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Informação:
Observatório
da Imprensa - 23/11/2004
Alberto
Dines
Todo
mundo sabia que o Banco Santos ia quebrar, inclusive a mídia.
Mas a mídia não podia avisar os correntistas do
banco nem os aplicadores dos seus fundos sobre o perigo que
corriam seus depósitos e aplicações. Se
o fizesse, a mídia seria enquadrada como responsável
pela corrida aos guichês.
Em
1995, quando o governo interveio no Banco Econômico, o
então presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães,
junto com uma roliça tropa de acólitos, atravessou
a trote a Praça dos Três Poderes para defender
a instituição financeira – da qual, aliás,
era acionista.
Naquela
picaresca circunstância, a mídia reproduziu, sem
qualquer titubeio ou discrição, em letra de forma,
ao vivo e em cores, a advertência de ACM: "Quem vai
quebrar é o Bamerindus e, depois, o Nacional!".
Quebraram, e nesta ordem. ACM era o manda-chuva, pintava e bordava
na República. Ninguém ousaria processá-lo.
Nove
anos depois, o sucessor de ACM na presidência do Senado,
José Sarney, amigo e compadre do controlador do Banco
Santos, Edemar Cid Ferreira, foi avisado de que o banco ia quebrar.
Como é mais sabido do que o colega baiano, não
botou a boca no trombone e, na moita, tirou o seu rico dinheirinho
vinte e quatro horas antes da intervenção do Banco
Central.
Com
o seu garantido, o senador esqueceu a infração
cometida (aproveitar-se de informação privilegiada),
mas precaveu-se para não incorrer em outra: nenhum sinal
poderia dar, sob pena de ser acusado de concorrer para uma quebradeira
do sistema financeiro.
Sarney
escreve em dois jornais, é dono de um conglomerado de
mídia no Maranhão e tem as portas abertas em todos
os grandes grupos jornalísticos nacionais. Esqueceu a
comunicação e ficou incomunicável. Só
abriu o bico para explicar, depois de flagrado, que, "como
todo mundo, soubera da boataria" envolvendo o banco do
amigo. "Todo mundo" significa o seu mundo, não
o dos correntistas.
Edemar
e a imprensa
Esta
não é a única confluência entre o
fechamento do Banco Santos e a mídia. Há outras
mais expressivas. A respeito do currículo do banqueiro
Edemar Cid Ferreira, gastaram-se algumas toneladas de papel
nos últimos dias. De repente, os pobres leitores de jornais
e revistas descobriram que a imprensa sabia tudo sobre o nababo,
suas manobras e, simultaneamente, descobriram que estas informações
lhes foram sonegadas.
A
mídia exibiu alguns "percalços" anteriores,
mas enrustiu as mutretas. O crime organizado usa pé-de-cabra,
gazua ou dinamite para arrombar cofres; o crime desorganizado
é refinado: usa charme e chamego.
Um
dos mais precisos perfis do banqueiro Ferreira foi publicado
no domingo (21/11), em um cantinho perdido do caderno de Economia
da Folha de S. Paulo (página B-4). Em 59 linhas desvendou-se
o cruzamento entre os romances de amor Roseana Sarney-Jorge
Murad e Edemar-Márcia Cid Ferreira e, devidamente aspeadas,
duas extraordinárias revelações do banqueiro
sobre si mesmo:
**
"Sou a reencarnação do Chatô".
**
"A cultura é um abre-alas. A gente vem atrás
fazendo negócios".
Eis
o auto-retrato e de corpo inteiro do mais ostensivo mecenas
das artes e cultura brasileiras neste início do século.
Comissário da Mostra do Redescobrimento, nosso homem
em Pequim, competente em todos os sentidos. A grande exposição
do Ibirapuera foi o ponto alto das comemorações
dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, e a proeza de transformar
aquele pequeno banco em depositário de contas de gente
e instituições tão importantes atesta seus
talentos.
No
rol destas aptidões não pode ser ignorada a capacidade
de Edemar Cid Ferreira de acercar-se dos barões ou baronetes
da mídia. Exemplo: na "Associação
Brasil 500 anos Artes Visuais" (da qual era presidente
tanto do Conselho de Administração como da Diretoria),
havia um inédito Conselho de Imprensa, constituído
pelas figuras de proa dos oito mais poderosos ou mais visíveis
grupos de mídia do país.
Faz
sentido: uma exposição deste porte e com esta
qualidade, destinada a bater recordes de visitação,
forçosamente teria que contar com o indispensável
suporte midiático. A grande façanha, obra-prima
de engenharia psicológica, foi superar as idiossincrasias,
convencer os maiorais a participar de um mesmo comitê,
sentarem-se à mesma mesa, compartilhar decisões
e admitirem ser apresentados publicamente em ordem alfabética
(a primazia coube ao representante da empresa de menor porte).
Encerradas
as atividades da Associação que geriu a mostra,
tudo faz crer que as vinculações não desapareceram.
Aparentemente, persiste algum entendimento de Edemar Cid Ferreira
com a imprensa, apesar dos sobressaltos. O sucessor do Chatô
tinha uma noção muito clara da sua estratégia:
"A
cultura é um abre-alas. A gente vem atrás fazendo
negócios".
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