Maurício
Hashizume
Do
grupo
de dez conselheiros, só três são "100%
sociedade civil". Seis deles são empresários
e um é secretário de Estado. Lobby da Globo
é o mais forte dentro do Conselho de Comunicação
Social, órgão previsto na Constituição
para auxiliar o Congresso sobre o tema.
Brasília - Seis dos dez (cinco titulares
e cinco suplentes) representantes da sociedade civil eleitos
para a nova composição do Conselho de Comunicação
Social (CCS), órgão previsto na Constituição
para auxiliar o Congresso Nacional acerca de assuntos relativos
ao tema, são empresários do setor. E dos quatro
restantes, um deles, surpreendentemente, destoa de seus pares
por fazer parte, na verdade, de um outro clube peculiar: o
governamental. Arnaldo Niskier, indicado pela Academia Brasileira
de Letras (ABL), é secretário de Cultura de
Rosinha Mateus (PMDB) no governo do Estado do Rio de Janeiro.
Do grupo de dez conselheiros, portanto, apenas
três são "100% sociedade civil": Dom
Orani João Tempesta, da Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB), Luiz Flávio Borges D’Urso,
da seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP),
ambos titulares, e Gabriel Priolli, da ABTU (Associação
Brasileira de Televisão Universitária), suplente
de Niskier. Os seis porta-vozes do empresariado da mídia
que ocuparão as vagas pertencentes à sociedade
civil são os titulares Roberto Wagner, diretor da Rede
Record e presidente da Associação Brasileira
de Radiodifusão e Telecomunicações (Abratel),
e João Monteiro de Barros Filho, presidente da Rede
Vida, seguidos dos suplentes Segisnando Ferreira Alencar (diretor
da TV Rádio Clube de Teresina), Felipe Daou (sócio-diretor
da Rede Amazônica de Rádio e TV), Flávio
de Castro Martinez (sócio-diretor da Rede CNT, irmão
do falecido ex-deputado federal e ex-presidente do PTB, José
Carlos Martinez) e Paulo Marinho (executivo do Jornal do Brasil,
Gazeta Mercantil e revista Forbes, assessor de Nelson Tanure,
(leia "Executivo do JB pode ocupar cadeira da sociedade
no CCS"). Já na primeiro grupo que integrou o
Conselho, instalado em meados de 2002, empresários
ocuparam cadeiras designadas para a sociedade civil.
Aprovada em sessão do Congresso Nacional
no fim do ano passado, a nova composição do
CCS - que ainda reserva espaço específico para
os próprios empresários e trabalhadores do setor
- tomará posse no próximo dia 21 de fevereiro,
quando também deverá ser escolhido o presidente
do colegiado que, em tese, deveria ter, entre os 13 titulares,
quatro representantes do setor profissional, quatro empresários
e cinco integrantes da sociedade civil.
Outra característica que marca o novo
CCS é a ampla representação do principal
conglomerado de comunicação social do Brasil,
as Organizações Globo. A TV Rádio Clube
e a Rede Amazônica, dos supracitados suplentes Alencar
e Daou, respectivamente, são retransmissoras do sinal
da Globo. A família Marinho ainda tem, dentro do CCS,
o titular Paulo Machado de Carvalho Neto, ex-presidente da
Associação Brasileira de Emissoras de Rádio
e Televisão (Abert) que, desde o desligamento do SBT,
da Rede Bandeirantes, da Rede TV! e da Rede Record (leia também:
"Concorrentes se unem para atacar Rede Globo em público")
criaram conjuntamente a Associação Brasileira
de Radiodifusores (Abra), responde de maneira quase exclusiva
pela Globo.
São aliados titulares naturais da maior
rede de TV do país: o secretário Niskier, próximo
ao falecido todo-poderoso da Globo José Roberto Marinho,
Gilberto Carlos Leifert, presidente do Conselho Nacional de
Auto-Regulamentação Publicitária (Conar),
indicado pela Abert, Paulo Tonet Camargo, diretor de Assuntos
Jurídicos da Associação Nacional de Jornais
(ANJ) e diretor-geral Rede Brasil Sul (RBS), parceira da Globo
na Região Sul, e Fernando Bittencourt, diretor de Engenharia
da Rede Globo, indicado pela Sociedade Brasileira de Engenharia
de Televisão e Telecomunicações (SET).
Emanuel Soares Carneiro, diretor da Abert, e o ator Stepan
Nercessian que, mesmo tendo sido indicado pela cota dos trabalhadores
da Associação Nacional das Entidades de Artistas
e Técnicos em Espetáculos de Diversões
(Aneate), é funcionário da Globo.
Só a empresa da família Marinho
está representada, portanto, ao menos por cinco conselheiros
titulares e outros quatro suplentes, totalizando nove cadeiras.
Ou seja, do conjunto eleito pelo Congresso Nacional, mais
que um terço dos titulares - 5 de 13 votantes - deve
defender o interesse de uma única empresa. Os outros
grupos têm, juntos, dois nomes titulares e outros três
suplentes: respectivamente, Roberto Wagner (Record) e João
Monteiro de Barros Filho (Rede Vida), e Antônio de Pádua
Teles de Carvalho (Bandeirantes), Sidnei Basile (Grupo Abril)
e Roberto Dias Lima Franco (SBT). Na prática, o empresariado
dificilmente perderá uma votação importante
pelo fato de ter ao seu lado sete dos 13 votos.
O novo "escrete" do CCS escalado
pelo Congresso provocou reações. "Mais
uma vez (...), na hora das definições a decisão
da escolha dos nomes foi concentrada na mão da Presidência
das duas Casas numa eleição conduzida de forma
açodada, sendo apenas mais um item de uma pauta de
final de ano repleta de outras matérias a serem votadas
pelo Plenário. Como resultado, deputados e senadores
referendaram uma composição desequilibrada para
os próximos dois anos de trabalho", protestou
o Fórum Nacional Pela Democratização
da Comunicação (FNDC), em carta aberta destinada
aos congressistas. Fazem parte da Coordenação
Executiva do FNDC a Associação Brasileira de
Radiodifusão Comunitária (Abraço), o
Conselho Federal de Psicologia (CFP), a Executiva Nacional
dos Estudantes de Comunicação Social (Enecos),
a Federação Interestadual dos Trabalhadores
em Empresas de Radiodifusão e Televisão (Fitert)
e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).
Para o Fórum, "preocupa a hipertrofia
de representação de um único setor da
comunicação social nas vagas destinadas a outras
entidades da sociedade civil". Se as cadeiras reservadas
a este último setor ficaram com pessoas ligadas às
redes comerciais de televisão, observa a carta divulgada
pelo FNDC, é porque obviamente "ficaram de fora
nomes apresentados pelos radiodifusores comunitários
e públicos, pelos produtores independentes de audiovisual
ou pelos estudantes de comunicação". Curiosamente,
o documento do FNDC ainda cita nominalmente o presidente da
Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) - e poupa o presidente
do Senado e do Congresso, José Sarney (PMDB-AP) - como
responsável por contribuir "mais uma vez para
a inibição da política no espaço
onde a negociação e o diálogo democrático
deveriam imperar".
Afora
isso, o tom indignado do FNDC, porém, não foi
muito além disso. Afinal de contas, a entidade, no
frigir dos ovos, garantiu espaço considerável
e será representada por cinco membros: os titulares
Daniel Herz, da Fenaj, e Eurípedes Conceição,
diretor da Fitert; seguidos dos suplentes Celso Augusto Schröder
(Fenaj), Márcio Câmara Leal, também diretor
da Fitert e tesoureiro do FNDC, e o anteriormente citado Gabriel
Priolli (ABTU).