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Informação:
Observatório
da Imprensa - 15/03/2005
Luiz
Egypto
Parecia
coisa combinada, mas não foi. Num mesmo dia (8/3), na
Folha de S.Paulo e no Globo, os jornalistas Luís Nassif
e Ali Kamel publicaram artigos criticando a leitura enviesada
feita pela imprensa da última Síntese de Indicadores
Sociais, relatório divulgado pelo IBGE com base na Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios.
A
complexidade dos números expressos na Síntese
não deveria permitir avaliações apressadas.
Tanto é assim que o IBGE libera, sob embargo, os resultados
do trabalho com a antecedência necessária para
que os jornais, revistas e emissoras possam preparar suas matérias.
O
que sustentam Nassif, colunista e integrante do Conselho Editorial
da Folha, e Kamel, diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo,
pode ser resumido em dois pontos: 1) os números do IBGE
são importantes, mas sobre eles a imprensa ouve pouca
gente afora as fontes habituais, em geral do próprio
IBGE; e 2) no bojo da discussão nacional sobre cotas
raciais, a imprensa fia-se na opinião de um número
reduzido de fontes para sustentar que o principal causador da
exclusão social é o racismo, e não a pobreza.
O
ponto em que ambos se pegam é naquilo que Nassif chama
de "sofisma no uso das estatísticas".
"Vai-se
descontar no não-negro da baixa renda –
que eles não freqüentam – a discriminação
que existe no ambiente branco de alta renda –
onde eles competem –, como se houvesse a classe
dos brancos e a dos negros, e não a dos ricos
e a dos pobres." |
Ou
no comodismo da imprensa ao eleger preferencialmente fontes
do IBGE, como aponta Kamel:
"Os
pesquisadores do órgão interpretam os
números de acordo com suas crenças pessoais.
E decretam: o racismo é a causa da desigualdade."
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Ambos
os artigos podem
ser lidos aqui. Abaixo, os dois articulistas
respondem a quatro perguntas deste Observatório.
***
Ali
Kamel: "A leitura dos números se prende ao aparente.
Mas a culpa não é apenas dos jornalistas"
"Na
atual maré pró-cotas, só há olhos
para ver racismo", você escreveu. A mídia
serve como olhos da sociedade, ou deveria servir. Faz sentido
jornalístico supor que o racismo rende mais manchetes
que a pobreza? É isso que o público quer, é
disso que o público gosta?
Ali
Kamel – Não acho que o racismo renda mais
manchetes do que a pobreza de jeito nenhum. Os dois assuntos
estão igualmente nos jornais, mas, infelizmente, sem
um nexo entre eles. É este nexo que estou trabalhando
nos meus artigos. Foi apenas uma coincidência o Nassif
e eu publicarmos artigos sobre o mesmo tema. Há mais
de um ano escrevo sobre o tema. Creio que já foram uns
14 artigos ou mais, tenho me dedicado a participar desse debate.
Eu estou convencido de que o público só tem uma
única demanda: informação sobre o que acontece
no Brasil e no mundo. Os jornais buscam atender essa demanda.
Não acredito que os jornais de qualidade busquem atender
demandas específicas, esse ou aquele assunto porque seria
do agrado do público. Noticia-se o que deve ser noticiado.
Os bons jornais têm êxito quando se prendem a desempenhar
a sua missão: informar. Quando fazem isso, o sucesso
é perene. Assim, o racismo e as cotas não estão
nos jornais porque o "público gosta". Está
nos jornais porque é um assunto que vem sendo discutido
pelos responsáveis por definir políticas públicas
e pelo movimento negro.
Como
avalia a qualidade das matérias sobre os resultados da
Síntese de Indicadores Sociais do IBGE? Que dizer da
escolhas os jornalistas que fizeram de suas fontes informação?
A.K.
– O jornalismo brasileiro é de grande qualidade.
Não gosto de criticar os colegas. Em relação
às reportagens sobre a Síntese, acho que elas
deixaram a desejar. Porque a leitura dos números se prende
ao aparente. Mas a culpa não é apenas dos jornalistas.
E certamente não é do IBGE, que, como instituição,
tem altíssima qualidade e, como eu disse no meu artigo,
não avança sinal: relata os números, mas
não diz que a razão das desigualdades entre negros
e brancos é o racismo. Quem diz isso são alguns
de seus pesquisadores, que, por serem especialistas, têm
altíssima credibilidade junto aos repórteres.
Senti falta, no entanto, da presença de outros especialistas
que têm opinião diferente daqueles técnicos.
E eles são muitos e participam ativamente do debate público.
Creio que numa matéria como aquela, ouvir vozes discordantes
era uma obrigação. Mas os repórteres agiram
como se um técnico do IBGE fosse a última palavra.
E não é. A última palavra é o número.
Mas o número comporta mais de uma interpretação.
Acho que a verdade está apenas de um lado, não
concordo com a tese de que pesquisas podem ser usadas para justificar
essa ou aquela tese. O leitor deve julgar. E, para julgar, deve
ter acesso a todos os ângulos da discussão. Nas
reportagens, eles ficaram apenas com o julgamento de um dos
lados.
Os
veículos receberam os resultados com antecedência
suficiente para produzir matérias sobre os dados do IBGE.
A numeralha foi bem explicada?
A.K.
– Não foi. Porque as vozes divergentes não
foram ouvidas. E poderiam ter sido. Aliás, era uma obrigação
ouvir. Não houve má-fé, no entanto. A crença
era a de que se tratava de ciência, de verdade final e
acabada. A crença era: ouvindo o porta-voz da verdade,
tem-se a verdade. Se as reportagens tivessem apenas relatado
os números que dão conta da desigualdade teria
sido melhor. Mas, junto com os números, veio uma interpretação
deles. Que não é, nem de longe, a única.
O Brasil tem sociólogos e antropólogos, de universidades
importantes, que vêm discutindo o assunto e discordam
da tese exposta nas matérias. E eles não foram
ouvidos, talvez na suposição de que eles não
existem.
Qual
foi sua orientação ao jornalismo da Rede Globo
para a cobertura do tema?
A.K.
– Não dei rigorosamente nenhuma orientação
sobre a reportagem. A Síntese é enorme, aborda
todos os indicadores sociais. Raça é apenas um
dos capítulos. Os diversos telejornais trataram da Síntese
dando prioridade aos temas que quiseram. Todos, porém,
agiram de acordo com os princípios que seguimos e que
Carlos Henrique Schroder, diretor da Central Globo de Jornalismo,
vive repetindo: tratar os assuntos com objetividade, correção
e isenção, ouvindo todas as partes. A TV Globo
tem tratado do assunto cotas seguindo esses princípios:
ouve todo mundo, sem exceção, em reportagem que
não contém nenhuma opinião da casa. Nosso
jornalismo é informativo e não de opinião.
***
Luís
Nassif: "Nos EUA a pobreza se concentra em minorias raciais;
no Brasil, ela é universal"
Faz
sentido jornalístico supor que o racismo rende mais manchetes
que a pobreza? É isso que o público quer, é
disso que o público gosta?
Luis
Nassif – Faz todo sentido. A opinião pública
brasileira tem por hábito emular hábitos internacionais.
Nos EUA a pobreza se concentra em minorias raciais (negros,
latinos, índios). No Brasil, ela é universal,
não respeitando cor. O atendimento pontual de demandas
de grupos minoritários mais organizados é uma
maneira de se fugir ao cerne da questão: que é
a miséria existente no país e a urgência
da inclusão social geral, independentemente de cor. O
caso do índio Galdino não teria tido a repercussão
se fosse contra um pobre incaracterístico.
No
meu prédio, o síndico agrediu verbalmente uma
moça que trabalha comigo. Se fosse negra, poderia processá-lo.
Sendo parda, o máximo que consegui foi adverti-lo. Então,
a questão da inclusão negra se tornou a maneira
mais fácil de atender demandas específicas, sem
mudar a face da miséria brasileira. Os negros organizados
constituem a elite, são universitários, muitos
deles professores, filhos da classe média. Pergunte se
as cotas raciais na Universidade irão atender os favelados
negros? É claro que não.
Nos
anos 40, as festas de grã-finos cariocas tinham negros
que desciam do morro vestidos como africanos, por conta da descoberta
da cultura negra... nos Estados Unidos, com a explosão
do jazz. A discriminação contra pobres deveria
ser tão passível de punição quanto
a contra negros. Mas isso não ocorre. É uma maneira
de nos sentirmos internacionais, e de abrirmos mão da
solidariedade com os brasileiros pobres em geral.
Como
avalia a qualidade das matérias sobre os resultados da
Síntese de Indicadores Sociais do IBGE? Que dizer da
escolhas que os jornalistas fizeram de suas fontes informação?
L.N.
– Em geral as informações já
vêm acompanhadas de análises, acriticamente. O
caso do "país de gordos" é exemplar
de como se aceitam os dados sem maiores discussões. Em
relação à leitura das informações,
a estatística permite pinçar dados para cada gosto.
Hoje em dia há um pessoal, estatístico, especializado
em trabalhar os dados do PNAD, não para aprimorar as
políticas sociais, mas como elemento político
para legitimar cortes de gastos sociais. Há diversas
formas de manipulação da estatística:
**
A
escolha do universo a ser analisado.
**
As variações relativas. Posso pegar um dado muito
ruim e dizer que é aceitável porque a base de
comparação é um dado extremamente ruim.
**
A não inclusão de dados não quantificáveis.
Por exemplo, tem um grupo de economistas que sustenta que a
renda melhorou nos anos 90 tomando por base a renda familiar.
Antes, um pai de classe C ou D conseguia educar os filhos, com
a mãe ficando em casa para funções relevantes
– dentre as quais, acompanhar a própria educação
dos filhos. Com a pauperização dos anos 90, a
mãe precisou sair para trabalhar. Passamos a ter dois
subempregados. O estatístico considera o aumento da renda,
e desconsidera o trabalho que deixou de ser dedicado à
casa. No entanto, estudos sobre educação na Coréia
e Japão indicam que o acompanhamento dos estudos pela
mãe é elemento essencial na formação
dos alunos.
Os
veículos receberam os resultados com antecedência
suficiente para produzir matérias sobre os dados do IBGE.
A numeralha foi bem explicada?
L.N.
– Como não estou no dia-a-dia da redação,
não saberia dizer.
Se
comandasse uma editoria de Economia, qual seria sua orientação
para a cobertura desse assunto?
L.N.
– Levantar todos os comentários que saíram
na divulgação dos dados anteriores da pesquisa
anunciada, filtrar todas as ressalvas levantadas por técnicos
em relação aos números. Quando os números
forem divulgados, ter o manual pronto, com as leituras e ressalvas
possíveis.
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