Informação:
Revista Consultor
Juridico - 27/08/2004
Débora Pinho e Priscyla Costa
As
empresas jornalísticas de São Paulo respondem
a 5.408 reclamações trabalhistas movidas por seus
ex-empregados. Desde 2001, foram demitidos pelo menos três
mil jornalistas no estado, segundo o presidente do Sindicato
dos Jornalistas de São Paulo, Fred Ghedini.
Muitas dessas demissões, afirma ele, foram convertidas
em outro tipo de contratação. O jornalista trabalha
como empregado, mas recebe como pessoa jurídica.
O
desemprego e a avalanche de reclamações trabalhistas
resultam da crise pela qual passam as empresas. A vertiginosa
queda no volume de anúncios publicitários quebrou
a espinha dorsal das empresas. No caso mais recente, o Jornal
do Brasil, a Gazeta Mercantil e o InvestNews deflagraram uma
onda de demissões, que deve atingir 80 funcionários
das redações espalhadas pelo país. A maior
parte dos cortes fica restrita ao Jornal do Brasil. A Folha
de S. Paulo também passou a tesoura na folha de pagamento
no mês passado. Foram 200 demissões. A crise desemboca
direto na Justiça do Trabalho. Anteriormente, o mesmo
ocorreu em O Estado de S.Paulo, na revista Época, nas
Organizações Globo e em quase todas as empresas
do setor.
O
fenômeno afeta a capacidade noticiosa da imprensa, tende
a reduzir a quantidade e a qualidade das notícias e atenta
contra o inciso XIV do artigo 5º da Constituição
Federal, onde "é assegurado a todos o acesso à
informação".
Avalanche
de ações
A
revista Consultor Jurídico fez um levantamento
no Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo de processos
movidos por ex-empregados de empresas de comunicação.
A Gazeta Mercantil lidera o ranking de ações trabalhistas
com 1.853 reclamações.
O
segundo lugar fica para a Rede TV, que herdou diversos pepinos
da TV Manchete. A emissora tem 876 ações e discute
na Justiça se é ou não sucessora da dor
de cabeça. O jornal O Estado de S. Paulo está
em 3º lugar com 850 processos.
A
Editora Abril aparece na 4ª colocação com
454. E o SBT está em 5º lugar com 216 reclamações.
(Veja o ranking das 15 empresas de comunicação
mais acionadas)
O
levantamento do TRT paulista é referente a processos
da capital, da Grande São Paulo e da Baixada Santista
-- maior parte em primeira instância e alguns em segunda
instância ou até mesmo no TST. A pesquisa exclui
da base de dados os processos arquivados, devolvidos, transferidos,
cancelados e incompletos. Os números levantados pela
revista ConJur podem apresentar diferença quando confrontados
com dados das empresas, já que na estatística
também são computadas as cartas precatórias
referentes a ações de outros estados.
Em
baixa
O
jornalista Alberto Dines lembra que a imprensa
perde qualidade com a crise. “As empresas de comunicação
começam a contratar terceirizados que trabalham por tarefa
contrariando o espírito jornalístico”, diz.
Segundo ele, o jornalista precisa ser “full time”
e essa terceirização acaba com o jornalismo como
atividade integral.
Para
Dines, a baixa qualidade do jornalismo acaba mascarando o padrão
de exigência de alguns leitores, que não percebem
mais os erros -- porque se acostumam com eles -- e passam a
não exigir o bom jornalismo. Outros leitores encontram
outro caminho quando percebem a queda de qualidade: trocam de
jornal.
Inferno
astral
O
Sindicato dos Jornalistas de São Paulo cuida de cerca
de 600 processos trabalhistas e atende, em média, 350
jornalistas por mês. No último relatório
feito há um ano, o Sindicato tinha colecionado 102 decisões
favoráveis e oito derrotas em primeira e segunda instâncias.
A
advogada do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Silvia
Neli dos Anjos Pinto disse que 90% dos casos que chegam à
entidade são sobre vínculo empregatício.
“O empregado é contratado como pessoa jurídica
e trabalha como subordinado. Na hora em que é demitido,
a empresa jornalística o trata como pessoa jurídica
para evitar pagar direitos trabalhistas”, disse.
A
advogada tem notado uma tendência pior nos últimos
cinco anos nas reclamações trabalhistas. Antes,
a maior briga de jornalistas era por horas extras. Hoje, a falta
de vínculo empregatício é o principal problema,
de acordo com ela, apesar de o pagamento de horas extras continuar
na lista de reclamações.
O
diretor executivo da Associação Nacional de Jornais,
Fernando Martins, se manifestou sobre o assunto. “Suponho
que o vínculo empregatício não deva ser
um grande problema para os donos de empresa, que nunca trouxeram
esse debate para a ANJ”, disse.
Confira
a classificação das empresas, o número
de ações e o que dizem os advogados
1º
lugar -- Gazeta Mercantil -- 1.853
“A
Gazeta Mercantil passa por um processo de reestruturação
desde o final do ano passado. A empresa vem compondo seu passivo
gradativamente, ou seja, fazendo acordos na medida do possível
para poder honrar seus pagamentos. Ela precisa de um prazo maior
para pagar os débitos trabalhistas porque também
tem uma série de obrigações cotidianas.
O tombo da Gazeta Mercantil é maior porque é o
maior jornal. Assim, o fluxo de caixa gera um buraco maior.
A Gazeta Mercantil tem o maior volume de processos trabalhistas
porque é o mais antigo. Há vezes em que, mesmo
com o pagamento dos direitos, o empregado recorre à Justiça.
A maior parte dos processos da Gazeta Mercantil é de
gráficos que querem horas extras e verbas rescisórias
complementares”. (Jeremias Alves Pereira Filho,
advogado da Gazeta Mercantil.)
2º
lugar -- Rede TV -- 876
“A
Rede TV tem hoje 105 processos com acordos em andamento e 231
já pagos. Existem 540 ações trabalhistas
contra a TV Ômega. Desse total, há 248 processos
da TV Manchete e 292 da Rede TV. A questão sucessória
da TV Manchete está sendo discutida na Justiça.
Em Barueri, a 1ª Vara entende que a TV Ômega não
é sucessora da TV Manchete. Já para a 2ª
Vara, a TV Ômega é sucessora. Há decisões
de segunda instância nos dois sentidos. A Rede TV tem
hoje radialistas, jornalistas e empregados que trabalham em
função administrativa. Radialistas e jornalistas
têm jornada de trabalho flexível. É difícil
o controle de jornada pela empresa. Essa jornada flexível
leva jornalistas e radialistas para a Justiça para reivindicarem
horas extras. Há banco de horas informalmente, mas a
Justiça não o reconhece. E não existe entendimento
da empresa e sindicatos para se chegar a um consenso sobre o
assunto. Também há advogados que exageram e fazem
os trabalhadores pedirem mais do que têm direito para
aumentar seus próprios honorários em caso de vitória.
Em alguns casos, chegam a pedir 30% de honorários”.
(Betina Calenda, advogada do departamento jurídico
da Rede TV)
3º
lugar -- O Estado de S.Paulo – 850
“O
grande acréscimo de processos trabalhistas ocorreu porque
tivemos de encerrar várias terceirizações,
esse ano, principalmente na área de distribuição.
São processos movidos por empregados de distribuidoras.
Desses processos, somente 5% são de jornalistas que pedem
horas extras. A empresa tem contratos em que pactua 5 ou 7 horas
diárias. O número de ações na Justiça
do Trabalho aumentou porque, antigamente, as pessoas tinham
receio de entrar com processo na Justiça. Hoje, o empregado
já sai com essa predisposição. E isso é
incentivado pela própria Justiça do Trabalho,
que não tem sucumbência. O empregado aceita correr
qualquer risco e o que vier é lucro. Há reclamações
absurdas, às vezes.” (José Luiz
dos Santos, advogado do departamento jurídico
trabalhista do jornal O Estado de S. Paulo)
4º
lugar -- Editora Abril -- 454
O
escritório Tozzini, Freire, Teixeira e Silva, responsável
pela área trabalhista da Editora Abril, preferiu não
se manifestar sobre o assunto.
5º
lugar -- SBT -- 216
“Não
são 216 ações e sim 137 que tramitam na
Justiça desde 1996 até este ano. São referentes
a horas extras e acúmulos de funções. Com
certeza, o SBT não ocupa o quinto lugar no ranking”.
(Ulda Toledo, assessora de imprensa do SBT)
6º
lugar -- Rádio e TV Record – 215
“Não
temos 215 reclamações trabalhistas e sim 155 ações
ativas. As reclamações trabalhistas mais comuns
de funcionários da TV são sobre diferenças
de horas extras. A Record sempre pagou todos os direitos e verbas
trabalhistas de seus empregados. A maioria das reclamações
movidas pleiteia diferenças de horas extras (no entendimento
dos reclamantes), ou seja, verbas controversas que dependem
de prova pelos reclamantes”. (Simone Cosme,
diretora Jurídica e de RH da TV Record)
7º
lugar -- Editora Globo -- 203
A
advogada da Editora Globo, na área trabalhista, Amanda
Marim de Oliveira, não quis se manifestar sobre
o assunto. Alegou que as informações são
sigilosas.
8º
lugar -- Rádio e TV Bandeirantes -- 178
O
escritório Camargo de Moraes Assessoria e Consultoria
S/C -- que representa a TV Bandeirantes na área trabalhista
-- não se manifestou até o fechamento desta edição.
9º
lugar -- Folha de S.Paulo – 145
“Pelo
número de funcionários, é normal que a
Folha responda 145 processos. A maioria das ações
é de funcionários das empresas que prestam serviços
para a Folha e o jornal entra no pólo passivo. Os outros
são de funcionários que pedem horas extras, como
operadores de telemarketing, por exemplo, ou jornalistas que
querem vínculo empregatício e equiparação
salarial”.(Reginaldo Carlos de Araújo,
gerente geral de relações trabalhistas e sindicais
do departamento jurídico da Folha de S. Paulo).
9º
lugar -- TV Gazeta – Fundação Casper Líbero
– 145
O
departamento jurídico da TV Gazeta não quis se
manifestar sobre o assunto.
11º
lugar -- TV Cultura – 132
“O
departamento jurídico da Fundação Padre
Anchieta apurou 100 ações, entre o período
de 8 a 10 anos. Pelo número de funcionários, aproximadamente
mil, a demanda de ações é completamente
normal. Dessas ações, 70% dos casos pedem reintegração.
Mesmo assim, a Fundação Padre Anchieta, em primeira
instância, foi vencedora em todas elas”. (Osmar
Franco, advogado do departamento jurídico da
Fundação Padre Anchieta).
12º
lugar -- TV Globo – 98
O
escritório Robortella Advogados -- que representa a área
trabalhista da TV Globo -- não se manifestou até
o fechamento desta edição.
13º
lugar -- Editora Três – 32
O
departamento jurídico da Editora Três preferiu
não se manifestar sobre o assunto.
14º
lugar -- MTV – 6
“Essa
classificação é uma vitória. Isso
significa que a MTV é uma empresa absolutamente correta.
São 200 funcionários efetivos. Três desses
processos são de funcionários terceirizados e
a MTV acaba entrando como pólo passivo. Os outros são
da área de engenharia -- câmera e pessoas responsáveis
pela parte elétrica -- ou ainda funcionários contratados
para projetos especiais como acústico, programas de verão
que, na maioria das vezes, pedem vínculo empregatício.
Mesmo assim, em 2003 e 2004, a MTV não sofreu nenhuma
condenação”. (Lara Andrade,
advogada do departamento jurídico da MTV Brasil).
15º
lugar -- Valor Econômico – 5
“O
Valor Econômico sempre tentou ter 100% de seu quadro de
funcionários regidos pela CLT. O departamento jurídico
do Valor, junto com o departamento de recursos humanos, sempre
tomou cuidado com todas as áreas, inclusive as terceirizadas
e por isso busca a contratação mais correta. Para
isso, trabalha diretamente com toda as áreas do Valor
Econômico explicando as regras e os possíveis riscos
de uma contratação. Isso acaba limitando o número
de ações trabalhistas. Das cinco ações
que o Valor responde no TRT-SP, um ou dois casos são
de funcionários que pedem a revisão de um benefício
que alegam não ter recebido. As demais são ações
do quadro de terceirizados e o Valor acaba entrando como segunda
ré da ação. Durante os quatro anos de Valor
Econômico, nenhum jornalista processou a empresa”.
(Daphne M. Sancovsky, diretora de assuntos
jurídicos e de recursos humanos do Valor Econômico).
Débora Pinho
é editora-chefe da revista Consultor Jurídico
Priscyla Costa é
repórter da revista Consultor Jurídico
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