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Informação:
Agência
Carta Maior - 16/02/2005
Sucesso
da Rede em Defesa da Liberdade de Imprensa, uma parceria entre
Unesco e Associação Nacional dos Jornais, está
ameaçado pela própria concentração
dos meios: só seis grupos concentram a posse de mais
da metade da circulação diária de notícias
impressas no país.
>ANJ
se cala sobre agressão de empresário contra jornalista
no PA
Bia
Barbosa*
São
Paulo – A Rede em Defesa da Liberdade de Imprensa, uma
parceria da Unesco (Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura)
no Brasil e da ANJ (Associação Nacional dos Jornais),
foi lançada oficialmente na noite da última segunda-feira
(14), em São Paulo. Seus objetivos são a promoção
da troca de informações a respeito da liberdade
de imprensa no Brasil, o acompanhamento das ameaças contra
essa liberdade e a manutenção de contatos com
entidades similares no país e no exterior, além
do apoio a ações contra a impunidade nos casos
de crimes praticados contra profissionais no exercício
da profissão e veículos de comunicação
do país. A rede também se propõe a oferecer
informações sobre a situação da
liberdade de imprensa no Brasil e emitir alertas quanto a eventuais
ações que restrinjam seu exercício.
Na
visão da Unesco, a questão da liberdade de imprensa
é um elemento essencial para a construção
de uma sociedade realmente democrática e inclusiva, assim
como a independência, o pluralismo e a diversidade dos
meios de comunicação. Em seu discurso de lançamento
da rede, o representante da Unesco no Brasil fez questão
que ressaltar, no entanto, que essa liberdade precisa estar
acompanhada por graus crescentes de democratização
do acesso à informação, sem os quais seguiremos
perpetuando a desigualdade social já existente –
desta vez entre os que têm e os que não têm
informação.
“A
liberdade de imprensa não é elemento suficiente
neste processo. Uma educação de qualidade para
todos – o que inclui a formação do hábito
de leitura crítica – e a inclusão digital
são processos que contribuirão para democratizar
o acesso à informação”, declarou
Jorge Werthein. “Essa democratização só
acontecerá com meios de comunicação democráticos,
que promovam o acesso aos excluídos. Portanto, quando
defendemos a liberdade de imprensa, defendemos a democratização
dos meios de comunicação”, disse Werthein
à Agência Carta Maior. Ele acredita que toda a
sociedade tem o direito a um fluxo de informações
que expresse abertamente o leque de opiniões existentes,
sem que sejam silenciadas idéias e opiniões que
possam enriquecer o debate sobre temas controvertidos. É
deste princípio, portanto, que parte a Unesco ao criar
a Rede em Defesa da Liberdade de Imprensa.
Não
parece, no entanto, ser o mesmo que levou a ANJ a promover tal
iniciativa. Entre seus mais de 130 associados, lá estão
os jornais de maior circulação no país,
pertencentes aos grandes grupos que detêm o monopólio
da comunicação Brasil. Segundo dados da própria
Associação, apenas seis grupos empresariais concentram
a propriedade de mais da metade da circulação
diária de notícias impressas no país. Sozinhos,
estes veículos respondem por cerca de 55,46% de toda
produção diária dos jornais impressos.
Além de controlarem o que a população lê
diariamente, esses jornais se inserem num contexto de “sinergia”
baseado na propriedade cruzada dos veículos de mídia
– um modelo proibido, inclusive, nos Estados Unidos.
O
caso mais conhecido é o do sistema Globo de Comunicações.
Além dos jornais O Globo, Extra e Diário de São
Paulo, a Globo é proprietária de uma editora,
de 113 emissoras entre geradoras e afiliadas – que cobrem
99,84% do território nacional – de redes de rádio
AM e FM, de uma agência de notícias, provedor de
internet e de TV a cabo, que detém 70% do mercado. Mas
não se trata de um caso isolado. A empresa Folha da Manhã
S/A, responsável pela Folha de S. Paulo, é dona
do UOL, o maior provedor de Internet da América Latina.
O grupo Estado, além do jornal O Estado de S. Paulo,
tem no seu portfólio o Jornal da Tarde, a Rádio
Eldorado e a Agência Estado. A Editora JB S/A, além
da Gazeta Mercantil, imprime o Jornal do Brasil. Recentemente
estabeleceu uma parceria operacional com o grupo O Dia, através
do Consórcio Mídia Impressa. A companhia Brasileira
de Mídia é proprietária da Forbes Brasil
e da agência de notícias econômicas Investnews.
Democratizar
o acesso à informação passaria, portanto,
por quebrar tamanha concentração de mídia.
Para a ANJ, no entanto, esses dois aspectos não estão
necessariamente relacionados. Ao ser questionado sobre como
lidar com a liberdade de imprensa num país marcado pelo
monopólio da mídia, o jurista Manuel Alceu Affonso
Ferreira, ex-secretário de Justiça do Estado de
São Paulo, palestrante convidado do evento desta segunda,
respondeu: “Precisaria que você me explicitasse
melhor o que é democratização dos meios
de comunicação. Significa o quê isso?”,
perguntou ele, que se orgulha de dizer que há 40 anos
advoga em favor das empresas de comunicação do
Brasil.
O
ato falho cometido pelo presidente da ANJ, Nelson Sirotsky,
ao “confundir” a expressão “liberdade
de imprensa” com “liberdade de empresa” em
seu discurso nesta segunda está, portanto, mais do que
justificado. Sirotsky é também o presidente do
grupo RBS, responsável pela edição dos
jornais Zero Hora e Diário Gaúcho, que transmite
a programação da Rede Globo em toda a região
Sul – cobrindo 99,7% dos domicílios do Rio Grande
do Sul e de Santa Catarina – e é proprietário
de mais seis jornais diários, duas redes com mais de
vinte emissoras de rádio afiliadas, um provedor de internet
e um agência de notícias na internet.
O
exercício da cidadania
Os princípios da ANJ ditam, segundo afirmação
do próprio Sirotsky, que a cidadania é uma palavra-chave
no jornalismo. “Defendemos um jornalismo cada vez mais
vinculado aos interesses objetivos do cidadão, um jornalismo
cívico, que hoje já parece ser uma tendência
da imprensa brasileira. Esse jornalismo quer informar os cidadãos
dos seus direitos e deveres, fiscalizar as ações
dos administradores públicos e tudo aquilo que afeta
a comunidade. É aberto às demandas da sociedade
e permanentemente preocupado em buscar total sintonia com sua
realidade”, declarou, reforçando que a rede recém-lançada
terá como filosofia de trabalho a defesa do direito da
sociedade de ser informada e exercer plenamente a sua cidadania.
Estranha-se,
portanto, que no lançamento de uma rede em defesa da
liberdade de imprensa, o conceito de controle público,
social, da mídia, não tenha sido abordado. Questionados
mais uma vez sobre este assunto pela reportagem da Agência
Carta Maior, os palestrantes partiram para o ataque. “Controle
público tem um nome bonito, mas na fase histórica
em que estamos, há um apelo ao aparelhamento disso. O
melhor controle é o do leitor e, se houver necessidade,
do Poder Judiciário”, disse o desembargador Cláudio
Baldino Maciel, ex-presidente da Associação dos
Magistrados Brasileiros, que apóia a iniciativa da Unesco
e da ANJ. “O que significa controle público”,
perguntou mais uma vez Affonso Ferreira. “Controle público
significa, por exemplo, subordinar o Estado de S. Paulo a entidades
da sociedade civil? Qual o objetivo disso, impedir que as redes
se alarguem? Significa interferência na liberdade das
redações? Há 40 anos eu defendo empresas
de jornalismo e sei que quem menos dita regra nas redações
é o dono do jornal. Eu me assusto com isso. O que queria
o projeto do Conselho Federal de Jornalismo era algo parecido”,
concluiu.
O
polêmico projeto do CFJ, apresentado ao governo pela Federação
Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e encaminhado pelo executivo
ao Congresso no ano passado, foi bombardeado pela grande mídia,
avessa a qualquer tipo de regulamentação de suas
ações, que usou o fantasma da censura do período
da ditadura militar para colocar a sociedade contra o projeto.
Um estudo realizado por José Carlos O. Torves sob a perspectiva
da agenda-setting concluiu que os principais meios de comunicação
do país foram parciais e procuraram influenciar a opinião
pública brasileira a ter um posicionamento contrário
a criação do CFJ. Realizada entre os dias 4 de
agosto de 2003 e 4 de setembro de 2004 – os trinta dias
que sucederam o anúncio de que o projeto seria encaminhado
ao Congresso – a pesquisa mostrou que, sem exceção,
os veículos analisados consideraram a proposta de criação
do CFJ um atentado à democracia, indícios de autoritarismo
estatal. Além de insistirem que o projeto era do governo
federal e que se somava a uma série de outras iniciativas
autoritárias “como a Ancinav”, foram explícitos
no desequilíbrio de espaço para o debate das posições
favoráveis e contrárias ao projeto.
A
revista Veja, por exemplo, na edição de 18/8/04,
na reportagem "O Fantasma do Autoritarismo", entrevistou
31 personalidades, 30 delas eram contrárias ao CFJ e
apenas uma favorável. A Folha de S. Paulo publicou editoriais,
colunas e artigos contrários ao CFJ diariamente. Nesse
período, publicou uma carta do então secretário
de Imprensa da Presidência, Ricardo Kotscho, no dia 10
de agosto, e uma entrevista com o vice-presidente da Fenaj,
Fred Ghedini no dia seguinte. A Rede Globo, além de editoriais
muito críticos no Jornal Nacional e no Jornal da Globo,
preferiu entrevistar os jornalistas Alberto Dines e Ricardo
Noblat, ambos contrários ao Conselho, no Programa do
Jô. O jornal do SBT, durante dez dias, condenou o projeto.
A opinião pública, manipulada, portanto, foi levada
a ter um posicionamento contrário ao CFJ, associando
a idéia do Conselho à censura, à falta
de liberdade de expressão e ao desejo de controle do
governo sobre a imprensa.
O
código de ética da ANJ estabelece que os jornais
brasileiros devem assegurar o acesso de seus leitores às
diferentes versões dos fatos e às diversas tendências
de opinião da sociedade. Segundo a Associação,
a Rede em Defesa da Liberdade de Imprensa tem a função
de “promover o diálogo e oferecer os meios para
que outros percebam como a mídia encara seu papel na
sociedade e, ao mesmo tempo, abre um canal para que a mídia
tenha acesso a opiniões que os outros possam emitir sobre
seu desempenho”.
De
onde vem, então, a decisão pública da ANJ
de se posicionar contra o CFJ? “A ANJ assumiu no ano passado
uma postura vigorosa contra a criação do Conselho
Federal de Jornalismo, uma iniciativa equivocada do governo
e que o Congresso, muito oportunamente, teve a sabedoria de
arquivar”, disse Sirotsky. Vem, talvez, da autodeclaração
de defensora dos interesses públicos que a grande mídia
brasileira promove, deixando claro, no entanto, que pretende
se manter bem longe deste público quando se trata de
determinar limites para sua atuação. “A
ANJ acompanha com apreensão o grande número de
projetos que tramitam no congresso relativos à liberdade
de imprensa, determinando em que condições ou
pressupostos ela deve ser exercida. No fundo, são projetos
que consideram esta liberdade como um princípio relativo,
que depende de determinadas circunstâncias ou condições.
Nada mais falso ou equivocado”, completou o presidente
da ANJ.
Para
quem a liberdade de imprensa deve prevalecer sobre as demais
liberdades – incluindo aí o direito à privacidade
– não admira a mais recente bandeira da ANJ levantada
por Nelson Sirotsky: a que condena a “indústria
do dano moral” que, de acordo com suas palavras, busca
impor multas absurdas às empresas e jornalistas considerados
culpados em processos relacionados a matérias publicadas
ou divulgadas pelos meios de comunicação. “Não
podemos aceitar que, a título de reparar pessoas que
se julgam ofendidas, os meios de comunicação acabem,
na prática, sofrendo um novo tipo de censura. Só
em um ambiente de completa liberdade, sem constrangimentos de
ordem comercial, política ou ideológica é
que o jornalismo pode dar sua parcela fundamental de contribuição
para a construção da cidadania”, afirmou.
Resta
saber a que tipo de cidadania a ANJ se refere e quem teria direito
a ela. E entender até onde os princípios da Unesco
não se chocam com os interesses de sua mais nova parceria.
*
Com informações do Observatório Brasileiro
de Mídia
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