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Comunique-se - 08/12/2004
Tarciso
Nascimento, de Brasília (*)
Durante muito tempo tive a impressão de que um dos telejornais
locais da TV Globo – o DF TV 1ª edição
– retratava o Distrito Federal de forma desigual. O telejornal
é transmitido para todo o DF e para alguns municípios
vizinhos, das 12h10 às 12h50, de segunda a sábado,
atingindo uma região onde residem mais de 2,5 milhões
de pessoas.
Pois
bem. Ali, as matérias sempre remetiam ao Plano Piloto,
região nobre da capital. As chamadas cidades satélites,
hoje consideradas regiões administrativas independentes,
quase não apareciam. Outras questões permeavam
meus pensamentos. Por exemplo: por que o DF TV mostrava tais
cidades de maneira negativa? Ou melhor: por que as reportagens,
em sua maioria, estavam relacionadas a assuntos como violência,
retirada de invasões ou falta de infra-estrutura nessas
localidades?
Nos
anos 1980 e início dos 1990, o DF TV era conhecido por
muitos jornalistas da cidade como o “GDF TV”, numa
referência à sigla que designa Governo do Distrito
Federal, tão nítida era a linha oficialista que
seguia. Nos últimos anos, porém, o DF TV começou
a adotar uma postura diferente. Produzindo um jornal mais voltado
para cobrar providências do governo em relação
às áreas de saúde, educação
e transportes. Segundo editores e produtores do telejornal,
a proposta do DF TV é ser um telejornal voltado para
a comunidade.
Procurei
ir além das meras “impressões”, fazendo
um estudo de caso para verificar, com critérios mais
rigorosos, se o DF TV realizava uma produção equânime
de matérias entre o Plano Piloto e as demais cidades.
Vale lembrar que muitas delas – como Taguatinga e Ceilândia
– têm população bastante superior
à daquele território que as pessoas de fora reconhecem
como Brasília: as asas Sul e Norte, o sofisticado Lago
Paranoá, o Setor Militar Urbano e, mais recentemente,
o “emergente” Sudoeste. Um dos objetivos era tentar
descobrir se as reportagens retratavam a “periferia”
de Brasília de forma positiva ou negativa.
Analisei
196 matérias veiculadas entre 07/09/2003 e 25/09/2003
e de 01/09/2004 a 20/09/2004, em um trabalho acadêmico
desenvolvido para o Centro Universitário de Brasília
(Ceub). Dessas 196 matérias, 154 foram produzidas nas
áreas nobres de Brasília (78,5%), 32 nas demais
cidades do Distrito Federal (16,3%), oito em outras localidades
(4%) e duas no chamado Entorno do DF (1,2%), região que
abrange municípios goianos e mineiros vizinhos ao DF.
Apenas
oito cidades foram objeto de matérias no DF TV nos dois
períodos estudados: Recanto das Emas, Samambaia, Taguatinga,
Ceilândia, Gama, Brazlândia, Paranoá e Guará.
Na Ceilândia, cidade mais populosa do Distrito Federal,
foram feitas apenas cinco matérias. Ali, moram mais de
400 mil habitantes. O chamado “Plano” corresponde
a menos de um terço da população do DF.
Outra
constatação importante para traçar os caminhos
da geografia editorial do DF TV 1ª Edição
veio logo a seguir: das 32 matérias produzidas nas oito
cidades, nada menos que 21 (dois terços) ressaltaram
aspectos negativos, como violência, retirada de invasões,
roubos e reclamações dos moradores. Evidentemente,
tais cidades não representam um universo marcado exclusivamente
pelas mazelas e pelo horror. Várias delas têm riquíssima
vida cultural, algumas constituem relevantes pólos econômicos,
e, no seu conjunto, elas reúnem o grande capital político
do DF – isto é, a grande maioria dos eleitores
do Distrito Federal.
As
respostas obtidas não mostram apenas que aquelas impressões
iniciais tinham base na realidade. Fazem pensar por que o telejornal
de uma emissora com o poder de fogo e o potencial técnico
da TV não é utilizado para, ao contrário,
investir contra a tradicional marginalização –
comum em outras partes do Brasil – da “periferia”
das áreas metropolitanas. Por que não incentivar
os moradores das cidades do DF a terem orgulho do lugar onde
vivem, lutando assim de modo mais digno por melhorias para a
região?
O
fato torna-se mais significativo quando se leva em conta que
o DF TV é, muitas vezes, o principal canal de reivindicações
de tais comunidades. O cientista político Venício
Arthur de Lima, no livro Mídia e Teoria Política,
pôs o dedo na ferida ao argumentar que:
“(...) ao se colocar como canal prioritário para
as demandas que esses setores da população fazem
ao governo/Estado, na verdade o DF TV contribui para que esses
segmentos não se organizem para encontrar a solução
de seus problemas mediante o exercício pleno de cidadania.
Vale dizer, o DF TV não contribui para a solução
dos problemas apontados, mas para a sua perpetuação.
É mais fácil reclamar ao repórter da Globo
e ter a recompensa simbólica de “aparecer na TV”
do que participar de reuniões na comunidade, filiar-se
a um sindicato ou exercer militância num partido político”.
A
justificativa apontada por alguns editores do DF TV é
que o telejornal sofre com a questão do deadline, com
a falta de equipe e que só retrata o que acontece, seja
bom ou ruim. Minimizam eles o poder que o jornalista tem para
decidir o que pode virar notícia. Esquecem que nós,
jornalistas, não somos simples observadores passivos,
mas participantes ativos no processo de construção
da realidade.
(*)
Da Oficina
da Palavra
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