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26/07/2004
Gilberto Dupas (*)
Deve-nos
causar muita preocupação – enquanto cidadãos
responsáveis e educadores – toda vez que uma pesquisa
nos recorda a quantidade de tempo que nossos contemporâneos
dedicam à TV. Basta assistir, entre enxurradas de propaganda,
a uma tarde de domingo ou um horário “nobre”
em nossos canais, incluindo os pagos. O fato é que, embora
a televisão seja uma concessão pública
e um instrumento vital para o debate de valores e definição
de condutas, ela se transformou em todo mundo num puro negócio.
A
crise da TV Cultura de São Paulo, o último canal
brasileiro a tentar oferecer conteúdo criativo, é
um bom exemplo de como a sociedade civil e as autoridades públicas
abandonaram suas responsabilidades e “lavaram suas mãos”.
Infelizmente, esse fenômeno
se insere na nova lógica global. São centenas
de milhões de cidadãos, por todo o mundo, vendo
imagens que foram cuidadosamente construídas para atender
a objetivos privados das emissoras e de seus anunciantes: elevar
índices de audiência e o faturamento dos seus anúncios.
A Inglaterra era o exemplo de uma rede pública de alto
padrão. Lá se gastam 25 horas em média
por semana vendo TV, número semelhante ao de muitos países,
inclusive o Brasil. Por aqui, as novelas são líderes
de audiência e a inserção de propaganda
dentro do enredo condiciona comportamentos e perfis dos seus
personagens, transformando- os em vendedores subliminares de
refrigerante e sabonete. Diz Jay Blumler que “o processo
moderno de publicidade tem a força quase irresistível
de um ímã que obriga os que penetram em seu campo
a adequar-se à sua atração”, moldando
não só a política partidária, como
a maneira como todos pensam e vivem.
Para Colin Leys, professor da
Queen’s University (Canadá) e autor de Market-
driven politics – já traduzido no Brasil –,
a BBC fornecia gratuitamente noticiários abrangentes,
Competentes e imparciais e vários gêneros de programas
de alta qualidade; como reciprocidade desse bom uso da concessão
pública, o Tesouro lhe repassava uma pequena taxa de
licenciamento paga por todos os proprietários de televisores.
Com Margaret Thatcher esse processo chegou ao fim; a televisão
também foi considerada “área industrial
da qual se pode extrair lucros num longo período”.
A Independent Broadcasting Authority ainda tentou regular o
volume de anúncios que podiam ser exibidos por hora e
por dia e tentava garantir que os anunciantes não tivessem
excessiva influência sobre o conteúdo da programação,
trabalho facilitado por um ethos de serviço público
fortemente internalizado durante anos pelos profissionais do
setor, em sua maioria treinados na antiga BBC.
Mas os dias gloriosos da televisão
britânica, enquanto fórum fundamental para as “conversas
formadoras” da sociedade britânica, acabaram. A
BBC foi forçada a terceirizar e perdeu um terço
de sua equipe. Enquanto a remuneração das grandes
“estrelas”, apresentadores e animadores de auditório
subia de forma radical, os demais salários caíram
violentamente. Leys lembra que uma comissão criada por
Thatcher e liderada por Alan Peacock, famoso economista neoliberal,
concluiu em 1986 que “a rádio e TV britânica
deveria encaminhar-se para um sistema sofisticado de mercado
com base na soberania do consumidor” – em bom português,
soberania do anunciante e da empresa proprietária da
concessão.
A digitalização
dos sistemas fez o resto do estrago, pois exigiu enormes investimentos
que só o setor privado estava pronto a fazer. A BBC passou
a ter de se dedicar crescentemente a esportes, filmes e até
soft-porn, para competir com as empresas privadas. O surgimento
de empresas de comunicação gigantescas liquidou
de vez com a cultura e o debate de opinião nesse setor.
Aracionalização é de que o proprietário
de um canal de TV sempre estará disposto a oferecer o
que o telespectador quer e, portanto, garantirá a livre
escolha e a democracia. Lembrome da RAI italiana e sua bela
programação pública antes do flagelo da
era Berlusconi. Uma mesa-redonda semanal escolhia temas de relevância
social para diálogo aberto de alto nível com uma
hora e meia de duração no horário nobre,
sem interrupções. Assisti ao debate sobre a suspeita
de contaminação por hormônio de uma marca
famosa de “papinha” de nenê, envolvendo todos
os interessados com liberdade e equilíbrio: a mãe
de uma criança supostamente atingida, um cientista e
um pediatra importantes, o fabricante da “papinha”,
um promotor público, um pecuarista, um filósofo
especialista em ética e um competentíssimo mediador.
Tudo isso acabou.
Na Inglaterra os seriados já
são dois terços do que se oferece no horário
nobre – com predomínio de temas de detetives e
séries policiais – e o tempo para novelas se multiplicou
por cinco em duas décadas. A preferência passou
para temas “reconfortantes” ou finais “felizes”.
Os neoliberais defendem-se dizendo que foi a opinião
pública que mudou. E que a TV só fez acompanhá-la,
em sintonia com o “novo” consumidor, que agora preferiria
negócios à política e programas de auditório
a Shakespeare. Afinal, como diz Leys, “a idéia
de um projeto coletivo para mudar a sociedade foi declarada
desnecessária; portanto, por que alguém assistiria
a programas políticos?” É claro que os próprios
políticos também ajudaram, travestindo- se em
marionetes pautadas por seus marqueteiros. A agenda humanista
desapareceu. Um produtor inglês lembra que antes “havia
a suposição de que estávamos do lado dos
pobres, dos inferiorizados e dos sem-voz (...). Hoje há
a sensação de que os telespectadores não
estão interessados (...) em gente pobre, em fracassos”.
Prevalece apenas a tirania do “ibope”.
Em suma, a prestação
de serviços ao público virou paternalismo antiquado
e fornecer qualidade a quem paga impostos está fora de
moda. Rupert Murdoch, um dos reis da TV mundial, matou a charada:
chega de dar ao público o que ele deveria ver; “interesse
público é oferecer ao público o que lhe
interessa”. As forças de mercado não querem
uma televisão prestadora de serviços, querem-na
como lanchonetes de fast-food. Na TV industrializada os espectadores
são ensinados a aceitar um produto barato e padronizado,
sem nenhuma escolha, a não ser entre qualidades ruins.
Basta andar pelo mundo, ligar as TVs e observar os programas.
À exceção do idioma, são todos praticamente
iguais, assim como o são hoje os hotéis e os aeroportos.
A grande corporação privada e o lucro venceram
o espaço público. A idéia da televisão
como meio de comunicação e debate da esfera pública,
fórum para as “principais conversas formadoras
da sociedade”, parece coisa do passado.
Mas o grande problema é
que, para sobreviver, a verdadeira democracia continua precisando
desse espaço mais do que nunca.
(*) Coordenador-geral
do Grupo de Conjuntura Internacional da USP, presidente do Instituto
de Estudos Econômicos e Internacionais e autor, entre
vários livros, de "Tensões Contemporâneas
entre o Público e o Privado" (Paz e Terra).
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