| Informação:
Observatório
da Imprensa - 19/04/2005
Ricardo
A. Setti (*)
Nas
redações por onde passou, Elio Gaspari tornou
clássico um caso que costuma contar sobre um repórter
no Rio do início dos anos 1970 que, ao entrevistar o
na época presidente da Petrobras, começou por
perguntar ao general Ernesto Geisel quantos barris diários
de petróleo a empresa produzia. O futuro general-presidente,
com sua legendária franqueza rude, encerrou a entrevista
ali mesmo, despachando o repórter.
"Se
o camarada vem até aqui para me fazer perguntas e nem
sequer se informou sobre a produção da empresa,
como pode me entrevistar?" – resmungou depois. O
general não entendia e não gostava de imprensa
nem de jornalistas, mas tinha razão. Ele tocou, ali,
numa questão essencial, básica, da profissão,
que no entanto em nossas discussões sobre o jornalismo
no Brasil tem permanecido, como tantos outros pontos "operacionais",
em segundo plano diante da magnitude da crise que a mídia
atravessa – crise financeira, técnica, ética,
política e trabalhista.
Falamos,
é claro, da velha e boa "lição de
casa" que todo jornalista deve fazer antes de uma reportagem.
Requisito óbvio e indispensável desde os primórdios
da profissão e que, no entanto, continua sendo com freqüência
deixado de lado no dia-a-dia das redações de jornais,
revistas, portais de internet e emissoras de rádio e
TV.
Como
se sabe, existem para nós, jornalistas, duas vertentes
desse conceito: a lição de casa em sentido lato,
amplo, que é preparar-se adequadamente antes de escrever
ou, em rádio e TV, de produzir a matéria –
ou seja, ter lido o suficiente, consultado arquivos e livros,
ter entrevistado quem precisava ser ouvido; e a lição
de casa em sentido estrito, ou seja, a fase preliminar a tudo,
aquela de preparar-se minimamente antes de começar a
apuração, principalmente se informando o suficiente
sobre o assunto para realizar boas entrevistas. Um evento recente
trouxe o tema à baila, nas duas vertentes.
O
perigo de errar cobrindo a TV
Não
se trata de um megaacontecimento como a morte e os funerais
do papa João Paulo II nem de tema cortante e tenebroso
como a recente chacina cometida por policiais na Baixada Fluminense.
Longe disso. De propósito, vamos tratar do assunto partindo
de algo de teor ameno: várias reportagens e comentários
publicados em diferentes veículos sobre a ultrapremiada
série americana de televisão The West Wing, que
aborda os bastidores da Casa Branca sob um fictício presidente
democrata dos Estados Unidos. O título se refere à
ala da Casa Branca onde fica o gabinete do presidente, o Salão
Oval. A série, semanal, vai ao ar com legendas pelo canal
pago GNT (temporada atual) e, na TV aberta, pelo STB, com atraso
de temporadas em relação ao GNT e dublada.
O
"gancho" para tais matérias veio do fato de
que o presidente em The West Wing, Jed Bartlet (interpretado
pelo ator Martin Sheen), está no último ano de
seu segundo e último mandato e os produtores vivem o
processo de decidir o que fazer em seguida, entre a sexta (e
atual) temporada da série e a seguinte: devem enveredar
pela eleição de mais um presidente democrata que,
tal qual Bartlet, seja um antípoda quase absoluto do
presidente na vida real, o republicano George W. Bush? Ou fazer
de alguma forma o novo chefe de Estado fictício aproximar-se
da realidade da Casa Branca atual e ser, também na tela,
um republicano?
Se
há um terreno em que é perigoso para nós,
profissionais, cometer erros factuais, esse é o da televisão.
Diferentemente de outras áreas que cobrimos, às
quais temos acesso privilegiado em razão da profissão,
aquilo que passa na televisão é testemunhado por
multidões. Em telenovelas, minisséries e séries
importadas, como é o caso neste artigo, o público
conhece em detalhes os enredos, os personagens, as idas e voltas
das tramas, lembra-se de episódios anteriores, memoriza
o passado dos protagonistas. Os jornalistas, nem sempre –
especialmente os que não acompanham em cima a rotina
da TV. Os que, em resumo, não têm tempo ou disposição
para fazer a lição de casa – em sentido
amplo ou estrito. Por isso, as revistas semanais de informação,
que cobrem a área de forma bissexta, não raro
cometem "barrigas" espetaculares ao tratar de TV.
Paciência
de assistir aos episódios
No
caso de The West Wing, apareceram sinais de falta de lição
de casa até em reportagem de jornalista que a Warner
Brothers – responsável pela série –
levou a Los Angeles para se informar diretamente nas fontes
escolhidas pela empresa. Tais viagens, por sinal, são
um bom tópico para se comentar neste Observatório:
o que pauta o jornalismo na área de Artes e Espetáculos
da mídia são as necessidades do leitor/internauta/ouvinte/telespectador
ou os interesses dos produtores de cultura e entretenimento?
Mas, voltando ao ponto deste artigo: uma reportagem, lá
pelas tantas, refere-se ao personagem Leo McGarry, "chefe
de gabinete" do presidente Bartlet.
Ora,
alguma familiaridade com a série permite saber que McGarry
deixou as funções há pelo menos 12 episódios
– três meses na vida real e muito mais no tempo
imaginário do seriado – por causa de um ataque
cardíaco. E uma das grandes atrações da
temporada atual passou a ser justamente o fato de que Bartlet
o substituiu por sua então secretária de Imprensa,
que se tornou a primeira mulher da história a ocupar
o cargo. Faltou lição de casa em sentido amplo
– preparação suficiente antes de escrever
a matéria, que no caso incluía ter a paciência
de assistir a vários episódios da história
para captá-la adequadamente.
Em
outra altura, o texto atribui ao produtor John Wells a informação
de que há ex-assessores da Casa Branca entre os roteiristas.
Isto é contado em tom de novidade e, ao mesmo tempo,
atribuído ao produtor, como se não fosse algo
constatável. Na verdade, The West Wing mostra desde sua
primeira temporada, nos créditos ao final de cada episódio,
que efetivamente conta com um timaço de ex-colaboradores
de presidentes e de candidatos à Presidência.
Vendo
demais em The West Wing
Gente
como nada menos do que um ex-chefe da Casa Civil do presidente
Ronald Reagan, um ex-secretário de imprensa de George
Bush pai e uma ex de Bill Clinton, além de um especialista
em pesquisas que trabalhou para Jimmy Carter e um ex-diretor
do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca sob Clinton.
Para quem não sabe quem são aqueles nomes, bastaria
pesquisar... Quer dizer, aqui ocorreu falta de dever de casa
em sentido estrito: uma melhor preparação para
a viagem traria melhor resultado final.
Um
segundo texto assegura que o presidente fictício de The
West Wing passa por uma fase de maus bofes diante da possibilidade
de não eleger o sucessor. O caso é bem outro:
o Bartlet da série, gravemente afetado por uma doença
degenerativa, afastou-se da sucessão de forma premeditada
porque, sem seus derradeiros 365 dias no Gabinete Oval, pretende
concentrar-se na conclusão de um legado que inclui a
melhoria das relações com a China, a paz no Oriente
Médio e a contenção do regime delirante
da Coréia do Norte. Por ora, não poderia preocupar-se
com os adversários porque nem se sabe ainda quem vai
disputar a indicação republicana..
Uma
terceira matéria conclui, depois de o autor assistir
a um determinado episódio, que na série "resta
a sensação de que heroísmo e respeito institucional
são coisas incompatíveis" – quando
The West Wing recebe críticas, nos EUA, pela razão
exatamente oposta: a série, vis-à-vis a realidade
e, sobretudo, a realidade de George W. Bush, idealizaria ao
limite da inverossimilhança o presidente Bartlet e o
respeito de sua administração pelas instituições,
a lei, as normas internacionais e os direitos humanos.
Contando
a história da Alemanha nazista
A
lição de casa é como a prática quotidiana
de atividade física: não raro chata, muitas vezes
penosa – mas absolutamente indispensável. É
óbvio que a vida de um jornalista também é
feita de situações em que não está
em questão ter ou não se preparado previamente
para uma tarefa: o furo que nos cai no colo, a crise que estoura
sem avisar, o inesperado que tem tudo para ganhar manchetes.
Aí, não tem jeito: é pegar ou largar.
Mas,
na grande maioria dos casos, as redações escolhem
o que vão cobrir ou pelo menos têm conhecimento,
com alguma antecedência, do que precisa ser coberto. É
quando aparece a necessidade da lição de casa.
É aí que, sem ela, não existe bom jornalismo.
Ao
longo da história, muitos jornalistas se constituíram
em casos heróicos de preparação para uma
tarefa, principalmente para a elaboração de livros
de reportagem. O americano William L. Shirer, ex-repórter
do jornal Chicago Tribune em Paris e em Viena, repórter
da rádio CBS na Alemanha nos primórdios do nazismo
e autor da gigantesca obra-prima Ascensão e Queda do
III Reich – Uma História da Alemanha Nazista talvez
seja um recordista em matéria de fazer o dever de casa
em qualquer dos dois sentidos.
Anos
a fio numa papelada infernal
A
ele foi franqueado o acesso a uma imensidão quase impensável
de documentos apreendidos pelos Aliados às vésperas
da rendição da Alemanha nazista na II Guerra Mundial.
Só de uma única procedência, o Ministério
de Relações Exteriores do III Reich, o I Exército
americano desencavou, de esconderijos em minas e castelos, 485
preciosas toneladas de papel.
Shirer,
além disso, teve acesso a 42 volumes de depoimentos prestados
perante o tribunal de crimes de guerra de Nuremberg, cuja primeira
parte, aliás, ele cobriu com grande competência
para a CBS e o extinto jornal The New York Herald Tribune.
É
claro que era humanamente impossível ler tudo isso, mas
ele fuçou a papelada infernal durante anos a fio e realizou
centenas de entrevistas, e não é de estranhar
que seu livro, no original com 1.250 páginas, só
tenha sido enfim lançado em 1959, 14 anos após
a derrocada da ditadura maligna do Führer.
O
"Dia D", Elio Gaspari, Fernando Morais
Outro
que se lançou a uma tarefa quase sobre-humana foi o irlandês
Cornelius Ryan, que cobriu a II Guerra em várias frentes
para a agência Reuters e o para venerando The Daily Telegraph
de Londres. Focado especialmente em entrevistas, mas sem desprezar
documentos, só para um dos livros que escreveu a respeito
do grande conflito, o célebre O Mais Longo dos Dias –
sobre a maior operação militar da história,
o desembarque aliado na Normandia, a 6 de junho de 1944, o "Dia
D" – Ryan colheu mais de mil depoimentos de oficiais
e soldados nos EUA, no Canadá, na Grã-Bretanha,
na Alemanha e na França (nesta, também de civis).
O livro igualmente só veio a público em 1959,
15 anos depois do Dia D.
Esses
são, claro, casos extremos. Mas o universo da não-ficção,
inclusive no Brasil, tornou rotina megatrabalhos de repórteres
que, para escrever um livro, além da leitura de extensa
bibliografia e consulta de vastos arquivos, realizam centenas
de entrevistas. Entre vários exemplos, temos os de Fernando
Morais e Ruy Castro.
E
sobretudo o de Elio Gaspari, que, para sua extraordinária
obra sobre a ditadura militar, de que se publicaram quatro volumes
a partir de 2002, passou duas décadas anotando o que
viu e viveu, entrevistando personagens, lendo livros, coletando
documentos e percorrendo arquivos inéditos – esforço
suficiente para preencher 30 mil fichas de informação
no computador.
Dois
marcos: a Pesquisa do JB e o Dedoc da Abril
Na
rotina mais terrena das redações, a preparação
para as empreitadas jornalísticas de um ou outro modo
existiu desde que o jornalismo começou a tomar forma
de empreendimento. No Brasil, todos os grandes jornais, a começar
pelo O Estado de S. Paulo, aos poucos passaram a dispor de arquivos,
mais ou menos rudimentares, quando os jornalistas começaram
a mudar a prática de cada um se virar por si como possível.
Mas certamente um marco terá sido o Departamento de Pesquisa
do Jornal do Brasil, criado por Alberto Dines em 1962, tão
logo assumiu o comando da redação para uma gestão
renovadora que se estenderia por quase 12 anos.
Seu
primeiro titular, Nonato Masson, comprou os primeiros livros
de referência e começou a organizar pastas de recortes
do que acabaria sendo um modelo para a imprensa brasileira,
pois Dines transformaria o Departamento em algo mais moderno
e dinâmico – uma editoria, que alimentava as diferentes
editorias da redação com textos próprios.
Por ali passariam, entre vários, Murilo Felisberto e
Fernando Gabeira.
Em
São Paulo, pelo menos duas, senão três gerações
de jornalistas – e faço parte da primeira –
muito devem ao excepcional Departamento de Documentação
da Editora Abril (Dedoc), provavelmente o melhor do gênero
no Brasil, e páreo para bancos de dados de qualquer instituição.
Criado em 1968 para dar suporte à revista semanal de
informações que a Abril lançaria em setembro
daquele ano, a Veja, o Dedoc aos poucos se transformou em centro
de romaria obrigatório para colegas das outras revistas
da empresa. Em várias delas, especialmente em Veja –
e lá fiquei por um longo e enormemente rico período,
entre 1975 e 1983 –, era malvisto quem não mergulhava
no Dedoc antes de fazer uma entrevista com uma fonte de peso
ou de começar matéria de maior fôlego.
O
exemplo do Dedoc frutificou a ponto de mesmo veículos
modestos fora dos grandes centros estabelecerem algum tipo de
banco de dados. Então veio a internet. Ela tornou indesculpável
a falta de lição de casa, embora, como sabemos,
recomende cuidados no uso, tantas são as bobagens e barbaridades
apresentadas como verdade que qualquer um de nós encontra
a cada momento.
Confiando
demais na memória
Ao
longo de 40 anos de carreira, cansei de ver talentos promissores
naufragarem na profissão, cedo ou tarde, por excesso
de confiança em dotes pessoais – memória,
capacidade de observação, em especial um bom texto,
que supostamente "salva" matérias – em
prejuízo da menos charmosa necessidade de fazer o dever
de casa. Em compensação, tive a oportunidade de
ser subordinado, colega e chefe de muitos jornalistas que foram
e são admiráveis também nesse quesito.
Um
deles, o grande repórter Ricardo Kotscho, ainda recentemente
contou, com humildade de principiante a despeito de suas quase
quatro décadas no ramo, que quando participa de programas
de televisão como o Roda Viva lê todo o enorme
dossiê sobre o entrevistado que a produção
costuma enviar aos jornalistas convidados. Mais que isso: anota
para si mesmo, por escrito, as perguntas que pretende fazer
ao longo do programa. Modesto, atribuiu o hábito à
timidez, quando os que o conhecem sabem tratar-se do resultado
da aplicação e seriedade com que encara o trabalho.
A
experiência é sempre uma grande conselheira, como
mostra Kotscho. Mas nem os experientes estão dispensados
de manter a "prontidão" que a profissão
invariavelmente exige. Você pode ter-se preparado para
a tarefa, ter tudo visto e revisto e, na hora H, acaba morrendo
na praia por um detalhe. Confiar demais na memória, por
exemplo. Quem já não viveu essa experiência,
sendo foca ou veterano? Tive várias ao longo da vida.
A mais recente ocorreu em julho de 2003, quando atuava como
comentarista do boletim multimídia Jornal do Terra. Foi
durante uma entrevista ao vivo no estúdio de TV do portal
Terra com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de que
participaram o editor-chefe José Roberto Toledo, a âncora
Maria Lins e eu.
Com
FHC, um "branco" ao vivo
Estávamos
no sétimo mês do governo Lula, e me preparei para
a entrevista repassando temas quentes daquele momento e questões
polêmicas dos oito anos do ex-presidente. Contrariando
um hábito, porém, não escrevi a lista de
itens de que tencionava tratar. A entrevista seguia bem, consegui
encaixar algumas perguntas decentes até que, num momento
em que, pela ordem seguida desde o início do programa,
imaginava que Maria Lins fosse ela própria fazer uma
pergunta, ou passar a palavra a Toledo. Ela, no entanto, se
dirigiu a mim. Ato contínuo, veio um "branco".
Por
instantes, não me lembrava de nada do que queria perguntar.
Antes que percebessem o problema, lancei mão do velho
truque de pedir ao entrevistado para esclarecer melhor algo
que ele acabara de dizer – no caso, o temor alegado pelo
ex-presidente de que o governo Lula perdesse "o ponto do
bolo" em sua política social.
Pergunta
pífia, que apenas engoliu segundos preciosos do programa,
quando FHC poderia ter sido questionado sobre as suspeitas de
corrupção em torno da emenda constitucional que
permitiu sua reeleição, só para ficar numa
questão relevante. Não me adiantou a lição
de casa feita, se ela não tivera o fecho com a feitura
da lista que ajudaria a memória na hipótese de
um imprevisto – que aconteceu.
Mais
de mil textos lidos
Se
um dever de casa incompleto pode causar problemas de um tipo,
quando excessivo é possível que resulte em outro.
O excesso de informação às vezes detona
um efeito paralisante naquele momento, sempre algo sofrido e
desafiador, de afunilar tudo o que apuramos para enfim fazer
a matéria no espaço disponível. Quem já
não passou por coisa parecida? Claro que me incluo na
lista. Minha mais dramática experiência no gênero
é bem anterior ao que o episódio do Terra. Deu-se
em Veja, às vésperas da eleição
presidencial americana de 1980.
Como
subeditor da Internacional, na época uma editoria-chave
na revista, pilotada pela extraordinária jornalista que
é Dorrit Harazim, uma de minhas responsabilidades era
coordenar a cobertura dos EUA – onde Veja tinha dois excelentes
correspondentes – e seu papel no mundo. Vivia-se um ano
de fortes emoções nos EUA: entre outras coisas,
o presidente Jimmy Carter enfrentava, no plano externo, a grave
e interminável crise dos reféns na embaixada americana
no incendiário Irã, ocupada por partidários
do aiatolá Khomeini; no plano interno, precisara se impor
e derrotar dentro de seu partido um adversário formidável,
que falava muito ao coração dos democratas, o
senador Edward Kennedy.
Mergulhado
até o pescoço e há meses no assunto, coubera-me
escrever dezenas de matérias sobre a disputa. Numa época
em que as capas de Veja eram objeto de um grau de exigência,
um rigor e uma profundidade que jamais viria a encontrar em
outro veículo, eu já redigira três delas,
de grande porte, sobre as eleições, inclusive
uma desde Nova York, para onde tinha sido despachado pela revista
para ver Carter derrotar Kennedy na convenção
democrata. O tempo todo municiado por reportagens e relatórios
dos correspondentes Roberto Garcia, de Washington, e Selma Santa
Cruz, de Nova York, além de ter à disposição
o belíssimo arquivo interno da editoria, o Dedoc e as
principais publicações dos EUA e da Europa, eu
sobrenadava num dilúvio de informações.
(Minha mania por estatísticas me fez compilar, depois
que as eleições terminaram com a vitória
de Ronald Reagan: entre relatórios e reportagens via
telex e recortes de jornais e revistas estrangeiras, havia lido
mais de mil textos, fora as entrevistas feitas em Nova York).
Quase
três horas tentando escrever e... nada
Então
chegou o começo de novembro e a hora de escrever o que
seria a quarta capa, uma capa de apresentação
da grande disputa a marcada para a terça-feira seguinte
ao domingo em que Veja circulava, sob o título "Carter
x Reagan – Enfim, a decisão". Onze páginas
de revista, divididas em dois grandes textos e dois boxes. Com
um mapa de anotações e pilhas de recortes e rolos
de telex organizados à frente, sentei-me à máquina
de escrever e... nada. Não conseguia um lead.
Laudas
e laudas eram arrancadas da máquina e arremessadas ao
cesto de lixo sem uma linha que prestasse. Pausas para buscar
um cafezinho no final do longo corredor da redação,
conversas protelatórias com colegas próximos aqui
e ali e recursos semelhantes não resolviam o engasgo.
O tempo passava. Uma hora... Duas horas... O nervosismo por
não conseguir escrever se somara à preocupação
de que a pane não fosse percebida. Passado um pouco de
três horas de sofrimento diante do teclado – perto
das onze horas da sexta-feira do fechamento – e, finalmente,
a matéria começou a acontecer. Tinha acabado de
acabar o maior branco que tive em quatro décadas de jornalismo,
e do qual jamais me esqueci.
Culpa
de exagero próximo ao paranóico na feitura da
lição de casa. Mas ainda hoje, tão distante
daquele dia, posso dizer que prefiro esse tipo de branco ao
oposto dele – a agonia de fazer uma matéria tendo
a martelar na cabeça a permanente certeza de desconhecer
o assunto. Haverá coisa pior, para o jornalista –
e para o leitor?
(*)
Jornalista
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