado, para que não se corra
o risco de deixar o queijo envenenar o seu consumidor.
A televisão, em contraste,
é livre para envenenar quem ela quiser. E qualquer tentativa
de salvaguardar os direitos do consumidor é logo interpretada
como uma trama maquiavélica para controlar o que se vai
produzir.
Se existe alguma trama, porém,
ela não está sendo patrocinada pelo Estado, mas
pelas conveniências corporativas das emissoras, sobretudo
as de segunda linha. A má qualidade da televisão
brasileira não decorre apenas da guerra pela audiência.
Não por acaso, as piores emissoras costumam ser as que
desfrutam de menor audiência. Das seis principais redes
de televisão comerciais do país, metade opera
com audiência média inferior a 2%. É difícil
entender como conseguem permanecer no mercado. Mas a dificuldade
maior está em compreender por que são tão
refratárias às mudanças.
Relação
capenga
Medições quantitativas
de audiência não avaliam o que os espectadores
gostariam de ver. Simplesmente registram suas opções
entre um cardápio limitadíssimo que lhes é
oferecido em cada horário.
Ombudsmans podem ser úteis
para estabelecer com esse público um diálogo saudável.
A iniciativa no Brasil começa com uma TV pública
que tem um histórico de responsabilidade sobre o que
está exibindo. Não poderia ser de outra forma.
A Globo e a TVE possivelmente farão o mesmo. É
difícil, no entanto, imaginar ombudsmans nas emissoras
comerciais que mais violentam os direitos básicos do
cidadão.
Não tem sido muito diferente
com os jornais. Os mais responsáveis são os que
tendem a ouvir mais os seus leitores. O maior perigo é
de se estabelecer uma relação capenga, por meio
da qual as emissoras mais sérias ouçam mais os
seus espectadores – e as que mais fortemente agridem o
público mantenham-se surdas à sua voz.
Os
ombudsmans da TV estarão, então, aperfeiçoando
o que de menos imperfeito existe na televisão brasileira.
E ampliando o abismo entre o meramente imperfeito e o simplesmente
intolerável.
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