|
Informação:
Observatório
da Imprensa - 09/11/2004
Luiz
Weis
Na
grande imprensa brasileira, o dia seguinte da eleição
nos Estados Unidos foi da escrachada vitória da Folha
de S.Paulo sobre a concorrência. E esta, por sua vez,
foi a vitória de uma estratégia editorial para
tempos de escassez.
Atado
pela crise que não faz muito produziu uma hecatombe na
sua redação, o jornal perdeu a capacidade de cobrir
todas ou quase todas as coisas de que o leitor tem o direito
de ser informado, em troca dos seus reais.
A
mero olho nu dá para ver que o Estado de S.Paulo e o
Globo oferecem um volume bruto de noticiário consistentemente
maior e mais abrangente do que a Folha, qualquer que seja o
balanço que se queira fazer da qualidade do produto jornalístico
oferecido pelos três.
Diante
das suas limitações, o jornal dos Frias teria
decidido este ano concentrar o poder de fogo de que ainda dispõe
em três grandes acontecimentos: os Jogos Olímpicos
de Atenas, as eleições municipais no Brasil e
a eleição nacional nos Estados Unidos.
No
primeiro caso, perdeu o ouro para o Estadão. No segundo,
dividiu os louros com o Globo. No terceiro – e está
se falando exclusivamente da edição que mais interessa,
a do day after – venceu o concorrente carioca por pontos
e pôs a nocaute o adversário paulista.
"Indisfarçável
simpatia"
Poucos
resultados da batalha inglória que é tirar um
jornal a cada 24 horas hão de machucar tanto o jornal
dos Mesquitas como o de ser batido – e ainda por cima
inapelavelmente, como diziam os cronistas esportivos –
na cobertura do exterior.
Nesse
setor, nenhum outro jornal brasileiro tem um retrospecto comparável
ao do Estadão – desde a Primeira Guerra Mundial.
O jornal cobriu a Guerra Fria como se dela estivesse participando
(decerto os seus donos achavam que estavam participando).
Mas
o fato de o jornal ter se instalado desde a primeiríssima
hora na espaçosa trincheira dos Estados Unidos, apoiando,
por exemplo, a invasão do Vietnam e todos os golpes praticados
em nome da democracia, não impede que se reconheça
que os brasileiros que não lessem regularmente periódicos
estrangeiros só nele encontrariam, anos a fio, amplo,
destacado e bem-editado noticiário internacional.
Portanto,
há de ter sido humilhante para a "Casa" e decepcionante
para o leitor o modo como o Estado deu a vitória de Bush.
O vexame se dá a ver já na manchete da primeira
página, "Bush, reeleito com votação
recorde: ‘A América falou’".
Afora
a praga dos dois pontos, começa que Kerry também
obteve uma votação recorde para um candidato derrotado
– o que no mínimo lança dúvida sobre
a importância "manchetal" da informação.
Por fim, puxar para o título uma batida figura de retórica
é de uma falta de imaginação de dar dó.
Já
a concorrência foi direto à jugular do ocorrido
– por que o presidente triunfou. "Onda conservadora
dá vitória completa a Bush", respondeu a
Folha. "Voto pelo isolamento e onda conservadora reelegem
Bush", preferiu o Globo.
Talvez
a expressão "pelo isolamento" não tenha
sido a mais adequada; valeu, de qualquer maneira, a intenção
de explicar ao leitor um resultado com o qual não era
de esperar que contasse, de tanto que foi instado a torcer contra
Bush. Como escreveu o ombudsman da Folha Marcelo Beraba, "foi
indisfarçável a simpatia dos diários brasileiros
pela candidatura democrata".
Até
o Valor, contido como convém a um jornal de negócios,
produziu uma manchete mais informativa do que a do Estadão:
"Bush é reeleito com mais poderes".
Na
íntegra
Pode-se
continuar com essas comparações, passo a passo.
Das chamadas nas primeiras páginas aos textos internos,
o padrão se repete. Um único exemplo para não
cansar – o dos lides das matérias principais em
cada diário.
**
No Estado: "O presidente americano, George W. Bush, ganhou
ontem uma das mais acirradas eleições à
Casa Branca, com a maior votação já recebida
por um líder americano – cerca de 59 milhões
de votos – e prometeu imediatamente usar o forte mandato
que recebeu das urnas ‘para lutar (sic) essa guerra contra
o terror com todos os recursos do nosso poder nacional’."
**
Na Folha: "Amparado por uma nova onde conservadora, o presidente
republicano dos Estados Unidos, George W. Bush, 58, obteve ontem
uma vitória completa sobre o seu adversário democrata,
o senador John Kerry, 60, na eleição norte-americana
de 2004."
**
No Globo: "Ao realizar uma primeira e rápida avaliação
no início da tarde de ontem, no Salão Oval da
Casa Branca (…), Karl Rove, o principal estrategista da
campanha de reeleição do presidente George W.
Bush, virou-se para este e o grupo de assessores reunidos ali
e comemorou: – Viram só? Nem guerra no Iraque,
nem economia. Ganhamos graças à nossa política
de segurança nacional e à agenda social de valores
tradicionais, a defesa da família e da fé."
**
No Valor: "O presidente George Bush, que teve a sua reeleição
confirmada ontem, terá um segundo mandato com potencial
para deixar marcas de conservadorismo na sociedade americana
por décadas."
Ou
seja, só o Estadão não pôs em evidência
o dado essencial da eleição que o mundo inteiro
acompanhou mais de perto do que nenhuma outra antes –
o "triunfo da América profunda", como o mesmo
jornal intitularia o seu editorial a respeito no dia seguinte.
Na
quantidade, outra vitória da Folha entre os três
grandes. Foram 34 textos, entre reportagens, comentários
e entrevistas, ocupando um caderno de 14 páginas. No
Globo, 24 textos em um caderno de 10 páginas. No Estado,
19 textos e 7 páginas normais do primeiro caderno.
O
Estado, que puxou o discurso de Bush para a manchete da primeira
e a da seção, deixou de publicá-lo na íntegra.
A Folha, sim. O Globo fez, salvo engano, uma coisa inédita
no país – analisou numa matéria específica,
sob o título "Brasil: mídia é cautelosa
mas pesquisa confunde", o noticiário dos jornais
brasileiros da véspera. O Globo também foi o único
a gastar uma página com bons mapas, gráficos e
tabelas sobre o pleito americano.
Momento
crítico
Atacando
em massa e em todas as frentes, a Folha publicou textos de 15
jornalistas brasileiros (Fernando Canzian, Luciana Coelho, Clóvis
Rossi, Fabiano Maisonnave, João Batista Natali, Maria
Brant, Rafael Cariello, Márcio Senne de Moraes, Nelson
Ascher, Marcelo Billi, Érica Fraga, Fernando Eichenberg,
Eliane Cantanhêde, Carlos Eduardo Lins da Silva e Nelson
Sá), além dos articulistas convidados Luis Bitencourt
e Manuela Carneiro da Cunha. E transcreveu três artigos
estrangeiros – não se sabe se por acaso ou de propósito,
todos ingleses.
No
Estado, com exceção de três textos de side
story e de um artigo de análise da jornalista Dorrit
Harazim, compartilhada com o Globo, o único brasileiro
a assinar foi o correspondente em Washington Paulo Sotero. As
matérias transcritas da imprensa estrangeira foram sete.
(No dia seguinte, correndo atrás do prejuízo,
o jornal deu mais oito).
Ficou
patente – e não foi a primeira vez – que,
diante de um acontecimento de grosso calibre, a Folha tem mais
a quem recorrer entre os seus do que o Estado para levar ao
leitor mercadoria exclusiva e de padrão médio
para cima.
Além
disso, as comparações com a concorrência
sugerem que a recente reforma gráfica e editorial que,
entre melhoras e pioras, tornou o jornal mais fútil e
"publicitário", como apontou neste Observatório
Alberto Dines, o deixou também menos equipado em matéria
de acuidade jornalística diante de um megaevento no setor
de hard news como a eleição na América.
Se
há hoje um jornal brasileiro que deve ser examinado com
lente de aumento é o Estadão, pela impressão
que transmite de estar passando por um momento crítico
– e perigoso. Os seus erros na abordagem da vitória
de Bush, contrastando com o foco certo e o belo desempenho da
Folha (e, em não muito menor escala, do Globo), deveriam
ser suficientes para induzir a redação a comprar
a bússola mais confiável que houver no mercado.
[Texto
fechado às 17h30 de 7 de novembro]
MÍDIA
& ELEIÇÕES
O "novo" jornalismo americano.
Carlos
Eduardo Lins da Silva (*)
A
cobertura das eleições presidenciais de 2004 constituíram
desafio particularmente importante para o jornalismo americano.
O comportamento acrítico e engajado em favor da Presidência
após os atentados de 11 de setembro de 2001, e nos preparativos
e início da invasão do Iraque em 2003, havia deixado
no público mais sofisticado – e na maioria dos
próprios jornalistas – um sentimento de frustração
e desapontamento, que poderia de alguma forma ser superado durante
a campanha para a Casa Branca.
De
algum modo, no entanto, a ansiedade para provar a si mesmos
e à sua audiência que eles não estavam comprometidos
com George W. Bush pode ter levado muitos profissionais e veículos
de comunicação a cometerem erros de desinformação
similares aos observados na guerra do Iraque e nos desdobramentos
do 11 de Setembro, só que agora em direção
ideológica diversa.
Nos
grandes meios de comunicação do establishment
liberal do país, como The New York Times, CBS, The Washington
Post, ABC, Newsweek etc., a torcida por John Kerry foi quase
indisfarçável no noticiário e declarada
nos editoriais.
Em
alguns casos, como na reportagem de Dan Rather no programa 60
Minutes da CBS sobre o serviço militar de George W. Bush
[veja remissão abaixo], sua credibilidade saiu indiscutivelmente
chamuscada. O assunto era conhecido: o presidente não
apenas havia usado de artifícios para escapar dos combates
no Vietnã como deixara de cumprir suas mínimas
obrigações como integrante da Guarda Nacional
nos EUA. Rather relatou haver provas incontestáveis de
que Bush não havia nem mesmo aparecido para realizar
exames físicos compulsórios.
Os
tais documentos, logo se descobriu, estavam impressos com uma
tipologia de computador, inexistente na década de 1970,
e não das máquinas de escrever que havia na época.
Rather, que protagonizou um dos mais lastimáveis espetáculos
do pós-11 de Setembro, ao se colocar à disposição
de Bush em entrevista a David Letterman, insistiu por dias na
autenticidade de seus papéis até ter de reconhecer
que eles haviam sido forjados por pessoas ligadas ao Partido
Democrata (de Kerry).
Há
50 anos
Emissoras
de rádio e TV claramente identificadas com Bush e seus
aliados não parecem ter tido problemas de consciência
por mistificar, exagerar, mentir em relação a
fatos ou insinuações com referência a Kerry
e, antes de ele vencer a convenção democrata,
a outros aspirantes à candidatura de oposição.
Da mesma forma, o cineasta Michael Moore e outros não
demonstraram nenhum tipo de dúvida ou remorso por distorcerem
e manipularem fatos para prejudicar e difamar o governo de Bush.
Assim,
os meios de comunicação dos EUA reproduziram,
alguns com sentimentos de culpa e outros descaradamente, a grande
divisão em que a sociedade americana está engolfada.
Pode-se condená-los por terem se afastado do distanciamento
crítico e rigor metodológico na apuração
dos fatos. Mas não se pode deixar de levar em conta que
jornalismo e jornalistas fazem parte do ambiente social em que
vivem e é muito difícil escapar dele.
Por
exemplo, é simples acusar a mídia americana de
ter dado tanto espaço e importância a assuntos
como as inverossímeis alegações de antigos
inimigos pessoais de Kerry de que o senador na verdade não
foi merecedor das medalhas por heroísmo que recebeu da
Marinha durante a Guerra do Vietnã, e muitas outras fofocas
desse gênero. Em vez de ter-se dedicado ao sensacionalismo,
os veículos deveriam estar discutindo plataformas de
governo, projetos e idéias, argumentam os críticos.
É
verdade. Mas o fato é que os "velhos" meios
de comunicação têm controle cada vez menor
da agenda da opinião pública. Há 50 anos,
eles eram os gatekeepers da sociedade, decidiam o que a sociedade
ia ou não ficar sabendo. Mas atualmente, com a internet,
os blogs, os canais de TV por assinatura, os anúncios
pagos por entidades supostamente apartidárias, é
praticamente impossível esconder qualquer tema, por mais
escabroso que a princípio pareça ser. E os veículos
que não os cobrirem podem ser ou atacados por escondê-los
ou perder consumidores.
Dever
de jornalistas
Alguns
exemplos anteriores a 2004. Quando Genniffer Flowers, uma obscura
dançarina de Arkansas, em 1992 começou a espalhar
que ela havia tido um caso extraconjugal com o então
pré-candidato democrata à Presidência Bill
Clinton, o New York Times e outros diários de prestígio
resolveram ignorar o caso. Só que ele ganhou tamanho
destaque em tablóides sensacionalistas e programas de
rádio de extrema-direita que a campanha de Clinton ficou
paralisada.
O
Times e outros jornais deviam uma explicação a
seus leitores sobre as razões por que o líder
entre os aspirantes da oposição tinha sumido do
mapa político. Como fazê-lo sem citar Flowers?
Da
mesma forma, quando o pioneiro do jornalismo da internet Matt
Drudge publicou em seu site, em 1998, que Monica Lewisnky tinha
guardado um vestido manchado pelo esperma de Clinton, nenhum
veículo jornalístico "sério"
deu atenção à notícia. Mas quando
a Justiça exigiu que Lewsinsky apresentasse o vestido
como prova, como evitar o tema?
Atualmente,
é impossível evitar o que os meios alternativos
divulgam. Mas o jornalismo de prestígio ainda pode se
diferenciar se dedicar aos escândalos apuração
séria e profissional; e esclarecer os fatos de maneira
conclusiva e discreta (ao contrário do que fez Dan Rather
no caso da Guarda Nacional), em vez de competir com o sensacionalismo
barato, como muitos fizeram na campanha de 2004.
Outra
maneira de os jornalistas dignos se diferenciarem é forçar
políticos e autoridades a responder suas perguntas. Generalizou-se,
nos EUA e também no Brasil, o hábito de personalidades
públicas simplesmente ignorarem o que lhes é questionado
por um jornalista, um cidadão ou outro político
e discorrer sobre qualquer outro assunto que lhes convenha.
Esse comportamento foi visto nos debates eleitorais deste ano
nos dois países.
Os
jornalistas têm o dever de não aceitar esse procedimento
e exigir, com educação mas firmeza, que a pessoa
a quem uma pergunta é feita trate do tema a que ela se
refere. Com isso, estará contribuindo para que o eleitorado
seja esclarecido e tome decisões mais conscientes.
Outro
dever do jornalismo é checar se as respostas dadas estão
corretas ou são mentirosas ou inexatas. Fez-se um pouco
disso nas eleições deste ano, tanto nos EUA quanto
no Brasil. Mas não o suficiente. As respostas, assim
como os programas e propostas de governo, são divulgadas
com muito mais destaque do que eventuais checagens de sua viabilidade
ou acurácia.
(*)
Jornalista, diretor da Patri Relações Governamentais
& Políticas Públicas
|