| Informação:
Folha de São Paulo - Brasil - 19/04/2005
Da
sucursal de Brasília
Leia
nota divulgada ontem pelo ministro Romero Jucá em que
ele se defende de reportagens divulgadas por quatro publicações:
"Brasília,
18 de abril de 2005. Nota de esclarecimento.
Com
relação a matérias publicadas pela imprensa,
contendo acusações contra o ministro da Previdência,
Romero Jucá, vem esta nota esclarecer e manifestar o
que se segue. Repudio as inverdades, distorções,
calúnias e leviandades publicadas de forma sensacionalista
e imprecisa. Venho a público esclarecer os seguintes
assuntos:
1)
Quanto à matéria da revista "Época",
intitulada "Jucá empobreceu no papel", repudio
o enfoque dado e esclareço que os bens repassados (casa
do Lago Norte, casa de Boa Vista e fazenda em Roraima) estão
contidos na minha declaração de bens (Imposto
de Renda). Informo ainda que, em nenhum momento, deixei de tratar
do assunto com transparência, através de atitude
regular e legal, como transferir aos filhos, descendentes diretos,
bens em nome da família. Portanto esclareço que
os bens não desapareceram como diz a matéria.
Informo
ainda que a casa de Recife, na rua Minas Gerais, 35, assim como
as salas, em Brasília, foram vendidas e também
constam legalmente da declaração de bens, indicando
os adquirentes. Quanto à casa do Lago Sul, mencionada
na matéria, não é de minha propriedade.
Portanto quero condenar informações equivocadas
e sua irresponsável publicação. É,
portanto, lamentável que a revista "Época"
tenha atacado minha família e a mim mesmo sem checar
antes todos os fatos, abandonando o princípio jornalístico
de apuração completa e sua publicação
somente após a checagem dos mesmos. Lamento ainda que
assuntos de caráter privado e familiar, que não
tratam de questões públicas, sejam publicados,
passem a ser de domínio público e acabem, dessa
forma, expondo meus familiares.
2)
Quanto às acusações de que seria dono da
TV Caburaí e da Fundação Roraima, assuntos
publicados na revista "Época" e no jornal Folha
de S.Paulo, esclareço que o sinal e a concessão
do Canal 8 pertencem à Fundação Roraima,
da qual não sou dirigente nem membro. A produção
e veiculação de matérias acontecem mediante
acordo comercial por uma produtora de vídeo (Uyrapuru),
pertencente a meus filhos, o que não configura crime
ou outra atividade de cunho ilegal. Informo também que
era essa produtora (TV Caburaí Ltda.) que gerava anteriormente
a programação da emissora. Desta empresa fui sócio
no passado e depois foi desativada. Além disso, esclareço
que os dirigentes da fundação nunca desviaram
recursos públicos como já manifestou o Tribunal
de Contas da União. Informo ainda que não tenho
pendências junto à Secretaria de Receita Federal,
assim como nada existe contra mim no que tange à irresponsável
denúncia de desvio de verbas públicas, publicada
pela Folha de S.Paulo. Essas informações inverídicas
são fruto de acusações antigas e intrigas
oriundas de adversários nas campanhas eleitorais de 1992
e 1994.
3)
Com relação à denúncia que envolve
a aplicação de recursos no município de
Cantá, publicada pelo jornal "O Globo", quero
informar que tenho constantemente cobrado a apuração
dos fatos. Destinei recursos ao município de Cantá,
assim como o fiz para os outros municípios de Roraima.
A execução de obras como asfaltamento, iluminação
e construção da rodoviária ficaram a cargo
da prefeitura do município, responsável pelos
convênios. Portanto a matéria publicada pelo "O
Globo", sob o título "Fraudes em Cantá
ligariam Jucá a ex-prefeito" é lamentável.
As obras e as ações relatadas na matéria
não dizem respeito a recurso destinado por mim, quando
senador, para o município, e sim recursos provenientes
de ações conduzidas por outros parlamentares,
inclusive através de emendas individuais dos mesmos.
Esclareço também que já havia denunciado
o esquema de plantações de abacaxi, café
e outros, não só em Cantá como nos municípios
de Alto alegre e São Luiz do Anauá, casos que
estão sendo investigados pelo Ministério Público
Federal de Roraima.
4)
Quanto a afirmações de outra matéria, publicada
no jornal "O Estado de S.Paulo", sob o mesmo assunto,
o município de Cantá, com o título "Sem
autorização judicial, gravação que
envolve Jucá vira arma de defesa", houve desinformação
em procurar me envolver com algo que desconheço. Lembro
que não tive acesso às investigações,
que seguem sob segredo de Justiça, apesar de ter solicitado
aos órgãos competentes por essa investigação
(Polícia Federal, Ministério Público e
Supremo Tribunal Federal) a conclusão do inquérito
e a quebra do segredo de Justiça, permitindo assim que
pudesse ter ciência de algo que imputam a mim, sem que
eu tenha a informação oficial. Ainda sobre este
assunto, informo que não utilizei qualquer artifício
ou solução jurídica para impedir as investigações.
Pelo contrário, continuadamente, como atestam ofícios
encaminhados, tenho pedido pressa na conclusão e na divulgação
do mesmo. Agi assim para que não permaneçam dúvidas
sobre a minha decisão de ter procurado o esclarecimento
completo dos fatos.
5)
Quanto ao caso levantado, referente à empresa Diagonal
Urbana e sua contratação pela Prefeitura de Boa
Vista, devo lembrar que a prefeitura já emitiu nota a
respeito. Mas considero importante registrar que a contratação
se deu por licitação pública e que a Diagonal
presta serviços a diversos Estados e cidades brasileiras,
além de atuar internacionalmente com contratos em 14
países.
6)
Já as informações acerca da operação
com a empresa Frangonorte, serão entregues no dia de
hoje [ontem], 18 de abril, ao Ministério Público,
como foi solicitado pelo senhor procurador Claudio Fonteles.
A defesa está sendo encaminhada pelo meu advogado, dr.
Antônio Carlos de Almeida Castro, que sempre se colocou
à disposição da imprensa para esclarecer
o assunto, assim como aos órgãos competentes.
Por fim, quero novamente lamentar e repudiar os ataques que
venho sofrendo junto com a minha família e a população
de Roraima. Discordo da forma como vêm sendo colocadas
a público situações provenientes de acusações
político-eleitorais de campanhas passadas e que se utilizem
de informações comprovadamente falsas, como se
fossem verídicas. Tenho certeza de que muitos desses
ataques tentam me tirar a tranqüilidade e o foco do trabalho
que tenho que realizar no Ministério da Previdência.
A vida política não é feita só de
vitórias e alegrias, ela é feita também
de injustiças e incompreensões. Mas quero reafirmar
meu compromisso público com o Brasil, com o governo do
presidente Lula, com seus ministros, com meus colegas parlamentares
e com toda a população brasileira, em especial
do meu Estado de Roraima, no compromisso de combater as fraudes
do sistema previdenciário, diminuir a sonegação
e o déficit público e melhorar a qualidade do
atendimento do INSS.
Romero
Jucá
ministro da Previdência Social"
FAZENDEIRO
DO AR/OUTRO LADO
Ministro
descarta renúncia e diz que adversários contratam
jornalistas para produzir notícias
Jucá
afirma que denúncias são fabricadas
Informação:
Folha de São Paulo - Brasil - 19/04/2005
Uirá
Machado
Da Redação
O
ministro da Previdência, Romero Jucá, disse ontem
que as denúncias contra ele são fabricadas por
jornalistas contratados por seus adversários políticos.
Disse ainda que "renúncia" não faz parte
de seu vocabulário.
Segundo Jucá, a origem da série de denúncias
está na disputa eleitoral de Roraima. "Essas disputas
sempre são muito acirradas e levadas, às vezes,
para o baixo nível. Isso tem como conseqüência
acusações levianas que ganham repercussão
pelo cargo que ocupo."
As
afirmações foram feitas no lançamento do
Aasp Previdência (plano de aposentadoria complementar
da Associação do Advogados de São Paulo).
No evento, Jucá entregou aos jornalistas uma nota de
esclarecimento (leia íntegra nesta pág.) que,
segundo ele, "explica os pontos levantados" nas últimas
semanas.
O
ministro afirmou também que as denúncias que têm
sido feitas são requentadas, "de disputas eleitorais
passadas, desde 1990", que não há irregularidade
e que, por isso, tem cobrado investigações que
esclareçam os fatos.
Jucá
disse que há jornalistas contratados para produzir as
denúncias. "Tudo isso faz parte de ações
que têm origem na política de Roraima. É
certo que há adversários políticos por
trás das acusações. Existem parlamentares
que têm jornalistas contratados, fabricando esse tipo
de notícia."
Questionado
sobre quais seriam esses jornalistas, disse: "Não
quero fazer acusação pessoal contra ninguém".
Afirmou, entretanto, que não se trata de jornalistas
vinculados à "grande imprensa". Seriam, segundo
Jucá, sites montados para atacá-lo e "jornalistas
que fazem política em Roraima".
O
ministro foi enfático ao descartar um possível
pedido de renúncia: "Renúncia não
faz parte do meu vocabulário. Não fiz nada errado
e, portanto, não há motivo para renúncia",
afirmou.
Ao
evento também compareceu o ministro da Justiça,
Márcio Thomaz Bastos, que defendeu o colega Jucá.
Questionado a respeito de um eventual constrangimento no governo
devido à série de denúncias, disse: "Não,
acho que não [há constrangimento]. Ele [Jucá]
apresentou os esclarecimentos pedidos e tem respondido de forma
satisfatória às denúncias." O ministro
da Justiça afirmou também que os que consideram
estranho o governo manter um ministro após tantas denúncias
se esquecem "de que estamos num Estado de Direito e que
prevalece a presunção de inocência".
E completou: "Nas ditaduras é que as pessoas são
condenadas antes de serem julgadas".
Repercussão
O secretário-geral da Presidência da República,
ministro Luiz Dulci, detalhou ontem como o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva pediu a Jucá que tomasse a iniciativa de
rebater as acusações. "O ministro disse ao
presidente com muita convicção que tinha condições
de provar que elas [acusações] eram infundadas,
que não procediam. O presidente, como já fez em
situações análogas, disse: "Se você
tem condições de provar que são improcedentes,
mostre, prove e esclareça de maneira cabal essa situação'",
disse Dulci.
Colaborou
a Sucursal de Brasília
Lula
diz que não demite Jucá por manchete de jornal.
Informação:
Jornal do Comércio - 19/04/2005
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem em São
Paulo que não pode demitir o ministro da Previdência,
Romero Jucá, somente por causa do noticiário dos
jornais, que levantam acusações contra o ministro,
desde o desvio de verbas públicas ao uso de funcionários
para suas campanhas eleitorais e uso de documentos irregulares
para obter financiamento em banco oficial, oferecendo propriedades
inexistentes como garantia para o empréstimo. “Eu
não posso tirar ou colocar um ministro em função
desta ou daquela manchete de jornal”, disse Lula, em entrevista
coletiva realizada no escritório da Presidência
da República, em São Paulo, ao lado do presidente
do Chile, Ricardo Lagos.
Para
Lula, há muitas insinuações contra Jucá,
que está se portando bem no Ministério da Previdência.
“Temos instituições que investigam e apuram
no Brasil. Por enquanto, a missão do ministro está
sendo cumprida muito bem, que é a de ajudar a resolver
o problema da Previdência do Brasil e de acabar com as
quadrilhas que atacam a instituição, que serão
todas dizimadas” disse Lula, ao defender a permanência
de Jucá no Ministério da Previdência. Para
o presidente, Jucá está tomando medidas duras
para resolver os problemas da Previdência. “Por
enquanto, têm muitas insinuações contra
o ministro. Eu acho que quem é político, sabe
o que significam insinuações. O eu acho e o eu
penso não adianta. É preciso que surjam coisas
concretas. Ele já me procurou duas vezes para dizer que
ele próprio pediu ao Ministério Público
Federal e à Polícia Federal para que se investigue
tudo o mais rápido possível. Ele é o maior
interessado para que a verdade venha a tona”, disse o
presidente.
O
ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, também
defendeu o ministro da Previdência, Romero Jucá,
ontem em São Paulo. Segundo ele, Jucá não
tem “imunidade divina pelo fato de ser ministro”
para se livrar das investigações naturais de um
regime democrático, referindo-se às várias
acusações que são feitas contra ele. De
acordo com Bastos, é preciso “esperar um pouco”
para que Jucá possa se defender, por isso não
considera “constrangedora” a situação
do ministro da Previdência ou do governo, que o mantém
no cargo. “Não, a situação não
é constrangedora. Faz parte da democracia. O ministro,
pelo fato de ser ministro, não tem imunidade divina.
Está sujeito, como todos os cidadãos. Essa é
a essência da democracia e da república, é
qualquer pessoa, qualquer servidor público, estar sujeito
a investigação do Poder Judiciário, a uma
investigação do Ministério Público
e da Polícia Federal”, disse.
De
acordo com Márcio Thomaz Bastos, Jucá está
preparando sua defesa, princípio democrático que
deve ser respeitado. “É preciso esperar um pouco.
Nós vivemos em um estado de direito”. Sobre a possibilidade
de afastamento de Romero Jucá, o ministro da Justiça
foi taxativo em sua defesa. “Não acredito que seja
o caso, de maneira nenhuma”.
Jucá
desvia verba pública para TV, diz Receita.
Informação:
Folha de São Paulo - Brasil - 17/04/2005
FAZENDEIRO
DO AR
Documentos
dizem que ministro da Previdência controla empresa através
de Fundação e de firma dos filhos
Josias
de Souza
Colunista da Folha
Rubens
Valente
Enviado especial a Boa Vista (RR)
Relatório
confidencial da Receita Federal informa que o ministro Romero
Jucá (Previdência) "desviou" verbas públicas
para um negócio privado. Chama-se TV Caburaí Ltda.
Retransmite a programação da Rede Bandeirantes.
Jucá dizia publicamente que nunca teve nada a ver com
o negócio. Os papéis da Receita e outros documentos
obtidos pela Folha indicam, porém, o contrário.
O
ministro também é acusado em outro casos, como
as garantias que deu a um empréstimo que tomou do Banco
da Amazônia (Basa). Eram sete fazendas que, posteriormente,
o Basa descobriu que nunca existiram. Ele nega.
A
história da TV
A TV Caburaí funciona numa antiga casa de Romero Jucá
(PMDB), o nº 21 da alameda Canarinho, em Boa Vista. Um
contrato de gaveta assegura à Uyrapuru Comunicações
e Publicidade Ltda. a gestão do negócio. A firma
pertence a quatro filhos do ministro da Previdência: Rodrigo
de Holanda Jucá, Marina de Holanda Jucá, Ana Paula
Surita da Motta Macedo e Luciana Surita da Motta Macedo.
Portento
do mercado televisivo de Boa Vista, a TV Caburaí é
uma ficção nos arquivos do Ministério das
Comunicações. Ali, a outorga do canal televisivo
gerido pelos Jucá está registrada em nome da Fundação
de Promoção Social e Cultural do Estado de Roraima.
No
papel, a Fundação Roraima é uma "filantrópica"
privada, supostamente "sem fins lucrativos". Na prática,
informa o fisco, é um braço financeiro de Romero
Jucá.
Na
última quarta-feira, o presidente da entidade, Getúlio
de Souza Oliveira, 62, correu ao Tabelionato Deusdete Coelho,
de Boa Vista. Souza Oliveira, dono de um modesto escritório
de contabilidade, foi ao cartório para autenticar assinaturas
apostas num "contrato particular de locação
de canal de televisão".
De
acordo com o contrato, a Fundação Roraima, dona
oficial da concessão do canal 8 de Boa Vista, alugou
a TV Caburaí e todo "o seu espaço disponível
para a veiculação de anúncios e publicidade"
à firma Uyrapuru.
Depois
de 5 anos
Embora datado de 1º de outubro de 1999, o documento só
teve as assinaturas autenticadas em 13 de abril de 2005. Curiosamente,
a Folha publicara na véspera o teor de um relatório
em que a Receita informa ter detectado na Fundação
Roraima "desvios" de R$ 1,45 milhão (valor
atualizado) em verbas públicas. Dinheiro aplicado, segundo
o fisco, no custeio de despesas de Romero Jucá.
Getúlio
de Souza Oliveira, o contador que "preside" a Fundação
Roraima, disse à Folha que a Uyrapuru pertence a Geraldo
Magela Fernandes da Rocha. A reportagem apurou que não
é verdade. A Uyrapuru, de fato, foi fundada por Fernandes
da Rocha, um conhecido de Romero Jucá, morador de Brasília.
Mas não pertence mais a ele.
Depois
de assinar o "contrato de locação" da
TV Caburaí, Fernandes da Rocha transferiu a Uyrapuru
os direitos de explorar a emissora para os filhos do ministro.
Os Jucá não desembolsaram um único centavo
na transação.
A
assinatura do contrato que confiou a gestão da TV Caburaí
à firma dos filhos de Jucá foi precedida de uma
alteração no contrato social da emissora. Em 9
de julho de 1999, três meses antes da entrada da Uyrapuru
em cena, o ministro da Previdência retirou-se formalmente
da sociedade.
Embora
negasse publicamente, Jucá era mesmo sócio da
TV Caburaí, em parceria com a Fundação
Roraima. Cedeu suas cotas (50%) a Márcio Vieira Oliveira.
Vem a ser filho do contador Souza Oliveira, aquele que "preside"
a entidade "filantrópica".
"Com
o papai"
Na época em que "adquiriu" as cotas de Romero
Jucá na TV Caburaí (9/7/99), Márcio Vieira
Oliveira, hoje com 29 anos, tinha escassos 23. Na última
quinta-feira, a reportagem da Folha travou com ele o seguinte
diálogo:
-
Por que o senhor se tornou sócio da TV Caburaí?
-
Colocamos no nosso nome para poder trabalhar.
-
Foi a convite de Romero Jucá? O senhor o conhece?
-
Não. Foi através do papai.
No
mesmo dia, a Folha conversou com Getúlio de Souza Oliveira,
"o papai".
-
Quanto o seu filho pagou para ingressar na sociedade que controla
a TV Caburaí?
-
Como ela estava desativada, pagou coisinha pequena.
Deu-se,
na prática, o seguinte. Os Jucá controlam, por
meio da Uyrapuru, o filé mignon do negócio: a
concessão do canal de TV e a correspondente comercialização
publicitária. Os Souza Oliveira gerem a Fundação
Roraima que, embora detentora da concessão pública,
recebe mensalmente irrisórios R$ 3.500 pelo aluguel.
A
ingerência de Jucá na Fundação Roraima
já havia sido mapeada pela Receita há uma década.
Auditoria concluída em 9 de janeiro de 1995 reconstituiu
as origens da TV Caburaí, controlada pela fundação.
Descobriu-se que, em 23 de julho de 1990, a fundação
decidiu criar uma emissora de TV. Abriu, em sociedade com Rubens
Camargo Penteado, a TV Caburaí de Roraima.
Em
28 de novembro de 1990, Camargo Penteado deixou a sociedade.
Cedeu as suas cotas (50%) a Jucá. Nas palavras da Receita,
o ministro "passou a gerenciar a empresa". Diz o fisco
em seu relatório: "Jucá e a Fundação
Roraima passaram a ser sócios da empresa TV Caburaí
de Roraima Ltda.". A emissora traz na sua origem inversões
"fraudulentas" de dinheiro público.
A
TV Caburaí ostentava o CNPJ 34.801.100/0001-39. Porém,
em 4 de dezembro de 1992, criou-se a Rede Caburaí de
Comunicações. Operava sob o CNPJ 22.907.505.0001-77,
o mesmo da Fundação Roraima.
TV
Caburaí e Rede Caburaí eram, na prática,
a mesma personalidade jurídica. Uma emissora, nas palavras
do fisco, "indiretamente dirigida por Jucá".
Diz ainda o relatório da Receita: "Os recursos auferidos
com os serviços da Rede Caburaí de Comunicação
eram canalizados para a conta corrente 34210-4, na agência
250-X do Banco do Brasil em Boa Vista, gerida pela Rede Caburaí
".
Quanto
às despesas da emissora, "eram contabilizadas nos
livros contábeis da Fundação". Serviam,
segundo o fisco, para "amparar o desvio de recursos por
meio de cheques, fora do alcance da contabilidade da entidade".
"Nesse
expediente", anotaram os auditores da Receita, "eram
contabilizadas despesas incondizentes com os objetivos institucionais
da entidade". A filantrópica pagava, por exemplo,
os salários de funcionários que "prestavam
serviços" à rede televisiva.
As
notas fiscais emitidas pela Rede Caburaí assemelhavam-se
às da TV Caburaí. Evidência, diz a Receita,
de que as duas eram "a mesma firma". Ao utilizar o
CNPJ da Fundação, a Rede Caburaí caracterizou-se,
nas palavras da Receita, como "firma fictícia".
Os
auditores colheram o depoimento de Marco Roberto de Andrade.
Trata-se de um ex-sócio de Romero Jucá numa empresa
chamada Editora Jornal "O Estado de Roraima". Ele
informou que "o pseudônimo Rede Caburaí de
Comunicação" escondia, de fato, "uma
empresa fictícia operada por Romero Jucá (...)",
com objetivo de lançar as despesas da TV nos livros da
Fundação Roraima.
Roberto
de Andrade informou também à Receita que elaborara
pessoalmente os estatutos da entidade "filantrópica".
O texto previa a divulgação das atividades da
fundação "beneficente" em programas
de "rádio e televisão educativa". A
TV Caburaí, porém, extrapolou os estatutos.
Tornou-se
ferramenta política de Jucá. Além de retransmitir
a Bandeirantes, produz regionalmente 15% de sua programação.
Concede generosos espaços a Jucá e a seu grupo
político.
Agora,
ministro da Previdência, Jucá é confrontado
com o desafio de cobrar dívidas de organizações
às quais a Receita diz que ele é vinculado. A
Folha apurou que há na Previdência débitos
em atraso atribuídos à Fundação
Roraima. Somam R$ 159,4 mil. Contra a TV Caburaí há
um: R$ 31,8 mil.
OUTRO
LADO
Para
ministro, não há nada ilegal
Informação:
Folha de São Paulo - Brasil - 17/04/2005
Do colunista da Folha
Confrontado
com os dados recolhidos pela Folha, o ministro Romero Jucá
reconheceu que pertence a seus filhos a empresa que explora
a TV Caburaí, retransmissora da Rede Bandeirantes em
Boa Vista. "De ilegal não tem nada", disse.
Juca não conversou diretamente com a Folha. Manifestou-se
por meio de sua assessoria. Disse que a "produtora"
de seus filhos (Uyrapuru Comunicações) não
é dona da concessão de TV. "Apenas prepara
o material que é veiculado."
Segundo
o ministro, a operação é necessária
porque a Fundação Roraima, dona da outorga do
Ministério das Comunicações, "não
possui nem dinheiro nem estrutura para operar o canal".
Jucá
disse que, de fato, a Uyrapuru funciona num imóvel que
já lhe serviu de residência. Cedeu-o aos filhos.
Do mesmo local, é irradiado o sinal da TV Caburaí.
Pela
primeira vez, Jucá reconheceu algum tipo de participação
na Fundação Roraima. Ele nega envolvimento nos
desvios apontados pela Receita Federal.
Admite
apenas ter sido um dos fundadores da entidade. "Não
foi uma iniciativa isolada, mas de várias pessoas",
disse.
Jucá
reconheceu também ter transferido para Márcio
Vieira Oliveira cotas na sociedade que mantinha com a Fundação
Roraima em torno da TV Caburaí. Disse que a transação
não envolveu dinheiro por tratar-se de uma organização
sem capital, vinculada a uma fundação filantrópica.
O
ministro explicou por que seus filhos não tiveram de
desembolsar nada no instante em que adquiriram a Uyrapuru: "Eles
compraram uma empresa endividada. E assumiram as dívidas".
FAZENDEIRO
DO AR
Getúlio
de Souza Vieira, presidente da entidade, se enrola ao falar
sobre o ministro e a TV Caburaí
Informação:
Folha de São Paulo - Brasil - 17/04/2005
Fundação
não explica ligação com Jucá
Do
colunista da Folha
Dona
de um dos principais canais de televisão de Roraima (TV
Caburaí), a Fundação Roraima está
em petição de miséria. Instalou-se de favor
numa casa cedida pelo governo do Estado. Ministra cursos de
artesanato a cerca de 15 idosos. Funciona dia sim, dia não.
A
despeito das dificuldades, a entidade filantrópica alugou
à Uyrapuru, empresa pertencente a quatro filhos do ministro
Romero Jucá, o direito de explorar a sua emissora. Em
troca, recebe R$ 3.500 mensais.
Abaixo,
a entrevista com Getúlio de Souza Vieira, 62, presidente
da fundação. (JOSIAS DE SOUZA)
Folha
- Qual é a atividade da Fundação Roraima
hoje?
Getúlio de Souza Oliveira - É com pessoal
da terceira idade, fazendo artesanato, essas coisas.
Folha
- Como a fundação financia suas atividades?
Oliveira - Alugamos uma televisão que pertence
à fundação. Ela está alugada para
outra empresa.
Folha
- É a TV Caburaí?
Oliveira - É, pertence à fundação
e nós a alugamos.
Folha
- Qual é o nome da empresa que aluga a TV?
Oliveira - Uyrapuru Comunicações Ltda,
do sr. Geraldo Magela.
Folha
- A Fundação Roraima é uma filantrópica?
Oliveira - Exatamente.
Folha
- O sr. está acompanhando o noticiário que envolve
o ministro Romero Jucá?
Oliveira - Estou vendo, mas não temos nada com
isso.
Folha
- O ministro tem vínculos com a fundação
e com a TV?
Oliveira - Nenhum. Não temos nada com isso.
Folha
- Quer dizer que ele não é vinculado à
fundação?
Oliveira - Anos atrás, numa época em
que eu nem era presidente da fundação, ele ajudou
nuns projetos. Só isso.
Folha
- Mas o ministro Jucá é sócio da TV Caburaí,
não?
Oliveira - Também não. Não tem
nada a ver.
Folha
-Tenho comigo um documento da Receita Federal dizendo que ele
é sócio.
Oliveira - Mas isso faz muitos anos. Depois que eu
assumi é só com a gente aqui mesmo. Mas me diga
uma coisa: o que tem a ver o dr. Romero com a fundação
em termos de Receita?
Folha
- Com base em auditoria concluída em 1995, a Receita
diz que Romero Jucá é sócio da fundação
na TV Caburaí [o repórter lê trechos do
relatório do fisco].
Oliveira - Ele saiu há muitos anos. Aí
ficou só a fundação como sócia e
outra pessoa foi colocada no lugar. Não temos vínculo
nenhum com o dr. Romero.
Folha
- Quem é essa outra pessoa que entrou no lugar do ministro
Romero Jucá?
Oliveira - Entrou o Márcio Vieira de Oliveira,
que é o meu filho.
Folha
-O que faz o seu filho?
Oliveira - O Márcio? Ele é empregado
aqui no meu escritório de contabilidade.
Folha
- Quer dizer que o seu filho virou sócio da fundação?
Oliveira - É sócio na firma TV Caburaí,
junto com a fundação.
Folha
- Quanto o seu filho pagou para virar sócio de uma TV?
Oliveira - Como ela estava desativada, pagou coisinha
pequena.
Folha
- Mas a TV Caburaí não estava desativada.
Oliveira - A TV, é... é..., como ela
está funcionando, a fundação é que
assumiu tudo, para alugar, essas coisas.
Folha
- A TV Caburaí parece ser um negócio lucrativo,
retransmite a programação da Rede Bandeirantes,
vende anúncios etc. Quer dizer que seu filho entrou como
sócio sem pagar nada?
Oliveira - É que a televisão... Tenho
aqui vários documentos, é..., é..., tem
sido negativa a renda deles, toda vez.
Folha
- Dá prejuízo?
Oliveira - Dá mal para pagar os funcionários.
Folha
- Quando a TV dá lucro, o sr. lança o resultado
no balanço da fundação?
Oliveira - Como a TV foi alugada, eu só lanço
no balanço o valor do aluguel.
Folha
- Qual é esse valor?
Oliveira - É
uma faixa de R$ 3.500,00 por mês.
Folha
- A fundação continua recebendo verbas públicas?
Oliveira - Por enquanto, não estamos recebendo
nenhuma. Só temos uma casa cedida pelo governo do Estado.
É lá onde nós fazemos a atividade com o
pessoal da terceira idade.
Diretor
oculta donos de empresa
Informação:
Folha de São Paulo - Brasil - 17/04/2005
Do
enviado especial a Boa Vista (RR)
Na
TV Caburaí, os nomes dos proprietários da firma
Uyrapuru Comunicações, que alugou o direito de
explorar a emissora, são mantidos sob rigoroso sigilo.
Antônio
Augusto Baraúna, diretor da Uyrapuru, afirma que os nomes
dos proprietários da empresa "são informações
internas da empresa".
A
Folha apurou que a firma pertence a quatro filhos do ministro
Romero Jucá (Previdência).
Em
entrevista concedida em sua sala na TV Caburaí, Baraúna
disse que a Uyrapuru é a responsável pela folha
de pagamento dos funcionários da TV e pela assinatura
de contratos e todos os atos relativos à emissora.
A
seguir, trechos da entrevista concedida à Folha, que
também foi gravada por Baraúna. (RV)
Folha
- Quem é o proprietário da Uyrapuru Comunicações?
Antônio Augusto Baraúna - [Para] Informações
a esse respeito, o sr. tem que procurar os órgãos
competentes. São informações internas da
empresa e não tem comunicação [divulgação].
Folha
- Segundo a alteração que obtivemos na Junta Comercial,
a TV Caburaí pertence à Fundação
Roraima e a Márcio Vieira Oliveira...
Baraúna - Se você está com documentos
em mãos...
Folha
- Hoje a empresa mudou de nome, chama-se Produções
Caburaí.
Baraúna - Desconheço.
Folha
- O sr. aparece como testemunha da transação.
O sr. não se recorda dessa transação?
Baraúna - Transação de onde para
onde?
Folha
- A transação de 9 de julho de 1999, na qual o
sr. Romero Jucá passa as cotas para Márcio Vieira
Oliveira.
Baraúna - Não.
Folha
- O sr. não se recorda de ter assinado?
Baraúna - Posso olhar? [Baraúna analisa
e devolve o documento] Não me recordo.
Folha
- O sr. reconhece sua assinatura?
Baraúna - Não posso lhe afirmar se é
minha ou não.
Folha
- A Uyrapuru Comunicações funciona no bairro Canarinho...
Baraúna - Funciona aqui, a Uyrapuru.
Folha
- Nesse prédio, que na verdade é a TV.
Baraúna - É.
Folha
- O que faz a Uyrapuru e o que faz a TV?
Baraúna - A Uyrapuru é a TV.
Folha
- Mas, segundo o documento aqui, a TV não é a
Uyrapuru. A TV Caburaí é a Produções
Caburaí de Roraima [o nome foi alterado]. O CGC é
diferente. O da TV Caburaí é 34.801.100/0001-39.
E o CGC da Uyrapuru é 03.342.679/0001-95.
Baraúna - É, é o CGC da Uyrapuru
esse.
Folha
- Mas o sr. disse que é a mesma coisa. Eles têm
CGC diferente e nome diferente.
Baraúna - O sr. não entendeu. A Uyrapuru
gera um canal de televisão.
Folha
- A quem pertence o prédio?
Baraúna - Também não sei lhe informar.
Folha
- Qual o relacionamento de Romero Jucá com esta TV?
Baraúna - O relacionamento dele conosco é
o mesmo que nós temos com a classe política. Temos
um bom relacionamento com a classe política.
Folha
- O sr. Romero Jucá não tem cotas nem gere a TV?
Baraúna - Na Uyrapuru, não.
Folha
- E na Produções Caburaí?
Baraúna - Não sei lhe informar.
Folha
- O sr. nunca ouviu falar em Produções Caburaí?
Baraúna - Ouvi falar, mas não sei lhe
informar.
Folha
- Quem faz o pagamento dos funcionários, quem emite notas
fiscais aqui na TV, qual a pessoa jurídica?
Baraúna - Uyrapuru Comunicações.
Folha
- E o proprietário da Uyrapuru Comunicações...
Baraúna - É aquilo que lhe falei no início,
o sr. deve procurar nos órgãos competentes, é
uma informação interna.
Folha
- Qual seu cargo exato na Uyrapuru?
Baraúna - Diretor administra- tivo.
Folha
- Quando o sr. vai dialogar sobre salários e questões
estruturais da empresa, com quem o sr. dialoga?
Baraúna - Com a direção geral.
Folha
- Quem é o diretor-geral?
Baraúna - O sr. terá de procurar.
Procurador
de ministro tem cargo em fundação
Informação:
Folha de São Paulo - Brasil - 17/04/2005
Do
enviado especial a Boa Vista
Do colunista da Folha
O
procurador do ministro da Previdência, Romero Jucá,
no financiamento obtido no Basa (Banco da Amazônia) pela
empresa Frangonorte ocupa um cargo de conselheiro na Fundação
Roraima, detentora do canal de transmissão da TV Caburaí.
O
aposentado Carlos Severino Dias da Silva mora numa casa modesta
de um bairro pobre de Boa Vista (RR). Recebia dois salários
mínimos mensais na empresa Frangonorte quando foi convidado
a virar procurador de Jucá. É de Severino a mais
importante assinatura atribuída a Jucá, justamente
o documento pelo qual o então senador assumiu todas as
dívidas anteriores da empresa e ainda recebeu a promessa
de receber mais R$ 1,5 milhão do Basa.
"Eu
trabalhava nesse tempo lá na Frangonorte, aí ele
[Romero Jucá] teve que viajar. Porque o empréstimo
estava para sair e ele não podia estar aqui, acho que
iria viajar, então passou a procuração
para eu assinar uns documentos", contou Severino.
O
ato, de dezembro de 1995, envolve R$ 4,6 milhões de recursos
públicos provenientes do FNO (Fundo Constitucional do
Norte). Severino disse que nada recebeu para assinar o documento.
Na
Fundação Roraima, Severino ocupa o cargo de conselheiro
curador. Ele disse que foi convidado a integrar a entidade no
início dos anos 90, pelo então presidente, Pedro
Panilha.
Severino
relatou que não sabia exatamente o que iria fazer na
entidade. "Depois que eu estava lá dentro é
que fui ver os objetivos da fundação, que era
mandar para Brasília gente com problemas de lábio
leporino."
Severino
também trabalhou no Banco de Roraima na época
em que a instituição era presidida por Getúlio
Cruz, ex-governador de Roraima e sócio de Jucá
na Frangonorte.
Severino
disse que "fala muito pouco" atualmente com Jucá.
"Estou desligado do grupo. Eu saí praticamente do
eixo deles."
NO
PLANALTO
Romero
Jucá, um ministro feito 110% de encrenca
Informação:
Folha de São Paulo - Brasil - 17/04/2005
Josias
de Souza
Colunista da Folha
Desde
que virou ministro, Romero Jucá vem dedicando todo o
seu tempo a provar que não tem nada a ver com irregularidades.
Já convenceu o Palácio do Planalto. José
Dirceu até saiu em sua defesa. Como de hábito,
o chefão da Casa Civil sabe o que faz. Seria mesmo tolice
discutir com Jucá sobre perversões administrativas.
Ele é perito no assunto.
O
novo ministro da Previdência não entrou na política
ontem. Passeia por entre os cofres públicos há
longos anos. Arrasta atrás de si um casulo pegajoso de
encrencas. Meteu-se em muitas transações suspeitas.
Porém, esquiva-se de condenações com galhardia.
Faz jus ao sobrenome. O Aurélio ensina que Jucá
é sinônimo de "pau-ferro".
Pernambucano,
Jucá chegou a Brasília pelas mãos do grupo
político do conterrâneo Marco Maciel. Mas foi nos
fundões do país que se fez próspero. Enxergou
as potencialidades de Roraima numa época em que aquele
naco do mapa do Brasil ainda era mero território federal.
Jucá
foi mandado para Roraima, como governador nomeado, sob José
Sarney. Os primeiros ruídos de suspeição
soaram na prestação de contas que apresentou ao
TCU no exercício de 1989. Entre outros babados, foi acusado
de torrar dinheiro público em promoção
pessoal.
Distribuiu
cadernos aos alunos da rede oficial de Roraima. Traziam na contracapa
uma mensagem ilustrada com a imagem do governador. Abaixo da
foto, o nome do "patrocinador" do mimo: Romero Jucá.
A
Constituição proíbe expressamente a confecção
de peças com nomes, símbolos e imagens que caracterizem
"promoção pessoal". A defesa de Jucá
foi considerada inconsistente. O tribunal rejeitou-lhe a escrituração.
E condenou-o, em 1992, a pagar multa mixuruca. Coisa de R$ 20
mil, em valores de hoje.
Jucá
protocolou nova defesa no TCU. Alegou ter inserido a própria
foto na contracapa dos cadernos sem "o intuito" de
autopromover-se. Desejava apenas, segundo declarou, enaltecer
os valores da "educação e do trabalho".
Em
decisão indecente, o tribunal de contas acatou a impugnação.
Os julgadores reafirmaram a convicção de que a
Constituição fora "afrontada". No entanto,
mandaram ao lixo a decisão anterior. Segundo o novo acórdão,
Jucá não teve o "animus" da promoção
pessoal. As contas de Roraima foram reabilitadas. A multa foi
anulada.
Antes
mesmo de ser despachado para Roraima, Jucá já
se havia revelado, à frente da Funai (1986-1988), um
administrador, digamos, temerário. Sob sua gestão,
madeireiros foram autorizados a abater árvores nobres,
mogno inclusive, em reservas indígenas.
Escudado
em investigações da Polícia Federal, o
procurador da República Juliano Villa-Verde de Carvalho
denunciou Jucá. O repórter recuperou a peça
do procurador. É um libelo estarrecedor.
Diz
o texto: "Cada contrato celebrado entre a Funai e as serrarias
envolveu uma propina em dinheiro, que era repartida entre os
funcionários da Funai diretamente responsáveis
pela operação, cabendo sempre uma parte para o
presidente da Funai, destinada ao financiamento de suas pretensões
políticas".
O
procurador acusou o hoje ministro da Previdência de montar
uma "quadrilha" na Funai. Segundo a denúncia,
Jucá "designou três homens de sua íntima
confiança para representá-lo nas negociações
criminosas".
Diz
ainda o texto da denúncia: "50% da propina"
cobrada dos madeireiros "era destinada a Romero Jucá",
que vislumbrou na exploração madeireira das reservas
uma "mina de dinheiro".
O
inquérito policial de que se serviu o procurador Villa-Verde
contém depoimentos de madeireiros e de um sertanista
que pertencia aos quadros da Funai. Chama-se Francisco de Assis
da Silva.
Contou
ter recebido de um assessor de Jucá proposta para negociar
"com os indígenas" a exploração
de madeira. Confessou ter recebido dinheiro "como adiantamento".
Forneceu nomes, datas e lugares. Declarou que Jucá participava
da "partilha da venda de madeira dos índios".
À
época da denúncia, 1995, Jucá já
era senador. O exercício do mandato conferia-lhe foro
privilegiado. Só podia ser julgado pelo STF. O processo
morreu, porém, antes de chegar ao Supremo. Feneceu nas
mãos do então procurador-geral da República
Geraldo Brindeiro.
Pernambucano
como Jucá, Brindeiro, "el engavetador", mandou
o caso Funai aos arquivos, em setembro de 1996, por considerar
que não havia nos autos senão "vagas suspeitas".
Endossou, de resto, a tese de que, ainda que pudessem ser comprovados,
os supostos crimes já haviam sido alcançados pela
"prescrição".
Brindeiro
voltou a socorrer Jucá. Mandou à gaveta também
o caso da Fundação Roraima. Esse mesmo que, temperado
com revelações apimentadas da Receita Federal,
volta agora ao noticiário.
Embora
inocente até que as provas em contrário sejam
efetivamente analisadas, Jucá não parece pessoa
talhada para o ministério. Qualquer ministério.
Difícil saber por que José Dirceu defende o colega
de maneira assim, tão enfática. Ganha um carro
usado de Jucá quem souber informar as razões de
que são feitas as convicções de Dirceu.
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