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Informação:
Observatório
da Imprensa - 29/03/2005
Luciano
Martins Costa (*)
O
relatório sobre o Estado da Mídia 2005, produzido
pelo Projeto
para a Excelência em Jornalismo, instituição
associada à Escola de Graduação em Jornalismo
da Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos, divulgado
em meados em março, apresenta um retrato devastador,
mas ao mesmo tempo útil e altamente esclarecedor, sobre
a situação do jornalismo norte-americano. O extenso
levantamento, que ocupa cerca mais de 500 páginas, lança
fortes luzes sobre a mais grave e duradoura crise do setor,
mostrando a ampla extensão da chaga, mas também
indica caminhos para a recuperação.
Embora
estritamente dedicado ao mercado norte-americano, o estudo oferece
uma inestimável contribuição para os estrategistas
da mídia latino-americana e brasileira em especial, pelo
histórico de relações entre o modelo americano
e o que se passa ao sul do Rio Grande (aquele que se supõe
separar o México dos Estados Unidos).
A
pesquisa abrange nove setores de mídia – redes
de TV, TV por assinatura, jornais, revistas, internet, rádio,
emissoras locais e regionais de televisão, mídia
étnica e imprensa alternativa. Para cada um desses setores
foram organizadas informações sobre direcionamento
do conteúdo editorial, tendências do público,
tendências econômicas, características de
propriedade da mídia, tendências de investimentos
nas redações e análises das atitudes do
público.
O
objetivo declarado dos organizadores do trabalho foi estudar
o estado do jornalismo americano e responder questões
essenciais sobre suas tendências e direções,
sintetizando todas as informações disponíveis
de maneira independente e desapaixonada. Uma das conclusões
centrais: a tecnologia está transformando os cidadãos,
de consumidores passivos de notícias produzidas por profissionais,
em participantes ativos que podem compor seu próprio
jornal.
"Nesse
novo mundo, continuamos acreditando que o jornalismo não
está se tornando irrelevante", dizem os organizadores.
"À medida em que o universo da informação
se expande, a necessidade de saber o que é verdade é
tudo que vale. Mas discernir e comunicar isso está mais
difícil."
O
estudo permite observar, por exemplo, que existem agora muitos
modelos de jornalismo, os meios que mais crescem são
os mais rápidos e baratos. O modelo de empresa tradicional,
no qual os jornalistas se preocupam primeiro em contextualizar
os fatos – que no estudo é chamado de "jornalismo
de verificação" – vem perdendo terreno
para os programas de entrevista e comentários, nos quais
se sobressai um "jornalismo de afirmação",
por meio do qual a informação é oferecida
com pouco tempo para se conferir a veracidade com independência.
Por
outro lado, o universo dos blogs, ao mesmo tempo que agrega
a riqueza da diversidade de cidadãos ativos, expande
exponencialmente "essa cultura das assertivas", agregando
a isso uma filosofia afirmativa: "Publique qualquer coisa,
especialmente opiniões, que os relatos mais precisos
e a confirmação acabam acontecendo mais cedo ou
mais tarde na própria rede de bloggers". O resultado
é parte verdade e parte mentira, ou seja, não
confiável.
Outra
característica constatada pelos pesquisadores na relação
entre a imprensa e seus públicos é que o crescimento
do partidarismo no consumo de notícias e a impressão
de que as pessoas recuaram para seus cantos ideológicos
foram muito exagerados. Na realidade, a maioria esmagadora dos
americanos diz preferir uma imprensa independente e não
partidária, assim como os anunciantes e os investidores
– o que indica uma escolha errada por parte dos editores
e gestores que buscam aumentar o número de correligionários,
em vez de leitores críticos.
Uma
vez que os cidadãos têm um espectro maior de informações
ao alcance dos dedos, diz o estudo, também precisa crescer
proporcionalmente o nível de comprovação
oferecido pela imprensa. Nesse sentido, conclui, a tendência
de encher as redações só com jornalistas
generalistas, mesmo talentosos, pode não ser apropriada.
Competidor
da imprensa
Outro
aspecto interessante revelado pelo trabalho do Projeto para
a Excelência em Jornalismo é que os cidadãos
mais críticos, que desconfiam da imprensa, consomem mais
imprensa do que os mais crédulos ou mais passivos. A
única exceção observada ocorre quanto aos
programas de entrevistas e comentários no rádio
e na TV (talk shows), nos quais se percebe uma concentração
de republicanos conservadores nas emissoras da Fox.
O
sumário executivo do estudo indica que o jornalismo deve
se mover na direção de tornar seu trabalho mais
transparente e mais fundamentado, e ampliar o escopo de sua
investigação. Deve se tornar fonte confiável
em vez de se apresentar como coletador de informação.
Para
que os jornalistas alcancem a aspiração de se
tornar a fonte confiável do público, acrescenta,
as organizações de imprensa precisam promover
algumas mudanças. Uma delas seria documentar seus processos
de reportagem mais abertamente, para que seu público
possa decidir por si mesmo em que acreditar.
Acabou
a era do jornalismo "confie em mim", dizem os analistas
da pesquisa, e começou a era do jornalismo em que o público
exige: "mostre-me". Em vez de meramente monitorar
os corredores oficiais do poder, as organizações
informativas podem ter também que monitorar os novos
meios alternativo de debate público, observam.
O
problema é que o estudo constatou que a mídia
tradicional está deixando para as empresas de tecnologia
(como o Google) e para os indivíduos ativos e empreendedores
(como os blogueiros e os freqüentadores de chats de debates)
a tarefa de explorar e inovar a internet. O risco dessa atitude
é que a mídia tradicional ceda a esses novos concorrentes
a tecnologia mais avançada e a audiência que está
sendo construída online.
Em
2004, por exemplo, o serviço de notícias Google
News surgiu como grande competidor da imprensa, enquanto a audiência
dos blogs cresceu 58% nos Estados Unidos, em apenas seis meses,
e já alcança 32 milhões de pessoas. À
medida que cresce essa audiência, os blogs se tornam mais
profissionais, mais confiáveis e ainda mais competitivos.
Seria
necessário muito tempo para perscrutar todos os detalhes
das nove áreas estudadas – o resultado completo
no que se refere aos jornais pode
ser visto aqui. Mas alguns pormenores revelam como a
mídia enfrentou a crise em 2004, nos Estados Unidos.
Más
notícias
O
desapontamento com a continuidade da perda de leitores e de
receita fez com que muitos jornais voltassem a cortar na carne
de suas redações, ao mesmo tempo em que se constatava
que boa parte dos números que haviam induzido a certo
otimismo há um ano eram resultado de fraudes do tipo
muito conhecido entre nós: maquiagem na circulação,
assinaturas de cortesia contadas como assinaturas pagas etc.
O pior é que se verificou baixo investimento em jornalismo
online, onde a audiência continua crescendo, o que aumenta
as dúvidas quanto ao futuro. No entanto, os jornais continuam
dando lucros nos Estados Unidos.
A
circulação de jornais impressos voltou a apresentar
queda acelerada no período de seis meses terminado em
setembro de 2004, com 0,9% menos leitores nos dias de semana
e 1,5% a menos aos domingos. Ao mesmo tempo, um estudo do Deutsch
Bank Securities com 40 jornais americanos revelou que métodos
inadequados para medição da circulação,
como a concessão de descontos pesados para atrair leitores,
haviam mais do que duplicado nos dois últimos anos, criando
distorções que podem indicar uma queda real ainda
maior na circulação paga.
Para
disfarçar a queda na circulação, muitos
jornais passaram a usar o critério do número de
leitores, o que não ajuda a medir a saúde da mídia.
E mesmo essa artimanha para tentar atrair o interesse de anunciantes
acabou por se revelar um desastre: o número de pessoas
(60%) que declararam em 2004 ter o hábito regular de
ler jornais diários é o menor índice em
14 anos, desde que essa consulta começou a ser feita
pelo Pew
Charitable Trust, instituto pertencente à entidade
que patrocinou a pesquisa sobre o estado da mídia.
Abalados
pela falta de resultados sustentáveis – embora
tenha havido um crescimento nos lucros – os gestores das
empresas americanas de jornalismo reduziram os investimentos
nas redações e tentaram forçar o público
a pagar para ler na internet. O cenário não apenas
permaneceu o mesmo, como muitos jovens leitores foram empurrados
para fontes gratuitas online.
A
revelação das tentativas de maquiagem na circulação
produziu outro efeito perverso: as agências de publicidade
passaram a desconfiar até mesmo dos jornais que não
tentaram fraudar os números, o que fez cair o valor da
mídia impressa e ameaça afetar os lucros obtidos
no ano passado. Isso deixa os gestores de imprensa sem mais
cartas no bolso do colete.
A
soma de más notícias fez com que um executivo
ouvido pelos pesquisadores opinasse que a indústria de
jornais nos Estados Unidos está vivendo uma crise de
autoconfiança, e está deixando de acreditar na
viabilidade do que está oferecendo, no papel ou em outros
meios. As conclusões do estudo indicam que ele pode estar
certo.
(*)
Jornalista
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