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Informação:
Observatório
da Imprensa - 08/02/2005
Luciano
Martins Costa (*)
Editores
da Abril esperam novos cortes para os próximos dias.
As mudanças realizadas há alguns meses no conglomerado,
envolvendo principalmente o grupo Exame, não produziram
os resultados esperados. Com exceção das publicações
femininas, ainda vivendo o efeito de uma estratégia acertada
diante da maior presença de mulheres no mercado de trabalho,
e da revista Veja, ainda a jóia da coroa, o cenário
se torna cada vez mais sombrio. Mesmo no grupo das femininas,
não há clareza entre alguns diretores do Grupo
Abril sobre como enfrentar a concorrência das pequenas
editoras que, à semelhança do que ocorre no mercado
de cosméticos, roubam clientes com títulos mais
baratos, alguns de curta duração.
A
Editora Globo sofre do mesmo mal, na proporção
de sua presença no mercado. Depois dos últimos
cortes, a redução de despesas na folha de salários
se dá agora de forma continuada, com a eliminação
de cargos e demissão de profissionais com salários
elevados ocupados em publicações cujos resultados
são considerados insatisfatórios. Não é
claro para muitos editores qual o critério adotado na
escolha de quem fica e quem sai, nem o tempo de tolerância
com eventuais períodos de queda de receita. Nos dois
grupos editoriais, a tendência tem sido reduzir o número
de profissionais contratados e utilizar o serviço de
free-lancers na medida das necessidades.
Essa
tática tem efeitos colaterais que reconduzem ao princípio
do problema: com menos jornalistas dedicados a pensar sobre
a publicação como um todo, a empresa perde a capacidade
de perscrutar o ambiente em que atua, o que acaba por reduzir
sua habilidade de oferecer ao leitor temas e abordagens interessantes.
Assim, uma revista de negócios, por exemplo, acaba na
rabeira das mídias em termos de relevância —
perdendo até mesmo para as empresas de educação
de executivos a primazia de antecipar tendências do mundo
empresarial e de gestão. Com pouco tempo, corre o risco
de ser vista como uma publicação antiquada, agravado
este risco pelo fato de que seu público, no topo da pirâmide
social, tem acesso às melhores publicações
internacionais do setor.
O
momento exige saídas inovadoras que poucas empresas de
comunicação no Brasil estão aptas a produzir.
Em primeiro lugar, porque há muitos anos não se
faz por aqui uma pesquisa em profundidade sobre as tendências
do público, especialmente no setor de revistas. Em segundo
lugar, porque a estrutura das empresas tradicionais de mídia
não se renova, ou seja, as pessoas apenas trocam de papéis,
mas não existe a formação de uma cultura
de gestão direcionada para lidar com grandes rupturas.
O trágico é que essa característica se
acentua exatamente quando o setor enfrenta um período
de grandes mudanças e desafios.
Para
agravar a situação, o desenvolvimento da tecnologia
da informação e dos equipamentos de impressão
de médio porte está permitindo o ingresso no jogo
de concorrentes pequenos, mas ágeis, que aprendem com
as empresas tradicionais e conseguem colocar nas ruas produtos
pouco amadurecidos mas agressivos o suficiente para beliscar
suas fatias da publicidade disponível. Enquanto uma empresa
como a Abril ou a Globo precisa de seis a dez meses para planejar
uma nova publicação ou para realizar uma mudança
aconselhada pela percepção de novas tendências
no mercado, uma pequena editora consegue lançar um novo
título em três meses, ou até menos, explorando
oportunidades que podem se prolongar ou durar pouco, e com isso
tirando o impacto dos lançamentos mais bem planejados
e, portanto, mais custosos.
É
certo que nem sempre o resultado é positivo, o que explica
o crescente número de publicações de vida
curta que se observa nas bancas. Mas, de qualquer modo, essa
concorrência de formiguinhas afeta diretamente os resultados
das grandes protagonistas do setor. As conseqüências
não seriam graves se as pequenas concorrentes, somadas,
conseguissem formar um bloco influente em crescimento e qualificação
do mercado, aumentando a oferta de empregos. Mas não
é isso que acontece, pois também as pequenas editoras
optam por trabalhar com profissionais autônomos.
Em
torno dessa dificuldade específica enfrentada pelas grandes
protagonistas desenvolve-se o desafio maior, representado pela
revolução nos negócios de comunicação,
iniciado pela Internet e que se fragmenta em múltiplas
frentes de batalha, como a questão da mobilidade, a possibilidade
da obsolescência precoce de marcas, as dificuldades crescentes
para a elaboração de cenários futuros e,
por conseqüência, a inconsistência das estratégias.
A
tática primária de redução de custos
restringe a capacidade das empresas de elaborar estratégias
consistentes. Os cortes lineares quase sempre afetam a capacidade
vital de uma empresa de comunicação, que é
a capacidade de manter seus produtos entre as primeiras necessidades
do público. Quando, para se manter interessante, a empresa
precisa reformar periodicamente seus produtos, ela gera novas
fontes de custo — pela necessidade de destinar esforços
a essas mudanças. Como ela espreme continuamente seus
recursos humanos com as tarefas operacionais, deixa menos tempo
para reflexões sobre o negócio em si, e precisa
contratar fontes externas de consultoria ou de informação.
Em conseqüência, vai perdendo a capacidade de desenvolver
conhecimento interno relevante.
E
o círculo vicioso se renova. Novos cortes, mais daquilo
que os donos da mídia chamam de "racionalização".
E menos inteligência para gerar qualidade.
(*)
Jornalista
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