| Informação:
Observatório
da Imprensa - 29/03/2005
Luiz
Gonzaga Motta (*)
A
comunicação social é um campo fértil
para observar os enfrentamentos políticos que se processam
incessantemente entre os diversos atores que compõem
a sociedade brasileira. O caráter público da comunicação
social mostra quem está representado, quem está
excluído, qual a correlação de forças,
como certos grupos consolidam seu poder e outros são
sistematicamente excluídos da arena política pública.
A
compreensão do jogo político que se processa continuamente
na mídia não é fácil, entretanto.
Há uma pluralidade de vozes e uma infinidade de interesses
representados. Os atores variam desde os proprietários
dos meios, os profissionais (jornalistas, produtores culturais
etc.), o governo nos seus diversos níveis, os partidos
políticos e seus representantes, os anunciantes e os
grupos hegemônicos (banqueiros, industriais, organizações
patronais etc.), cada um deles se relacionando com os outros
através de diferentes graus de tensões.
A
mídia é, por excelência, um lugar de mediação
política e social, um espaço de encontros e desencontros,
de alianças e composições. Pode revelar-se
palco de negociações contraditórias entre
forças antagônicas provisoriamente aliadas ou de
embate de forças opostas em enfretamento aberto. Basta
ler os jornais e revistas ou escutar ao noticiário das
emissoras para observar essa contraditória convivência.
Essa
diversidade não significa pluralidade, tampouco. Os vínculos
comerciais e político-institucionais da mídia
refletem o centralismo, a concentração da sociedade
brasileira e a exclusão sistemática dos segmentos
sociais desfavorecidos. A mídia é um produtor
histórico de difusão mercantil dos produtos simbólicos
cujos processos de produção e consumo estão
marcados pela divisão estrutural da sociedade.
Enfrentamento
constante
Apesar
do desequilíbrio, a mídia não pode representar
exclusivamente os interesses dominantes. Ela precisa legitimar-se
como lugar de mediação e de circulação
pública de conteúdos e precisa fazer constantemente
concessões de ordem política. É justamente
essa contradição que torna a mídia um campo
de observação rica e fértil.
Nosso
país segue a tendência mundial de concentração
cruzada e de fusão da mídia: os proprietários
de jornal também possuem emissoras de rádio, televisão
e sites de internet. Em julho de 2002, a Net-Sky detinha 61%
da televisão paga no país. E assim por diante.
Além
disso, 45% dos proprietários de rádio são
políticos, o que revela seu poder de barganha. Por exemplo,
para conseguir cinco anos de mandato, o ex-presidente José
Sarney concedeu 632 emissoras de rádio FM e 314 AM a
políticos (70% da freqüência foi ocupada).
Das 420 emissoras de TV existentes no país em 2002, 94
pertenciam a políticos. Dos vinte e sete governadores
eleitos, 12 possuíam concessão de televisão.
A
identificação dos dez maiores anunciantes de jornais
em 2002 ajuda a revelar a proximidade entre a mídia e
os negócios. O primeiro é Casa e Vídeo
(92 milhões de reais); os seguintes, pela ordem: Inpar
(91 milhões de reais); General Motors (86 milhões
de reais); Pão de Açúcar (82 milhões
de reais); Fiat (82 milhões de reais); Gafisa (77 milhões
de reais); Kalunga (66 milhões de reais); Ponto Frio
(60 milhões de reais); Ford (53 milhões de reais);
Casa Bahia (51 milhões de reais).
Apesar
dos expressivos números, estabelecer uma correspondência
imediata e direta entre mídia e poder político
simplifica a questão, esconde as contradições,
mascara as tensões e os conflitos. Há na mídia
um constante enfrentamento entre os diversos segmentos da sociedade.
Ainda que errática ou fugaz, é na mídia
que os segmentos excluídos se expressam hoje as suas
posições contra-hegemônicas.
Dado
de realidade
Em
grande medida os meios de comunicação expressam
a cultura hegemônica de mercado, impregnam os imaginários
e o conjunto da sociedade do modo de vida consumerista. Criam
o conformismo, reduzem freqüentemente a capacidade crítica
da sociedade.
Mas,
a mídia não é monolítica, precisa
ceder para legitimar-se como um espaço público.
Dependendo das circunstâncias, ela revela mais ou menos
acentuadamente as posições antagônicas,
os questionamentos sociais, os modos alternativos. As forças
contra-hegemônicas percebem as brechas, fazem articulações,
organizam-se para a mídia, conseguem ocupar espaços
e expressar-se dependendo das conjunturas.
Recentemente
as "Margaridas", mulheres de trabalhadores sem-terra,
fizeram uma marcha marqueteira em Brasília. Apesar de
mulheres e excluídas, conseguiram ocupar as primeiras
páginas, espaços de todos os telejornais e expressar
suas reivindicações. A mídia não
é, nem pode ser, um aliado automático do poder
ou do mercado. Ela é ambivalente, não é
nem poderia ser insensível ao jogo político, precisa
fazer alianças e concessões.
Contraditoriamente,
a mídia precisa abrir espaços e legitimar-se como
lugar de fala universal. Precisa manter-se publicamente como
guardiã das liberdades. Reivindica para si uma autonomia
frente aos conflitos e não poucas vezes coloca-se na
posição anti-hegemônica.
Há
inúmeros exemplos em nossa história recente. Na
medida em que a democracia brasileira avança, a mídia
se vê obrigada a fazer maiores concessões. Historicamente,
não poderia ser de outra forma. Até porque é
na mídia que os grupos antagônicos se enfrentam
hoje.
A
midiapolítica ou a telepolítica é hoje
um dado de realidade e todos os segmentos sociais já
perceberam isso. É na mídia que se realiza o jogo
político do poder. Não há um só
sindicato, partido, organização não-governamental
ou movimento social que não tenha percebido isso e se
organizado para a mídia. Todos eles têm assessorias
de comunicação profissionalizada, sites bem produzidos,
estratégias de marketing etc. – com resultados
surpreendentes.
Nova
geografia
Mal
ou bem, todos lutam pela inclusão midiática. Existir
politicamente é ganhar visibilidade na mídia.
Ignorar isso é desconhecer a moderna disputa política.
Todos os segmentos da sociedade se organizaram para "publicizar"
suas posições – e isso é hoje tão
ou mais importante quanto ter representação nos
parlamentos.
É
na mídia que se definem a atualidade e a agenda pública
e as prioridades políticas. Que se conquista visibilidade,
se legitimam os papéis e as autoridades "técnicas"
e políticas; que se fiscaliza o poder e se exerce a crítica;
que se canalizam as demandas e se realizam as campanhas; que
se estabelecem os gostos e as preferências; que se desenvolve
a vida.
Mal
ou bem, todas as forças sociais se organizam para sensibilizar
a mídia. É exemplar o esforço recente da
Agência de Notícias dos Direitos da Infância
(ANDI), que criou a figura do "Jornalista amigo da criança"
e reverteu a pauta da mídia sobre os meninos de rua.
O trabalho performático da organização
ambientalista Greenpeace é outro exemplo de abertura
de espaço nas primeiras páginas e tempo no horário
nobre. Sem contar o merchandising social que várias entidades
têm conseguido emplacar nas novelas das oito. Segundo
a TV Globo, foram 132 mil inserções comerciais
na sua programação em 2002 – correspondendo
a um valor comercial total de 147 milhões de reais
Isso
quer dizer que a mídia brasileira é democrática?
Não, ela continua jogando no time vencedor. Mas, há
demonstrações de que é possível,
mesmo para grupos contra-hegemônicos, abrir e conquistar
espaços nos meios de comunicação, apesar
da luta ser dura. Com estratégias inteligentes, bem definidas
e eficácia, é possível criar e ocupar espaços.
A mídia é um campo de conflito de interesses e
de enfrentamentos, não é um espaço monolítico.
Há
uma nova geografia política em curso, desterritorializando
os espaços políticos tradicionais como os partidos
e o Parlamento. A referencialidade política é
cada vez mais midiática.
(*)
Jornalista, professor da UnB e coordenador do NEMP (Núcleo
de Estudos de Mídia e Política).
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