| Informação:
Observatório
da Imprensa - 12/04/2005
José
Carlos Falcão de Andrade (*)
Gilberto
Freyre sempre disse que a formação da sociedade
brasileira foi patriarcal. Stephen Kanitz, em artigo recente,
comentou sobre o que ele supunha serem resquícios da
Inquisição medieval sobre nossa forma de pensar
e de não dizer as coisas: medo atávico de punições.
São
dois exemplos de pensamentos elaborados em épocas distintas,
com enfoques distintos, mas com conclusões que se pode
generalizar dizendo: "Estamos ainda na Idade Média",
socialmente falando. Diria melhor: psicologicamente falando,
já que a sociedade, composta por indivíduos reais,
não é um organismo abstrato. É uma espécie
de Big Brother no sentido original, do qual fazem parte essas
coisas chamadas pessoas. E com repercussões no comportamento
da mídia, que é parte da sociedade.
Das
muitas diferenças entre as idades Média e a Moderna,
vou me restringir a apenas duas:
1.
O desenvolvimento do método científico, na época
de Newton e Leibniz, por volta de 1650. Como se sabe, depois
desse desenvolvimento é que se começou a analisar
a Natureza como algo físico no sentido atual, ou seja,
analisar os fenômenos naturais não como manifestações
da Vontade Divina, mas como ocorrências explicáveis
por teorias racionais e racionalmente quantificáveis.
Dizendo de outra forma, depois do método científico,
a lei intuitiva de causa e efeito pôde ser quantificada.
2.
As revoluções liberalizantes (pelo menos nos seus
efeitos em longo prazo) tais como a Revolução
de 1688 na Inglaterra, a Revolução Americana de
1776 e, por fim, a Revolução Francesa de 1789.
Elas permitiram que, talvez pela primeira vez na História,
qualquer indivíduo fosse livre para expressar suas opiniões
ou para dedicar-se a profissões que não fossem
pré-determinadas por sua classe social, por exemplo.
No
Brasil, nem o método científico nem as idéias
liberais chegaram a criar raízes, especialmente no que
diz respeito à forma de pensar do brasileiro médio.
Estou certo de que o pensamento do brasileiro médio não
se guia pelo agudo senso crítico de que são dotadas
as pessoas que conhecem o método científico, as
quais se caracterizam por exprimir pensamentos e opiniões
com início, meio e fim. Também constato a grande
dificuldade do brasileiro médio em assumir claramente
sua própria opinião. Prefere quase sempre (inclusive
e principalmente intelectuais) recorrer a citações
de terceiros, de forma a não comprometer sua imagem caso
sua opinião se mostre errada por algum motivo.
E
a mídia, composta por brasileiros, está perfeitamente
incluída no que está dito acima.
Sem
respostas
Temos
numerosos exemplos de notícias que são publicadas
sem que as permitam ao leitor tirar uma conclusão sobre
o assunto. Um exemplo está no Estado de S.Paulo de terça-feira
(5/4), na cobertura das inundações ocorridas em
Taboão da Serra (SP), afetando o tráfego na BR-116.
A jornalista que assina a matéria afirma, a certa altura,
que a prefeitura de Taboão culpava o DNIT (Departamento
Nacional de Infra-Estrutura de Transportes, sucessor do antigo
DNER) pelo problema, por ter cortado o mato nas laterais da
estrada e de não ter retirado aquela massa verde do local.
Com a chuva, a enxurrada levou tudo para os bueiros que foram
entupidos.
No
mesmo parágrafo, a jornalista escreveu que o DNIT negou
a acusação, dizendo que havia retirado o material
cortado, insinuando que os bueiros já estavam entupidos.
O parágrafo seguinte falava sobre outro aspecto da notícia,
deixando o leitor sem saber quem, afinal, era o responsável
pelos bueiros entupidos.
O
DNIT afinal retirou o material ou não? Uma grande foto
ao lado da matéria permite ao leitor supor que não,
pois mostra dois funcionários da Prefeitura de Taboão
no meio da água. E também mostra o capim relativamente
seco, além das inevitáveis garrafas PET e latas.
O leitor pode até supor, mas gostaria de ser informado
com segurança sobre o assunto, pois termina a leitura
com dúvidas:
**
Os bueiros já estavam entupidos, total ou parcialmente,
de forma que com ou sem capim adicional já se teria uma
inundação com qualquer chuva ?
**
A rede de captação de águas pluviais é
corretamente dimensionada para as chuvas típicas daquela
região?
**
O problema foi agravado pelas mudanças climáticas
(chuvas mais intensas que tenham relação com o
efeito estufa, por exemplo) ou pela impermeabilização
do solo quando da expansão da cidade para áreas
anteriormente de campo?
Sem
querer que a matéria tivesse respondido a tudo isto (provavelmente
faltou espaço...), pelo menos deveria ter informado melhor
(mais "cientificamente") ao leitor. Notícias
incompletas parecem ser uma tradição em nossa
imprensa. Leia-se, por exemplo, as colunas "Há 100
anos", "Há 50 anos" etc. É comum
deparar-se com textos do tipo: "Estão dizendo que
numa ilha do Oceano Pacífico teria havido um terremoto.
Ouve-se falar em muitos mortos". Ou seja: já não
se informava, não se explicava, não se quantificava.
Parte
responsável
Do
ponto de vista das revoluções liberalizantes,
seus efeitos ainda não chegaram até nós.
Senão, vejamos:
**
A dificuldade que o brasileiro médio tem em expressar
suas opiniões se manifesta em todas as áreas.
**
Não há protestos definitivos contra os governantes.
Se fôssemos um país sério, já teríamos
tido uma revolução de costumes políticos.
**
Não nos revoltamos contra as ineficiências dos
governos em suprir as necessidades mínimas de bem-estar,
como saneamento, transporte etc.
**
Não procuramos pressionar eficazmente para mudar a legislação
tributária, em nome de uma forma mais justa: antes, procuramos
meios de escapar dos tentáculos das leis que oprimem
o bolso. Escapismo ineficiente.
**
O brasileiro médio tem grande temor em assumir a liderança
do que quer que seja, temor este relacionado obviamente à
longa história de repressão que já ou ainda
temos a apresentar ao mundo.
Não
se deve esquecer a hipocrisia social brasileira, que se manifesta
até nas menores coisas, tais como um visitante só
aceitar um cafezinho depois de uma breve insistência para
não parecer malcriado. Ou em coisas mais importantes,
como, por exemplo, o mercado paralelo do dólar que existe,
mas que todos fingem não ver.
A
hipocrisia brasileira se manifesta no contínuo hábito
de se dizer aos outros aquilo que se acha que o outro quer ouvir
– e não o que de fato o brasileiro pensa. Boa parte
da mídia age assim e deve ser responsabilizada por isso.
(*)
Engenheiro
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