| Informação:
Comunique-se - 28/12/2004
Ricardo
Kotscho
Fonte:
Carta
Capital
Parece
praga. Pois, há tempos, desde quando ainda trabalhava
como repórter, só ouço falar nisso: as
empresas de mídia estão em crise financeira. Sobram
dívidas, falta gente, falta dinheiro para tudo, passaralhos
sobrevoam as redações. Mas será que é
só mesmo uma questão de grana, fruto de investimentos
malfeitos pelas empresas, quando o câmbio era de mentirinha?
Ou vivemos, de fato, nesses últimos anos, uma tremenda
crise de criatividade, de ousadia e de talento para ganhar,
com medo de perder o jogo?
Faço muitas perguntas
quando escrevo porque, ao contrário de certos colunistas
que já sabem tudo e não se preocupam em brigar
com os fatos que contrariam suas teses, tenho cada vez mais
dúvidas do que certezas na vida. Deve ser a idade. Só
sei que esta choradeira generalizada, tanto de empresas como
de profissionais, não vem de hoje, vem de loooonge, como
diria o velho Leonel de Moura Brizola. Alguma coisa mudou no
nosso ramo ainda no fim dos anos 80 do século passado.
Percebi que a imprensa brasileira
estava deixando de cobrir o Brasil fora do eixo Brasília–Rio–São
Paulo, no dia em que me deparei com minha própria ignorância.
Repórter de um dos maiores jornais do País, na
época, descobri que não sabia quem era Chico Mendes.
Explico: no dia em que ele morreu, o então candidato
Luiz Inácio Lula da Silva, com quem estava começando
a trabalhar como assessor, em sua primeira campanha presidencial,
me ligou de madrugada para encontrá-lo logo cedo no aeroporto
e seguir para Xapuri, no Acre.
Antevéspera do Natal
de 1988, não me animava nada viajar para aquele mundão
perdido na floresta num avião pequeno. Sem confessar
que não sabia nem quem era Chico Mendes, arrumei alguma
desculpa e não fui. Lembro-me que ainda cheguei a argumentar
bestamente que não daria para ir a todo enterro de sindicalista
morto porque deste jeito a gente não faria campanha...
Acabou indo com ele nosso amigo Frei Betto e, na volta, fiquei
sabendo que eles passaram um sufoco danado para chegar lá
no meio de um temporal.
Não só eu não
sabia quem era Chico Mendes, como a imprensa brasileira quase
toda só descobriu a importância do líder
seringueiro depois que saiu uma alentada reportagem no New York
Times, com chamada de primeira página e tudo. Quantos
outros Chicos Mendes não devem existir espalhados por
este Brasil afora, hoje, que nunca mereceram a visita de um
repórter ou uma notícia na imprensa?
Vamos tentar entender o que
aconteceu, ainda antes do advento da TV a cabo, da internet,
da telefonia privatizada e de tantos outros sorvedouros de dólares
que levaram a mídia em geral à atual situação
de penúria. Nos longos tempos da censura dos militares,
que não deixaram nenhuma saudade, a imprensa não
podia falar de política, do que acontecia nos gabinetes
dos generais em Brasília, do poder, enfim. Em compensação,
abria espaço para se tratar de qualquer outra coisa,
de índios a garimpeiros, de sem-terra a sindicatos, de
igrejas a lupanares, de novas fronteiras agrícolas a
novas tendências da cultura, e de personagens até
então desconhecidos, como Chico Mendes.
Todos os grandes veículos
se orgulhavam de suas generosas equipes de sucursais e correspondentes,
que enviavam notícias e reportagens de todos os muitos
Brasis que aqui coabitam. Apesar da censura, cada jornal ou
revista era capaz de surpreender seus leitores com revelações,
novidades, pessoas e lugares estreantes no noticiário.
Por isso, ao contrário do que acontece hoje, eram diferenciados,
cada um tinha sua própria cara, seu caráter único
em lugar do pensamento único vigente. Por isso, também,
ao contrário do que acontece hoje, o telejornalismo vinha
a reboque da mídia impressa.
Hoje, o único veículo
que faz uma cobertura verdadeiramente nacional, com equipes
de jornalistas em praticamente todas as regiões do País,
é a TV Globo, com suas afiliadas. O restante limita-se
a cobrir o que ocorre nas principais cidades e nos seus arredores
mais próximos, de preferência sem tomar sol ou
chuva, sem sair da redação. Já escrevi
alguma vez que, se amanhã cortarem os telefones e a internet
das redações, não tem jornal no dia seguinte.
O que aconteceu? Em qualquer redação de mídia
impressa, hoje, às 8 da noite, nenhum editor se arrisca
a perder o noticiário do Jornal Nacional.
Em lugar da reportagem, ganharam
espaço colunistas de todo tipo, lavradores de “bastidores”
e notas plantadas, esta praga que levou o Elio Gaspari a constatar
que a imprensa brasileira tem mais colunas do que a Grécia
Antiga. É uma deformação que levou os jornais
– não só os três grandes, de circulação
nacional, mas também os principais veículos regionais,
que reproduzem as mesmas colunas – a se parecerem a cada
dia mais uns com os outros.
Se alguém pegar um avião
em Porto Alegre para ir a Manaus, e receber jornais novos em
cada escala, vai achar que já leu tudo antes. O mesmo
acontece com as semanais de grande circulação
e pequena criatividade, que alternam os temas de suas capas
(saúde, sexo, comportamento, dietas, religião,
a nova mulher, o novo homem, o salto no futuro e, vez ou outra,
um dossiê “explosivo” ou uma fita “exclusiva”),
fazendo a gente pensar que já viu aquilo em algum lugar
no ano passado. Quanto mais reformas gráficas e editoriais
fazem, mais todos se parecem.
O grande problema, na visão
já cansada deste velho jornalista, não é
de projeto gráfico ou editorial, mas de projeto de vida.
De que forma a mídia impressa pretende sobreviver, se
não mudar seus conteúdos, melhorar a qualidade
dos seus textos, buscar novos leitores sem perder os antigos,
se não investir na formação de profissionais
de talento e reconstruir suas redes de sucursais e correspondentes,
um fantástico celeiro de bons repórteres?
Urge descentralizar recursos,
pautas e bons profissionais para produzir um noticiário
que não seja repetição do que as rádios,
as tevês e os sites e blogs já informaram no dia
anterior. Temos hoje um congestionamento de bons e caros jornalistas
em Brasília, enquanto regiões inteiras do País
continuam absolutamente virgens nas páginas impressas.
Num país do tamanho do nosso, a mídia impressa
será, como já foi, um instrumento vital para a
integração nacional, se democratizar as informações
e abrir espaço para notícias de e para o Brasil.
Os meios eletrônicos jamais acabarão com os impressos,
desde que esses, sem trocadilho, descubram qual é o seu
papel na história.
Rádios, tevês e
jornais têm naturezas diferentes, sim, mas a matéria-prima
de todos os veículos é a mesma: a notícia
ou a reportagem trazida por um profissional competente, que
surpreende o freguês, prende sua atenção,
garante sua fidelidade. Para isso, é preciso que a mídia
impressa deixe de lado suas teses pré-fabricadas em reuniões
de pauta e inverta de novo o processo. Ou seja, que seja capaz
novamente de descobrir e trazer notícias, tendências
e novos personagens da rua para a redação, e não
encarregando seus pobres repórteres de buscarem aspas,
se possível por telefone, para justificar suas maravilhosas
teses. Isso não depende só de dinheiro, mas de
tesão para virar o jogo diante de uma torcida cada vez
mais exigente. Tem muita gente ainda usando sua agenda de fontes
e cardápios de pautas da década passada, do século
passado, sempre as mesmas.
Os mais diversos setores da
economia brasileira estão passando deste ano para o próximo
em pleno ritmo de crescimento, com investimentos em todas as
áreas, gerando novos empregos e buscando novos mercados
mundo afora num ambiente ao mesmo tempo de estabilidade e retomada
do desenvolvimento. Claro que isso vai gerar também maior
volume de recursos para a mídia, à medida que
a concorrência crescente exigirá maiores investimentos
em publicidade. A roda voltou a girar e a mídia, com
poucas e honrosas exceções, parece ainda não
ter-se dado conta disso.
Nas minhas quatro décadas
de jornalista, completadas em outubro, já vi a imprensa
brasileira passar por vários ciclos, por altos e baixos,
com veículos subindo ou descendo no ranking de circulação
e prestígio, publicações abrindo ou fechando,
mas nunca a vi tão acomodada como agora, tão indiferenciada,
tão conformada com a ladainha do “falta grana”
para fazer coisa melhor. Se falta, e não duvido que falte,
é mais um motivo para ir à luta e buscar caminhos
capazes de descobrir onde está a grana nova, em lugar
de chorar a que foi perdida.
Aprendi isso com um veterano
amigo, o publisher da Folha, Octavio Frias de Oliveira, 90 e
tantos anos, que nunca se contentou com o que tinha. Repetia
sempre uma frase atribuída a Nabantino Ramos, um dos
ex-proprietários da Folha, mas que, desconfio, seja dele
próprio: “É simples: um bom jornal se faz
com bons jornalistas”. A cada ano, queria fazer um produto
melhor e, para isso, dizia, precisamos ter, cada vez mais, melhores
jornalistas. Por quê? Segundo as previsões dele,
feitas ainda em meados dos anos 1980, em cada grande cidade
só sobreviverá um grande jornal. “Vamos
trabalhar para que seja o nosso”, desafiava. Se todo mundo
pensar assim, com essa garra, certamente as coisas vão
melhorar – para os veículos e para os profissionais
do nobre ramo da informação.
Acredite quem quiser: já
estava encerrando este artigo por aqui, dentro do espaço
que me deram, quando me caiu nas mãos, enviado pelo amigo
repórter Ilimar Franco e trazido por minha mulher, a
Marinha, um texto do Gabriel García Márquez com
um título tão sugestivo quanto verdadeiro, pelo
menos para mim: “Jornalismo: a melhor profissão
do mundo”.
Ao terminar de lê-lo,
eu mesmo quase não acreditei: ele resume em módicos
21 parágrafos tudo o que gostaria de escrever sobre o
tema imprensa – para o ano que vem e para todos os outros
anos. Como os jovens editores desta respeitável revista
não terão coragem de cortar García Márquez,
reproduzo alguns deles:
“(...) Os jovens que saem
desiludidos das escolas, com a vida pela frente, parecem desvinculados
da realidade e de seus problemas vitais, e um afã de
protagonismo prima sobre a vocação e as aptidões
naturais. E em especial sobre as duas condições
mais importantes: a criatividade e a prática. (...) Alguns
se gabam de poder ler de trás para frente um documento
secreto no gabinete de um ministro, de gravar diálogos
fortuitos sem prevenir o interlocutor, ou de usar como notícia
uma conversa que de antemão se combinara confidencial.
O mais grave é que tais
atentados contra a ética obedecem a uma noção
intrépida da profissão, assumida consciente e
orgulhosamente fundada na sacralização do furo
a qualquer preço e acima de tudo. Seus autores não
se comovem com a premissa de que a melhor notícia nem
sempre é a que se dá primeiro, mas muitas vezes
a que se dá melhor (...)
Quer dizer: as empresas empenharam-se
a fundo na concorrência feroz da modernização
material e deixaram para depois a formação de
sua infantaria e os mecanismos de participação
que, no passado, fortaleciam o espírito profissional.
As redações são laboratórios assépticos
para navegantes solitários, onde parece mais fácil
comunicar-se com os fenômenos siderais do que com o coração
dos leitores. A desumanização é galopante.
(...) ‘Nem sequer nos
repreendem’, diz um repórter novato ansioso por
ter comunicação direta com seus chefes. Nada:
o editor, que antes era um paizão sábio e compassivo,
mal tem forças e tempo para sobreviver ele mesmo ao cativeiro
da tecnologia. A pressa e a restrição de espaço,
creio, minimizaram a reportagem, que sempre tivemos na conta
de gênero mais brilhante, mas que é também
o que requer mais tempo, mais investigação, mais
reflexão e um domínio certeiro da arte de escrever.
É, na realidade, a reconstituição minuciosa
e verídica do fato. Quer dizer: a notícia completa,
tal como sucedeu na realidade, para que o leitor a conheça
como se tivesse estado no local dos acontecimentos (...)”
Nem sei se mestre García
Márquez conhece a imprensa brasileira. Mas o seu exemplo,
ao criar a Fundação do Novo Jornalismo Ibero-Americano,
em Cartagena das Índias, na Colômbia, onde um grupo
de veteranos jornalistas independentes promove oficinas para
ensinar na prática o ofício a jovens profissionais,
bem que poderia inspirar os pais da mídia daqui.
De nada adianta colocar a culpa
de todos os nossos males na falta de grana ou na qualidade da
formação recebida pelos novos jornalistas nas
escolas. Jornalismo sempre aprendemos na redação,
no dia-a-dia do trabalho, com aqueles que chegaram antes de
nós. Agora, para terminar mesmo, fica mais uma pergunta:
temos hoje na grande maioria das nossas redações
profissionais habilitados a fazê-lo, como eu tive quando
comecei? A resposta a essa pergunta tão singela pode
ser uma boa pista para que a nossa imprensa entre em 2005 com
o pé direito, contemporânea do mundo e do momento
de mudanças que o País vive.
(*)
Jornalista. Ele foi Secretário de Imprensa e Divulgação
do presidente Lula.
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