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06/08/2004
Antonio
Brasil
Para muitos jornalistas, inclusive para o polêmico correspondente
do NYT, Larry Rohter, no Brasil, Agosto é o mês
do Desgosto. Pode até ser. Mas aqui nessa coluna, Agosto
é o mês de premiação.
Chegou
a hora de você escolher os melhores e os piores programas
da TV brasileira na edição 2004 do Prêmio
“Brasil” de TV.
Nesta
mesma época, no ano passado, procurei indicar alguns
programas de TV que considero “imperdíveis”.
Muita coisa mudou. Mas como andei fora do país nos últimos
meses, procurei fazer a minha própria pesquisa de opinião
com alguns amigos que considero “viciados” –
assistem a tudo, tudo mesmo - e verdadeiros conhecedores de
TV para fazer uma seleção dos melhores e piores
da nossa programação televisiva.
Plantão de Notícias
Ao perguntar sobre o que havia de novo, diferente, interessante
na nossa TV, a resposta mais comum também era sempre
imediata:
-
Brasil, você já viu o novo Plantão de Notícias”
na Rede Record?
Com ar de surpreso, eu acrescentava:
- Aquele mesmo programa horroroso e totalmente “trash”
do jornalista Mauricio Menezes que passava no CNT?
Pois
é, esse mesmo. O programa agora “cresceu”
e virou referência quase “cult” para quem
ainda busca sinais de inteligência, humor e irreverência
a baixo custo na programação de TV. Favor não
confundir programa de baixo custo com “baixaria”.
Para mim, baixaria não se resume a grosseria, palavrão
ou cenas de sexo explícito na TV. Há outras formas
mais perigosas e menos perceptíveis de baixarias na TV.
Baixaria para mim, por exemplo, é programa para jovens
idiotizados em grande rede de TV nacional com nome de academia
de ginástica, malhação ou esculhambação”.
Tanto faz. Baixaria é telenovela que entorpece e vicia
o telespectador com enredo de bobagens. Baixaria é telejornal
que só faz jornalismo de verdade quando beneficia os
seus próprios interesses econômicos. Mas deixa
isso pra lá! Estamos falando do “Plantão
de Noticias”, melhor programa “trash” da TV
brasileira.
Fui
conferir o programa deste domingo. A equipe do veterano jornalista
Mauricio Menezes está realmente “afiada”.
É óbvio que tem gente que vai “odiar”
a estética escrachada do programa. Prefere ver tudo bonitinho,
arrumadinho e sem a menor graça. O Plantão de
Notícias me lembra muito o início da nossa TV.
Naquela época, os programas também eram muito
improvisados, mas o humor era espontâneo, meio grosseiro,
da melhor qualidade porque era ... a nossa cara.
Outro
dia, uma colega jornalista fez um comentário muito apropriado
sobre os telejornais brasileiros. Ela me dizia que o grande
problema desses programas é que eles não têm
“a cara do Brasil”. Um telejornal na Argentina,
por exemplo, tem a mesma linguagem dramática , melancólica
ou “esquisita” dos nossos hermanos argentinos. Não
poderia ser produzido em nenhum outro lugar do mundo.
Por
outro lado, os nossos programas de TV e, principalmente, os
nossos telejornais insistem em modelos sem graça, importados
e não arriscam jamais mostrar “a nossa cara”.
Mas
na mesma conversa, um outro colega, complementou com ironia
e de forma fulminante:
- Mas Brasil, o problema é que o brasileiro, ao contrário
do argentino, detesta ser ... brasileiro. A nossa TV e os nossos
telejornais são um espelho triste dessa realidade. A
gente não se vê nos noticiários de TV. Parece
um outro mundo, uma outra raça, uma outra cultura. Pode
ser qualquer coisa, menos o Brasil.
O
Plantão de Notícias, no entanto, é a nossa
cara. Um programa pobre, mas muito criativo. Tem senso de humor
escrachado, mas não se submete às baixarias do
Ratinho e similares. Não é “politicamente
correto” porque, talvez, nos “não sejamos
politicamente corretos”. O programa não dispensa
a crítica e pega pesado no jornalismo de hoje. Mauricio
Menezes é um bom pesquisador e não poupa o jornalismo
“apressado” e preguiçoso de nossos dias.
Em
meio a muitas risadas e algumas grosserias, o Plantão
de Notícias aproveita para fazer o que o começo
do Casseta &Planeta e o Faustão dos Perdidos da Noite
faziam e não fazem mais: criticar o modelo brasileiro
de TV, ou seja o modelo hegemônico imposto pela Globo.
Para
mim, o melhor momento do Plantão de Notícias foi
a presença inesperada do correspondente “internacional”
falando diretamente das florestas do Estado do Acre. Vestido
no melhor estilo “Robinson Crusoe”, o humorista-jornalista
estava mais perdido do que os nossos correspondentes internacionais
de TV. Com muita ironia, o personagem apresentava as “últimas”
notícias de “muitos anos atrás”. É
politicamente incorreto, “eu não mereço
isso” - um dos bordões do programa – mas
também é a “nossa cara”.
Para
quem conhece os bastidores do telejornalismo, a estonteante
e jovem estagiária Kika Loura, cometendo todos os tipos
de erros “ao vivo”, é simplesmente “fantástica”.
Tudo a ver. Mas ainda tem mais. O “Bola Murcha”
satiriza as “baixarias” jornalísticas e comerciais
das nossas inúmeras mesas-redondas esportivas das noites
de domingo. Ninguém merece.
Ainda
tem mais. Personagens ícones como o atleta da semana,
o pobre do Manguaça – sempre apanhando, vítima
da sina cruel da equipe do programa. Hilário! Outros
personagens incluem o Cordovil, Fautão e Josemilton Caetano,
o repórter sem pressa. Tudo a ver a com o nosso jornalismo
de TV. Um crítica mordaz e realista das nossas baixarias
televisivas escrita na mesma moeda, com a mesma linguagem. Nadando
contra a corrente, a equipe do Mauricio Menezes nos parece indicar
que “baixaria” se combate com ainda mais “baixaria”.
Talvez assim, possamos um dia “acordar” para a nossa
própria realidade e, quem sabe, consigamos mudar esse
cenário tão deprimente.
Mas
os melhores quadros do programa refletem a essência e
razão de ser do Painel de Notícias. Nada supera
o “Jornal dos Jornais” - o último a saber,
e “Causos da Imprensa”. No melhor estilo “Japiassu”,
Mauricio Menezes seleciona os “piores” momentos
da nossa imprensa e da nossa prática profissional. Obviamente,
nos últimos anos, não nos faltam “ótimos”
péssimos exemplos.
O
Plantão de Notícias é um programa “imperdível”
para quem aceita e aprecia a estética de programas “trash”.
É produzido para quem não tem medo de “escracho”
e ainda consegue rir da própria vida ou da própria
profissão. Segue a linha de um outro programa no estilo
de guerrilha televisiva, o Hermes e Renato da MTV. Todos esses
programas insistem que “baixaria” se combate com
“baixaria”.
Para
contrabalançar este prêmio “melhor do humor”,
nada mais deprimente do que assistir à resposta da Globo
no mesmo dia e horário do Plantão de Noticias,
ou seja, a “Turma do Didi”. Confesso que não
acreditei no que vi e tive vontade de chorar. Um programa triste
e decadente. Nem mesmo todo o talento de um autêntico
gênio do humor televisivo brasileiro como Renato Aragão
ou Chico Anísio, resiste ao descaso ou desprezo dos diretores
globais pela “nossa cara”.
O
programa segue a linha de humor da velha guarda de tantos outros
programas ‘decadentes” da emissora carioca. Esses
programas “preguiçosos” insistem em velhas
e desgastadas fórmulas para fazer o público rir.
Não evoluem. São sempre os mesmos, Sobrevivem
e definham frente aos novos tempos, mas preenchem buracos na
programação e, por serem muito baratos, garantem
altos lucros a seus produtores. Simplesmente, deprimente. A
Turma do Didi é um sério concorrente a um dos
piores programas da TV brasileira. Seus companheiros não
mereciam tanta decadência.
As “Altas Horas” de Serginho Groisman
Mas nem tudo está perdido na Globo. A presença
de um outro velho “guerrilheiro tecnológico”
ou “agitador cultural”, o Serginho Groisman continua
provando que ainda há esperança na TV aberta brasileira.
Ele prova todos os sábado à noite a tese de que
TV de qualidade pode ser simples e inteligente. Mas, para isso,
antes de tudo, requer criatividade e “talento”.
Não
se pode justificar sempre o baixo nível na nossa programação
de TV aberta com a tal “maldita crise” ou a famigerada
falta de recursos. Televisão de qualidade requer menos
desculpas e mais criatividade.
TV
em qualquer lugar do mundo também é trabalho de
equipe baseado em talentos individuais.
O
“Altas Horas” de Serginho Groisman é a prova
de que mesmo nos piores horários, nas condições
mais adversas, o talento e a experiência sempre “prevalecem”.
Ninguém
na TV brasileira, sabe lidar melhor com jovens e adolescentes,
e ainda mais, em programas ao vivo, do que o nosso “eterno”
adolescente, o velho Serginho Groisman. Ele consegue tratar
os jovens com respeito. Educa, forma opinião e conduz
um programa de informação e entretenimento ágil
e dinâmico. Um programa jovem, dinâmico e inteligente
com a “nossa cara”. Muitos erros, improvisos e acertos,
em um programa de auditório que se recusa a agredir o
publico com grosserias ou apelações. Sou fã
do Serginho e ainda aprendo muito com ele.
Aqui
entre nós, todos os professores de nossas universidades
deveriam observar o estilo “Serginho” de se comunicar
com a nossa juventude. Em um estúdio de TV ou em sala
de aula Serginho comprova que devemos “respeitar”
a inteligência de nossos jovens. Ser jovem não
é sinônimo necessariamente de ser imbecil, alienado
ou violento. O Altas Horas comprova que é possível
se divertir muito assistindo a uma banda meio trash e “agressiva”
como o Charlie Brown Jr sem dispensar uma boa entrevista com
um dos pioneiros da nossa TV como o Daniel Filho no próximo
bloco do mesmo programa. Uma coisa não exclui a outra.
Eu
também posso agitar a platéia, gritar e dançar
durante horas, mas também posso ouvir uma bela entrevista
com um algum jovem desconhecido e anônimo dessa mesma
platéia. No seu programa, Serginho Groisman prova que
“não existem entrevistados ruins”, mas somente
“entrevistadores arrogantes e medíocres. O apresentado
tem a ousadia de escolher um jovem qualquer no auditório
para participar de um “tete a tete”, uma conversa
mais íntima, uma oportunidade para mostrar que todo jovem
tem algo a dizer. Questão de vontade, talento e paciência.
A
sobrevivência do Altas Horas na programação
da mesma emissora que enterrou o talento do Faustão no
Domingão pode ser um sinal de “esperança”.
O “Perdidos na Noite”, na velha Rede Record, foi
um dos melhores programas auditório da historia de nossa
TV em todos os tempos. É um precursor e influencia evidente
no sucesso do Altas Horas de Serginho Groisman. Pena que a nossa
TV não tenha memória. Podemos assistir a qualquer
filme antigo em milhares de locadoras espalhadas pelo pais.
Mas não podemos assistir ao melhores programas da nossa
TV. Pena!
Prêmio
Pior dos Piores: Malhação
E por falar em programas para jovens, o troféu Brasil
para o “Pior Programa Jovem de 2003” vai para o
imbatível ...“Malhação”. É
certamente um dos piores e mais perigosos programas de TV jamais
produzido para a nossa juventude. Eles não merecem. Um
festival de baixarias e situações imbecis que
insiste em privilegiar uma imagem distorcida do jovem brasileiro.
Como castigo, os adultos que dirigem e patrocinam esse tipo
de programa, como castigo ou punição, deveriam
ser obrigados a assistir a uma semana inteira de “malhação”.
Ninguém merece. De longe, um dos piores e mais alienantes
programas da nossa TV. Repito. Baixaria na TV não tem
que ter palavrão, cenas de sexo, grosserias ou ser comandada
pelo Ratinho. Baixaria é gastar muito dinheiro, desperdiçar
talentos para confirmar preconceitos. Mas eu tenho uma sugestão.
Por que não exibir “Malhação”
no horário destinado pela Globo aos telecursos do Segundo
Grau, ou seja, às 5 horas da manhã. Poderíamos
fazer uma experiência na troca de horários. Afinal,
esses mesmo “telecursos”, programas sofisticados
e caríssimos, tem garantido poucos índices de
audiência, mas muitos “recursos públicos”
preciosos para os cofres da emissora líder. Mas isso
é um outro problema!
O
melhor dos melhores: Afinando a Língua com Tony Bellotto.
Ainda temos espaço para um prêmio e recomendação.
O programa em questão foi rapidamente citado na versão
2003 do Prêmio Brasil dos melhores da TV. Mas merece receber
o nosso troféu novamente. Nós merecemos.
Não
adianta. Sei que poucos vão concordar. Mas gosto de TV,
de boa música e ainda acredito que o meio pode e deve
contribuir para a nossa educação.
O
Prêmio Brasil 2004 para o melhor programa da TV brasileira
vai para o.... “Afinando a Língua”.
Corta
para muitos aplausos, algumas vaias para o crítico e
comentários surpresos. Não se pode agradar a todos.
Mas afinal, que programa é esse? Afinando a Língua”
não é um típico programa de TV. Não
é um programa popularesco, nem é sucesso garantido
em horário nobre. Produzido por uma produtora independente,
a Grifus (*), para o canal Futura, o Afinando
confirma a máxima de que televisão é antes
de tudo “talento”. E ninguém é mais
talentoso do que o Toni Belotto.
Com
o seu ar meio tímido frente às câmeras -
coisa de músico de banda de muito sucesso mas com excesso
de estrelas famosas, os Titãs – ele mostra que
sabe do que fala e admira: a música brasileira e a língua
portuguesa.
Seu
programa não é “trash”, mas, comparado
aos padrões globais, é um programa simples e modesto.
Não possui maiores recursos técnicos sofisticados,
mas alcança seus objetivos. Não é somente
mais um desses programas de língua portuguesa que surgiram
na TV brasileiras apos as incursões pioneiras do Prof.
Sergio Nogueira na nossa imprensa.
O
Afinando a língua se recusa a ser mais um programa “professoral”.
Tony Bellotto não é professor nem de música
de língua portuguesa. Ele se utiliza da nossa musica,
da nossa poesia, e das intervenções do publico
para discutir, analisar e talvez “recomendar” as
melhores opções para aprendizado da nossa difícil,
complicada e desconhecida língua portuguesa. Com muita
simpatia e pouca didática, ele convence o seu público
de que a música pode ser uma fonte de inspiração
para aprendermos as sutilezas da nossa língua e da nossa
cultura. O Afinando a Língua deveria ser a “a nossa
cara” na TV. Simples, meio pobre, mais muito criativo
e talentoso.
O programa não apostou na sabedoria de professores de
português que invadiram a nossa TV com algum sucesso nos
últimos anos. Eles podem ser todos excelentes “professores
de português” , mas lhes faltam a empatia e o carisma
necessários para fazer um bom programa de TV e para manter
os jovens “ligados” na telinha diante de tantas
opções mais divertidas apesar de que “perigosas”.
Para aqueles que dirigem a atual televisão brasileira
, a proposta de programas como o Afinando a Língua é
considerada “ambiciosa” e arriscada demais. Não
caberia jamais no horário nobre da programação
televisiva. Eles não acreditam que música e poesia
podem estar distantes de um didatismo televisivo ultrapassado
de programas como os telecursos e próximos dos anseios
de jovens “insatisfeitos” com a nossa TV. A equipe
do Afinando apostou no público e não nas tendências.
Acreditou que um programa de televisão pode ser jovem,
ensinar e divertir sem ter que ser chato ou imbecil.
O
“Afinando a língua” da Rede Futura cumpre
seus objetivos e está totalmente “afinado”
com o seu público. Um público formado por jovens,
e nem tão jovens, como eu, que ainda acreditam numa televisão
que diverte e educa. Insisto. Assim como “as guerras são
importantes demais para serem decididas pelos militares”
, a Televisão também é importante demais
para ser refém de empresários.
(*) Segundo
comentário sobre a coluna, o nome da produtora é
Arte & Fato.
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