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Informação:
Observatório
da Imprensa - 08/03/2005
Ricardo
A. Setti (*)
A
recente eleição do candidato-azarão à
presidência da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti
(PP-PE), mereceu do jornalista Marcos Sá Corrêa
um artigo no jornal O Estado de S. Paulo ("O baixo clero
está por cima", 16/2/2005) discutindo o conceito
de "baixo clero" há muito associado ao deputado.
Com o brilho e a clarividência de sempre, porém,
Sá Corrêa também dedicou um iluminador parágrafo
ao maciço espaço que a imprensa conferiu à
escolha do bizarro deputado, no qual aproveitou para recordar
a existência de "uma patente mundial do jornalismo
brasileiro": entre nós, a cobertura política
"supera em tamanho os acontecimentos que a povoam".
De
fato. A avassaladora, quase delirante cobertura da eleição
de Cavalcanti – manchetes espalhafatosas nas emissoras
de TV, incontáveis "entradas" nas rádios,
flashes ininterruptos nos sites noticiosos e, nos jornais, 6,
7, até 8 páginas de matérias – foi
muito maior, em volume e estridência, do que o espaço
dedicado ao maremoto de 26 de dezembro que matou 300 mil pessoas
em 13 países da Ásia. Será que era o caso?
O
episódio reacende várias questões de interesse
da profissão. Começando, claro, pelo velho e quase
insolúvel problema da relação de proporção
que devemos tentar manter entre a importância dos acontecimentos
cobertos e o destaque com que os apresentamos ao público.
Quanto
espaço – de revista, jornal, televisão,
rádio, internet – dedicar a um assunto, comparado
com outro? Que destaque dar, em centimetragem de papel, em tempo
de televisão e de rádio, em telas de internet,
à eclosão de uma rebelião simultânea
em dezenas de prisões, comparada a uma crise internacional?
Ou a um grande fato esportivo vis-à-vis uma catástrofe
natural? Se uma denúncia do Ministério Público
merece manchete de seis colunas num grande jornal, o que fazer
(a mais) quando chegar a hora da morte do papa?
Sem
igual no mundo
Mas
debrucemo-nos sobre um aspecto específico trazido à
tona pela novidade severina: a adequação (ou não)
da extensão da cobertura política que oferecemos
aos consumidores de informação. De cara, pode-se
dizer sem medo de errar que ela traz o grave defeito de ser
vasta demais.
Tem
absoluta razão Marcos Sá Corrêa –
que, aliás, fala com a autoridade de quem pilotou o "Informe
JB" do Jornal do Brasil numa de suas melhores fases e foi
um grande editor de política do Jornal do Brasil e de
Veja, tudo entre os anos 1970 e 80, e que, de uma ou outra forma,
tem lidado com assuntos políticos ao longo de uma carreira
de três décadas e meia.
Nenhum
grande jornal do mundo gastaria o espaço que os nossos
principais diários esbanjaram com a eleição
de um presidente de uma das casas do Legislativo. Tampouco publicariam
páginas e páginas de política, aconteçam
ou não fatos de real relevo. Esse vício, entre
nós, é parte de fenômeno mais amplo, já
tratado pelo signatário neste Observatório ["O
poder toma conta do noticiário", 10/2/2004, remissão
abaixo]: a gigantesca, desmesurada presença na mídia
das informações sobre o poder – municipal,
estadual e federal, em suas incontáveis manifestações,
da delegacia de polícia ao Palácio do Planalto
– ou dele oriundas.
No
caso específico do noticiário político,
talvez estejamos sofrendo as conseqüências de uma
atitude da própria grande imprensa, e dos jornalistas
que nela trabalharam, no período do regime militar (1964-1985).
Ao longo daqueles anos, mesmo nas fases mais negras de repressão
e censura, houve um esforço intencional, como lembrou
Sá Corrêa em seu artigo, de manter vivo o noticiário
político e mesmo de instalá-lo com a possível
freqüência nas primeiras páginas como uma
espécie de ato de resistência à falta de
notícias parlamentares relevantes e ao sufocamento da
atividade política.
Villas-Bôas
e a resistência à ditadura
O
decano dos jornalistas políticos brasileiros, Villas-Bôas
Corrêa, 81 anos, tratou do tema em seu delicioso livro
de memórias profissionais, Conversa com a Memória
(Editora Objetiva, 2002). Com o regime golpista em andamento,
lembra Villas, "deparamos com a questão ética
de [ou] manter ocupado o espaço nos jornais pelo comentário
político, avalizando de algum modo o que considerávamos
uma farsa para consumo externo, ou articular a retirada em massa,
como manifestação coletiva de protesto".
Diante
desse dilema, ele lembra:
"Pessoalmente,
dei a volta na hesitação e sepultei a
dúvida com o argumento conclusivo de Carlos Castello
Branco [o grande colunista político do Jornal
do Brasil, falecido em 1993]. O protesto do silêncio
não chegaria a repercutir, abafado pela censura.
Os seus ecos durariam alguns dias, percebidos apenas
pelos leitores mais atentos (...). Ocupar o nosso espaço,
com todas as limitações, driblando as
ordens da censura, era a legítima opção
de luta. Nossa presença diária (...) incomodava
muito mais a ditadura, que escondia a cara com a máscara
do fingimento do Congresso aberto e controlado pelas
cassações de mandatos, os atos institucionais,
os recessos punitivos, a desfaçatez dos casuísmos
(...) e que se desmandava na boçalidade da tortura
institucionalizada (...)". |
Na
verdade, a atitude dos jornalistas correspondeu, de forma mais
ou menos generalizada, à dos patrões da grande
imprensa. Mesmo nos veículos que apoiavam o regime militar,
deliberou-se – e, em um ou outro caso, tolerou-se –
a manutenção de uma cobertura política
volumosa muito além do que justificava a importância
dos políticos num regime em que quem dava as cartas eram
os militares e os tecnocratas. Nem o mergulho nas trevas do
Ato Institucional nº 5, que eliminou o que restava de liberdade,
direitos e garantias, mudou fundamentalmente esse quadro.
Jornalistas
e padrões convergiram
Como
muitos jornalistas, pude pessoalmente constatar o quanto coincidiam
as vontades dos jornalistas políticos e dos patrões
da grande imprensa – bem, pelo menos de um patrão
– nesse período difícil.
Em
1969, depois de quatro anos como jornalista em diferentes funções
e veículos em Brasília, era redator de política
do Jornal da Tarde em São Paulo. E lembro-me do empenho
pessoal de Ruy Mesquita, o hoje diretor do Estado de S.Paulo
que na época tocava o JT, no noticiário político.
Apesar de volta e meia revelar seu desalento e sua revolta com
os rumos do regime que, de início, sua família
ajudara a instalar, Mesquita concordava que o editor-chefe Murilo
Felisberto mantivesse em ação uma forte editoria
política, chamava repórteres para conversar, lia
com atenção as matérias, fazia cobranças.
Na
campanha para as eleições parlamentares de 1970,
realizadas sob o tacão da censura e com a oposição
sob constante ameaça, inclusive física, o "doutor
Ruy", como era (e é) chamado, a certa altura desanimou.
Chamou-me a sua sala – eu não era o responsável
pela editoria, mas ele em geral gostava dos artigos que escrevera
como correspondente do JT em Brasília, em 1967-68, e
vez por outra conversávamos. "Será que a
gente não está dando muita importância a
essa farsa?", perguntou-me. Argumentei que não.
Apesar de tudo, havia vida na oposição, disse
eu. O então deputado Franco Montoro poderia vencer (como
efetivamente ocorreria) a eleição para o Senado
em São Paulo, o deputado Paulo Brossard fazia uma campanha
corajosa no Rio Grande do Sul (acabaria perdendo). Havia outros
casos, e deveríamos tentar cobrir essas disputas. "Não
sei, não", resmungou. "Mas vocês vão
tocando o bonde."
À
medida que as eleições se aproximavam, porém,
Ruy Mesquita recuperou o entusiasmo. Queria saber das tendências
de voto, reclamava quando tínhamos pouco espaço
para as campanhas. De certa forma, acabou sobrando para mim.
Eleitos os novos senadores, ele quis um alentado perfil das
velhas lideranças que continuaram e dos novos que surgiram.
Eram 44 perfis, e escrevi todos eles numa virada de madrugada.
É
claro que, além de se constituir em uma forma de resistência
à ditadura, a manutenção de uma nutrida
cobertura política naqueles tempos mereceu outro tipo
de estímulos. Entre eles se incluía a autoproteção
de uma legião de jornalistas políticos em Brasília,
no Rio, nas capitais dos Estados e em cidades grandes e médias
já dotadas de meios de comunicação de algum
porte. Pauteiros, repórteres, comentaristas, titulares
de colunas de notas, redatores e editores queriam, compreensível
e legitimamente, manter seus empregos.
Jornais
chatos e perda de público
O
resultado de tudo isso valeu a pena. O noticiário político
realizou sua parte no aproveitamento das poucas frestas de liberdade
propiciadas pelo regime, alargando-as. O problema é que,
quando chegou a democracia, em 1985, o desequilíbrio
entre o verdadeiro tamanho da atividade político-parlamentar
e o resultado dela apresentado pela mídia permaneceu,
como se fosse um vírus. A política, atividade
corretamente ou não negligenciada no mundo inteiro, quando
não desprezada, pela grande maioria do público,
tornou-se, aí sim, o centro, o coração,
a alma da imprensa.
Como
logo ocorreriam as eleições de 1986 – para
todos os cargos federais e estaduais, exceto o de presidente
e vice –, seguidas pelos trabalhos da Constituinte (1987-1988),
depois pelas importantes eleições municipais de
1988 e, logo adiante, pela trepidante campanha para a disputa
presidencial de 1989, a primeira realizada no país em
quase 30 anos, as equipes encarregadas da cobertura política
engordaram, o noticiário político acabou atropelando
de vez outras áreas de interesse e sua primazia se cristalizou
como um fenômeno cultural específico da imprensa
brasileira. A "patente mundial" de que fala Marcos
Sá Corrêa.
Será
que isso convém à imprensa e ao público?
Tem cabimento esse massacrante espaço conferido à
política num momento em que vários fenômenos
– a globalização da economia, o desenvolvimento
científico, os saltos da medicina, a generalização
do uso da internet, as novidades tecnológicas, a questão
ambiental, o acesso ao lazer, as novas tendências de comportamento,
o redespertar das religiões, a atuação
do terceiro setor – ampliam extraordinariamente a área
de interesses das pessoas?
Não
será por problemas como esse que certos veículos,
como os grandes jornais, perdem público continuamente,
mais no Brasil do que em outros países? Os jornais, sobretudo,
não estariam, por essas e outras, ficando distantes do
interesse dos leitores? Não estariam ficando chatos demais?
Os
jornalistas – especialmente os que dirigem os veículos
da grande imprensa – precisam meditar sobre a questão.
É o lembrete de alguém que, desde o início
da carreira, de forma bissexta ou não, tem trabalhado
com a informação política.
(*)
Jornalista
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