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Informação:
Observatório
da Imprensa - 01/03/2005
Eduardo
Guimarães (*)
Pretendo
demonstrar neste texto que imprensa escrita brasileira definitivamente
não representa o conjunto da sociedade em termos opinativos.
Nesse aspecto, vejo nela o mesmo vício da imprensa da
Venezuela, o de se dispor a representar um segmento minoritário
e elitizado da sociedade. Vou falar das opiniões que
se pode ler nos grandes jornais e revistas brasileiros sobre
alguns temas, sobretudo políticos. Antes, porém,
quero deixar claro que não escrevo o que se lerá
adiante por apoiar alguma facção política,
pois desde a reviravolta ideológica no PT deixei de apoiar
o partido e não me inclinei por outro.
Recentemente,
a imprensa divulgou pesquisas de opinião que dão
conta de que a popularidade do governo federal e de seu titular
segue firme e forte, porém o que se vê nas seções
opinativas de jornais e revistas é muito diferente. A
impressão que se tem é a de que há uma
insatisfação generalizada da população
em relação ao presidente da República e
ao seu governo. Note-se, inclusive, esse caso da fala de Lula
de que acobertou corrupção do governo FHC nas
privatizações para não criar marola na
economia. É óbvio que a maioria dos brasileiros
não aprova isso, mas não dá sequer para
especular sobre a possibilidade de as pessoas darem mais importância
a esse acobertamento do que à hipótese de ter
havido de fato corrupção. Porém, o que
se vê na imprensa é o contrário.
Há
várias formas de se notar que a imprensa brasileira,
quando o assunto é difundir opiniões, privilegia
a das elites. Um outro caso emblemático é o das
cotas raciais e econômicas nas universidades. Qualquer
pesquisa de opinião, num país em que ao menos
metade da população é afro-descendente
e pobre, mostrará ser enorme o apoio dos brasileiros
a essa política pública. Então tomemos
como exemplo dois dos maiores jornais do país –
O Estado de S.Paulo e O Globo. Nesses veículos, é
praticamente impossível ver alguém, seja leitor
ou articulista, opinar favoravelmente à política
de cotas. Há uma verdadeira censura a quem pensa diferente
da opinião dos jornalões.
Proposta
aos democratas
Outro
bom exemplo da seletividade opinativa na imprensa escrita é
sobre a questão dos sem-terra. Há um verdadeiro
cerceamento de opiniões que não os considerem
criminosos. Mesmo na Folha de S.Paulo, o mais democrático
dos maiores jornais do país, opinião que não
os criminaliza só pode ser vista quando há grande
pressão para que dê espaço à divergência,
e isso porque a Folha tem ombudsman e um projeto editorial que
a obriga a sempre dar algum espaço a opiniões
que diferem da sua. Mas o espaço para quem não
criminaliza os sem-terra é muito bem calculado e limitadíssimo,
enquanto o concedido aos que os criminalizam é ilimitado.
Já num Estadão, por exemplo, simplesmente não
se dá espaço a quem apóia os sem-terra.
A
única conclusão que se pode extrair destas considerações
é a de que o Brasil não tem imprensa escrita,
e sim boletins político-ideológicos que se dedicam
a defender os interesses das minorias privilegiadas da população.
E isso explica o fato de este país ser o quarto mais
desigual do mundo, sendo precedido apenas por três países
africanos miseráveis.
E
essa realidade exige que o democrata, aquele que quer ver este
país civilizar-se e se democratizar, proponha que se
debata como dotá-lo de veículos de imprensa que
representem o conjunto da sociedade em lugar de meia dúzia
de gatos pingados que nadam em dinheiro.
(*)
Comerciante, São Paulo
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