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No mundo encantado da Globobrás.


 

Informação: Direto da Redação - 03/11/2004

Eduardo Graça

Passei três semanas de outubro no Rio de Janeiro. Sem precisar de convite fui parar em duas festas de aniversário – a de Miguel Falabella e a de José Mayer. Não liguei para divulgadoras, não entrei em contato com promotores sociais, não batalhei uma entrada, não fui de penetra. Tudo foi bem mais simples. Em casa, ligando a televisão na Globo, me deparei com o anúncio dos aniversários e o convite para a celebração de datas ímpares na história da Cultura nacional.

Nada contra Falabella, muito menos contra Mayer. Mas ao soprar as velinhas dos bolos globais percebe-se que uma única produtora de informação e entretenimento eletrônico decidiu apropiar-se de vez da identidade nacional. Parece papo de acadêmico paranóico? Ora, não faz muito tempo e o grito de guerra “o-povo-não-é-bobo-abaixo-a-rede-globo” era de lei em qualquer manifestação política séria. Protestava-se então contra uma visão parcial dos fatos. Este tempo parece ter acabado. A Globo aliada da ditadura militar, a Globo que manipula debates eleitorais, a Globo partidária parece ter tido um fim. Ou melhor, a Globo agora é partidária de si mesma, algo que, em príncipio, não pode ser condenável.

Mas a Globo decidiu também – e olhe a coincidência, justamente quando se discute a regulamentação da produção audiovisual e a reserva de mercado para empresas brasileiras neste setor estratégico – apresentar-se como a empresa que é ‘a cara do Brasil’. A Globobrás. Nossa cultura, nossos costumes, nossa vida, passam pela tela da Globo. Já ouvi mais de um amigo antenado afirmando que é de interesse nacional a sobrevivência da Globo, uma espécie de hollywood tropical que garante ao mesmo tempo empregos e a exportação da idéia de brasilidade mundo afora. Precisamos da Globo para sabermos quem somos.

Na metade final de setembro, em lúcido artigo para a Folha de S.Paulo, Ivana Bentes ofereceu bons exemplos para esta cofusão Mídia-Estado, como na série Identidade Brasil, apresentada no Jornal Nacional. Em determinado momento o repórter diz que muitos brasileiros descobrem seu país – cultura, sotaque, paisagens, festas típicas - na tela. É a Globo atuando como agência turística cultural dos pobres e menos favorecidos. Muitos deles certamente celebraram neste outubro chuvoso no Rio os aniversários de Falabella e Mayer. E seguiram acreditando que o que se vê na telinha da Globo é mesmo o retrato fiel de suas próprias existências, como se estivessem em um Big Brother eterno, presos a uma sala de estar com chão batido de terra ou a um hall decorado por um tapete persa legítimo assisitindo ao Brasil igualitário da Globo. Um Brasil calmo, com valores, objetivos e aspirações bem definidas para ricos e pobres. Um Brasil que é feliz. Procura-se, urgentemente, um país.

Sobre o autor: Foi repórter do Jornal do Brasil, O Dia, Estado de São Paulo e Valor Econômico. Em TV, foi editor, roteirista e repórter dos canais Brasil e Multishow. Vive atualmente em New York de onde colabora para jornais e revistas brasileiros.