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Mundo cão mia na TV - Por pressão de anunciantes, emissoras reduzem espaço de telejornais policiais e cogitam tirá-los definitivamente do ar.


 

Informação: Folha de São Paulo - Ilustrada - 25/07/2004
Laura Mattos

Depoimento 1: "Esses telejornais policiais têm um tempo de vida que já passou. Perdem na profundidade, é tudo muito imediato. O que adianta pôr um helicóptero horas em cima de um cara que caiu de moto? Isso não é jornalismo". Depoimento 2: "Eu acabaria com esses programas, e acho mesmo que eles vão acabar".

Não, as declarações acima não são de ativistas dos direitos humanos ou intelectuais. O primeiro é de Marcelo Rezende, apresentador do "Cidade Alerta" (Record), líder do chamado jornalismo "mundo cão" na TV. O segundo, de José Luiz Datena, que já comandou o programa da Record e hoje apresenta o "Brasil Urgente", similar da Bandeirantes.

A opinião dos dois sobre esse tipo de telejornal não é semelhante. Rezende acha que o formato deveria mudar completamente. Datena diz que os programas são violentos porque têm matéria-prima para isso, que a realidade é que deveria ser transformada.

Mas ambos concordam num ponto: inaugurada em 1991 pelo "Aqui Agora", no SBT, a fórmula está em crise, perdeu espaço e corre o risco de desaparecer.

O "Brasil Urgente" foi cortado em 50 minutos para dar lugar à série infanto-juvenil "Cavaleiros do Zodíaco", que praticamente dobrou a audiência do canal no horário (de 3,5 pontos para 6,5 no Ibope). Apesar de a emissora negar oficialmente, o telejornal poderá sair do ar dependendo sobretudo do rumo que a Record der ao seu "mundo cão".

O "Cidade Alerta" perderá uma hora (metade da duração) a partir de agosto, quando passa a ser exibido "Tudo a Ver", de Paulo Henrique Amorin. A direção tem planos de tirá-lo definitivamente do ar a partir de setembro, mês de estréia da novela "Escrava Isaura" e da nova programação, em comemoração dos 51 anos da emissora.

O terceiro da lista é "Repórter Cidadão", da Rede TV!. Sua duração não foi cortada, mas o programa não tem mais a audiência de antes (chega a ficar com apenas um ponto) e perdeu prestígio na emissora. Já teve Datena e Rezende no comando e hoje conta com o desconhecido Jacaré, um clone do Ratinho, que tinha um programa na Rede 21 em que chutava anões, entre outras bizarrices.

Por que essas atrações, antes tratadas como "prioridade zero" pelos canais, perdem espaço?

A audiência é uma pista, mas não uma resposta definitiva. Obviamente, os três policiais não atingem os recordes do extinto "Aqui Agora" (mesmo porque ele era único no segmento, e agora são três concorrendo no mesmo filão).

Há alguma queda, mas nada que justifique a redução e, muito menos, a extinção dos programas.

A melhor resposta está em outro ponto da balança da TV: faturamento. Um ponto de audiência num programa que atrai anunciantes pode valer muito mais do que dez em outro que os afasta.

E o "mundo cão" vem afugentando patrocinadores. Antes empolgadas com o alto Ibope, as empresas começam a se preocupar em associar suas marcas ao sensacionalismo e à superficialidade.

"Há hoje uma baixa demanda do mercado para programas mais populares. Isso pode ser constatado pelo preço dos comerciais, que são mais baratos", diz Antonio Rosa Neto, consultor de mídia e ombudsman comercial do SBT.
"O anunciante constatou que não há valor agregado nesses programas, que um comercial é mais eficaz se exibido num intervalo de um programa considerado de qualidade. A audiência dos policiais pode ser boa, mas a comercialização não é. Eles não geram receita para as emissoras", afirma.

A preocupação em associar a marca ao "mundo cão" é um assunto abordado na ABA (Associação Brasileira de Anunciantes). A entidade, no entanto, declarou não ter uma posição oficial e preferiu não conceder entrevista.

Falar abertamente sobre a crise do "mundo cão" ainda é tabu também para a Band.

Fernando Mitre, diretor de jornalismo, diz apenas que o "Brasil Urgente" está sendo reformulado, que dará mais espaço à prestação de serviço. "O âncora se coloca cada vez mais como porta-voz do brasileiro que não tem como reclamar das autoridades nem exigir respeito a seus direitos."

Douglas Tavolaro, diretor de jornalismo da Record, trata a questão de forma mais aberta. "Esse já era um fim anunciado. É uma fórmula que não funciona mais. As pessoas vivem com medo 24 horas por dia e não precisam ver só violência na TV, querem jornalismo de qualidade."

Já José Emílio Ambrósio, diretor de jornalismo da Rede TV!, é pragmático. Diz que a emissora deverá investir mais no "Repórter Cidadão" se Band e Record acabarem com seus policiais. "Não é hora de tirá-lo do ar, mas de aproveitar o filão que está sendo deixado pelos outros canais", afirma.

Gil Gomes, repórter policial há 40 anos, diz acreditar que a crise seja conseqüência da vontade de Rezende e Datena de deixarem o segmento. "Os programas não saturaram. Eles sofrem preconceito. A Folha noticia um crime nos Jardins por dez dias seguidos, mas quando alguém morre na periferia é mundo cão", diz ele, que foi repórter do "Aqui Agora" e hoje está no "Repórter Cidadão".

 

 

"A periferia hoje se vê em outros programas".

Informação: Folha de São Paulo - Ilustrada - 25/07/2004

Uma das razões para a diminuição do interesse pelos programas policiais está na ampliação da oferta de outras formas de jornalismo, que, em vez de só explorar a violência, oferece aos habitantes dessas áreas informações sobre serviços e dá voz a suas reivindicações. Outro fator está na teledramaturgia, que passou a "abraçar" temas dessa realidade.

Essa é a opinião da advogada Luciana Guimarães, diretora de projetos do Instituto Sou da Paz. Ela cita como exemplo a série "Cidade dos Homens" (Globo), criada por Fernando Meirelles ("Cidade de Deus"), que mostra a vida de dois garotos de uma favela do Rio, e o seriado "Turma do Gueto" (Record), ambientado na periferia da Grande São Paulo.

"Os moradores das periferias deixavam claro que assistiam a esse tipo de programa "trash" porque era a única oportunidade de encontrar a realidade deles na TV. Hoje isso mudou."

Ela considera positiva a diminuição de espaço do "Cidade Alerta" e "Brasil Urgente". "Eles contribuem para o clima de medo e não para que tenhamos bons diagnósticos da violência, que possam pautar políticas eficazes de segurança."

Em sua opinião, esses telejornais usam como "desculpa" a suposta cobertura da realidade. "A violência é uma questão muito séria para ser tratada com irresponsabilidade."

Guimarães vê ainda outra razão para a crise do "mundo cão" na TV. "O desemprego passou a ser um terror ainda maior que a violência para a população. É um assunto que tirou a falta de segurança do foco central", afirma a advogada.

O sociólogo Laurindo Lalo Leal, diretor da ONG TVer e membro da campanha Quem Financia a Baixaria é contra a Cidadania, afirma que as emissoras não reduziram os tempos dos telejornais policiais por "altruísmo". "As redes perceberam que o telespectador está cansando dessa fórmula. Mais que isso, sentiram pressão de anunciantes, que já evitam patrocinar programas que afrontam a dignidade das pessoas e criam um clima de pânico."

Na avaliação do sociólogo, a "gritaria" dos apresentadores pode dar fôlego à violência. "Há o risco de que influencie principalmente jovens sem raízes, que podem buscar se impor ou elevar a auto-estima através da violência."

Para Lalo Leal, a campanha Quem Financia a Baixaria é contra a Cidadania teve forte influência na decisão das emissoras. "O grande acerto desse projeto foi ter focado em quem anuncia em televisão. Recebemos várias manifestações de anunciantes dizendo que passariam a ter mais cautela na hora de escolher que programas irão patrocinar", diz Lalo Leal.

A campanha irá agora criar comitês estaduais, a fim de pressionar anunciantes regionais. "Fora esses telejornais policiais, há muitos programas locais na mesma linha, até mais sensacionalistas." (LM)