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Informação:
Observatório
da Imprensa - 22/02/2005
Gabriel
Perissé (*)
Houve
um tempo em que era sagrado: comprava o jornal todos os dias
pela manhã e lia tudo, de cabo a rabo, de fio a pavio,
das manchetes aos classificados.
Numa
segunda-feira, porém, surgiu a dúvida. Compro
ou não compro o jornal hoje? Dia internacional da preguiça,
e, além do mais, tinham ficado em cima do sofá,
para ler, alguns cadernos da edição domingueira.
Pensando bem, segunda-feira (onde estará a primeira-feira?)
era mais para começar a semana, marcar compromissos...
Não comprou. Virou rotina.
Certa
vez, esqueceu de comprar na quinta-feira. E sabe o que aconteceu?
Não aconteceu nada. Tudo o que aconteceu já havia
acontecido. As informações da quinta não
alteraram a cotação do dólar nem o tamanho
do engarrafamento.
Quando
passou a comprar o jornal apenas na quarta, sexta, sábado
e domingo, os três dias restantes ganharam em leveza.
As notícias pela rádio e pelo telejornal supriram
sua fome de verdades, ou meias-verdades, ou especulações,
ou meteorologia... Ainda sobrou um trocado para a cerveja.
Foi
numa sexta-feira de verão, depois da oitava latinha,
que ele lembrou não ter lido o jornal que comprara pela
manhã. E já era praticamente sábado! Sábado-domingo,
sim, poderia ler com calma, saborear o editorial, as reportagens,
o caderno de cultura. Estabeleceu que nem chamaria a publicação
de jornal (proveniente do latim diurnalis, como consultara num
livro sobre etimologia popular). Não o leria todos os
dias nunca mais. Só no final de semana.
Informação,
informação
Mas
o problema é que os finais de semana foram ficando curtos:
lavar carro, fazer compras, sair com a família, cuidar
do cachorro, pegar um cineminha, dar uma corridinha no parque,
tomar outra cervejinha com os amigos, bater uma bolinha, dar
uma dormidinha...
Tudo
bem, a edição de domingo passa a reinar ao longo
da semana. Ler um jornal em sete dias – nada mal em tempos
nos quais tempo é o que mais falta. O triste foi se dar
conta de que, numa determinada semana, o jornal com tantas páginas
permaneceu dentro do saco plástico, virgem.
A
banca de jornal tornou-se quase invisível. As notícias
pela internet, o comentário de alguém na hora
do cafezinho, até o jornalzinho da associação
de bairro – tudo lhe comunicou que a freira foi assassinada
no Pará, que o julgamento de Michael Jackson está
uma confusão, e que amanhã vai chover, com certeza...
(*)
Doutor em Educação pela USP e escritor; (www.perisse.com.br)
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