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Informação:
Observatório
da Imprensa - 15/03/2005
Ricardo
A. Setti (*)
As
numerosas reações favoráveis que recebi
de colegas por telefone, por e-mail e pessoalmente ao artigo
"Quem agüenta tanto noticiário político?",
publicado na edição anterior deste Observatório
(nº 319, de 8/3/2005, veja remissão abaixo) –
no qual se questiona a desproporção existente
entre a importância conferida pela mídia a esse
tipo de cobertura e o interesse do público por ela –
reforçou antiga convicção, baseada em longos
anos de experiência, de que uma grande parcela dos jornalistas
pensa de maneira semelhante.
Curiosamente,
o exagero do peso que o noticiário político merece
em todos os veículos – da TV aos jornais, da internet
às emissoras de rádio – é reconhecido
pelos próprios jornalistas responsáveis por eles.
Dificilmente se encontra um colega em posto de mando nas editorias
políticas ou em cargo de direção em publicações,
emissoras e portais na internet que se declare satisfeito com
o tipo de informação política que seu veículo
está entregando para o consumidor de informação.
Muitos já tentaram, sem êxito, mudar esse curso,
vários continuam tentando. Quase todos diagnosticam,
com razão, o problema como sendo "cultural":
algo que vem de longe e que, por várias razões,
continua por inércia. Mas o jornalismo político
estaria em ótimas condições se seu problema
fosse só esse.
Não
nos basta perguntar "quem lê tanta notícia?",
como na canção Alegria, alegria, de Caetano Veloso.
Precisamos discutir aspectos adicionais do jornalismo político
praticado no Brasil. Começando por um básico,
essencial: a linguagem que nele utilizamos. Apesar dos visíveis
e louváveis esforços feitos por alguns editores,
repórteres e comentaristas para tornar acessíveis
ao cidadão comum os acontecimentos do mundo político,
ainda se recorre de forma generalizada ao "politiquês"
para relatá-los.
A
praga do "politiquês"
O
politiquês guarda parentesco próximo com o igualmente
degenerado "economês" – linguagem cifrada,
freqüentemente impenetrável, que passou a assolar
o jornalismo pátrio quando o surto de crescimento deflagrado
no Brasil pelo regime militar a partir do final dos anos 1960
obrigou a imprensa a investir no antes incipiente jornalismo
econômico.
De
início, foram jornalistas que apelidaram de economês
a linguagem empolada e arrogante com que os economistas do regime
descreviam cenários e fenômenos macroeconômicos.
Os próprios jornalistas que criticavam essa linguagem,
porém, fizeram-na migrar para suas matérias. Primeiro,
como declarações entre aspas e muitas vezes desacompanhadas
de maiores explicações. Depois, como parte integrante
do próprio texto dos jornalistas.
A
mesma coisa ocorreu com o politiquês, embora não
seja fácil redigir-lhe a certidão de nascimento:
essa praga parece ter existido no jornalismo político
brasileiro desde sempre, e continua ativa, firme e forte. Pode-se
qualificar o politiquês como um dialeto híbrido,
uma misturalhada de termos, conceitos, expressões e ditados
oriundos dos mecanismos da Constituição, da legislação
eleitoral e sobre partidos políticos, dos regimentos
internos das casas legislativas, da atividade partidária,
das campanhas eleitorais e do folclore pessoal de governantes,
parlamentares e dirigentes de partidos.
Ser
didático é que é nobre
É
certo que, além do politiquês e do economês,
existem vários outros dialetos a perturbar a vida do
leitor: o mais genérico cientifiquês, o mais específico
mediquês, o militarês (em geral, mas não
apenas, nas matérias sobre guerras), o futebolês,
o automobilês... Talvez o jornalista esteja freudianamente
atrás de reconhecimento quando utiliza em larga escala
e sem tradução o jargão da atividade que
cobre – utilizar palavrório idêntico ao das
fontes representaria, assim, uma forma de também ser
"um deles", de ter a suposta relevância social
"deles".
O
fato é que, para não poucos jornalistas, lançar
mão do jargão acaba sendo uma espécie de
passaporte para uma suposta seriedade, um atestado de "estar
por dentro".
O
uso do linguajar cifrado, tal qual ocorre com as dimensões
exageradas do noticiário político, também
terminou sendo uma questão cultural. Ao longo de quatro
décadas de carreira, em boa parte chefiando equipes,
pude constatar a dificuldade de incontáveis colegas em
compreender o papel de facilitadores que temos como jornalistas.
Grande parte já chegava às redações,
mal saídos das faculdades, tendo como dogma de fé
que a simplicidade, num texto, era um defeito – quando,
pelo contrário, ela talvez seja a suprema meta a alcançar.
Era
(e é) como se a atitude de se afastar dos jargões,
debulhar e decodificar as informações os diminuísse
como jornalistas, constituísse uma atividade menos nobre,
quase subalterna. Passei a vida dizendo precisamente o contrário:
a existência da nossa profissão só tem sentido,
só se justifica se tivermos a capacidade de buscar as
informações e passá-las ao leitor/telespectador/ouvinte/internauta
não apenas de uma maneira atraente, mas da forma mais
didática possível. Aí reside boa parte
da nobreza do que fazemos.
Escrevemos
para as fontes
O
jornalismo político está longe, muito longe disso.
Somos muitas vezes pretensiosos e arrogantes.
Como
é possível que não só colunistas
de jornais – com leitorado menor, mais concentrado nos
chamados formadores de opinião –, mas até
mesmo repórteres tarimbados de televisão, ao falar
para milhões de consumidores de informação
– que incluem a dona de casa da favela da Rocinha, no
Rio, o produtor rural de Jacarezinho (PR), o balconista de Taquaritinga
(SP), o motoqueiro de Garanhuns (PE) ou o barnabé de
Brasília –, consigam usar, sem explicar, termos
e expressões como "relator", "comissão
mista", "substitutivo", "colégio
de líderes", "votação simbólica",
"destaque para votação em separado"
ou "pauta do Congresso travada por excesso de MPs"?
Na
verdade, grande parte dos jornalistas políticos –
como, de resto, do pessoal que cobre economia e negócios
e outros setores – não parecem produzir suas matérias
pensando, de fato, no grande público. Acabam, de forma
automática, escrevendo sobretudo para suas fontes –
e para os colegas.
Pela
mão contrária, incidem exatamente no erro dos
políticos que, ao darem entrevistas, empregam uma chorumela
perfeitamente adequada a seus colegas, a funcionários
da Câmara, do Senado ou de assembléias legislativas,
mas que soa incompreensível e chatíssima para
seus eleitores. Por quê? Porque se esquecem de se dirigir
a eles, não falam para eles, mas sim para o jornalista
entrevistador, no idioma comum que os une e que é sânscrito
para o público.
O
dever de explicar as instituições
E,
no entanto, ser didático não se trata somente
de uma obrigação técnica – elaborar
corretamente a matéria consoante os cânones do
melhor jornalismo. Ela constitui, ademais, um dever ético
do jornalista. Tem a ver com os fundamentos da nossa profissão,
com seu papel no mundo, com sua função social.
No
Brasil, esse dever ético – no jornalismo político
– vem acrescido de um peso especial: ser didático,
no Florão da América, significa não apenas
informar os fatos, explicá-los e, conforme a espécie
de veículo, tentar interpretá-los, mas também
procurar ajudar o público a entender como funcionam as
instituições. Especialmente instituições
confusas, mal estruturadas e em permanente mutação
como as nossas (não custa lembrar que, com meros 17 anos
de vigência, nossa Constituição já
sofreu meia centena de emendas).
Pouca
gente, no Brasil, até entre as elites, tem idéia
de o que são, como são e como funcionam as instituições.
Com exceção de alguns cursos superiores, especialmente
o de Direito, esse assunto merece pouca ou nenhuma atenção
dos currículos escolares. Ao jornalismo não cabe,
logicamente, o papel de substituir a educação
nesse aspecto, mas ele poderia e deveria ajudar, uma vez que
o desconhecimento sobre as instituições é
um permanente fator de diminuição de cidadania
para as pessoas.
O
jornalismo político, porém, não se ressente
unicamente dos problemas expostos nos parágrafos anteriores
– a cobertura de dimensões desmesuradas, o uso
do jargão impenetrável, a despreocupação
com o didatismo, a negligência para com o dever de informar
sobre como atuam as engrenagens do Estado. Há ainda temas
como a relação promíscua entre certos profissionais
e suas fontes, os conflitos de interesses que se dão
com jornalistas que acumulam funções em veículos
com a atividade de consultoria, a excessiva proximidade de certos
repórteres com o governo, ou com a oposição,
em detrimento da necessária (tentativa de) isenção
– e outros na mesma área ética.
Picuinhas
x grandes questões
Como,
porém, felizmente são detectáveis numa
parcela dos profissionais, cabe voltar ao aspecto técnico
e comentar pelo menos mais um tópico mal resolvido no
jornalismo político praticado no Brasil: a ênfase
dada à forma, em prejuízo do conteúdo.
Adoramos
cobrir as manobras de bastidores, mesmo as desimportantes, as
desavenças internas dos partidos, as picuinhas, o diz-que-diz-que
palaciano, o quem-ganhou-quem-perdeu no episódio tal
ou na crise qual, as intrigas entre adversários, as alfinetadas
entre aliados.
Deixamos
muitas vezes de lado o que os anglo-saxões chamam de
issues – as questões, nem sempre grandes, mas importantes,
que provocaram toda essa movimentação. Ou seja,
as decisões, programas e leis que surgem da atividade
do Executivo e do Congresso, suas causas, sua real importância
e o que, enfim, resultará delas para o cidadão
comum.
Esse
nosso vício como jornalista atingiu seu paroxismo, provavelmente,
durante os trabalhos da Assembléia Constituinte (1987-1988).
Para quem não se lembra, ou não tem idade suficiente
para haver testemunhado ou participado, a mídia se fartou
na época de relatar os embates entre a aliança
conservadora reunida em torno do chamado "Centrão"
e a esquerda nacionalista, bem como a rivalidade entre o presidente
da Constituinte, Ulysses Guimarães (PMDB-SP), e o à
época presidente da República, José Sarney.
Dedicou-se,
igualmente, um esforço enorme para relatar as manobras
de Sarney para que seu mandato em curso fosse fixado, nas Disposições
Transitórias da Carta, em cinco anos, em vez dos quatros
com que se havia comprometido com a nação o presidente
que morreu antes de tomar posse, Tancredo Neves.
Toda
essa atividade política teve sem dúvida sua importância,
tanto quanto foi útil e revelador o intenso noticiário
sobre o que fez Sarney para enfim conseguir os 5 anos –
a política fisiológica que a partir de então
se tornou conhecida como "é dando que se recebe".
Mas
nós, jornalistas, não demos primazia, num momento
crucial da história contemporânea, a um dever maior
para com o leitor: o de decifrar que tipo de Constituição,
enfim, se estava forjando no Congresso e em que e como ela poderia
mudar a vida do país e dos cidadãos.
Seria
injustiça negar que melhoramos de lá para cá.
Seria injustiça negar que se observa um esforço,
embora inconstante, por parte dos grandes veículos para
explicitar melhor o conteúdo do que as decisões
políticas encerram – e um bom exemplo recente foi
a rica cobertura propiciada pela discussão do projeto
que resultou na Lei da Biossegurança, abarcando itens
tão fundamentais como os alimentos transgênicos
e a utilização de células-tronco embrionária
na pesquisa para a cura de doenças graves.
Tanto
nessa questão, porém, como nas demais comentadas
neste artigo – e em outras mais, que poderiam ser abordadas
–, há muito a caminhar. O vasto noticiário
político que produzimos ainda exclui o grande público.
(*)
Jornalista
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