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Fonte:
Repórter Social
Para
o novo colunista de Cidadania da IstoÉ, boa parte da
responsabilidade pela defasagem de temas sociais na mídia
brasileira cabe aos colegas, não aos donos dos meios
de comunicação.
A
estréia no próximo fim de semana da coluna de
Gilberto Nascimento sobre Cidadania na revista IstoÉ
é mais uma etapa de uma carreira voltada para as questões
sociais e para os problemas da periferia. Por conta dessa atuação,
o jornalista, que já passou por quase todos os principais
jornais e revistas do eixo Rio-São Paulo, ganhou prêmios
como o Ayrton Senna (para reportagens sobre infância),
o Wladimir Herzog (direitos humanos) e o Simon Bolívar
(do Parlamento Latino-Americano). Nesta entrevista à
Agência Repórter Social, Nascimento fala de como
a mídia trata esse tipo de temática e evita concentrar
as críticas nos donos dos meios de comunicação.
Em parte, assinala, porque eles visam mesmo o lucro, e não
“resolver os problemas do mundo”.
Em
segundo lugar, porque em muitos casos ele nunca viu algum pedido
de empresário para que não fossem publicadas,
por exemplo, reportagens sobre “absurdos” na periferia.
De modo bastante cuidadoso e no estilo extremamente educado
que o caracteriza, Nascimento ressalta o papel dos próprios
colegas nessa omissão e na falta de divulgação
do que chama de “Brasil real”. Para ele, a origem
de classe média da maior parte da categoria explica muito
a alienação e o descompromisso. “Em São
Paulo, que é o maior centro político e econômico
da América Latina, os colegas jornalistas profissionais
dos grandes veículos não fazem a mínima
idéia do que é a cidade de São Paulo”,
observa. “E se a maioria dos jornalistas não faz
idéia do que é a cidade de São Paulo, imagine
o Brasil.” Confira aqui a entrevista na íntegra:
Repórter
Social - Como será sua coluna nova na IstoÉ?
Gilberto
Nascimento -Será um espaço fixo, semanal,
com três páginas, dedicado à responsabilidade
social e ao terceiro setor. Enfocando sempre as questões
relacionadas à infância, educação,
e abordando toda semana um tema referente a essa área,
alguma questão que tenha a ver com o dia-a-dia do movimento
social, ou a apresentação de algum projeto, alguma
experiência inovadora, que seja um exemplo de política
pública. Haverá sempre uma reportagem principal
e um espaço para notas e pequenas notas falando de iniciativas
positivas, e um espaço alternado de artigos e perfis
de líderes sociais que fazem a diferença.
Repórter
Social - O jornal O Estado do Maranhão acaba de lançar
um caderno chamado Terceiro Setor. O Globo tem o Razão
Social, sobre Responsabilidade Social. Jornais e revistas econômicos
também têm aberto espaço para este tema.
Você acha que há uma tendência inexorável
na imprensa nesse sentido?
Nascimento
- Nos últimos anos houve grande abertura. Veículos
de comunicação passaram a tratar desses temas
com muito mais assiduidade, profundidade e competência.
Dedica-se uma atenção maior e há uma maneira
diferente de ver e acompanhar os projetos sociais. Os meios
de comunicação estão conscientes da importância
disso e procurando tratar de modo muito melhor. Os profissionais
acompanham de maneira mais eficaz as discussões, os seminários,
os eventos, procuram divulgar e dar espaço para as iniciativas
de fundações, instituições, iniciativas
empresariais.
Repórter
Social - Você acha que isso se dá pela conscientização
pelos donos de meios de comunicação ou jornalistas
ou uma tendência de mercado por conta do marketing social
das empresas?
Nascimento
- Há um trabalho de difusão da importância
do conceito da responsabilidade social empresarial. Então,
organizações como Instituto Ethos, Gife, Fundação
Abrinq, Instituto Ayrton Senna, trabalharam nos últimos
anos de maneira muito intensa a importância da responsabilidade
social. Isso tem ecoado nas empresas. Claro que uma grande empresa,
seja ela qual for, visa lucro. Mas ela, entre as mil ações
que desenvolve, tem essa preocupação, da imagem
junto ao consumidor. É provado em pesquisas que um consumidor
num supermercado tende a valorizar uma empresa que tem responsabilidade
social. E acho importantíssimo que as empresas apóiem
projetos sociais, que destinem parte de seus lucros para iniciativas
importantes e projetos inovadores.
Repórter
Social - Refiro-me mais aos meios de comunicação.
Eles são socialmente responsáveis hoje?
Nascimento
- Tem gente que faz ação social e apóia
projeto social e de repente não é. Agora, se a
empresa acaba sendo incoerente na divulgação,
no seu dia-a-dia, isso tem de ser cobrado. Ela tem de ser coerente
com o discurso que está assumindo.
Repórter
Social - Os meios de comunicação praticam isso
nas suas páginas ou apenas abrem espaço aqui e
ali para discutir o tema da responsabilidade?
Nascimento
- As empresas de comunicação, independente de
ter ou não algum engajamento em projeto social, sempre
têm responsabilidade muito grande na questão social
porque estão informando a sociedade. As pessoas formam
seus conceitos na vida também a partir das notícias.
O papel social da imprensa é super-importante. E a gente
como profissional briga por isso, que a gente consiga fazer
da forma mais eficiente, correta e ética possível.
A gente tem muito problema dentro das redações.
Agora, se há 10 anos, 15 anos havia muito mais dificuldade
para emplacar reportagens ou discussões sobre questões
sociais e hoje há mais espaço, é positivo.
Repórter
Social - Essa divisão clássica das editorias,
priorizando economia, política brasiliense e entretenimento,
já não escanteia estruturalmente os assuntos sociais?
Nascimento
- De maneira geral, sim. Nos veículos de comunicação
você tem um espaço garantido e fixo para essas
questões que você citou. Para tudo que venha do
Planalto, de Brasília, para a economia, os informes da
Fiesp, da bolsa, etc, as matérias comportamentais, que
vendem, as matérias de embelezamento, dieta, cura do
câncer, problemas do coração, celulite.
As divisões dentro da redação giraram em
torno desses temas. Então acho ótimo haver agora
uma abertura para se pensar numa editoria de Educação
e Cidadania, num caderno sobre terceiro setor, sobre empresas
e comunidade.
LEITORES
Repórter
Social - Os jornais não poderiam vender muito mais se
repercutissem não só as ações das
fundações, mas também a dos movimentos
sociais? Não seriam centenas de milhares de possíveis
leitores, de formadores de opinião, gente engajada, que
gosta de informação? Ou esse pessoal já
compra o jornal para reclamar do que saiu?
Nascimento
- Eu e você formamos um perfil de leitor que de repente
não corresponde ao da maioria. Então a gente não
vê o que a gente quer porque há uma avaliação,
um entendimento dentro das redações que não
é isso que a maioria que compra jornal e revista quer.
Eu também quero espaço para discussão de
temas sociais mais profundos. Agora, a grande maioria que vai
à banca prefere, segundo pesquisas, as reportagens de
celulite, problemas de coração, a descoberta da
cura de não sei mais o quê. Não estou dizendo
que isto é melhor, mas é aquilo que boa parte
do público de classe média, que é quem
compra jornal e revista, está querendo. Eu como repórter
que sempre acompanhei de perto a área social sempre batalhei
por mais espaço por temas sociais de mais profundidade.
Mas se você sair com uma capa de revista para discutir
o Fórum Social Mundial, segundo os dados das pessoas
que estão computando vendas, a tendência é
a de encalhar. Eu gosto do Milton Nascimento e do Chico Buarque,
mas o Zezé di Camargo e o Luciano dão grande Ibope
no Faustão, mas com o Milton o Ibope cai.
Repórter
Social - Mas aí não vem aquela questão
do compromisso que os meios de comunicação têm
de ter com coisas que essas pesquisas não vão
detectar? Por exemplo, defender a Constituição,
Declaração Universal de Direitos Humanos... Se
eles forem unicamente pelas pesquisas teriam de defender a pena
de morte...
Nascimento
- Eu sou de uma geração, da qual você é
próximo, que pegou a ditadura militar. Foi um momento
em que toda a sociedade brasileira se uniu para combater a ditadura,
lutar pela liberdade, e aí houve uma atuação
forte de todos os setores do país, inclusive a mídia.
Agora, o empresário de comunicação também
não cria uma empresa, um jornal, uma revista, para resolver
os problemas do mundo. Não dá muito para a gente
cobrar isso, exigir isso, esperar isso. Há a consciência
do papel social, da importância que a gente está
divulgando, a gente está formando consciências,
o empresário de comunicação, o jornalista,
o repórter. Acho um pouco ingênua a idéia
de que o empresário vá criar jornal ou revista
para resolver os problemas da sociedade. É possível
dar uma grande contribuição, mas o jornal é
uma empresa como qualquer outra.
Repórter
Social - Mas, Gilberto, não há em todos os editoriais
desses veículos até uma certa onisciência
em relação às propostas para resolver os
problemas do país e do mundo? Portanto a cobertura não
teria de ser coerente com essa postura?
Nascimento
- Eu quando leio coisas que não correspondem
à realidade, são distorcidas, discordo. Quando
acho que um veículo não cumpre minimamente sua
função de informar corretamente, deixo de ler,
de comprar.
Repórter
Social - Não digo só informar corretamente, mas
valorizar temas em relação aos quais o jornal
em seu editorial fica indignado, mas não vai em suas
páginas atrás de um aprofundamento.
Nascimento
- Não me sinto muito confortável para responder
pela imprensa. Em qualquer área você tem pessoas
com os mais variados tipos de pensamento, opinião, conduta.
Eu, como muitos outros colegas, sempre briguei, e muitos outros
colegas sempre brigaram, para brigar pelo Brasil real, para
falar da realidade. E dentro das redações você
tem pessoas fazendo um pouco de tudo. Tem o cidadão ali
que só vai falar de coluna social, outro que vai falar
de beleza, outro de surfe, outro de música, outro que
vai acompanhar teatro, você vai ter pessoas de esquerda,
direita, alienados, descompromissados. E a mídia acaba
refletindo um pouco isso.
“BRASIL
REAL”
Repórter
Social - O que mais te choca no Brasil hoje em relação
a suas tragédias sociais que você lê pouco
na mídia?
Nascimento
- Acho que sempre se falou muito pouco do Brasil real. Entre
os jornalistas que conheço 99% têm origem de classe
média, não conhecem o Brasil. Em São Paulo,
que é o maior centro político e econômico
da América Latina, os colegas jornalistas profissionais
dos grandes veículos não fazem a mínima
idéia do que é a cidade de São Paulo. E
se a maioria dos jornalistas não faz idéia do
que é a cidade de São Paulo, imagine o Brasil.
A 20 quilômetros da Praça da Sé ninguém
vai. A grande maioria conhece cinco ou seis bairros de São
Paulo. Eu não sou o salvador do mundo, mas por acaso
sou da zona leste e já fiz algumas reportagens aí
que causaram a maior polêmica, o maior choque, e são
coisas que estão na cara de todo mundo e ninguém
vê, porque ninguém nem conhece. A escola pública
é um caos total. Se a classe média tivesse filho
em escola pública seria muito melhor, porque a imprensa
cobriria um pouco melhor. E não vejo também nenhum
empresário de comunicação dizendo que não
é para fazer também. É que nem os colegas
repórteres têm noção, imaginam, conhecem.
Porque se você vai a São Miguel Paulista, Parada
de Taipas e vê coisas absurdas, volta para a redação,
fala (para o editor) e invariavelmente consegue espaço,
sim, para escrever. Eu sempre consegui: trabalhei na Folha,
no Estadão, no Globo, no Jornal do Brasil, na IstoÉ
e sempre falei da periferia. Nunca tive um espaço à
minha disposição para encher páginas e
páginas para ficar falando de pobreza e miséria,
necessariamente, mas sempre tive espaço, sim.
Repórter
Social – Quais os jornalistas que conseguiram driblar
essa lógica, mesmo com origem de classe média?
Nascimento
- Eu sou fã e admirador de grandes repórteres,
grandes profissionais que falam do Brasil real, sim. Você
é um deles. Falando de profissionais das gerações
anteriores, temos Ricardo Kotscho, José Hamilton Ribeiro,
Caco Barcellos, Sérgio de Souza, Narciso Kalili (falecido
em 1992), que sempre falaram do Brasilzão. Mais recentemente,
Xico Sá, Aureliano Biancarelli, Adriana Carranca. Não
quero cometer injustiças: Adriana Souza e Silva, Luísa
Alcalde, Leonardo Fuhrmann, Fernando Rossetti, Gabriela Athias,
Mário Simas Filho, Luiza Villaméa... É
gente pra caramba.
Repórter
Social - As universidades de um modo geral ainda não
têm disciplinas de Jornalismo Social na graduação,
o problema não começa daí?
Nascimento
- Não acho que as coisas estejam lindas e maravilhosas,
mas a abertura de espaço para discussão dessas
questões é importante. Nas faculdades nunca existiu
nada, e agora começa a existir, tem um curso aqui e ali.
Tive o privilégio de poder fazer um curso sobre direitos
humanos e infância na mídia, este último
como ouvinte na Universidade de Columbia, em Nova York, seria
maravilhoso termos isso aqui. Lá tem uma cadeira voltada
para a questão da infância. São coisas razoavelmente
simples que seria sensacional termos aqui. O terceiro setor
tem cursos de pós-graduação espalhados
pelo Brasil inteiro. É positivo. Não quer dizer
que não tenhamos problemas. Tem colega que acha que empresa
apoiar projeto social ou de responsabilidade social é
errado. Não acredita em empresários, acha que
eles são sempre sacanas, só querem levar o lucro,
“e se ele fizer alguma coisa boa para mim, também
sou contra”. Aquele que faz algo e se envolve em uma prática
que não é coerente, que a gente aponte, denuncie.
Repórter
Social - Algo mais a dizer...
Nascimento
- Eu falo essas coisas numa boa com os próprios colegas.
Teve um que disse: Gilberto, você quer que a gente passe
os dias de folga e fim de semana na periferia? Não, isso
não. O fato é que um empresário de comunicação
acaba voltando seu produto para o mercado consumidor, que é
a classe média, 1% da população. E a grande
massa está fora, não é o público-alvo.
Eu ouvi muitas vezes dentro de redações, em plantões
de fim de semana, quando acontecia um crime aqui e ali, o editor
dizer: “ah, lá ninguém lê jornal”.
Repórter
Social - Não deveria então ser uma das grandes
ações de responsabilidade social das empresas
e fundações financiar um jornalismo que não
atingisse somente a classe média?
Nascimento
- Eu espero que a gente consiga caminhar para isso. Infelizmente
não há. As próprias organizações
sindicais, partidos, sindicatos, Igreja, também têm
seus veículos, mas a grande maioria é feita de
modo artesanal, amadora, sem recursos, e acaba não atingindo
seus objetivos. Nos jornais de esquerda, por exemplo, com honrosas
exceções, há experiências seríssimas
e que dão resultado, mas há muitas coisas discursivas,
panfletárias, que têm um linguajar e um discurso
que só agradam à elite das organizações,
aquele militante já engajado que faz o jornal para ele.
Aí nem ele lê, porque já sabe o que está
escrito, e a maioria que seria o alvo daquela mensagem não
gosta, acha chato. Principalmente a esquerda, na época
da ditadura, tinha tendência de falar que futebol, samba
e carnaval eram alienação. Aí fica aquela
cantilena. Muitos veículos alternativos pecam ainda por
esse problema. Não estou dizendo que nenhum vale, eu
mesmo participei de muitos. No final a gente mesmo não
lia.
Repórter
Social - E muitas pessoas desses veículos acham que não
há a mínima possibilidade de fazer algo na grande
imprensa. Você é um dos que acreditam, não
é isso?
Nascimento
- Eu acho que dá para fazer. Pelo menos sempre
briguei para fazer e alguma coisa consegui. E alguns colegas
já fizeram e fazem, apesar das dificuldades. Às
vezes a gente precisa pensar formas de conseguir recursos, apoio.
As fundações que apóiam projetos poderiam
investir mais nisso também, na ajuda para abertura de
espaços na grande imprensa e no fortalecimento da qualidade
dos veículos alternativos. Porque a maioria também
não consegue fazer alguma coisa não porque é
incompetente, é porque não tem recursos. Fazer
jornalismo de qualidade é caro. Precisa viajar, investigar,
precisa de carro. É caro mesmo.
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