Informação:
Observatório
da Imprensa - 05/10/2004
Alberto
Dines
Coroas
de louros para os vitoriosos, coroas de flores para os vencidos.
Além delas, duas auspiciosas notícias fúnebres:
a pesquisite levou tremenda surra e, o marqueteirismo,
sova histórica. Bom para a política, bom para
a democracia, melhor ainda para o jornalismo.
Na
realidade, foi uma coça só: a devoção
desmedida às pesquisas e o culto exagerado ao marketing
político fazem parte do mesmo fenômeno, pontas
do mesmo processo. A carnavalização eleitoral
depaupera e deforma tanto o jogo político como a sua
cobertura jornalística.
Símbolo
da pesquisite, na realidade sua inventora, a Folha
de S.Paulo saiu visivelmente machucada do primeiro turno
do pleito paulista. O jornalão tanto usou as pesquisas
que chegou a criar uma empresa especializada, o Datafolha, da
qual é principal cliente. Sua veneração
pelas sondagens converteu aquilo que parecia ser mais um de
seus modismos sazonais numa de suas marcas.
Graças
a isso, a numerologia converteu-se em procedimento jornalístico
rotineiro, mesmo fora da temporada eleitoral. Exemplo clássico
do círculo vicioso – inventa-se uma pseudoverdade
que logo será levada à opinião pública
como sua autêntica manifestação. Auto-engano
exógeno.
Obrigação
divinatória?
Nos
últimos anos não foram poucos os casos em que
uma denúncia (em geral produzida por um grampo, vídeo
ou dossiê secreto) acionava imediatamente uma sondagem
de opinião que, antes mesmo de investigada e confirmada,
transformava-se numa condenação sumária.
A
pesquisite é a filha dileta da Era do Factóide
– muito visível ao longo dos anos 1990, injusto
atribuí-la apenas à Folha. Todos os jornalões
(inclusive o combalido Jornal do Brasil) tentaram clonar
o recurso criando empresas especializadas ou associando-se a
entidades acadêmicas. Um dia descobriram que sairia mais
barato e menos comprometedor divulgar o resultado do Datafolha
e dos demais institutos concorrentes. A Folha adorou,
transformada em monopólio da profecia. Agora veio o troco:
ficou isolada na berlinda já que o Ibope, o Vox Populi
ou o Sensus apenas produzem informações –
não são veículos.
Este
Observatório há anos chama a atenção
para os males do pesquisismo e da pesquisite
que acometem nossa mídia. A revista Veja finalmente despertou
para o assunto e na edição corrente (nº 1874,
de 8/10/04), com uma excelente investigação de
cinco páginas, colocou sob suspeita a enxurrada de referendos.
Fiada
na sua infalibilidade e na da sua subsidiária, a Folha
foi o único dos três jornalões nacionais
a antecipar em manchete na edição de domingo (3/10)
os resultados numéricos de um pleito que ainda não
se realizara:
*
Serra alcança 37%; Marta tem 34%
No
subtítulo, num esforço para garantir-se de eventuais
surpresas, a constatação de que havia um empate
técnico. Perdida no meio do texto da primeira página,
a preciosa informação sobre a margem de erro:
2 pontos. Folha e Datafolha ferraram-se sozinhas. Deu
Serra 43,5% e Marta 35,8% – nem sombra de empate.
O
concorrente O Estado de S.Paulo, desobrigado de defender
uma empresa associada, reproduziu os resultados do Datafolha
e comparou-os com os do Ibope:
*
Marta e Serra se alternam em primeiro lugar
No
subtítulo preveniu-se de algum tropeço dos institutos
e tirou o corpo fora: "Serra lidera uma das pesquisas e
Marta, a outra. Mas ambas apontam empate técnico".
Quem divulga erros também está errado.
O
Globo, atento ao Rio, seu mercado preferencial, comprometeu-se
menos e, ao invés de uma profecia categórica,
saiu-se com o óbvio ululante.
*
Disputa sobre 2º turno é voto a voto
Certamente
não perdeu um único leitor. E onde está
escrito que jornais responsáveis estão obrigados
a adivinhar os resultados de uma votação? Em
que manual ou código de jornalismo está determinado
que no dia da eleição a missão do jornal
é fingir-se de pitonisa e antecipar o que ainda não
aconteceu?
Religião
marqueteira
Além
dos riscos e escorregões inerentes à perigosa
roleta dos vaticínios, a antecipação de
prévias contém indiscutível carga indutora.
Indecisos em geral decidem pelo vencedor. E às vezes
os indecisos fazem a diferença.
Embora
os regulamentos eleitorais vigentes não proíbam
a divulgação de sondagens na véspera ou
no dia da eleição, a mídia mais responsável
deveria exercer um autocontrole e abster-se soberanamente deste
profetismo. Ganharia dose dupla de credibilidade – ao
recusar previsões sempre perigosas e ao abrir mão
de um direito que pode comprometer sua imparcialidade.
Veículos
isentos devem abster-se da tentação divinatória,
mesmo que no dia da eleição sejam obrigados a
produzir manchetes menos trepidantes e mais mornas.
Nas
edições do day after (segunda, 4/10),
enquanto o Estado apontava o erro das duas previsões
que veiculou, a Folha viu-se compelida a agarrar-se
às projeções da afilhada Datafolha. O Estado
ficou mais à vontade, a Folha menos. Erraram
ambos ao achar que sondagens de opinião são absolutamente
"científicas" e devem ser obrigatoriamente
publicadas no dia da eleição.
Assim
como o Datafolha transformou-se em show-room do profetismo mediático,
o publicitário Duda Mendonça foi convertido em
vitrine dos poderes mágicos do marketing político.
Há uma relação muito
nítida entre a devoção cega às sondagens
e a devoção cega aos truques de marketing.
O
primeiro grande feito de Duda Mendonça foi eleger o herdeiro
de Paulo Maluf, o desconhecido Celso Pitta, como prefeito de
São Paulo (1996). Em seguida, apesar de acusado de propaganda
enganosa, converteu-se numa espécie de parceiro dos deuses
quando emplacou Luiz Inácio Lula da Silva na presidência
da República depois de três derrotas sucessivas.
Políticos
sempre fizeram marketing político – para eles próprios.
É o que se chama faro e carisma. Modernamente passaram
a ser acompanhados por especialistas em imagem e comunicação,
mas o candidato e seu staff é que dão
a palavra final sobre as estratégias e linhas de ação.
São políticos e a eleição
é o momento máximo do processo político:
abdicar dele é a suprema traição.
Candidatos não podem ser manipulados como marionetes
sujeitos a scripts que variam de acordo com os resultados de
cada pesquisa. Em pleitos diretos e democráticos o papel
do marketing é complementar.
Não
foi por acaso que Paulo Maluf (cria da ditadura militar) tornou-se
apóstolo da religião marqueteira. Também
não é por acaso que a charmosa Marta Suplicy,
cliente de Duda Mendonça, perdeu o primeiro turno e seu
adversário José Serra – careca, com olheiras
e fama de antipático – teve um índice de
rejeição mínimo.
Menos
pesquisas e menos marketing, mais política e mais debate.
A imprensa e a democracia agradecem.
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