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Informação:
Observatório
da Imprensa - 08/02/2005
Alberto
Dines
Tríduo
momesco era o nome engravatado, pernóstico. Tornou-se
impróprio – os três dias esticaram-se para
quatro, cinco ou até sete. Além disso, ninguém
sabe pronunciar direito, nem o que significa. Momo caiu em desuso
e folia virou sinônimo de viagens ao exterior ou monumentais
engarrafamentos de trânsito.
Carnaval
tinha máscaras, fantasias, confete, malícia. Um
par de coxas entrevistas debaixo das saias rodadas provocava
delírios. Hoje, com tanta bunda e peitos em oferta, foi-se
embora a sensualidade, perdeu a graça. A escala torna
tudo muito chato. O lança-perfume tinha algo de misterioso,
um jatinho nas costas da(o) pretendida(o) insinuava muita coisa;
foi trocado pela mensagem direta do crack, do ecstasy e da coca.
O
que é um bloco, um rancho, um desfile de carros alegóricos
com críticas aos poderosos? Os enredos das escolas de
samba são todos comprados, quase sempre por poderosos
interesses políticos, e os camarotes compartilhados por
poderosos interesses econômicos. Um
dos mais belos folguedos populares do mundo foi transformado
no show-room da contravenção e da corrupção.
Falta apenas a adesão de alguma seita neo-evangélica
para transformar-se no retrato da impunidade.
Na
Bahia, no Recife, em alguns recantos do Nordeste e do Rio, o
Carnaval ainda tem algo de autêntico. Conservou um pouco
da alegria original, a gozação, a musicalidade,
a animação, expansividade, brejeirice. O que rola
nos sambódromos – a genial invenção
do antropólogo Darcy Ribeiro para glorificar a enganação
– de popular tem pouco.
A
idéia da apoteose no desfile das escolas de samba agravou
a encarniçada disputa pelos prêmios e liquidou
a socialização da alegria, da espontaneidade e
criatividade. A manchete do Globo no domingo, 6/2 ("Relatório
da Liga mostra contradições de jurados –
justificativas de votos revelam falhas no julgamento das escolas
em 2004"), expõe cruamente a metamorfose da antiga
malandragem artesanal em trambicagem industrial.
A
mídia é o espelho da descarnavalização
do carnaval.
É a causa e efeito. A eletrônica
injetou-lhe doses maciças de showbiz com apenas alguns
dos seus atributos, mas todos os seus efeitos perversos —
o close-up, o branqueamento, o vedetismo, a comercialização
e o fim do espírito satírico.
Terrível
sucedâneo
A
transformação dos semanários em publicações
de auto-ajuda acabou com uma fascinante disputa federal entre
O Cruzeiro e Manchete para mostrar quem cobria mais bailes,
quem descobria as mais deslumbrantes desconhecidas e os foliões
mascarados. Vendiam-se centenas de milhares de exemplares, em
edições normais e especiais. Com apenas um Carnaval
devidamente colorido as empresas saíam do vermelho e
voltavam ao azul.
O
fenômeno mais interessante é o desaparecimento
nas redações dos catedráticos do samba
e das tradições populares. Cada redação
tinha os seus (espalhados nas diversas editorias, mas convocados
a partir de janeiro para a missão especial). Nem todos
boêmios, a maioria engravatada, mas capazes de cantar
as marchinhas de 20 anos atrás, citar enredos, nomear
os mais famosos mestres-salas e garbosas porta-bandeiras.
Esses
carnavalescos eram os escudeiros das tradições,
memória e pauta. Jornal e Carnaval
andavam juntos e todos ganhavam, sobretudo os leitores.
Ficou tudo reduzido à questão da escala e dos
plantões, quem trabalha e quem folga, quem cobre os camarotes
e quem faz a corrida dos hospitais ou estradas.
A
tal marcha do tempo e o irresistível impulso do progresso
criaram um terrível sucedâneo da folia: indiferença.
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