| Informação:
Folha
de São Paulo - Opinião - 10/11/2004
Luiz
Eduardo Borgerth
Apesar
de décadas de pesquisas, teses e discursos, a despeito
da farta literatura, não obstante tantos McLuhans, Bourdieus,
Barthes e Buccis, o chocolate ainda é mais importante
do que a mídia, o cacau mais precioso do que o audiovisual,
a Nestlé maior do que a News Corp., o bombom Garoto mais
importante do que a Globo.
Não
fosse assim, a notícia da fusão da Sky com a DirecTV,
associadas à Globopar no Brasil, teria inundado o país
com pronunciamentos, confundido os especialistas, provocado
os conselhos e, certamente, o governo teria se mobilizado imediatamente
para estabelecer normas que neutralizassem os efeitos do mais
desastroso e maléfico monopólio que se poderia
imaginar fosse estabelecido no Brasil.
Sim,
porque da fusão em diante só a produção
e a programação de televisão que for do
agrado da Globopar (Globo) e da News Corp. (Rupert Murdoch)
será entregue às casas brasileiras diretamente
por satélite. Esse grupo passará a ter, no mínimo,
95% do mercado direto por satélite e, em breve, de todo
o mercado de televisão paga no Brasil. Ironia das ironias!
Incapaz de manter a maioria do capital da Sky quando havia concorrência,
a Globo passa a ter exclusividade de mando nos "céus
do Brasil" com apenas 28% do capital e livre de investimentos!
Em
terra, pela televisão aberta, a Globo tem a bagatela
de quase 50% da audiência e 75% de todo o dinheiro aplicado
em televisão, aí pelos R$ 4 bilhões do
total de R$ 5 bi e pouco. Não vai mais investir em hardware.
Da fusão para a frente, DTH, televisão direta
para sua casa, é o nome do jogo.
É
difícil entender que, num momento como este, haja quem
concentre suas energias criando Ancinavs
Com
o monopólio do satélite, fica em perspectiva o
monopólio de toda a televisão no futuro -pois
poucos duvidam de que a televisão, inclusive a que hoje
chamamos "aberta", será recebida via satélite
no Brasil. Continuará "aberta", já que
quase todos terão acesso a tudo quando todos tiverem
acesso ao satélite.
Para
começar, basta presentear o "assinante" com
um receptor, uma caixinha; a televisão paga não
é obrigada a ser paga, pode ser uma oferta do operador.
Originalmente, o cabo foi inventado e empregado para retransmitir
os canais abertos para áreas de má ou sem recepção.
Não tendo programas próprios, não faria
sentido que tivesse publicidade além da que aparecia
nos canais que retransmitia. Agora, tendo monopólio e
associado a programador e produtor nacional, o operador fará
o que quiser, remunerando-se pela publicidade.
Ainda
mais que o satélite, ao contrário do cabo, nem
precisa retransmitir as emissoras locais. Nos EUA podem obrigar.
Como lá não permitiriam a um mesmo grupo operar
cabo, satélite e televisão aberta num mesmo mercado.
Nem sequer jornal e televisão num mesmo mercado. É
que lá a Constituição não proíbe,
como a nossa, monopólio em comunicação
social. Deve ser por isso que o grupo Globo tem jornais, revistas,
rádio, televisão, cabo, satélite, editora,
gráfica, discos, programadoras, tudo cruzado, descruzado
e, se deixarem, monopolizado. E agora acrescente-se telefonia,
pelas mãos salvadoras do mexicano Carlos Slim Helu, que
associa-se à Net (sem dizer com que participação),
o dono da Embratel, Claro e Vésper. Quem diria, a novela
da Globo acaba mexicana...
No
Brasil as salvaguardas impostas aos protagonistas da fusão,
até decisão final do Cade, são inadequadas,
mas não sei que outras poderiam ter sido impostas. Talvez
nenhuma. Manter funcionando duas empresas dos mesmos donos,
fingindo que concorrem, é ridículo e insustentável.
Sejamos machos: monopólio é monopólio.
É melhor do que ficar a DirecTV, com sua quota permitida
de 300 mil assinantes, também equipados com receptores
da Sky (que ninguém é de ferro), fingindo competir,
apresentando para meia dúzia de assinantes recalcitrantes
a programação rejeitada ou obrigada a ficar fora
do satélite "classe A".
Por
que 300 mil? Porque, em documento apresentado à Securities
and Exchange Commission americana, assinado por Sky,Globopar
e DirecTV, 123 mil dos 423 mil assinantes da DirecTV passarão
imediatamente (120 dias) para a Sky, sob pena de multa por cada
assinante que lá não estiver no prazo estipulado.
Dará um quase-nada de despesa, mas vale a pena manter
essa "concorrente", uma caixa de descarte que terá
a função de manter a possível concorrência
fora da Sky.
Há
sinais de oposição. Na Venezuela, por exemplo,
o grupo Cisneros entrou, no dia 18 passado, com uma ação
nos EUA contra Sky, DirecTV, Globo e Televisa, pedindo a dissolução
da fusão e uma indenização de US$ 1 bilhão,
coisa pouca. Tudo indica, pelos trechos publicados, que o "agreement"
é um documento de interessante leitura. Deveria ser dado
a público no Brasil: temos muito o que aprender.
Esse
assunto tem implicações irreversíveis,
exige audiências, depoimentos e esclarecimentos públicos
claros e definitivos; é matéria de interesse nacional,
e não "questão de Estado". Da solução
que lhe for dada -e é claro que é possível
encontrar soluções- depende a sobrevivência,
a médio prazo, da mídia independente brasileira
e, a curto prazo, a esperança de sobrevivência
de toda a televisão brasileira fora do universo que a
Globo desenhar. É difícil entender que, num momento
como este, haja quem concentre suas energias criando Ancinavs
ou buscando no "Cidade Alerta" e no Gugu os males
da TV brasileira.
Luiz
Eduardo Borgerth, 72, advogado, consultor de empresas de radiodifusão,
é assessor na Rede Bandeirantes.
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