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Informação:
Observatório
da Imprensa - 22/02/2005
Luciano
Martins Costa (*)
A
reportagem de capa da revista Business Week (edição
de 15/1), intitulada "O futuro do New York Times",
é leitura obrigatória para jornalistas, gestores
da mídia e cidadãos interessados no futuro do
jornalismo como o conhecemos desde sempre.
O
texto, conduzido por Anthony Bianco (com o auxílio de
John Rossant, em Paris e Lauren Gard, em Nova York), traça
um retrato cruel do dilema que assalta o atual proprietário
do mais respeitado jornal dos Estados Unidos, Arthur Ochs Sulzberger
Jr: como conciliar o necessário crescimento da empresa
com a preservação da primazia do jornalismo de
qualidade?
Com
o valor de suas ações desabando 25% – de
53,80 dólares em meados de 2002, para os atuais 40 dólares
–, a New York Times Company, empresa proprietária
do conglomerado que inclui, além do NYTimes, The Boston
Globe, The International Herald Tribune, quinze pequenos diários
e oito emissoras de televisão, vê seu futuro suspenso
por um plano de negócio de longo prazo cujas chances
de sucesso são colocadas em xeque pelas tendências
de curto e médio prazo.
Aposta
de longo prazo
A
rigor, Sulzberger sustenta um plano de dez anos atrás,
quando o NYTimes lançou sua versão online e apostou
tudo no conteúdo do jornal e na tática de estender
o alcance de sua circulação, enquanto ampliava
a capacidade multimídia da empresa.
Depois
de buscar uma dimensão global de sua presença,
ao adquirir o controle do International Herald Tribune, em 2002,
ele agora investe na expansão e melhoria do diário
europeu. Seu maior problema, porém, é que as circunstâncias
mais negativas deste período afetam justamente a maior
fonte de poder da companhia: aparentemente, o mercado não
retribui com o valor proporcional aquilo que seus editores consideram
jornalismo de qualidade.
Depois
de ver sua autoridade moral se esfacelar ante a ação
criminosa do repórter Jayson Blair, demitido em maio
de 2003 por haver apresentado para publicação
dezenas de histórias exageradas, mistificadas ou simplesmente
inventadas, o jornal mais respeitado do mundo teve sua credibilidade
afetada também pela revelação de que algumas
reportagens de seus correspondentes haviam aceitado como verossímeis
descrições exageradas sobre a capacidade do antigo
governo de Saddam Hussein, no Iraque, de produzir armas de destruição
em massa, ajudando a justificar a invasão do país.
"O
Império Romano que era a grande mídia está
se acabando, e nós estamos entrando num período
quase feudal, no qual existirão muito mais centros de
poder e influência", decreta Orville Schell, decano
da escola de Jornalismo da Universidade da Califórnia,
em Berkeley.
Aquilo
que alguns analistas chamam de mídia dominante, formadora
de tendências, está em plena decadência não
apenas por seus erros, diz a reportagem da Business Week –
também contribui para a crise o cenário político
norte-americano, no qual se representa o que Schell chamou de
período "quase feudal", em cujo centro está
a corte ultraconservadora do presidente George W. Bush, que
não hesita em proclamar que a grande mídia já
não conta como antes.
Por
trás dessa complexidade leve-se ainda em consideração
o acelerado avanço da tecnologia que praticamente universaliza
o poder de publicar. "É uma espécie de desagregação
da estrutura molecular da mídia", sentencia Orville
Schell.
Douglas
Arthur, analista de mídia do Morgan Stanley, uma das
maiores instituições financeiras do mundo, apregoa
que os números da New York Times Company estão
"à beira do abismo".
Ainda
assim, insiste Arthur Sulzberger Jr., a aposta é na recuperação
em longo prazo do valor do "bom jornalismo".
Leitores
pouco exigentes
Atualmente,
o braço online da empresa – NYTimes.com –
se mantém entre os dez sites de conteúdo jornalístico
mais visitados nos Estados Unidos. The New York Times Television
é um dos maiores produtores independentes de documentários
do país, mas o próprio Sulzberger vê com
desconfiança esse sucesso: "Começa a ser
um problema o fato de estarmos treinando uma geração
de leitores para obter informação de qualidade
de graça", disse à Business Week.
Esse
é de fato o centro do turbilhão que ele precisa
vencer. A maioria dos leitores do New York Times agora prefere
ler suas reportagens e artigos via internet, mas a empresa tira
90% de seu faturamento da edição impressa. E o
modelo de negócio que parece justificar o custo de produzir
jornalismo de qualidade é justamente aquele que não
está crescendo, enquanto o modelo que cresce –
a internet – não está produzindo resultados
suficientes para financiar jornalismo com a mesma qualidade,
resume John Battelle, co-fundador da Wired e outras revistas
e negócios online.
O
drama do New York Times não parece abalar a confiança
de seu controlador – também vista por alguns analistas
como mera arrogância. Deste posto de observação,
a reação olímpica do tradicional diário
nova-iorquino a recentes equívocos de seu correspondente
no Brasil é, no mínimo, reveladora de que nem
mesmo aquilo que ele considera jornalismo de qualidade deve
ser aceito unanimemente como tal.
E
se é fato o que constatam alguns dos especialistas ouvidos
pela Business Week, o dilema que afeta Sulzberger se repete
também por aqui, nos veículos que chamamos comumente
de "a grande mídia". Com a agravante de que
não chegamos a formar uma massa significativa de leitores
mais exigentes.
(*)
Jornalista
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