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Informação:
Observatório
da Imprensa - 21/12/2004
Ivo
Lucchesi (*)
Em
artigo publicado na Folha de S.Paulo ("A conspiração",
16/12/04, pág. A 2), assinado pelo sociólogo Demétrio
Magnoli, articulista semanal do jornal, o autor, a pretexto
de combater as verdadeiras sandices que, sob a rubrica de "teoria
da conspiração", proliferam, por outro lado
incorre na perigosa armadilha na qual a autonomia de pensamento
se torna refém das "verdades oficiais".
Prudente
talvez seja, sem aqui entrar propriamente num debate com o articulista,
compreender-se a existência de duas vertentes que, em
comum, têm apenas o fato de refutarem a "verdade
oficial". No mais, em tudo, se separam.
O
que é construção de mentes delirantes não
se confunde com pensamentos prospectivos. Para estes, são
indispensáveis atributos gnosiológicos que integram
a análise, a crítica, a interpretação
e, enfim, tudo que é demandado pela inteligência.
Num
aspecto, o artigo de Magnoli reúne virtude: a possibilidade
de outras angulações para a tentativa de entendimento
acerca do que envolve o sentido mais profundo de "conspiração".
Para tanto, convém não se desprezar a origem do
conceito cuja raiz se encontra no limiar da civilização.
A
"conspiração" diz respeito ao campo
da "verdade encoberta", expressão cunhada por
Nietzsche. A rigor, o "pensar conspiratório",
entendido como "estado de mentação",
voltado para o exercício analítico, formula o
que podemos nomear de "teoria co-inspiratória".
É, na verdade, uma situação perceptiva,
instigada (ou "inspirada") pela suspeita, pela dúvida
acerca de algo posto como definitivo. Sob esse prisma, é
a manifestação pura de um esforço de inteligência,
a partir do momento em que um duelo é travado entre a
verdade e o mistério.
A
origem das religiões tem a ver com esse embate, que também
habitava o mundo pagão, sobretudo quanto ao sentido de
"destino". A noção em torno da existência
de um "arquiteto do universo", onisciente e onipresente,
mas invisível e intangível, resvala nessa dimensão
"co-inspiratória".
O
olhar não se conforma com o que lhe é dado a ver.
Há, portanto, nas construções "co-inspiratórias"
– descartadas as elaborações mirabolantes
que não passam de devaneios destituídos de mínima
sustentação crítica – algo de belo,
ao colocar em evidência a capacidade da inteligência
reativa contra as forças estruturadoras do poder.
A
mídia e o Estado conspiram?
Há,
no artigo do sociólogo, omissão que aqui merece
ser desfeita. Deve-se salientar que dois sistemas disseminam
"fantasmagorias". Refiro-me aos sistemas midiático
e político, seja quando informam sem as devidas clareza
e profundidade, seja quando segregam informações
ou fatos. São inúmeros os casos que, alimentados
pela mídia, multiplicam versões sobre acontecimentos
impactantes e de perfil nebuloso.
A
linha de documentários é pródiga na oferta,
ora pondo em dúvida a morte de Hitler, ora sugerindo
complô na morte de Marilyn Monroe, entre muitos outros.
Reportagens igualmente engrossam as fileiras. Quantos não
se recordam das inúmeras conjecturas publicadas pelos
mais diversos veículos a respeito do acidente que redundou
na morte da princesa Diana ou Juscelino Kubitschek? Em outras
situações, é a própria ingenuidade
da versão oficial que praticamente denuncia a existência
de "verdade encoberta" (ou acobertada), a exemplo
do relatório da Comissão Warren sobre o assassinato
do presidente John Kennedy.
O
Estado moderno desenvolveu, sob a ilusória prática
da "transparência", mecanismos potencializadores
da opacidade. A população, por acaso, é
informada sobre os reais termos de acordos internacionais, afora
minutas que aqui e ali são distribuídas? A população
é informada a respeito do que as CPIs apuram? Mesmo quem
as acompanha não tem acesso às chamadas "sessões
reservadas". Que dizer do montante de documentos secretos,
espalhados pelo mundo, aos quais apenas têm acesso altas
patentes governamentais? Que verdades incômodas conterão?
Ora,
essa atmosfera não provém do imaginário
individual. Ao contrário, são geradas por instâncias
de poder. Nelas figuram o Estado e a mídia. Não
se pode ter a ingenuidade de que somos informados sem deformações.
O difícil é saber encontrar o equilíbrio
entre o "vôo da imaginação" e
o recorte crítico-analítico. O que define a fronteira
é a credibilidade da fonte, aliada ao discernimento exigido
pela filtragem crítica.
Absurdos
deslizam pelas páginas da Internet. Isto é inegável.
Como ferramenta disponível, a internet tanto se presta
para eficientes e rentáveis acessos quanto para abrigar
o amplo leque da patologia humana, razão por que internet
é ferramenta e não em si mesma uma fonte.
Sobre
o 11 de Setembro, há uma avalanche de suposições
bizarras. Todavia, não é em nome delas que se
autoriza o fechamento de questão a envolver o ocorrido.
É preciso lembrar que o relatório publicado sofreu
inúmeras supressões.
No
tocante ao jogo político empreendido pelo governo norte-americano,
não podem ser desprezados estudos e reflexões
que se encontram disponíveis em algumas obras. Citemos
algumas delas: de Gore Vidal, Sonhando a guerra: sangue por
petróleo e a junta Cheney-Bush (Editora Nova Fronteira,
2003); de Noam Chomsky, Contendo a democracia (Editora Record,
2003); de John W. Dean, Pior que Watergate: a presidência
secreta de George W. Bush (Editora Francis, 2004); de Naomi
Klein, Cercas e janelas: na linha de frente do debate sobre
globalização (Record, 2003); de Peter Scowen,
O livro negro dos Estados Unidos (Record, 2003); de Samantha
Power, Genocídio: a retórica americana em questão
(Companhia das Letras, 2004). A leitura atenta dessas obras
permite a construção de um outro "olhar".
Duas
cenas
Formar
conhecimento é um processo vagaroso e, por vezes, penoso
mas não menos compensador. O perigo está na elucidação
simplória e rápida. É nesse ponto que a
mídia fraqueja. Ela atua no instantâneo e, passada
a onda, deixa rastros para trás. Esses resíduos
que depois não são revistos acabam se fixando
na mente de receptores menos atentos e mais descompromissados
com o conhecimento que formulam a atmosfera conspiratória
na qual desfilam os devaneios do obscurantismo.
Conspirar
contra a "conspiração" (sem jogo de
palavras) pode acarretar o progressivo fortalecimento de discursos
autoritários, entronizando o "monopólio da
verdade". Se é correto reconhecer que a "construção
conspiratória" se origina de um impulso próprio
daquele que busca adequar a realidade ao modelo de sua consciência
– o que é deformante –, igualmente correto
é identificar no exercício conjectural a recusa
a imposições firmadas por paradigmas ideologizantes.
A
mídia exerce forte papel nas duas cenas. Claro está
que os caminhos se separam a partir de como se estruturam subjetividades.
A um cientista social que prioriza a observação
do encadeamento dos fatos pode faltar a percepção
de tudo que transcende. Por sua vez, a um psicanalista, a um
teórico da arte, a um filósofo pode ausentar-se
o contato mais íntimo com o que é da ordem da
manifestação do imanente. Daí que a prudência
de cada passo do pensar não deve abdicar da desconfiança
sobre o pensado.
Enfim,
a face conspiratória da História é tão
frágil quanto a adesão acrítica às
verdades consolidadas. Será que, com tudo que já
ocorreu, alguém ainda acredita no fato de a invasão
do Iraque ter sido motivada por nobres princípios de
preservação civilizatória? É provável
que sim. Bem, cada qual se identifique com o que melhor lhe
parecer. Afinal de contas, a democracia não se pode alimentar
de exclusões.
(*)
Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ,
professor titular do curso de Comunicação das
Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha, Rio).
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