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- 06/09/2004
Antonio
Brasil
Hoje, o jornalismo mundial deveria estar de luto. Além
das diversas notícias sobre colegas seqüestrados
ou mortos no Iraque, somos surpreendidos com notícias
ainda piores aqui mesmo dos EUA.
Segundo os últimos dados divulgados pelo Instituto Nielsen,
o Ibope americano, pela primeira vez na história, uma
rede de TV a cabo, a polêmica Fox TV de Rupert Murdoch,
uma rede abertamente conservadora e pró-republicana,
bateu todas as tradicionais redes americanas. Pelo jeito, o
novo modelo de jornalismo “engajado” e patriótico
da Fox está fazendo sucesso.
A
cobertura da convenção do Partido Republicano
nesta última terça-feira no horário de
22-23h rendeu um recorde de audiência para o Fox News.
Bill Shine, vice-presidente da rede, fez questão de enfatizar
o crescimento de mais de 267 porcento nos índices de
audiência da emissora quando comparados à transmissão
da convenção democrata. A Fox se identifica com
o seu público republicano e as demais redes de TV americanas
são simplesmente humilhadas. A Fox, apesar de ser a menor
e mais jovem rede de TV, resolveu ir à luta e quebrar
todos os paradigmas do tradicional jornalismo americano.
Em
busca dos culpados
Os
executivos e editores das grandes redes de TV americanas já
estão avaliando os “estragos” e reavaliando
os seus próprios objetivos e estratégias. Segundo
matéria do NYT publicada nesta sexta-feira.
Eles
apostaram na indiferença do público de TV em relação
às convenções dos partidos americanos.
Protestaram contra o caráter meramente publicitário
desses eventos e reduziram ao mínimo a cobertura jornalística.
Fazem questão de dizer que não há notícias
nas convenções dos partidos americanos e que não
estão dispostos a fazer publicidade gratuita. É
bom relembrar que nos EUA, não existe o nosso famigerado
horário eleitoral “gratuito” e obrigatório.
Os executivos das redes americanas resolveram enfrentar a ditadura
das convenções políticas e apostar na indiferença
do público. Pelo jeito, alguma coisa saiu errada. O público
republicano se identifica e reforça a audiência
da Fox. A audiência dos demais telespectadores se pulveriza
em todas as outras redes. O jornalismo mais sério e “equilibrado”
paga um alto preço e enfrenta desafios assustadores para
o futuro. Esse tal jornalismo “sério” e indefinível
em rede de TV aberta pode estar com os seus dias contados.
Perder
a liderança para uma outra grande rede não é
problema. Tudo bem. Mas perder a liderança em um grande
evento nacional durante o horário nobre para uma TV a
cabo e ainda mais para a Fox, deve ser motivo de muita preocupação.
Cabeças vão certamente rolar. Em verdade, o futuro
do jornalismo em TV aberta é cada vez mais nebuloso e
duvidoso. Também é bom lembrar que quase tudo
que acontece no EUA, acaba acontecendo no Brasil.
O
novo cidadão Kane
Para
Rupert Murdoch, o barão de mídia, dono da News
Corporation e da Fox vale tudo para conquistar o sucesso e audiência.
Nada é sagrado na busca do sucesso, audiência e
poder. Ele reinventa a TV e o jornalismo em diversas partes
do mundo já foi até inspiração para
grande vilão de filme de James Bond. Para Murdoch, jornalismo
não é sagrado e assim como programas de entretenimento
não passa de mais um produto. O jornalismo à Murdoch
tem que se adaptar aos interesses dos donos do poder, se adaptar
aos novos tempos e se identificar com o seu publico. Ou seja,
produzo um jornalismo ao gosto do freguês. Um jornalismo
“flexível” que prioriza os resultados! Nada
muito diferente do telejornalismo brasileiro atual. Muda o governo,
muda o jornalismo da TV. Depois é só comemorar
o aniversário de mãos dadas com o público
e com os novos donos do poder! Mas isso é uma outra história.
Para
quem não conhece, a Fox TV é aquela rede de TV
americana que resolveu ignorar os princípios mais básicos
do jornalismo como objetividade, imparcialidade ou equilíbrio
na busca de uma identidade com o telespectador insatisfeito
com o “liberalismo” das demais redes de TV. Eles
produzem um jornalismo segmentado e “engajado” para
um público específico. A Fox tem seus méritos.
Eles perceberam uma mudança de atitude do público
de TV americano. Após os atentados de 11 de setembro,
muitas coisas mudaram nos EUA.
O
medo provoca reações imprevisíveis e inesperadas,
e a Fox, assim como o próprio governo americano, compreende
muito bem que o medo é “conservador” e adverso
às mudanças. O telespectador da Fox se identifica
claramente com os objetivos conservadores, patrióticos
e republicanos da mais nova rede de TV americana. A Fox está
somente há nove anos no ar, mas já é considerada
uma rede de sucesso. Seus executivos criaram um novo modelo
de jornalismo e TV que pode se tornar o modelo hegemônico.
Afinal, se os árabes tem a sua Al-Jazira, os americanos
tem a sua Fox TV.
Ao
invés de buscarem informação e conhecimento,
os telespectadores dessas redes buscam um novo jornalismo que
despreza os fatos e prioriza a confirmação dos
preconceitos. O telespectador dessas redes não assiste
aos seus telejornais. Ele torce pelos seus ideais e seus novos
heróis, os jornalistas “engajados”.
Além
de competir com o entretenimento, jornalismo enfrenta um desafio
ainda maior. O telejornal passa a ser uma espécie de
esporte onde o jornalista e o público “vestem a
camisa” , desprezam os fatos, a isenção,
o equilíbrio e buscam somente as noticias convenientes
e “apropriadas”.
O
Horror!
Esta
semana, em entrevista recente para o Jornal do Terra, fiz questão
de dizer que vejo essa situação com muita preocupação
e certa “tristeza”. As outras emissoras de TV, com
menos audiência, estão pagando um preço
alto por adotarem uma postura mais equilibrada na cobertura
das eleições presidenciais dos Estados Unidos.
Temos
poucas razões para sermos otimistas. Neste exato momento,
a ascensão da Fox não pode ser considerada “mera
coincidência”. Considerando as últimas pesquisas
de opinião e o show de profissionalismo dos marqueteiros
republicanos e principalmente a titubeante performance do candidato
democrata, temos que nos preparar para o pior.
Como
me disse outro dia um colega jornalista americano que apóia
abertamente o Presidente Bush em tom de ironia, ameaça
e premonição: Bush is going to win. But from now
on, no more Mister Nice Guy ou Bush vai vencer. Mas, de agora
em diante, não será mais “bonzinho”
ou algo parecido. Tomara que ele esteja somente brincando.
Em
tempos de crise, seria bom lembrar o saudoso Marlon Brando em
uma das melhores cenas de um dos melhores e mais importantes
filmes de todos os tempos, o “Apocalypse Now” ...as
últimas e ameaçadoras palavras do Coronel Kurtz,
momentos antes de morrer...The Horror! Sem tradução.
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