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O Aquífero no subsolo e o Globo Repórter...


 

Informação: Comunique-se - 23/02/2005

Carlos Tautz (*)

Programa jornalístico de mais importante audiência no Brasil, o Globo Repórter em sua edição de sexta-feira passada (18/02) descreveu a enormidade que é o Aquífero Guarani, a maior reserva subterrânea de água potável do planeta, que vai da Argentina a Minas Gerais, passando sob o território do Uruguai, do Paraguai e de nove estados brasileiros. É tanta água que seria capaz de atender ao consumo brasileiro por mais de dois mil anos. Isso mesmo: dois mil anos!

Mas, em vez de aprofundar a investigação sobre assunto de tamanha relevância, o programa ficou na superfície que tem caracterizado a maioria de suas edições dedicadas a temas ambientais e não abordou a principal dimensão do assunto Aquífero Guarani: a sua importância estratégica em uma conjuntura de acentuada disputa internacional por recursos naturais.

Aquele programa que já foi padrão de investigação jornalística não procurou saber as razões que levaram o Banco Interamericano de Desenvolvimento (Bid) e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) a tirar do Brasil, às vésperas da vitória da esquerda nas eleições presidenciais de 2002, a sede do Projeto Guarani, que mapeia o Aquífero, sem que até hoje se saiba como e quem vai utilizar essa informação estratégica em termos econômicos, ambientais e, até, militares. Àquela altura, o então cada vez mais provável governo Lula apontava incertezas em uma escala tal que justificava a mudança.

Apesar desses componentes políticos determinantes, o Globo Repórter preferiu tratar o Aquífero com a fórmula do jornalismo peso-leve: misturou imagens belas e informações insólitas, como a da cidade paranaense que extrai do Guarani a água mineral com que lava ruas, e não evidenciou a importância dessa massa d´água para o futuro da humanidade e dos habitantes do Cone Sul da América do Sul em especial.

Embalou isso tudo numa descrição tecnicamente correta da amplitude física do manancial e, como de costume, não poupou recursos para garantir o excelente nível de plasticidade que caracteriza as produções da TV Globo. Restringiu a matéria a um tom ufanista que lembrou a ditadura militar e um tempo em que, no Brasil, tudo era “o maior do mundo”. Dedicou pouco tempo à uma entrevista em que dois pesquisadores alertavam para a necessidade de se resguardar o Aquífero e esvaziou tal afirmação grave, dado o contexto internacional. Deixou-a solta no meio da edição e desperdiçou a chance de fazer o que os pesquisadores pediam: alertar a opinião pública brasileira sobre um tema complexo.

Aliás, é bom dar as dimensões exatas do assunto. “O Aqüífero Guarani é um enorme reservatório de águas subterrâneas de 1 milhão e 200 mil km², que se estende pelos territórios do Brasil (840.000 km²), Uruguai (58.500 km²), Argentina (355.000 km²) e Paraguai (58.500 km²), uma área equivalente a dos países da Inglaterra, França e Espanha juntos. Esse manancial dispõe de um volume aproveitável de água da ordem de 40 km³/ano, 30 vezes superior à demanda por água de toda a população existente em sua área de ocorrência, cerca de 15 milhões de habitantes”, informa o site da Agência Nacional de Águas (ANA).

Todo ano, são retiradas do Aquífero duas vezes e meia o total de águas que os 180 milhões de brasileiros consomem. Em várias das regiões de ocorrência dessa água, ela tem qualidade tão boa que dispensa caríssimos sistemas de tratamento. Está pronta para ser consumida por seres humanos, na agricultura e na indústria.

Além de 70% das águas do Aquífero ocorrerem em subsolo brasileiro, também se localizam no país as suas principais áreas de recarga, onde o Guarani tanto aflora quanto recebe água da chuva. Está nas universidades brasileiras a maioria dos estudiosos do Aquífero, que identificaram áreas de contaminação intensa e pesquisam formas de superar o problema. Fica no Brasil, portanto, o que os cientistas chamam de “massa crítica” sobre o Aquífero, que vai se tornando de valor cada vez mais inimaginável, à medida que se generaliza a crise da água potável no mundo.

Apesar dessas características, não está mais sediada em qualquer cidade brasileira uma entidade que dispõe de 27,5 milhões para fazer a mais ampla pesquisa do Guarani. Desde março de 2003, a secretaria do Projeto Guarani, coordenada pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e financiada por organizações multilaterais e governos europeus, funciona em Montevidéo, depois de deixar Brasília, onde se instalara anteriormente.

Talvez inesperadamente, agora o Projeto Guarani se defronta com a maior novidade da história do Uruguai: o governo do centro-esquerdista Tabaré Vasquez, que recém se elegeu com plataforma não-neoliberal, em oposição à pseudo-alternância sempre direitista entre Blancos e Colorados.

Porém, nada disso chamou a atenção do Globo Repórter. Como de praxe, sua cobertura ambiental prendeu-se ao que rende imagens candentes e um texto com alta carga de dramaticidade. Mas, que não aprofunda um assunto que não pode ficar na superfície.

(*) Jornalista