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Comunique-se
- 04/10/2004
Carlos
Chaparro
O XIS DA QUESTÃO – Em momentos
agudos de conflito, como o das eleições que o
Brasil atualmente realiza, o jornalismo cumpre o papel de linguagem
merecedora de fé e de espaço público vinculado
às razões éticas (valores) que dão
perspectiva às sociedades politicamente organizadas.
Quando ocorre o ápice dos conflitos -como nos grandes
debates que quinta-feira passada encerraram a campanha –
ou se materializam os acordos produzidos pela votação,
é no espaço e na linguagem do jornalismo que o
sucesso se dá. Porque no jornalismo se legitimam os conflitos
discursivos da democracia.
1.
Conflitos e acordos
Os
debates eleitorais de quinta-feira passada (30 de setembro),
pela Rede Globo, se constituíram o ápice de um
certo momento de conflitos, em um cenário que poderíamos
chamar de espaço político. Mas logo o conflito
evoluiu para o acordo das urnas, e aí está a sabedoria
do sistema.
O
espaço político é, por natureza e definição,
uma área de conflitos e acordos, sobre os quais se elaboram
e desenvolvem as relações entre os agrupamentos
adversários ou divergentes da democracia. E na dinâmica
dessas relações se sustenta o sistema democrático,
que, embora movido pela energia dos conflitos, se aperfeiçoa
e avança nas conformações dos acordos.
E porque assim é, contados os votos, os derrotados aceitam
ser governados pelos vencedores.
Já
houve tempo em que os embates retóricos dos conflitos
políticos se davam na praça pública, em
ações limitadas pelos curtos horizontes do espaço
físico. Assim, para ampliar platéias e irradiar
discursos, era preciso fazer comícios diários
em locais diferentes. E de praça em praça, os
candidatos consumiam energias e dinheiro em maratonas itinerantes
de várias semanas, meses até.
Nos
tempos de hoje, os candidatos passam mais tempo em estúdios
de TV do que nas ruas. Com acesso legal a fantásticas
tecnologias de difusão, e o apoio de especialistas em
propaganda e marketing regiamente pagos, é pela mídia,
principalmente a eletrônica, que alcançam e tentam
convencer as multidões anônimas detentoras do poder
do voto. Também vão às ruas, é certo,
para comícios, carreatas e ações chamadas
de “corpo-a corpo”. Mas sempre com câmeras
e jornalistas atrás, porque a rua e os transeuntes servem
apenas de ambientação para cenas e cenários
do show propagandístico na TV e nos jornais.
2.
Importância do jornalismo
Há,
porém, limitações na linguagem e nas ações
táticas da propaganda. Uma delas, creio que a maior de
todas, a parcialidade de critérios e conteúdos,
que acolhem e favorecem, apenas, informações e
idéias convenientes ao interesse do candidato. Sem confrontações
diretas e sem questionamentos de aferição.
Ora,
nas democracias, o sistema propõe ao eleitorado o dever,
e lhe garante o direito, de fazer escolhas – escolhas
ideológicas, políticas, econômicas, culturais,
éticas, religiosas etc.. Mas porque a propaganda, devido
à parcialidade do discurso, tem o viés da suspeição,
a racionalidade do sistema exige que do processo façam
parte linguagens e mecanismos confiáveis, para que os
conflitos se realizem com o sucesso que interessa à sociedade.
Aí
entra o jornalismo. Em momentos agudos de conflito, o jornalismo
se oferece como linguagem asseverativa, merecedora de fé,
e como espaço público vinculado às razões
éticas (valores) que balizam os conflitos e os acordos
que dão perspectiva às sociedades politicamente
organizadas.
Por
isso, ao mesmo tempo que investem vigorosamente em propaganda,
as forças partidárias oponentes se capacitam,
também, para a utilização intensiva do
jornalismo, para que o discurso partidário conquiste
legitimidade e lugar próprio nos embates, ao longo das
campanhas.
Assim,
quando ocorre o ápice dos conflitos, como nos grandes
debates que encerram as campanhas, é no espaço
e na linguagem do jornalismo que eles se dão. Porque
no jornalismo se legitimam, para a produção de
efeitos, os conflitos discursivos da democracia.
Todos
os que, direta ou indiretamente, participam do jornalismo (profissionais
e fontes), assim como os sujeitos sociais que dele se beneficiam,
têm o dever de zelar pela confiabilidade da linguagem
jornalística. Para que a sociedade possa continuar a
acreditar na notícia.
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Lembrando
José Aparecido – Recebi com tristeza a notícia
da morte do colega José Aparecido, aos 74 anos de idade.
Trabalhei com ele na Folha, nos anos 60 do século passado.
E o lembro aqui, em forma de homenagem à sua memória,
porque guardo na lembrança o jeito operário do
repórter de rua, teimoso e abnegado, que ele foi nessa
época. Sem pretensões nem vaidades intelectuais,
fazia o seu trabalho com exemplar responsabilidade e dedicação,
virtudes que fazem falta à profissão. Depois,
foi dirigente sindical atuante, no Sindicato dos Jornalistas
Profissionais do Estado de São Paulo, onde coordenou
a Comissão de Ética e participou das comissões
responsáveis pela organização e julgamento
do Prêmio “Vladimir Herzog”. Viveu a última
fase da vida em Presidente Epitácio, no interior de São
Paulo, e lá faleceu, no dia 29 de setembro, vítima
de câncer. Que descanse em paz.
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