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Informação:
Observatório
da Imprensa - 22/02/2005
Alberto
Dines
A
Associação Nacional dos Jornais (ANJ) anunciou
na terça-feira (15/2), em São Paulo, que vai lançar
a Rede em Defesa da Liberdade de Imprensa "com o objetivo
de combater qualquer tipo de ameaça ao livre exercício
de jornalismo". A rede será um "instrumento
de permanente vigilância contra práticas autoritárias"
no Brasil e contará com o apoio da prestigiosa Unesco.
Estamos
ainda em fevereiro, o ano real tem apenas uma semana, mas esta
é uma candidata ao título de Notícia do
Ano. Se os jornais brasileiros efetivamente se empenharem no
compromisso de combater as ameaças à liberdade
de manifestação, a conseqüência
imediata será a abolição das nefastas Listas
Negras vigentes tanto em nossa Grande Imprensa como na Pequena
Imprensa.
O
poder político em nosso país – pelo menos
até agora – não se apresenta como adversário
institucional do jornalismo livre, ainda que por vezes esqueça
certas exigências de uma democracia plena e, em outras,
deixa-se seduzir pela malandragem caipira. Os desvios duram
pouco, nosso poder político é maneiroso, logo
recompõe-se – imperioso salvar as aparências.
O
poder econômico, por sua vez, não intimida –
a mídia é sua parceira, faz parte do mesmo sistema;
entendem-se e convivem.
O
poder Judiciário ainda não conseguiu controlar
a sua banda podre que em certas ocasiões tira a toga
e fantasia-se de tesoura (geralmente para proteger cupinchas
que deram um mau passo). Mas as instâncias superiores
cerram fileiras em torno da supremacia do direito de informar
sobre os demais direitos.
Nomes
embargados
Paradoxalmente,
é na própria imprensa onde se localiza um foco
censório permanente, renitente, indelével e contumaz.
Sintoma ou manifestação são as vergonhosas
Listas Negras, tradição quase bissecular e ainda
vigente.
Com
esse ou outros nomes menos ostensivos, ainda funcionam nas principais
redações do país as "Listas do Não
Pode" ou "Esse Não". São virtuais,
perigoso imprimi-las, melhor que sejam memorizadas pelos encarregados
de zelar pela satisfação daqueles que as mantêm.
As
Listas Negras são a versão moderna das Listas
dos Autos da Fé inquisitoriais, nas quais os que não
eram condenados à morte ficavam indelevelmente maculados
e marginalizados. As Listas Negras nos órgãos
de imprensa brasileiros não matam nem maculam, mas igualmente
letais porque condenam o cidadão ao desaparecimento,
à não-existência.
Cada
veículo tem o seu rol de não-mencionáveis,
raramente idênticos: cada chefão ou chefinho tem
a sua relação particular de jurados ao olvido
– políticos que dizem o que pensam, intelectuais
que ousam mostrar que o rei (ou a rainha) está nu, e
mesmo jornalistas que não se conformam com as regras
deste jogo pouco honrado.
Pode-se
alegar que o fenômeno das Listas Negras é restrito
e que os nomes embargados não chegam a um par de dúzias
por veículo. Hipocrisia. O problema
não está no número dos cidadãos
vetados pelo conjunto de veículos, mas no número
dos profissionais que convivem com este mecanismo de vetos,
curvam-se e o aceitam, resignados.
E
aqui estamos diante de uma cifra nada desprezível que,
pela importância dos parceiros na hierarquia do veículo,
contamina a credibilidade do sistema informativo como um todo.
Projeto-âncora
Um
jornalista de qualquer editoria que sabe estar condicionado
pelos caprichos do dono do veículo (ou qualquer um de
seus delegados) deixa automaticamente de fazer parte de um sistema
livre. Em algum ponto do seu instinto profissional instala-se
uma dúvida que coloca sob suspeita um conjunto de valores
e princípios que deveriam estar lacrados e inquestionáveis.
A
existência das Listas Negras não é formalmente
o grande problema da nossa imprensa – entre outras razões
porque são mantidas em segredo e seus efeitos impossíveis
de avaliar –, mas é a acionadora de um ceticismo
altamente contagioso que pode começar, na esfera das
empatias ou antipatias do jornalista com o objeto da sua matéria,
com questões na aparência inofensivas e, fatalmente,
se estenderá a discriminações, deformações
e manipulações mais graves.
Em
matéria de ameaças à liberdade não
existem hierarquias: todas são igualmente importantes,
todas igualmente perigosas.
Ao
comprometer-se numa cerimônia pública e amplamente
divulgada com o combate às ameaças ao livre exercício
do jornalismo, a ANJ declara-se preparada para identificar,
enfrentar e erradicar os obstáculos, coações
e entraves que podem prejudicar a imagem e a eficácia
tanto dos veículos associados como da instituição
jornalística.
A
parceria com a Unesco amarra esta iniciativa da ANJ ao histórico
projeto-âncora da subsidiária das Nações
Unidas, o "Free Flow of Information" (Livre Curso
da Informação). Este é um aval que não
pode ser esquecido nem desperdiçado por nenhuma das partes,
sob pena de converter o ideal do livre exercício do jornalismo
num mero exercício de promoção e marketing.
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