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Informação:
Observatório
da Imprensa - 25/01/2005
Luciano
Martins Costa (*)
Quais
são as possibilidades reais de vermos nascer, num prazo
de dez a vinte anos, uma imprensa completamente nova, integralmente
montada sobre recursos digitais e absolutamente aberta à
participação pública? A resposta a essa
questão demanda uma análise do estado de vanguarda
da tecnologia digital embarcada na comunicação,
mas depende essencialmente de uma visão realista das
circunstâncias sociais, políticas e econômicas
que estiverem em vigor nos próximos anos.
Quanto
à tecnologia, é fácil afirmar que há
condições muito favoráveis ao rápido
desenvolvimento e consolidação de formas inovadoras
de seleção e distribuição de notícias,
tão acessíveis que poderão ser controladas
por grupos de pessoas sem necessidade de grandes capitais. A
maior parte desses recursos já está disponível,
a custo muito baixo, como resultado do amplo movimento pelo
software livre.
Esse
aspecto da questão está bem analisado no livro
A Catedral e o Bazar, de Eric Raymond, que conta a história
do Linux e o triunfo do software livre. A partir dessa obra,
se convencionou chamar de "catedral" o complexo de
grandes empresas que se construíram sobre o negócio
do software fechado, e se deu o nome de "bazar" ao
esforço de desenvolvimento do sistema operacional idealizado
por Linus Benedict Torvalds, que ousou enfrentar o Windows da
poderosa Microsoft e liderar uma comunidade de milhares de programadores
sem vínculo de negócio, comunicando-se apenas
pela internet e quase sempre sem remuneração financeira.
Direito
pouco nobre
O
caçula dessa rede de criadores é o browser Firefox
(www.mozilla.org/products/firefox/),
de distribuição gratuita, que cresce exponencialmente
e pode se tornar, em médio prazo, um novo desafio para
o Internet Explorer de Bill Gates.
Mas,
como em tudo na era da rede virtual, o aspecto tecnológico
não deve ser analisado de forma isolada. Assim como o
software livre é considerado a subversão do sistema
representado pelas grandes empresas, o que dele pode resultar,
como mídia, também representa o desordenamento
de um sistema fundado sobre a propriedade dos veículos
institucionais da opinião pública.
Por
trás dessa potencial ruptura há muito mais do
que tecnologia ou regulamentações. A rigor, o
que anuncia o bazar dos livres criadores de conhecimento tecnológico
é um ambiente em que também será livre
a propriedade dos canais de mão dupla por onde deverão
trafegar a informação e a opinião pública.
Isso equivale a dizer que, se esse processo representa uma tendência
de longo curso, estamos no limiar de uma espantosa ruptura no
significado de expressões como mídia, imprensa,
jornalismo e congêneres.
Isso
nos coloca no olho do outro furacão que se levanta no
horizonte, que podemos definir como as circunstâncias
sociais, políticas e econômicas que estarão
em vigor nos próximos anos. O soluço de conservadorismo
que tem sua origem no eleitorado norte-americano guarda com
nosso tema uma relação visceral: no centro desse
retrocesso está um governo que tem oferecido grande contribuição
ao desmanche da imprensa tradicional e, por conseguinte –
e natural necessidade humana – estimula a busca por mídias
alternativas.
À
medida em que o governo de George W. Bush demonstra seu desprezo
pela imprensa tradicional e independente à sua maneira,
estabelecendo com os grandes conglomerados da mídia uma
relação de cumplicidade mais do que suspeita,
com certeza se acelera o processo de demolição
de todo o sistema, e se fortalecem os fundamentos de uma mídia
inovadora, em tudo oposta ao que historicamente conhecemos como
imprensa.
Da
mesma forma que a monarquia, bem representada pela família
real britânica, se transfere progressivamente do noticiário
político e econômico para as seções
de entretenimento da mídia, o processo de desautorização
da mídia tradicional, por iniciativa do maior poder constituído
do planeta, pode estar mandando para o museu da História
o sistema de propriedade dos meios baseado num direito hereditário
que pouco tem de nobre.
Vícios
da imprensa
Convém
lembrar que não são apenas os falcões hospedados
na Casa Branca que concorrem para a desmoralização
da imprensa tradicional. Também as grandes empresas,
na medida em que se associam a proprietários da mídia
e usam seu poder para influenciar conteúdos jornalísticos,
contribuem para a aceleração desse processo.
Diriam
os discordantes que tudo isso embala uma rematada bobagem, uma
vez que o que temos presenciado, até aqui, é a
proliferação de blogs editados por jovens ignorantes
e mocinhas movidas a energia sexual, e que daí não
tem perigo de sair imprensa que seja tida como tal. Pode-se
lembrar, nesse caso, que a própria internet, em suas
origens, era abrigo de nerds e outros desconexos sociais, muitos
dos quais resistiam à simplificação dos
procedimentos que poderiam promover a democratização
das novas tecnologias.
Da
mesma forma, lembremo-nos de que os jornalistas mais maduros,
aqueles que, em teoria, estariam habilitados a colher e organizar
o conteúdo da nova mídia, são em geral
avessos à experimentação tecnológica.
Mas há uma geração de profissionais educados
no ambiente digital, que chegou a aprender o que é bom
jornalismo e também se sente confortável no trato
da tecnologia.
Por
último, mas longe da pretensão de esgotar o tema,
podemos ponderar que os excessos da mídia, ao promover
o culto da celebridade, contaminam o público e estabelecem
a hipermediação como condição de
relacionamento social. Interatividade intensa gera mais necessidade
de informação, que realimenta a interatividade,
a qual só pode ser saciada pelos meios digitais.
Assim,
os vícios da imprensa que existe ajudam a consolidar
a imprensa que virá a existir. O ponto de ruptura pode
estar mais próximo do que imaginamos.
(*)
Jornalista
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