Informação:
Observatório da Imprensa - 27/07/2004
Alberto
Dines
Texto
apresentado em Porto Alegre (RS), em 27/7/04, no Congresso
IAMCR 2004, da International Association for Media
and Communication Research, reunido de 25 a 29/7/04
na PUC-RS, sob o tema central "Comunicação
e democracia: perspectivas para um novo mundo".
A IAMCR é a maior associação
internacional voltada para pesquisa em comunicação.
Criada em 1957, tem 2,3 mil membros de 70 países
e possui status consultivo "A" na Unesco,
categoria dada somente a um restrito número
de associações não-governamentais
de natureza internacional. Intertítulos da
redação do OI. |
Gostaria
de intitular este trabalho de "A queixa de Semprun"
e dedicá-lo ao franco-espanhol Jorge Semprun, escritor
e militante da causa democrática. Indispensável,
porém, estabelecer uma premissa:
O
totalitarismo é um conceito estático,
sem nuances ou meios-termos. A democracia e a democratização
são processos dinâmicos, às vezes
retilíneos, outras vezes ziguezagueantes, às
vezes vagos e omissos. A democracia pode ser relativizada,
nuançada. Inclusive com a existência
paralela de focos totalitários ou autoritários
decorrentes de situações antigas não
reavaliadas ou situações novas avaliadas
precariamente. |
Esta flexibilidade do processo democrático
pode ser entendida de diversas formas e pode gerar inúmeras
contradições. Jorge Semprun, quando ministro
da Cultura do governo de Felipe Gonzalez, diante de uma perversa
cruzada de denúncias da imprensa conservadora espanhola
em meados dos anos 1990, fez a perturbadora declaração
ao diário El País: "A questão da
liberdade de expressão é um dos problemas não
resolvidos pela democracia".
O surpreendente ceticismo do escritor, cujos
compromissos com a causa democrática e humanista não
podem ser colocados em dúvida, tem a ver com a impossibilidade
de estabelecer paradigmas para medir o grau de democracia
de um determinado regime. A democracia espanhola então
vigia plenamente, mas a liberdade de expressão poderia
estar comprometendo a própria vigência do processo
democrático.
Isto significa que a democracia é imponderável,
obrigatoriamente insuficiente. Há sempre uma brecha
para ser reparada, um passo adiante para ser dado, uma nova
necessidade a ser satisfeita. A sociedade humana cria continuamente
novos parâmetros sociais, econômicos e tecnológicos
que o sistema democrático deve estar apto a acompanhar
e proteger.
Para caracterizar um regime como democrático
não bastam a Constituição, os códigos
legais e a estrutura institucional baseadas na defesa dos
direitos humanos, na liberdade de expressão e no equilíbrio
entre os poderes. Uma série de fatores condicionadores
e relativizadores tornam cada democracia diferente da outra
e cada conquista democrática uma exigência para
novos passos.
Ao
contrário do que possa parecer, Semprun não
manifestou uma descrença no sistema. Ele apenas indicou
que estamos diante de um processo em
construção, um desafio para os inquietos
e insatisfeitos que não se contentam com formalidades.
A
questão da liberdade
A democracia não é finita, está
sempre em busca de avanços, inacabada e inacabável,
é uma das missões intermináveis de que
falava Immanuel Kant (1724-1804). Democracia é uma
competição sem ponto final. Por isso, é
mais correto falar em democratização do que
em democracia. Melhor estudar modelos de verificação
das liberdades do que contentar-se com fórmulas estatutárias
rígidas que freqüentemente não saem do
papel ou são implementadas insuficientemente.
Colhidos no noticiário recente, aqui
vão alguns exemplos desta variedade e diversidades
de parâmetros democráticos:
**
Brasil
e Argentina praticamente igualam-se, estão no mesmo
patamar de liberdades, dispõem do mesmo arcabouço
para garantir a livre circulação de informações.
No entanto, há poucos anos fui a Buenos Aires para
mostrar o que aqui fazemos em matéria de discussão
pública sobre o desempenho da imprensa. E, não
apenas eu, mas também os jornalistas argentinos presentes
ao evento, fomos obrigados a reconhecer que neste campo o
processo de brasileiro está mais avançado porque
leva o debate sobre a qualidade da informação
para o âmbito do destinatário da informação
– o público. Se a participação
do leitor é um índice capaz de aferir o nível
de democratização, neste ponto temos vantagens
sobre nossos vizinhos.
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Agora olhemos para o norte: Brasil e Estados Unidos dispõem
de órgãos legitimados pelo Senado para examinar
questões relativas à Comunicação
Social. Aparentemente estariam no mesmo nível de democratização.
No entanto, enquanto a FCC (Federal Communications Comission)
é uma agência reguladora com poder efetivo para
controlar a questão da concentração da
imprensa e evitar abusos nos meios eletrônicos, o nosso
Conselho de Comunicação Social é apenas
um órgão consultivo do Congresso Nacional, um
fórum para levantar questões, sem poder, quase
decorativo.
**
Ainda nesta esfera: enquanto o Senado dos EUA tem legitimidade
para vetar ou reverter certas resoluções da
FCC, o Congresso brasileiro não tem qualquer credibilidade
nesta matéria porque grande parte dos deputados e senadores
são proprietários de empresas de comunicação
eletrônica numa evidente situação de conflito
de interesses. Impossível qualquer alteração
no status quo, os congressistas jamais abdicarão de
seus privilégios mesmo que o nosso Conselho de Comunicação
Social venha a manifestar-se neste sentido.
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Na França e em alguns países europeus, os principais
veículos dispõem de Conselhos de Redação
ou Comitês de Redatores democraticamente eleitos pelos
jornalistas para funcionar como moderadores entre os acionistas
da empresa e aqueles que foram escolhidos para dirigir o veículo.
No entanto, no ano passado o Comitê de Redação
do Le Monde curvou-se à determinação
dos chefes da redação e demitiu um dos jornalistas
mais conhecidos na França – o crítico
de TV Daniel Schneidermann – porque este ousou criticar
o jornal num livro de sua autoria (Le couchemar médiatique).
Isto significa que o Comitê de Redação,
um dos instrumentos mais avançados para promover a
democratização dentro dos meios de comunicação,
num dos melhores jornais do mundo, funcionou como entidade
repressora, totalitária.
**
O famoso The New York Times, considerado um jornal de referência
mundial, causou uma comoção mundial quando expôs
com grande destaque os erros, adulterações,
invenções e plágios cometidos por um
jovem repórter da editoria de assuntos regionais, Jayson
Blair. A direção do jornal demitiu-o, substituiu
o comando da redação, alterou os procedimentos
internos e contratou um ombudsman para evitar repetições.
No entanto, um ano depois da invasão do Iraque, quando
os editores do jornal perceberam que foram enganados pelo
governo de George W. Bush no tocante à existência
de arsenais de armas de destruição em massa,
esses editores publicaram um mea-culpa comparativamente discreto
– esquecidos de que àquela altura os erros de
avaliação do jornal haviam contribuído
para tirar a vida de um milhar de soldados americanos.
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Para contrabalançar a hegemonia dos canais all news
da TV americana, e oferecer ao mundo árabe uma cobertura
mais equilibrada e mais democrática do que acontece
no Oriente Médio, foram lançados dois canais
em língua árabe – al-Jazira e al-Arabia.
Mas os países proprietários destes canais estão
longe de ser considerados democracias e o seu noticiário
está longe de oferecer aos respectivos públicos
uma cobertura eqüidistante. Pergunta-se: o mero confronto
entre coberturas igualmente manipuladas é suficiente
para eliminar o fanatismo e promover o diálogo?
Pode-se listar pelo menos uma dezena de discrepâncias
e variáveis em matéria de democratização
do processo informativo. E, como Jorge Semprun, podemos reconhecer
que embora a democracia esteja consolidada há quase
60 anos em grande parte do mundo, a questão da liberdade
de expressão ainda não conseguiu ser equacionada
de forma consensual.
Relação
transparente
Deixando de lado nuances e sutilezas, é
perfeitamente possível distinguir um regime totalitário
de um regime democrático. Sob o ponto de vista jurídico
e "cientifico", o diagnóstico é possível:
basta conferir regulamentos, estatutos, códigos e suas
aplicações. Mas ainda não nos demos ao
trabalho para diferençar um processo dinâmico
de democratização dos meios de comunicação
dos processos que vigoram numa democracia formal e estática.
A queixa de Semprun situa-se no plano subjetivo
e moral, mas também pode ser encarada de forma concreta
e objetiva. A democracia pode resolver os imponderáveis
e as contradições da liberdade de expressão
sem afastar-se dos seus compromissos essenciais. É
possível converter os eufemismos e as hipocrisias das
democracias formais em movimentos transparentes e reais sem
colocar em risco qualquer das conquistas democráticas
dos últimos 200 anos. Basta que a dialética
democrática seja levada às últimas conseqüências.
O que poderíamos chamar de "A
queixa de Semprun" não se situa no plano da quimera
impossível de alcançar. Um elenco das variáveis
e, principalmente, o estabelecimento de metas a serem alcançadas
pode converter-se num "mapa da estrada" cujo destino
é a democratização continua. Algumas
destas metas:
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Evitar a concentração e a propriedade cruzada
de veículos, sobretudo nas pequenas e médias
comunidades.
Onde houver uma mídia concentrada haverá limitações
à diversidade informativa, ponto fulcral do sistema
democrático.
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Impedir a presença do Estado
no processo informativo. Seja como proprietário
de veículos de informação ou como distribuidor
de verbas de publicidade para os veículos de informação,
o Estado não pode interferir – a não ser
ampliando seus canais informações e o acesso
público a eles.
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Transformar os veículos estatais
numa mídia alternativa, efetivamente pública,
sujeita ao escrutínio da sociedade, apta a manter-se
eqüidistante da competição entre as empresas
privadas e as fontes de informação do Estado.
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Procurar a completa separação
entre os poderes de modo a evitar que nem o Legislativo
ou o Judiciário possam influir no sistema informativo,
a não ser por meio de emendas ao texto constitucional.
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Instituir corregedorias parlamentares
para impedir que representantes do povo sejam também
concessionários de meios de comunicação
eletrônica. Tornar esta dupla situação
um obstáculo ao desejado equilíbrio entre os
poderes.
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Iniciar o debate para a criação
de uma agência reguladora específica, legitimada
pelo Congresso, capaz de reparar distorções
na esfera da mídia eletrônica, compatibilizar
as novas tecnologias ao espírito da legislação
vigente e garantir a livre competição.
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Estimular a criação de
códigos e mecanismos auto-reguladores transparentes
e públicos em veículos, corporações
ou segmentos da indústria de comunicação.
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Estimular a criação de
entidades no Terceiro Setor dedicadas à promoção
do debate público sobre o desempenho dos meios
de comunicação.
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Estimular – inclusive com instrumentos
fiscais – a criação de Comissões
de Redação e/ou Ouvidores com os seus
nomes constantes nos expedientes dos veículos.
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Tornar públicas as dívidas
fiscais das empresas de comunicação para
tornar transparente o relacionamento do Poder Executivo com
a mídia.
República
mais aberta
Obviamente, este é apenas um esboço
inicial, ponto de partida. A idéia subjacente neste
conjunto de estímulos é desenvolver o conceito
de "controle social". A palavra controle é
usada aqui na sua acepção inicial, francesa
– contr’role, algo como oposição,
contrapartida ou contrapoder.
Contrapoder é a palavra-chave. Quando
a imprensa na condição de contrapoder for capaz
de gerar – ou pelo menos não impedir –
a criação de contrapoderes capazes de evitar
os abusos que ela mesmo possa cometer, estaremos implantando
um moto-contínuo democrático apto a corrigir-se
permanentemente. Esta é a democratização
sem limites.
A essência da "queixa de Semprun"
está na idéia de que a mídia deve resistir
à tentação de converter-se em poder político
ou protagonizar o processo político.
A
democratização da mídia compreende um
processo contínuo de democratização dentro
do próprio aparelho do Estado. Uma República
menos olímpica e mais aberta à participação
nunca será totalitária. E se a mídia
pretender converter-se num instrumento desta democratização
precisará abdicar de alguns de seus privilégios.
Caso contrário, continuará sendo apenas uma
aproveitadora de suas vantagens.