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Informação:
Observatório
da Imprensa - 01/03/2005
Ivo
Lucchesi (*)
Não
sei bem se o neologismo midiacridade já terá
sido proposto por alguém. Assim, desde já, prometo
nunca reivindicar a paternidade lexical. Embora esteja quase
evidente o sentido da palavra sugerida, não é
demais deixar explícito que o termo, a título
de "economia lingüística", deseja equivaler
à expressão "mídia medíocre".
É
obvio que nem tudo oferecido pela mídia (impressa ou
eletrônica) está revestido de mediocridade. Todavia,
é igualmente verdadeiro que a realidade presente vive
o apogeu da sandice e da banalidade, reforçadas ambas
por intensa atmosfera de ingenuidade e licenciosidade. Que tudo
seja publicável é a garantia contra tendências
autoritárias cuja sombra sempre ronda; daí, porém,
a confundir com acriticidade é um agravo tão perigoso
quanto o retorno de mecanismos de censura. Faz-se oportuno (anda
em moda o tenebroso verbo "oportunizar"), portanto,
clarear as coisas.
É
inacreditável que diariamente a sociedade brasileira
receba, sob o patrocínio das diversas fontes midiáticas,
"lições" de altas recompensas pela ausência
de virtudes, quando não é pelo elogio ao delito.
Vamos rememorar alguns acontecimentos da recente vida nacional.
Barraco,
castelo e mansão
Sem
muito esforço de pesquisa, vem à mente o casamento
do século no reino encantado do castelo de Chantilly,
com direito a toda sorte de baixaria (também chamam de
"barraco"). Pelo visto, é fácil encontrar
dignidade em barracos. Complicado parece reconhecê-la
em castelos.
O
modo como a mídia cobriu o "evento", ridículo
em todas as suas etapas, deixa seres normais um tanto perplexos,
principalmente ao noticiar-se – sem nenhuma reserva crítica
– que uma até então desconhecida modelo
(nos dias atuais, basta alguém exibir algo ou posar assim
ou assado e se torna "modelo profissional"; ninguém
pergunta "modelo para quem?"), por haver sido expulsa
de uma festa, quintuplica seu preço no mercado. Primeiramente,
é de estarrecer o fato em si. Pior ainda, é a
mídia simplesmente divulgar. Será que quem o faz
tem dimensão do quanto contribui para a degeneração
ética, sobretudo para jovens ainda em formação?
O que outrora seria motivo de vergonha e humilhação
hoje é transformado em prestígio e valorização?
Aonde pretende chegar tamanho cinismo?
Outros,
por serem radicalmente vazios e quase inúteis, disputam,
destituídos de quaisquer princípios, o prêmio
de 1 milhão de reais, numa suntuosa mansão, regida
por infantilóide encenação do que querem
vender com o rótulo de reality show. O mais farsante,
travestido de "bom rapaz" ou "boa moça",
será levado, em nome do mérito por suas idiotices
e falcatruas, ao degrau da fama e da riqueza, sob o referendo
frenético de milhares de telespectadores ensandecidos.
Trata-se de outro exemplar ensinamento de "vigor ético"
que a mídia dissemina em rede nacional.
Severinos
nada severos, nem sérios
Outro
tema do qual jornais e emissoras de televisão muito se
ocuparam diz respeito ao nobre acontecimento atinente à
eleição do presidente da Câmara. A mídia
não economizou informações quanto à
jogatina que perpassou o fato. Todavia, como manda o figurino
da hipocrisia tupiniquim, não houve matéria, afora
raros artigos, que, à tramóia, somasse tom crítico.
Não
bastasse a "neutralidade" (dizem que existe "neutralidade"
em jornalismo), como decorrência da vitória, tiveram
início as épicas entrevistas com o vitorioso que,
entre outras características, tem a virtude de jamais
incluir uma terceira frase sem tornar as duas anteriores truncadas
ou incompreensíveis. Porém, nos confusos e insólitos
depoimentos, algo ficou bastante claro para todos: a defesa
intransigente da majoração dos salários.
Eis
que, uma vez mais, a "midiacridade" estava a postos
para o registro necessário e sempre sem nenhuma intervenção
desafiadora, menos ainda indignada. Ao contrário, fiel
à fórmula da burra lógica binária,
reduziu a cobertura ao clássico esquema do contra x a
favor.
Emparedada
a imoralidade da proposta nas fronteiras da fofoca planaltina,
nenhuma voz na mídia se ergue para problematizar o sempre
"terceiro excluído" – que, no caso, seria
forçar um debate nacional para eliminar a prerrogativa
de empregados políticos da sociedade terem o direito
de determinar quanto querem ganhar. Até quando pretendem
manter essa cláusula que deixa tantos cidadãos
perplexos?
Políticos,
ao longo dos mandatos, são funcionários da nação.
A eles, portanto, além de outras sugestões que
seriam discutidas, poderia destinar-se a aplicação
automática do maior índice de aumento salarial
obtido por uma dada categoria. Simples, não? Por que
a mídia não traz para a pauta de discussão?
Fica a doação da idéia.
Registro
acrítico
O
nobilíssimo teatro planaltino ainda teria outras peças
a encenar. Uma delas, igualmente sem o menor incômodo,
a mídia pautou com invejável isenção.
Refiro-me ao senador Antonio Carlos Magalhães, que foi
alçado a presidente da "comissão mais notável
do Senado" (Folha de S. Paulo, 23/02/05).
Não
há aqui nenhum juízo de valor quanto à
figura do político. Contudo, é de causar espanto
que um senador a cujo mandato anterior teve de renunciar, sob
pena de vir a ser cassado, ressurja justamente para presidir
a poderosa CCJ, Comissão de Constituição
e Justiça, a mais importante instância do processo
legislativo, depois do plenário.
Na
mesma chamada, o texto da Folha arrematava o seguinte dado:
"Luiz Otávio (PMDB-PA), acusado de desviar verba
pública, vai chefiar a Comissão de Assuntos Econômicos".
No mínimo, é tudo pândego ou plena expressão
do horror.
Por
fim, o desastroso discurso presidencial no qual o direito à
ingenuidade foi exorbitado. Um presidente declarar-se publicamente
acobertador de, segundo ele, atos de corrupção
era algo inimaginável. Mais ainda, em se tratando de
alguém cuja obsessão na vida, além de aspirar
ao cargo máximo, era a de denunciar tudo e todos. Mas
nem diante de tamanho fato estarrecedor a mídia abdicou
de sua elegante saia-justa, em versão quase "chapa-branca".
Nada além do registro.
Tragédias
e incompetências
Para
encerrar este painel de iniqüidade jornalística,
vamos tratar agora de dois acontecimentos que, em razão
de tematizarem vidas vitimadas, impõem, em nome da solidariedade
e do profundo respeito aos atingidos, mudança de tom.
Aqui, não há lugar para ironia.
De
um lado, o destino de um compatriota seqüestrado no Iraque,
o engenheiro João José de Vasconcellos Jr.; de
outro, Irmã Dorothy, missionária e ambientalista,
assassinada no Pará. Em ambos os casos, a mídia
parece absolutamente despreparada para exercer seu papel. Desde
os momentos iniciais, a cobertura, em relação
ao seqüestro do engenheiro, não faz outra coisa
senão conferir-lhe tratamento novelístico. De
tudo que li e vi relativo ao triste episódio, nada encontrei
que conferisse ao fato enfoque adulto. Tudo, à moda bem
brasileira, tende para emocionalização.
Desde
a insólita exibição do vídeo, fica
evidente uma coisa: ou o engenheiro, a exemplo dos dois seguranças,
morreu no atentado, ou deste saiu gravemente ferido, seguido
de morte. A lógica é clara. Que não seja
para os familiares é mais que humanamente compreensível,
contudo não o pode ser sob o ângulo jornalístico.
De
todos os seqüestros lá ocorridos, o único
a exibir vídeo sem a exposição da vítima
é o do brasileiro. O recurso usado pelos terroristas
(por favor, sem outra denominação), limitando-se
a documentos e cédulas, sem daquela data em diante não
mais expor nada, parece não deixar dúvidas (embora,
em solidariedade aos familiares, torça por estar radicalmente
errado). Seja qual for a verdade, o que a mídia não
pode fazer é tratar do caso como os conflitos sentimentais
que escorrem pelos capítulos de novelas. O drama da vida
real exige outros modos de condução.
Quanto
ao assassinato no Pará, a mídia nem pressiona
a omissão das forças políticas (em âmbito
municipal, estadual e federal) nem aprofunda a abordagem requerida
por tudo que, naquela região, está em jogo. De
um lado, o descaso das autoridades, a despeito dos insistentes
apelos da vítima, abandonada à obstinada resistência
desprotegida. De outro, a feroz disputa pelo controle da Amazônia,
seja pela ferocidade dos lucros, obtida pelos métodos
bárbaros e cruéis, tendo à frente quadrilhas
locais, seja pela cobiça de governos e corporações
do capital, em escala internacional, que há décadas
orientam políticas de preservação para,
estrategicamente, quando a necessidade real se apresentar, implementar-se
a ocupação por vias diretas ou indiretas.
A
mídia ainda não noticiou as propostas que estão
sendo elaboradas por forças hegemônicas cuja intenção
consiste em "oferecer" à Amazônia o que
estão chamando de "gestão coletiva".
O mais recente a explicitar a questão foi o ex-comissário
de Comércio da União Européia, Pascal Lamy
– além de serem conhecidas suas relações
com interesses norte-americanos.
Nenhum
representante da chamada "grande imprensa" abordou
o assunto. Entretanto, o tema está presente em matéria
assinada pelo correspondente em Genebra, Jamil Chade, reproduzido
no Diário do Pará (25/02/05). Será que
o pronunciamento de Lamy não atinge frontalmente questões
de segurança nacional? Que espera a "grande imprensa"?
Será que aguarda a posse da Amazônia, em algum
momento do futuro, para futuras coberturas?
Como
se pode concluir, não faltaram temas dos mais variados
conteúdos para a demonstração do quanto
a "midiacridade", por ser como é, deixa de
realizar em favor de uma prática jornalística
responsável. Haverá ainda tempo para reverter
o modelo, de modo a contemplar um possível casamento
entre mídia e ética? É melhor imaginarmos
que sim, embora os indícios atuais se alinhem em direção
contrária. Em assim sendo, pelo menos, é possível
que tais observações críticas sirvam para
algumas discussões em aulas de jornalismo.
(*)
Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ,
professor titular do curso de Comunicação das
Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro
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