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Informação:
Observatório
da Imprensa - 23/11/2004
Ao
Observatório da Imprensa
Carlos
Heitor Cony
Recebi de um leitor, por e-mail,
o texto de um cara que se diz colega. Foi publicado no Observatório
da Imprensa. Diz ele que eu já ganhei vultosa indenização
do Estado, quando na realidade nada recebi – tenho muita
idade e pouca saúde para esperar o tal retroativo, que
aliás já foi pago a muitos jornalistas sem que
o tal colega tenha se manifestado.
O colega elogia reportagem publicada
no Estadão, matéria mal informada e parcial. No
quadro em que relaciona os felizardos, com as respectivas quantias,
paginado com fundo em cor, o Estadão esquece nomes mais
ilustres do que o meu, como Hélio Fernandes, Sebastião
Nery, Maurício Azedo (presidente da ABI), Leandro Konder,
Cristina Konder, Flávio Tavares e sei lá quantos
outros.
A ignorância revelada
nas matérias, tanto a do Estadão como a do colega,
é a de não saber quem estabelece o valor das indenizações,
dando a entender que o postulante exige determinada quantia.
Fosse assim, eu teria pedido
quantia maior – como quantificar prejuízos morais,
profissionais e financeiros? Seria uma avaliação
subjetiva, por isso mesmo, quem estabelece o valor das indenizações
é a lei. Lei que foi discutida e aprovada no Congresso
Nacional e que está sendo aplicada pela Comissão
de Anistia presidida por Marcelo Lavanère, um dos dois
signatários do pedido de impeachment de Collor.
Pode conter erros e injustiças,
como qualquer lei, mas está sendo aplicada em todos os
casos. Pelo que se depreende da matéria do Estadão
e do texto do colega, basta um cara alegar que foi perseguido
ou torturado, exigir uma quantia e pronto, a Comissão
dá a indenização. Um dos entrevistados
pelo Estadão reclamou que teve de apresentar RG, CPF
e atestado de residência para se habilitar à indenização.
Teria de apresentar muito mais do que isso.
Foi o que fiz. Além do
RG, CPF e atestado de residência, meu advogado, um jornalista
ilustre e bem conceituado, apresentou um dossiê de mais
de cem páginas, com documentos, sentenças do Supremo
Tribunal Federal e do Superior Tribunal Militar, habeas data
que ele requereu ao DOPS, fotos, farto noticiário da
época.
Estranhamente, o colega afirma
que a direção do Sindicato dos Jornalistas Profissionais
do Rio de Janeiro desmentiu a tabela de remunerações
que instruiu meu processo. Não é verdade. Meu
advogado tratou pessoalmente do caso, inclusive para outros
postulantes, e no meu processo foi anexada uma declaração
em papel timbrado do Sindicato, assinada pelo seu presidente,
Nacif Elias Hidd Sobrinho, com firma reconhecida – exigência
da própria Comissão para todos os documentos apresentados.
Não fiz qualquer declaração
ou alegação no processo. Fiz apenas uma exposição
baseada em fatos provados. Diz o colega que "aleguei"
ter sido demitido da TV Rio. Também não é
verdade. No dossiê preparado pelo meu advogado, está
o livro de Walter Clark (O Campeão de Audiência,
editora Best Seller, 1991), então diretor geral daquela
emissora, narrando os diversos tipos de censura e constrangimento
que sofreu, tanto na TV Rio como mais tarde na Rede Globo.
Walter Clark relembra a convocação
que recebeu do então Secretário de Segurança
da Guanabara, coronel Gustavo Borges, que exigiu não
a minha demissão (eu não era funcionário),
mas a retirada de uma novela que, a pedido do próprio
Walter, eu escrevia para a TV Rio, e que estava liderando o
ibope no horário das 19 horas.
Com isso, fiquei sem condições
de trabalhar no Brasil, indo inicialmente para a França,
onde não encontrei recursos para sobreviver; depois para
Cuba, como jurado do prêmio da Casa de las Américas
(junto com José Celso Martinez Corrêa) –
ficando por lá um bom tempo, e podendo ficar mais, até
que, não suportando o regime militar ali instalado, igual
ao existente no Brasil, preferi voltar, quando mais uma vez
fui preso.
E há um detalhe. Ao tomar
posse na ABL, declarei que não tinha disciplina para
ser de esquerda nem convicções para ser de direita.
Sempre recusei o oportunismo do centro. Daí não
me restava outra solução a não ser a de
me tornar um anarquista humilde, triste e inofensivo.
Nunca peguei em armas, nunca
participei de passeatas contra ou a favor de qualquer causa.
Sou e continuo alienado e tenho orgulho disso. Fui processado
pelo Ministro da Guerra, General Costa e Silva, seis vezes preso,
fui condenado pela direita, criticado até hoje pela esquerda,
pelo fato de sempre expressar a minha opinião, gostem
ou não gostem dela: para mim é indiferente.
Tanto o Estadão como
o colega afirmam que os postulantes alegam supostas perseguições.
Com má-fé, esqueceram que milhares de processos
feitos na base de "alegações" e "suposições"
foram e continuam sendo sumariamente indeferidos pela Comissão
de Anistia.
Quanto à demora na solução
para alguns processos e presteza para outros, que o jornalão
e o colega atribuem a pistolões ou pressões por
parte dos interessados, a verdade é que milhares de pedidos
estão parados por falha ou insuficiência de provas.
E quanto à exploração
da Viúva, lembro que a mesma é HERDEIRA e SUCESSORA
do Regime Militar com o qual viveu durante 21 anos. E foi a
mesma que pagou a militares, policiais e alcagüetes de
vários tamanhos e feitios que depredaram minha casa,
na rua Raul Pompéia, no Posto 6; que tentaram seqüestrar
minhas filhas menores (13 e 10 anos respectivamente) ameaçando-as
de estupro com palavrões, chegando a colocá-las
no carro de um oficial da Marinha (pago pela tal Viúva),
seqüestro que não se consumou (mas deixou traumas
até hoje) porque a diretora do Externato Atlântico
pediu a identidade dos militares, e não sendo atendida,
anotou a placa do carro – o que obrigou os oficiais a
conferenciarem entre si e libertarem minhas filhas.
Em busca de regeneração,
a Viúva, que viveu 21 anos em concubinato com o Regime
Militar, é a mesma que me deve. Como deve muito mais
a centenas de vítimas, vivas ou mortas, dos tempos totalitários.
*
Jornalista e escritor, membro da Academia Brasileira de Letras
Luciano Martins Costa responde
Na vertigem do seu ego, Cony
mistura legalidade com moralidade. Evidentemente, se a lei está
em vigor, qualquer um pode se declarar credor do Estado. Também
poderia não pedir, como muitos o fizeram, assim como
um jornalista pode usar ou não a carteirinha para entrar
de graça em museus. Usa se quiser, se julgar moralmente
correto se beneficiar desse privilégio, por força
de circunstância ou por conveniência.
Cony
também mistura a imprensa com a observação
da imprensa. O que se discute no artigo é a atuação
da imprensa – estranhamente, apenas O Estado de S. Paulo
tem se referido às distorções ocorridas
na aplicação da lei da anistia, que foram denunciadas
por pessoas acima de suspeita no caso em questão, como
o ex-guerrilheiro José Genoino e a professora Anita Leocádia
Prestes. Também se discute a moralidade, não a
legalidade de alguns dos pedidos de indenização.
É a "Viúva" que lhe deve, alega o escritor.
Mas a "Viúva" somos nós, e entre nós
aquelas outras viúvas, as que realmente tiveram suas
vidas destroçadas pela ditadura e que ainda esperam na
fila, enquanto o processo do senhor Cony teve a prioridade pedida
em maio deste ano e a solicitação aprovada na
primeira Câmara da Comissão da Anistia no mês
seguinte. O número do seu protocolo, 31.858 entre cerca
de 45 mil, revela que foi passado à frente da fila. Ele
alega que está velho e doente, o que também não
é ilegal. Quanto ao valor da indenização
que julga merecer, o diretor jurídico do Sindicato dos
Jornalistas do Rio, Alberto Jacob Filho, é quem afirma
que "em nenhum momento o sindicato deu parecer estabelecendo
ou mesmo sugerindo tal salário", assegurando que
o valor concedido a Cony é absurdo. De resto, se o senhor
Cony considera moralmente defensável que o Tesouro lhe
pague essa indenização, é questão
de foro seu, íntimo, e reveladora do seu caráter.
INDENIZAÇÕES
MILIONÁRIAS
Pretexto para campanha contra a anistia.
Informação:
Observatório
da Imprensa - 23/11/2004
Celso
Lungaretti (*)
Sendo
parte dessa questão da anistia federal, tenho algo a
acrescentar ao noticiário recente. E, já que o
acesso à grande imprensa permanece bloqueado para mim,
recorro de novo ao Observatório da Imprensa. Gostaria
que minhas ponderações chegassem ao cidadão
comum. Tenho a esperança de que os colegas me leiam aqui
e façam algo para corrigir essa situação.
Sinto-me como se fosse o último censurado, em plena democracia.
A
direita já fez muita campanha contra a anistia aos ex-presos
políticos, argumentando que não cabem reparações
para quem lutou uma guerra e perdeu. É a posição,
por exemplo, do coronel Passarinho, que nada fez como ministro
do governo Médici para evitar assassinatos e tortura.
Ora,
não se pode colocar no mesmo plano os golpistas que derrubaram
um governo democrático, suspendendo as garantias constitucionais
e cometendo todo tipo de atrocidades, e os resistentes que travaram
uma luta desigual contra a tirania. Como participante que fui
dessa "guerra", posso afirmar: não passou de
um massacre. O poder de fogo verde-oliva era infinitamente superior.
Lamento
e fico envergonhado pelos excessos cometidos pelo nosso lado,
como a bravata pueril de se lançar um carro com explosivos
na direção de um quartel e acabar mandando pelos
ares um menino que fazia o serviço militar. Mas, ainda
assim, é algo bem diferente de organizar-se um antro
de torturas com financiamento de empresários e a participação
de militares e policiais civis, conferindo-lhe o papel principal
no combate às organizações revolucionárias,
embora não tivesse existência legal. Foi assim
a Operação Bandeirantes nos primeiros tempos:
tinha autoridade incontestável sobre o Dops e não
prestava contas a ninguém. Quem caía nas mãos
da Oban sabia que o(a) poderiam matar e simplesmente dar um
sumiço no corpo.
E
todos que foram presos, torturados, assassinados e dados como
mortos "resistindo à prisão"? O caso
mais notório é o de "Bacuri", que, ao
ser retirado da cela, gritou aos companheiros que o estavam
levando para a morte.
Carreira
comprometida
Além
disso, não estávamos apenas nas mãos de
torturadores e assassinos; eles eram também ladrões,
o que pouca gente sabe. Quando cheguei ao DOI-Codi da Rua Barão
de Mesquita (RJ), me roubaram até os óculos. Dias
depois, um major reparou que eu tinha dificuldade para ler e
perguntou o motivo. Quando respondi, ele se enfureceu: "O
Exército Nacional não rouba óculos de ninguém!"
Mais tarde, entretanto, me levaram ao oculista...
A
PE da Vila Militar, que perdera o direito de atuar contra as
organizações armadas por causa da morte sob tortura
de Chael Scherer, queria de qualquer maneira recuperar essa
prerrogativa, de olho nos despojos dos prisioneiros: dinheiro,
veículos, armas, máquinas de escrever, objetos
de uso pessoal. Não conseguiu e, como o soldo já
não bastava para a equipe, resolveu expropriar contrabandistas
da região. Houve troca de tiros e os militares acabaram
presos, em 1974.
Sargentos,
cabos e soldados foram expulsos do Exército e entregues
à Justiça comum. Os oficiais foram inocentados
(para salvar as aparências), mas viram sua carreira definitivamente
comprometida. O capitão Ailton Guimarães Jorge
pediu baixa e foi capitanear o jogo-do-bicho. O tenente Aylton
Joaquim, um dos 10 piores torturadores da ditadura segundo o
Tortura Nunca Mais, e citado pelo Elio Gaspari como o professor
que ministrou curso de tortura a outros militares, acabou visto
pelos colegas como a vergonha da farda. Já o era, por
outros motivos.
Critérios
discutíveis
Não
há como comparar os dois lados, nem fundamento nenhum
para negarem-se reparações a quem teve sua vida
prejudicada, arruinada ou tirada por essa malta.
Como
essa postura era indefensável, agora os inimigos da anistia
passaram a questionar os valores elevados de algumas pensões
concedidas, como forma de desqualificar todo o processo. Mas,
omitem que:
**
as anistias milionárias foram bem poucas, nem uma dezena;
**
a reparação se refere, principalmente, a direitos
atingidos entre 40 e 30 anos atrás, sendo um absurdo
que se tarde tanto a dar alguma compensação a
pessoas que perderam tudo ou quase tudo na vida;
**
e, não bastasse o atraso com que o Estado acordou para
o cumprimento desse dever, o programa não tem verbas
suficientes e marcha com uma lentidão exasperante (ninguém
publica a lista dos que já morreram sem receber o benefício).
Os
critérios adotados também são os mais discutíveis.
Além de tudo o que já se falou sobre tratamento
privilegiado a políticos, celebridades, sindicalistas
etc., acrescento outro dado: quem perdeu emprego por perseguição
política pode receber uma pensão vitalícia,
enquanto quem era estudante mas ficou com sua capacidade de
trabalho comprometida pelo resto da vida, só recebe indenização
em parcela única.
Paradigma
Foi
o que aconteceu comigo. Provei que minha audição
ficou prejudicada para sempre por terem me estourado o tímpano
e que uma exposição negativa a que fui coagido
sob ameaças e tortura me tornou alvo de discriminação
e preconceitos também para o resto da vida. O próprio
relator reconheceu que eu fui duplamente atingido pelo arbítrio.
Mas, pelas regras, eu só poderia receber a indenização.
Talvez isso seja revertido na apelação ao plenário.
Quando
veio à tona a intenção do governo federal
de fixar um teto para as reparações, procurei
a imprensa para relatar o meu caso. "Já que se evidencia
tanto o fato de algumas pessoas terem sofrido pouco e recebido
muito, seria justo mostrar também que há quem
tenha sofrido muito e recebido pouco" – eu disse.
Em vão, nada foi publicado.
Finalmente,
quero lembrar que as anistias milionárias criaram um
paradigma e a igualdade de todos perante a lei será atingida
se o governo fixar um teto apenas para as reparações
vindouras. Haverá enxurradas de ações na
Justiça, com forte probabilidade de êxito. Ou se
revê todo o processo ou se concede a todos os casos semelhantes
o mesmo tratamento dado ao Cony.
(*)
Jornalista desempregado e ex-preso político com lesão
permanente decorrente de tortura na PE da Vila Militar em junho/1970;
espera sua anistia desde outubro de 2001
INDENIZAÇÕES
& IMPRENSA
Sem talento para as sutilezas.
Informação:
Observatório
da Imprensa - 23/11/2004
Luciano
Martins Costa (*)
O
ainda pobre noticiário sobre a questão das indenizações
milionárias destinadas a vítimas em variados graus
do regime militar que vigorou no Brasil por 21 anos –
basicamente restrito à sucessão de reportagens,
entrevistas e artigos que vêm sendo publicados pelo Estado
de S. Paulo –, revela um dos vícios da nossa imprensa,
reflexo, por sua vez, de outros vícios que denunciam
as desigualdades de nossa sociedade e a miséria de nossas
relações políticas.
Trata-se
da maneira como resolvemos nossas idiossincrasias históricas,
de como noticiamos essas propostas de solução
e de como conduzimos os debates decorrentes. Tem esse aspecto
a atual questão sobre os anistiados, os herdeiros de
vítimas fatais e alguns meros oportunistas que recorreram
à Lei 10559/02 para obter o que consideram devido pelo
Estado por conta de abusos cometidos durante a repressão
do regime militar contra militantes esquerdistas, oposicionistas
e transeuntes da História. Transeuntes, aqui, no sentido
a que se referiu certa vez o filósoto Vilén Flusser
sobre aqueles que se tornam protagonistas por haver simplesmente
passado em determinado local no momento em que a História
acontecia.
O
Estado brasileiro, independente de quem esteja à sua
cabeça, tem o vício recorrente de responder com
padrões inflexíveis às questões
mais sutis que se apresentam no processo de construção
da nossa democracia. Assim é quando, ao reconhecer genericamente
que a sociedade de alguma forma é devedora a parte da
sua população por conta dos quase quatro séculos
de escravidão imposta aos africanos e seus descendentes,
o Estado resolve criar cotas para estudantes identificados como
herdeiros dessas gerações de martirizados.
Da
mesma forma, ao reconhecer que a sociedade dos brancos, ao se
expandir e consolidar, massacrou populações indígenas
e lhes tomou as terras, o Estado legisla no sentido de criar
reservas para os sobreviventes e oferecer um status diferenciado,
supostamente respeitoso de sua condição, ao cidadão
identificado como originário de uma das nações
nativas.
Em
quase todos esses casos, em vez de garantir proteção
ou proporcionar o reparo em caso de dívidas históricas,
o que se tem obtido com a legislação é
mais conflitos, mais sofrimento, mais constrangimento. Os índios
não estão garantidos em suas reservas, os afro-descendentes
continuam submetidos a salários mais baixos de que os
pagos a seus concidadãos de pele clara e a questão
das cotas para vagas em universidades, onde foram estabelecidas,
é comumente motivo para novas expressões de preconceito.
A
imprensa, parceira do Estado na construção dos
paradigmas que organizam a sociedade e, de maneira geral, condicionam
seu futuro, poderia e deveria exigir mais. Quando uma dessas
questões, que extrapolam as meras circunstâncias
econômicas ou sociais, se coloca diante das instituições
do Estado, movimentando as forças políticas organizadas,
seria de grande valia que a imprensa deslocasse os debates para
seus pontos de origem, para evitar que as reflexões acabassem,
como é praxe, no tempero dos interesses circunstanciais
com a corriqueira pitada de correção política.
Mas
a imprensa não tem revelado a capacidade de trabalhar
com sutilezas. Na rotina, não apenas agasalha como toma
partido no jogo dos interesses corporativos. Não por
outra razão, a maior parte das medidas tomadas durante
o processo de redemocratização do País,
incluído o grande embate da Constituinte, tem apresentado
como característica uma necessidade do legislador de
parecer politicamente correto, independentemente de ser a solução
adequada sob o olhar de longo prazo ou o interesse da nacionalidade.
Distorções
como as que vêm ocorrendo com base na Lei da Anistia derivam
dessa incapacidade de nossos legisladores – tangidos pela
opinião organizada na imprensa e originada nas instituições
sociais mais poderosas – de encarar as causas mais profundas
de nossas mazelas históricas. Representam nossa incapacidade
para criar e executar um plano de Nação.
Questões
fundamentais para as chances brasileiras de sair do lodaçal
do sub-desenvolvimento ainda neste século – como
a reforma política, que poderia criar as bases de uma
democracia representativa mais satisfatória; uma reforma
tributária que nos colocasse em condições
de buscar a sustentabilidade da nossa economia; ou a atualização
da legislação sindical – encontram-se na
pauta dos debates e não há esperança de
que venhamos a vislumbrar qualquer sinal de inteligência.
A
responsabilidade não é maior e muito menos única
da imprensa, vis-à-vis outras importantes instituições,
como as representações dos advogados e a universidade.
Mas, como caixa de ressonância da sociedade e instrumento
preferencial de poder das elites, a imprensa não pode
fugir da responsabilidade de estabelecer o patamar mínimo
sobre o qual as decisões precisam ser tomadas.
Não
há hipótese de encontrarmos um caminho para o
desenvolvimento que reduza as diferenças sociais, ou
que minimamente ofereça condições de inclusão
para os grandes contingentes de brasileiros que estão
fora do círculo das oportunidades, enquanto aceitarmos
que as soluções sigam sendo o resultado das negociações
entre corporações e um mero jogo entre os poderosos
– aqueles que têm espaço na mídia.
Uma
imprensa que se exigisse mais, que aceitasse o risco de eventualmente
contrariar alguns poderosos aliados, teria com certeza mais
credibilidade e poderia servir como painel para o urgente projeto
de nação de que necessitamos.
(*)
Jornalista
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