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Informação:
Observatório
da Imprensa - 15/02/2005
Ivo
Lucchesi (*)
Se
época há na qual muito não caiba tematizar
a moral, é justamente aquela destinada à euforia
do Carnaval. É nesse período que mais se permitem
certas licenciosidades. O que, talvez, crie algum tipo de embaraço
seja o fato de nem sempre ficar claro o que é licenciosidade
moral e o que é transgressão ética. Sabe-se
que a fixação de uma fronteira rígida entre
ética e moral demandaria esforço analítico
maior que as pretensões do presente artigo. Todavia,
para não se deixar totalmente órfão o pensar
sobre a questão, vale timidamente equacionar um mínimo
de conceituação.
A
moral se refere ao campo do comportamento e costumes, sujeito,
portanto, a flexibilizações e mutações
no tempo e no espaço; a ética se destina a dar
conta do elenco de princípios com que se molda um caráter,
seja individual, seja social. Essa básica diferença
possibilita compreenderem-se certos procedimentos adotados pela
mídia no mais recente e findo reinado de Momo. Para tanto,
vamos destacar as relações entre a Rede Globo
e o desfile das escolas de samba, particularmente no Rio de
Janeiro.
Monopólio
e outros detalhes
Para
iniciar o que aqui pretendo criticamente sinalizar já
serviria pôr em discussão a validade ética
a respeito do direito a transmissões exclusivas num país
no qual, pela legislação vigente, as emissoras
são uma concessão pública. Moralmente o
fato em si nada contém de perturbador. Afinal de contas,
alguém, por contrato, compra algo que outrem oferece.
Juridicamente, também nada a obstar. É um regime
capitalista e, como tal, o princípio de compra e venda
está previsto e referendado. O problema, entretanto,
por um viés ético, surge quando à lembrança
vem o fato de ser o desfile uma expressão da espontaneidade
popular, a despeito das regras e evoluções marcadas
que a legião de alas tenha de cumprir.
Até
onde se sabe, os desfilantes não são profissionais
pagos por esse ou aquele. São cidadãos de comunidade,
turistas e interessados em daquele momento participar. Pelo
contrário, além de nada receberem, ainda pagam
e caro. Enfim, pelo menos em tese, desfilantes não são
contratados nem da escola e, menos ainda, de qualquer rede de
televisão.
A
argumentação proposta serve para deixar claro
que o problema maior não reside no monopólio,
e sim na natureza do "objeto". A exclusividade, por
exemplo, da transmissão de uma Copa do Mundo já
tem outras implicações. Nesse evento, todos são
profissionais e, pelos seus contratos, em meio a inúmeras
cláusulas, promovem-se acordos. No caso dos desfiles,
volto a enfatizar, o perfil é bem outro. Contudo, algo
de muito mais grave ocorreu no desfile e, salvo um olhar equivocado
deste espectador, nenhum registro na imprensa foi dado em tom
de crítica.
O
fato não é outro senão indagar que direito
tem uma rede de televisão, pelo simples direito à
transmissão exclusiva, de escolher uma dada agremiação
e nela inserir o enredo de novela que está no ar. Por
favor, antes que alguém venha com a história de
que novela e realidade se cruzam, é bom lembrar que –
aí entra a questão ética – infelizmente
o desfile é uma competição a envolver prêmios
e prestígio maiores aos vitoriosos. Este aspecto torna
inviável e indefensável a possível contra-argumentação.
É
óbvio que vários filmes já foram exibidos
nos quais filmagens de desfile se fazem presentes. Também
isto nada tem a ver com o problema apontado. Quando o filme
é exibido, aquele desfile já pertence ao passado
e, por conseguinte, nenhuma influência exerce sobre o
julgamento. Será que, no caso da relação
entre desfile e novela, igual isenção haverá?
Infelizmente,
parece caber a este articulista a tarefa que deveria ser de
quem profissionalmente se assina como crítico de TV,
a menos que – o que será ainda mais grave –
nenhum crítico de TV perceba nisso problema. Que respondam
os críticos. Todavia, antes de qualquer suposta resposta,
nenhuma retirará o manto de um delito ético, simplesmente
porque é um delito cujo apagamento não se dá
por argumentação. O quadro fica ainda mais eticamente
agravado quando outra agremiação é levada
a exibir-se – o que já ocorreu em anos anteriores
– no Big Brother Brasil.
Muito
a aprender
Mais
estranho ainda é a carnavalesca de uma das agremiações
ser contratada da Globo News. Bem, sem ilações
indevidas, o fato é que, coincidentemente, nas quatro
primeiras colocações, três mantêm
laços com a Rede Globo. Beija-Flor, Grande Rio e Imperatriz
Leopoldinense obtiveram, respectivamente, os 1°, 3°
e 4° lugares. Como a rede de coincidências ainda não
esgotou, atente-se para o detalhe: a agremiação
a integrar a novela Senhora do Destino conquistou, na ficção,
a mesma colocação da escola de samba que, na realidade,
desfilou. Não é a glória? De quem? Como
mera ilustração, vale reproduzir um dado jornalístico.
Na seção "Televisão", no caderno
"Ilustrada" (Folha de S. Paulo, 11/2/05), assinada
por Daniel Castro, constava a seguinte matéria:
Frase
– De Aguinaldo Silva, sobre a coincidência
de a Grande Rio, escola que cedeu seu desfile à
Unidos de Vila São Miguel, de "Senhora do
Destino", levar o mesmo terceiro lugar da agremiação
fictícia: "Essa novela é abençoada.
Tudo dá certo". Silva escreveu que a São
Miguel ficaria em terceiro muito antes do Carnaval. |
De
pronto, esclareça-se que nenhuma alusão desabona
a criação ficcional do autor da novela. Seguramente,
seu depoimento é verdadeiro. O problema ético
decorre da decisão que outras esferas tomam, ignorando
contaminações que favorecem (ou podem favorecer)
desvios de conduta. Em princípio, ninguém está
errado. Todavia, o ideal e, eticamente correto, seria não
haver monopólio de exibição e, em havendo,
nenhuma relação direta com o espetáculo
que envolve tantas vidas (muitas delas sofridas e repletas de
vicissitudes).
O
fato de pagar a exclusividade de uma transmissão de uma
festa pública não confere direito a relações
que correm o risco de serem promíscuas. Como se vê,
o Brasil ainda tem muito a aprender com o que seja a prática
da democracia cujo profundo sentido não consiste em digitar
um número numa maquininha em dias e horários definidos.
(*)
Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ,
professor-titular do curso de Comunicação das
Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro
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