Informação:
Observatório
da Imprensa - 21/09/2004
Alberto
Dines
Com
o desfecho inevitável, pode-se desde já adiantar
que o Conselho Federal de Jornalismo prestou um formidável
serviço à imprensa. Mesmo condenado à morte
na gaveta, o projeto e seus mentores acionaram involuntariamente
o mais importante debate sobre a imprensa das últimas
décadas. A democracia brasileira, penhorada, agradece.
O
lento e inexorável engavetamento, ao contrário
do que possa parecer, é extremamente eficaz. Quanto mais
tempo o fantasma do CFJ perambular pelos corredores do Legislativo,
mais forte será a convicção de que a poção
mágica para curar os males da nossa mídia não
passa pela criação de uma autarquia síndico-governista
no velho estilo pelego.
Em
matéria de democracia não existem poções
mágicas, varinhas de condão ou medidas sumárias.
Valem apenas os tratamentos continuados, persistentes. Sobretudo
convergentes. Em vez de corrigir grandes
e pequenas mazelas, o CFJ criará da noite para o dia
um enorme e irreparável pântano no qual afundará
não apenas a mídia e os mediadores mas também
a República, órfã de uma mediação
autônoma.
São
incontáveis os efeitos salutares da Celeuma CFJ; alguns
levarão tempo para aparecer, outros manifestaram-se imediatamente.
O mais visível: a primeira expressão pública
contra o projeto não partiu das empresas de jornalismo,
mas dos jornalistas. Basta compulsar a reação
dos jornais no fim de semana 7-8 de agosto.
Quem
botou a boca no trombone foram os jornalistas independentes
– os editoriais dos jornais vieram depois. E como independência
entenda-se um espectro ideológico que se estende da centro-direita,
passa pela centro-esquerda e alcança a esquerda tradicional.
Este
é um dado que não pode ser desprezado: a mídia
brasileira conta com um invejável pelotão de profissionais
maduros, competentes nas suas especialidades, capazes de engalfinhar-se
em questões partidárias ou até pessoais
mas aptos a articular-se numa renhida resistência a qualquer
tentativa de reviver o autoritarismo.
Formados
nos Anos Dourados, vítimas da ditadura, agora unem-se
através da consciência de que existem inúmeras
opções para o País do Futuro, e nenhuma
pode ser antidemocrática. A sedução totalitária
foi eliminada. Pode ser encontrada em bolsões e grotões
fundamentalistas mas não está na imprensa. E isto
por obra de jornalistas, os donos de jornais chegaram depois.
Já houve momentos em nossa história recente que
o processo foi inverso.
A
questão do trololó
O
que nos leva ao 5º Congresso da Associação
Nacional de Jornais (ANJ). Os 25 anos de fundação
da entidade e as justas menções gratulatórias
não podem servir para enterrar os episódios que
provocaram o seu nascimento. Foi um parto induzido. O vetor
que provocou a criação de uma entidade patronal
de jornalismo foi a greve proclamada pelos jornalistas profissionais
de São Paulo e logo apoiada pelos cariocas.
A
desastrosa parede – quem assim a classificou foi o próprio
presidente Lula ao lembrar-se do seu passado como líder
sindical – ocorreu em maio de 1979. A ANJ foi fundada
logo em seguida, em agosto daquele ano. Não deu para
disfarçar, foi uma clara reação em cadeia,
causa e efeito. Pá-pum.
Os
então-chamados "radicais" (hoje seriam xiitas)
queriam um confronto e descobriram, dias depois, que o confronto
serviu apenas para mostrar que é possível fazer
jornais sem jornalistas (quando a internet sequer existia).
A
doidice daqueles dirigentes sindicais – alguns deles posteriormente
premiados com sinecuras na ANJ – levou o patronato a vencer
rivalidades e antipatias para finalmente fundar uma entidade
corporativa capaz de reunir as maiores editoras de jornais e
revistas (a ANER, que reúne editoras de revistas, veio
depois).
Não
chega a ser desastroso, ao contrário, é indispensável
para a democracia que a sociedade conheça a opinião
dos empresários de jornal, de modo a compará-la
com a outra emitida direta ou indiretamente através das
suas páginas.
O
que a ANJ teve de danoso foi aquele conjunto monolítico
de decisões, tipo rolo compressor, que acabou por marcar
decisivamente a "abertura" política. Ao invés
de uma aposta na qualidade e nos valores jornalísticos
vigentes mesmo durante o regime militar, foi declarada uma "limpa"
nas redações.
O
"lixo da história" (para usar a expressão
de um dos jovens empresários que conseguiram montar a
ANJ) – isto é, os profissionais mais experientes
e justamente aqueles que resistiram à insana greve –
foram paulatinamente afastados. A democracia que se avizinhava
não precisava deles, acreditavam os barões. O
"rejuvenescimento das redações" veio
junto com o endeusamento ao marketing.
Um
quarto de século depois, aquela juventude dourada aí
está – encanecida, desiludida, desempregada ou
terceirizada, amargando a ressaca da bolha marqueteira da qual
foi instrumento e vítima.
Desapareceu
naquele momento o incipiente debate sobre a mídia iniciado
em meados dos anos 1970, e não apenas por determinação
dos generais, mas por capricho e conforto do patronato. Ou de
parte importante dele. A cortina de silêncio impediu que
se discutisse a greve ou a criação da ANJ. O endividamento
das grandes empresas, que começara pouco antes, passou
em brancas nuvens. E hoje, quando a ANJ comemora os seus 25
anos, ninguém estranha o Oitavo Mandamento do seu decálogo
de objetivos:
Construir
sinergias, integração entre as áreas
comercial, de circulação e editorial para
a conquista de novos anunciantes. |
É
este o sonho dos empresários de comunicação?
E quando no Décimo Mandamento determina-se que os jornais
devem "formar o leitor de amanhã", o modelo
é o Folhateen, o Globinho, Estadinho
e outros trololós infanto-juvenis? Da festa da ANJ só
apareceram as lantejoulas, a entidade mereceria uma discussão
em profundidade sobre o futuro da palavra escrita nas mãos
de gente que não tem o menor apreço pela palavra
escrita.
A
questão do ombudsman
É
por causa deste silêncio em torno do essencial que devemos
saudar a ruidosa Celeuma do CFJ. Graças à intensidade
de um debate que transbordou dos meios especializados e alcançou
a sociedade criou-se a noção de que os problemas
da nossa mídia jamais serão resolvidos por uma
autarquia policialesca, mas poderão, sim, ser equacionados
no momento em que a questão da concentração
dos meios de comunicação e da propriedade cruzada
começar a ser seriamente encarada pelo Congresso e pelo
governo federal (poder concedente de licenças para rádio
e TV).
Estamos
aprendendo a observar a imprensa, e isto coloca o Brasil na
vanguarda da democratização da mídia.
A
apresentação de Oswaldo Martins como ombudsman
da TV Cultura – numa série de anúncios para
a edição do Roda Viva, na segunda-feira
(20/9) – significou uma consolidação do
processo de retirar dos meios de comunicação o
status de tabu. Mídia e mediadores, jornais e jornalistas
finalmente sujeitam-se ao picadeiro crítico. Perderam
o privilégio de estar acima de qualquer suspeita. São
falíveis.
Ao
inaugurar com uma rede pública de TV o sistema de ouvidorias
televisivas, passaremos a descortinar a distância que
separa as redes comerciais das redes públicas. A
televisão, quem diria, vai aprender a ouvir e a falar.
E por intermédio de um ator, até agora desconhecido:
o telespectador. Sem censuras, controles, conselhos.
A
questão da representação
Todos
os debates são bem-vindos. Da aparentemente malograda
tentativa de controlar o exercício do jornalismo por
meio de uma corporação sindical reacendeu-se o
debate sobre a legitimidade da Federação Nacional
de Jornalistas para falar em nome dos profissionais de imprensa.
Levantaram-se questões fundamentais adormecidas pela
inércia ou sufocadas pela prepotência dos sindicaleiros
profissionais e que, no fundo, estão na origem dos equívocos
gerados pela idéia do CFJ.
A
mais importante dessas questões é o conflito decorrente
da existência, nos quadros dos sindicatos de jornalistas,
de duas categorias diferenciadas: a dos profissionais que trabalham
nos veículos jornalísticos e a dos profissionais
que trabalham em empresas não-jornalísticas. São
raros os países onde existe a perigosa concomitância
– o Brasil é um deles. Este é um ineditismo
não muito confortável e nada auspicioso.
Este
Observatório vem tratando da perigosa duplicidade
há anos, inclusive quando foi noticiada a audiência
concedida pelo presidente Lula à Fenaj para a apresentação
do projeto original do CFJ (mais tarde copidescado pela Casa
Civil).
Quem
deu a necessária dimensão à contradição
nuclear dentro da FENAJ foi o jornalista Eugênio Bucci,
presidente da Radiobrás, empresa pública de mídia,
ligada à Secretaria de Comunicação e Gestão
Estratégica da Presidência da República
na sua intervenção durante o Congresso da ANJ.
Eugênio
Bucci é favor do CFJ mas também a favor da separação
sindical. Esta é uma ressalva essencial e definitiva,
porque antes de entrar no mérito do projeto do CFJ ela
questiona a validade da entidade que o gerou e nele deixou marcas
indeléveis. Bucci tem sido enfático: impossível
conciliar num único código deontológico
os interesses de profissionais que trabalham em empresas jornalísticas
(públicas ou privadas) e os interesses de profissionais
que trabalham para empresas não-jornalísticas.
O
interesse público nem sempre coincide com os interesses
particulares de entidades comerciais, industriais ou prestadoras
de serviço. Mais do que isso: em situações-limite
(como esta criada pelo CFJ) esses interesses são claramente
antagônicos.
Um
sindicato ou uma federação de sindicatos de jornalistas
não pode dividir suas agendas. Não pode, sobretudo,
dividir sua fidelidade. Seus compromissos são com os
compromissos dos jornalistas. Por mais afinados que estejam
ou não com os projetos do governo, a Fenaj ou o Sindicato
dos Jornalistas do Distrito Federal não poderiam assistir
tão passivamente à exoneração da
jornalista Vera Rotta dos quadros da Secretaria de Comunicação
por ter manipulado declarações do ministro Gilberto
Gil.
A
redatora juntou dois pronunciamentos feitos em dias e contextos
diferentes, mas não inventou coisa alguma. E admitiu
o erro. Mas como uma das declarações do ministro
da Cultura foi forte demais – no tocante ao "fascismo
dos conglomerados de mídia" –, a grande imprensa
armou um bruto escarcéu e o governo, já escaldado,
preferiu colocar uma pedra sobre o assunto. Bode expiatório
clássico. Por isso, enterrado em silêncio.
Por
que não se discute o caso publicamente? Quantos são
os veículos privados que, em casos semelhantes de adulteração
de informações, admitem o erro e anunciam a punição
imposta aos responsáveis? Não é necessário
um Conselho de Jornalismo, regional ou federal, para discutir
o ocorrido. Um bom sindicato seria o suficiente.
Ou,
na sua ausência, a genuína disposição
de manter o olho aberto e o espírito atento. Observar
é a melhor forma de intervir.
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