| Informação:
Observatório
da Imprensa - 12/04/2005
Alberto
Dines
"O
Rei é morto, viva o Rei!" – o antigo axioma
impôs-se já no dia seguinte às exéquias
de Karol Wojtyla. Os jornais de sábado (9/4) ainda estavam
impregnados pela plasticidade do cerimonial católico,
as manchetes ecoavam a emoção da multidão
que gritava "santo!", mas, ao mesmo tempo, deslizavam
para a esfera temporal, terrena, a única na qual conseguem
viver.
Um
dos "milagres" de João Paulo II operou-se ali
mesmo na praça de São Pedro, na missa de corpo
presente, quando a ordem alfabética do protocolo diplomático
juntou os presidentes do Irã e Israel (Mohamed Khatami
e Moshe Katzav, inimigos declarados porém conterrâneos,
que conversaram em farsi), ou quando o mesmo Katzav e o dirigente
sírio Bashar al-Assad, em fileiras diferentes, cumprimentaram-se
cerimoniosamente.
A
magnífica foto de Max Rossi, da Reuters, tomou conta
do alto da primeira do Estado de S.Paulo e do Globo, mas o livre-arbítrio
dos respectivos editores mostrou como a mesma imagem-mensagem
pode produzir efeitos diferentes. O jornalão carioca
abriu-a em oito colunas e talvez tenha produzido a foto mais
tocante do ano com os esvoaçantes paramentos cardinalícios
e as páginas do exemplar dos Evangelhos viradas pelo
vento. O barroco na era digital. O concorrente paulista, preferiu
a modernidade. Gosto não se discute – nem no Juízo
Final.
Conquistadas
as boas-graças, O Globo permitiu-se acabar com o caderno
especial sobre a morte do papa antes mesmo de terminar o luto
e, junto com os concorrentes, tirou o leitorado brasileiro da
excelsa esfera na qual foi envolto durante uma semana.
Voltamos
ao de sempre: correria, tropeços, descuidos e banalidades.
Mostrou-se o presidente Lula comungando e deixou-se implícita
a crítica por não se ter confessado: impossível,
para isso teria que haver um sacerdote que falasse português.
Nas missas solenes aboliram-se as confissões.
Todos
entraram na torcida pela papabilização de dom
Cláudio Humes mas o Estadão, embora discreto,
levou a melhor: o cardeal paulista é seu colaborador.
No
relato sobre o enterro, na Folha de S.Paulo (9/4, Caderno Especial,
pág. 7), um dos enviados especiais resolveu comparar
o enterro de Iasser Arafat com o de Karol Wojtyla e decretou
que em Ramallah o clima de emoção foi "muito
mais intenso do que o vivido ontem em Roma". As próximas
edições do Manual da Redação terão
que fornecer um aparelhinho para medir a emoção
das multidões.
A
Operadora
Irrelevâncias.
O mais importante é que já na edição
de domingo (10/4) os holofotes da mídia brasileira, afinal,
tiraram da sombra a poderosa e misteriosa Opus Dei – a
Obra de Deus ou simplesmente, A Obra. Quem o fez não
foi o Estadão ou O Globo (arautos da Universidade de
Navarra, representante acadêmica desta ordem leiga), mas
o jornal até agora mais arredio à sua influência
– a Folha de S.Paulo.
A
aproximação começou dias antes, logo em
seguida à morte de João Paulo II, e ganhou dimensão
na edição de domingo (10/4), quando o jornalão
excedeu-se em generosidade e acolheu em espaços diferentes
– ambos nobilíssimos – duas matérias
sobre a Opus Dei, veiculadas pela mesma pessoa, o eminente tributarista
Ives Gandra Martins, um dos expoentes da ordem no Brasil [leia
os textos de Juan José Tamayo-Acosta e Ives Gandra da
Silva Martins na rubrica Entre Aspas, nesta edição].
A
primeira manifestação deu-se logo na página
3, com um artigo assinado pelo advogado sob o título
"Os Papas e a Opus Dei"; a outra foi estampada em
manchete da página 5 do Caderno Especial, sob forma de
entrevista.
Duas
matérias sobre o mesmo assunto e vocalizadas pela mesma
pessoa na mesma edição constituem um tipo de deslize
que acontece nos melhores veículos, não chega
a ser infração. Às vezes é casualidade
pura e simples, outras vezes – como agora – é
causalidade: a repetição foi provocada pelo percurso
não-natural e não-espontâneo de uma "pauta"
soprada pelo andar de cima antes de se transformar em matéria.
O
que torna a Opus Dei tão importante?
Para
este Observador trata-se de uma entidade da Igreja Católica
como outra qualquer, com doutrina, devoções, desígnios,
estatutos e procedimentos adequados à jurisdição
religiosa/espiritual. Se tem semelhanças com a antiga
ordem dos dominicanos (domini canis, os cães do Senhor),
que controlou durante séculos o aparelho da Inquisição
e quase levou o padre Antônio Vieira à fogueira,
é mera curiosidade histórica.
A
Constituição garante plena liberdade de crença.
Eventuais especulações ou questionamentos sobre
A Obra enquadram-se na esfera intelectual da teologia, filosofia
ou historiografia. A mesma Constituição determina
a separação entre Religião e Estado, garantindo
o direito de crer, descrer e, principalmente, de manifestar-se.
Como
ordem religiosa ou para-religiosa, a Opus Dei tem forte atuação
na área empresarial – o que é perfeitamente
legítimo. Tem penetração maior ainda na
área da comunicação social. E esta influência
se faz a partir da Universidade de Navarra, na Espanha, seu
braço empresarial-acadêmico (doravante denominada
A Operadora). Aqui, esta legitimidade
não é tão líquida.
Colher
de chá
A
Opus Dei começou a atuar intensamente na mídia
espanhola e portuguesa nos anos 1980. Quem derrubou Felipe González,
no início dos anos 1990, foram os jornais a ela ligados,
que jogaram pesado. Não apenas como veículos de
informação, mas através de suas conexões
políticas e empresariais. Na Espanha, aparentemente pacificada
cerca de seis décadas depois do fim da Guerra Civil (1936-1939),
a morte de sacerdotes católicos nas mãos de anarquistas,
comunistas e socialistas ainda é lembrada pelos setores
mais radicais do catolicismo. Ives Gandra, na entrevista, pareceu
muito sensível à questão ao lembrar em
meio a considerações teológicas o "assassinato
de seis mil religiosos".
Da
Península Ibérica, o braço comunicador
da Opus Dei transferiu-se para a América Latina. Conseguiu
infiltrar-se na influente SIP (Sociedad Interamericana de Prensa,
com sede em Miami) e, a partir desta, em meados dos anos 1990,
aninhou-se no seu capítulo brasileiro, a ANJ (Associação
Nacional de Jornais).
Às
vezes diretamente, sem intermediários, outras por meio
de consultorias internacionais (com base também em Miami),
a verdade é que A Obra & A Operadora reformaram e
reformularam não apenas grande parte dos jornalões
nacionais mas também grande parte dos regionais no desastroso
período denominado "Bolha" (fim dos anos 1990),
em que as tradições, compromissos cívicos
e culturais da imprensa brasileira foram atropelados sem contemplação
pelas reengenharias e pela monetização do processo
de informar.
Incrustada
dentro da ANJ, A Obra & A Operadora conduziram seminários,
cursos, congressos, armaram pools e, principalmente, estabeleceram
paradigmas. Vigentes até hoje. Embora criacionistas em
matéria teológica, adotaram nas redações
um darwinismo muito especial: são eles que decidem quem
pode aparecer, quem pode crescer, comandar, manifestar-se sobre
a profissão e quem pode sobreviver dentro dela.
A
Folha de S.Paulo foi o único jornalão que ao longo
da última década conseguiu resistir às
investidas da Obra e da Operadora, embora capitulasse quando
suas idéias eram filtradas pela ANJ (da qual foi uma
das mais engajadas patrocinadoras).
A
canhestra repetição do domingo é, certamente,
um fato isolado. Não parece ser uma tomada de posição
pró-Opus Dei, nem sugere qualquer simbologia ou avaliação
criptográfica. É apenas uma colher de chá
ao "amigo da casa".
***
Grandes
mudanças serão produzidas a partir do cenáculo
ora reunido em Roma. Pela primeira vez nesta Era da Informação
a imprensa ficará de fora, na sala de espera, impedida
de agir, influenciar e comandar os acontecimentos. Pela primeira
vez, sua premência estará submetida à tradição
milenar. Teste inédito, espécie de quarentena.
Ou penitência. A mídia saberá que consumou-se
a escolha do próximo pontífice na hora em que
os sinos de Roma bimbalharem e a fumaça branca aparecer
na chaminé do Vaticano. Mediados e mediadores estarão
em pé de igualdade.
A
mídia criou o clima de transcendência, agora terá
que contentar-se com a insignificância. Amém.
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