| Informação:
Observatório
da Imprensa - 29/03/2005
Alexandre
Figueiredo (*)
Era
uma vez um mundo muito feliz. As pessoas prezavam os brinquedos
da infância como os maiores inventos da humanidade. Falavam
de suas primeiras bicicletas como tesouros perdidos da arqueologia.
Seus chicletes de bola eram seus alimentos mais energéticos.
Seus enlatados de TV foram sua mais alta formação
cultural. Consideravam a cultura trash a mais fina flor da vanguarda
cultural mundial. Seus grupos musicais favoritos foram o Dr.
Silvana & Cia., Absyntho e Menudo. O melhor do rock, para
eles, foi feito por grupos como Bon Jovi, Poison e Motley Crue.
Sonhariam dar o Prêmio Nobel da Paz ao palhaço
Bozo. As calipígias Rita Cadillac e Gretchen era o que
eles entendiam como personalidades feministas.
Essa
é a forma pela qual a década de 80, assim como
a cultura passadista em geral, está sendo traduzida pela
grande mídia. Explorando o passado de uma forma caricata
e estereotipada, a mídia acaba dando o mesmo tratamento
aos seus admiradores, vistos como devotos de uma religião
baseada nos discos voadores.
O
indivíduo que cultua o passado é tratado, assim,
como um débil mental, mais preocupado em ninharias, como
se até uma bolinha de gude que ele encontrou numa rua
de São Paulo em 1982 fosse uma relíquia do passado.
Ou então é tratado como um esquisitão,
situado à margem da sociedade, afeito a cultuar coisas
supostamente obsoletas. Mal sabe a grande mídia que,
por exemplo, os discos de vinil, extintos por imposição
unilateral da indústria fonográfica (em crise
com os CDs caríssimos e com o combate à pirataria
feito mais pelo discurso sensacionalista do que por medidas
concretas), se transformaram em artigos de vanguarda, e não
só pelos DJs, mas até por jovens que, nascidos
sob a era do CD, passaram a cultuar o tradicional formato do
bolachão.
Em
certos momentos, a cultura passadista é difundida de
forma tão confusa que os jovens atuais, já sujeitos
à confusa assimilação das informações
acumuladas (o que preocupa os mais sérios especialistas
em educação no país), acabem confundindo
o saudosismo em geral com o modismo da revalorização
dos anos 80. Uma mensagem de um jovem, exibida no programa Altas
Horas, da Globo, classificou a série de desenhos animados
Manda-Chuva, produção de Hanna-Barbera dos anos
de 1961 e 1962, de "ícone dos anos 80".
Isso
se agrava quando o brasileiro que sente tantas saudades dos
anos 80 menospreza fatos importantes como o fim da ditadura
militar, um sonho de muito tempo e que se considerava definitivamente
impossível, mesmo com o desgaste político dos
militares, que somente havia se agravado em sucessivos governos.
A eleição de Tancredo Neves é ignorada
solenemente. A ascensão do operário e hoje presidente
da República Luiz Inácio Lula da Silva não
tem uma menção sequer. Mas Gretchen, Sidney Magal
e Bozo são citados à exaustão, como se
fossem personalidades sérias.
Lembrar
para esquecer
Numa
época como hoje, em que o Brasil passa pela era do contentamento,
rever o passado deveria ser muito mais do que rever a infância,
mas comparar passado e presente e verificar quais os problemas
que enfrentam a cultura e a sociedade brasileiras de hoje.
As
referências do passado já foram resgatadas há
um bom tempo nos Estados Unidos, na União Européia
e no Reino Unido. Os EUA estavam vivendo a chamada "era
do contentamento" – bem explicada pelo economista
John Kenneth Galbraith em seu livro A cultura do contentamento
(São Paulo: Pioneira, 1992) – que acabou simbolizando
a década de 80 que, para os norte-americanos, foi extremamente
lamentável, baseada numa cultura descartável e
na euforia econômica de executivos aventureiros, os famosos
yuppies. O Reino Unido foi culturalmente melhor do que os EUA,
apesar de seus popstars de olho no mercado hit-parade de Los
Angeles e Nova York (Boy George, George Michael, Phil Collins),
mas viveu a era ultraconservadora da "dama de ferro"
Margareth Thatcher.
Resgatar
o passado era uma forma de norte-americanos e britânicos
esquecerem os tempos recentes de superficialismo cultural e
opressão político-econômica do imperialismo.
E ainda assim de uma forma bem menos alienada do que a que vemos
no Brasil.
Geração
indefinida
O
Brasil, dos anos 90 para cá, está vivendo a "era
do contentamento" que os EUA viveram nos anos 80. Se os
ianques tiveram o Miami bass, o pop descartável adolescente
e o chamado "metal farofa" (diluição
caricata do heavy metal) naquela década, o Brasil de
hoje tem toda a música brega / popularesca, o pop narcisista
adolescente e o estereotipado rock nacional com bandas que mais
parecem ter saído de comédias estudantis de quinta
categoria, como Detonautas, Charlie Brown Jr. e CPM 22. A "cultura
do contentamento" dos EUA foi governada pelo ex-ator Ronald
Reagan e pelo pai do "heróico" George W. Bush,
George Bush. Ela durou de 1979 a 1992. O contentamento do Brasil
foi governado pelos Fernandos, Collor e Henrique Cardoso, e
seus efeitos, iniciados em 1990, ainda resistem na Era Lula.
Como
o "contentamento" norte-americano, o brasileiro tem
todo o "alto astral" da chamada "era do entretenimento":
noitadas excessivamente valorizadas; música valorizada
mais pelo espetáculo, pela coreografia e pelo marketing
"bom moço" de seus ídolos; a superestima
dos desfiles de moda; culto ao corpo; deslumbramento com a tecnologia,
a partir de situações como brincar com os recursos
do telefone celular, além de pessoas incapazes de conhecer
pessoalmente um novo amigo procurarem grupos em chats e no Orkut.
Em
contrapartida, a "era do contentamento", tanto lá
como cá, terá como fruto maior a indefinição
de uma "geração X" (que no Brasil nasceu
a partir de 1978) diante dos desafios e responsabilidades da
vida de indivíduos marcados pela formação
cultural duvidosa e pela alienação na juventude.
Uma geração que prolongou a adolescência
numa curtição alienada e sem fim e que terá
que encarar as duras cobranças que o cotidiano fará
em suas vidas.
Preguiçosa
satisfação
Da
mesma forma que a "era do contentamento" dos EUA gerou
a figura do "politicamente correto", a do Brasil gerou
o discurso em prol da "cidadania", da "paz".
Não há uma postura "politicamente correta"
assumida, mas mesmo ídolos de gosto duvidoso falam em
"paz" e "cidadania", uma coisa impensável
nos tempos da Contracultura. Os políticos de direita
agora são "também progressistas", e
há todo um marketing que explora ideais filantrópicos
de maneira piegas, como se fosse fácil mostrar a imagem
de um menino de rua que, numa simples edição de
imagem, reaparece com uniforme escolar com caderno e lápis
na mão.
Nossos
reality shows na TV, nossos programas "irreverentes"
de rádio e TV, nossa imprensa com um discurso excessivamente
coloquial – como se a linguagem escrita quisesse ser um
plágio da linguagem oral –, nossa mídia
sensacionalista, nossos ídolos popularescos que se "agigantam"
em apenas cinco anos de carreira, nos fazendo esquecer de sua
mediocridade, tudo isso define os tempos de "contentamento"
num Brasil com pressa para integrar o Primeiro Mundo e com uma
ânsia exagerada em alcançar a prosperidade, fazendo
com que qualquer manifestação de senso crítico,
saudável numa verdadeira democracia (que já não
considera o ato como "subversivo"), seja vista como
coisa fora de moda, deprimente ou "anti-social".
O
conformismo é "justificado", assim, por uma
realidade "alegre", "livre" (mesmo com libertinagens
em prol de sexo, violência e debilidade mental que desafiam
os conceitos mais liberais de moral e estética cultural)
e "democrática" – apesar de 99% do que
representa esse universo de "modernidade" serem decididos
por meia dúzia de empresários do entretenimento,
de donos de blocos carnavalescos e apresentadores de TV como
Luciano Huck – que inspira uma preguiçosa satisfação
nas pessoas, mesmo nas populações pobres, que
esquecem suas misérias vendo seus supostos representantes
expostos no circo de baixarias da televisão.
Vivência
e conhecimento
A
mídia que se dedica à cultura passadista, salvo
exceções, se contradiz em seus propósitos.
Pretendendo ser uma espécie de "encontro" entre
as gerações mais adultas que, décadas atrás,
apreciavam de utensílios a programas de TV, essa mídia
peca em usar uma linguagem infantilizada. As revistas Flashback
e Mundo Estranho, derivadas da série Superinteressante
da Editora Abril, são um típico exemplo disso.
A
edição das páginas cria uma estética
escolar, claramente irônica, e os textos, embora informativos,
são carregados de gírias, comentários irônicos
e os títulos publicitários que corrompem a maior
parte da imprensa no Brasil. O pretexto é tratar dos
assuntos com uma linguagem "acessível" e de
forma "bem-humorada". Só que isso está
se tornando um lugar comum na mídia de entretenimento
no país. Em muitos casos, o que seria bem-humorado apenas
está sendo pateticamente "engraçadinho".
A
impressão que se tem é que os textos são
destinados a um público que não vai além
dos 18 anos de idade e nem sequer havia entrado na universidade.
Então, por que essas publicações falam
do passado, se pela linguagem adolescente não parecem
ser destinadas aos adultos saudosos das referências do
passado?
Outras
gerações também se lembraram da infância
quando se recordavam do passado. Mas, sendo hoje adultas, essas
pessoas juntam o saber vivenciado ao saber histórico,
aprendido ao longo dos anos.
Reles
filosofia
As
memórias do passado, para uma pessoa adulta, são
a soma de referências que juntam a experiência de
vida na infância e juventude com as referências
sociais transmitidas por amigos e parentes e que escapam da
memória dos saudosistas. A elas também se juntam
referências históricas aprendidas ao longo do tempo,
sobretudo no cotidiano escolar e universitário.
A
geração que foi criança nos anos 50, por
exemplo, também se lembra de bolinhas de gude, de suas
primeiras bicicletas, de seus brinquedos da Estrela e da Trol,
de suas balas Juquinha, goiabadas Cascão, biscoitos Aymoré
e refrigerantes "caçula" da Antarctica. Mas
sabia sobre o macarthismo, sobre o surgimento da televisão
no Brasil, sobre a tragédia de Getúlio Vargas,
a colocação em órbita do Sputnik pelos
russos, acirrando a Guerra Fria entre os EUA e a URSS.
Só
para se ter uma idéia, um dos maiores escritores da atualidade,
Ruy Castro, certamente não seria metade do que é
se ele, nascido no fim dos anos 40, tivesse se limitasse a estudar
a humanidade depois dos anos 50 e a entender essa década
apenas por suas memórias de infância. Se fosse
por essa metodologia que marca a juventude atual, certamente
não teríamos sequer 1% da brilhante bibliografia
do jornalista. E ele se limitaria a falar de Beatles e Jovem
Guarda, enquanto Chega de saudade se limitaria a reles
filosofia de vida para a curtição do presente.
Até
quando o Brasil continuará sendo o país da memória
curta?
(*)
Jornalista em Salvador
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