| Informação:
AESP -
Associação de Emissoras de Rádio e Televisão
do Estado de São Paulo - 07/11/2004
Folha
de São Paulo Mais - Multimídia
Especialista
em tecnologia e mídias digitais defende importância
de roteiros específicos para produtos que vão
de sites a instalações artísticas interativas
Juliana
Monachesi
free-lance para a Folha
Sistema
audiovisual integrador de vários meios de comunicação,
com ênfase na interatividade, a hipermídia é
considerada um novo paradigma de comunicação pelo
professor e pesquisador do Centro Universitário Senac
e da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP)
Vicente Gosciola. "É o conjunto de meios que permite
acesso simultâneo a textos, imagens e sons de modo interativo
e não-linear, possibilitando fazer links entre elementos
de mídia, controlar a própria navegação
e, até, extrair textos, imagens e sons cuja seqüência
constituirá uma versão pessoal desenvolvida pelo
usuário", escreve em "Roteiro para Novas Mídias
- Do Game à TV Interativa" (ed. Senac, 272 págs.,
R$ 52), em que estuda a linguagem da hipermídia e propõe
roteirizações específicas para o campo
das novas tecnologias. Gosciola falou sobre seu livro recém-lançado
em entrevista ao Mais!, por e-mail.
Que
efeitos da contaminação tecnológica e de
linguagem oriunda da disseminação das mídias
digitais já podem ser observados na TV e na mídia
impressa? ´
Para
explicar a atual revisão de paradigmas nos meios de comunicação,
vale utilizar, como alegoria, a peça de Gil Vicente "O
Velho da Horta". O dono da horta se apaixona por uma bela
jovem compradora, que o ironiza, respondendo às súplicas
do pretendente: "Falai de outra maneira!". Transpondo
resumidamente para quase 500 anos depois, a TV e a imprensa,
mais velhas que o velho da horta, se encantaram com a possibilidade
de absorver um novo meio e o seu crescente público. A
TV e a imprensa se dispõem a dialogar com a tecnologia
digital, mas se preocupam pouco em desenvolver uma linguagem
própria, porque não é de sua natureza rever
profundamente sua linguagem.
É
certo que há contaminações diretas entre
os meios tradicionais e novos, às vezes até em
espiral. Por exemplo: o painel do aparelho de TV evoluiu e foi
copiado para a interface de muitos sites da web, que, por sua
vez, evoluiu e foi copiada para o painel do televisor e para
a interface de programas de TV, sejam eles interativos ou não.
Mas a finalidade do meio é o seu público, que
mudou e quer se relacionar com "tudo ao mesmo tempo agora"
de modo dialógico. E o roteiro tem duas preocupações:
organização de conteúdos e o público.
O
sr. adota a acepção dada pelo teórico russo
Lev Manovich à expressão "novas mídias",
ou seja, apenas aquelas mídias que envolvem tecnologia
digital. Hipermídia vem, logo no início do livro,
definida como o meio e a linguagem das novas mídias.
Qual a especificidade dessa linguagem?
A
partir da década de 1980, os teóricos que produziam
reflexão sobre as obras -de arte, de entretenimento e
de divulgação jornalística e científico-acadêmica-
que utilizavam os processos de comunicação integrados
por sistemas digitais informatizados passaram a chamar esses
meios de novos meios de comunicação, as "novas
mídias". Pertencem a esse novo campo da comunicação
a internet, os jogos de computador, o cinema interativo, o vídeo
interativo, a TV interativa, as instalações informatizadas
interativas, os sistemas de comunicação multifuncionais,
entre outros, e todos eles nas suas mais variadas interfaces.
Assim como o cinema possui uma linguagem própria e já
consolidada, as novas mídias possuem uma linguagem, mas
que está em pleno processo de construção;
essa linguagem é chamada de hipermídia. Também
podemos fazer a mesma analogia com a prática de roteirização:
em cinema já existe um conjunto de estilos e operacionalidades
bem definido, enquanto em hipermídia vemos um campo novo
e repleto de possibilidades a ser explorado.
A
especificidade da hipermídia é constituída
pela complexidade de conteúdos e de ligações
entre eles e pelos percursos que o utilizador faz na obra hipermidiática.
Como em muitos meios de comunicação, a hipermídia
depende do uso que se faz dela, ela é um resultado da
participação de seu público, porque nem
todos os seus conteúdos serão conhecidos por cada
indivíduo.
Estudos
recentes encaram o formato convencional de exibição
cinematográfica simplesmente como a forma padrão,
uma entre outras, que veio a se tornar hegemônica na história
do audiovisual; que possibilidades diversas as novas mídias
oferecem de fruição de produtos audiovisuais?
O
cinema interativo já foi apresentado ao público,
mas em situações muito raras porque a opção
por uma ramificação narrativa era decidida pela
média da preferência da platéia. Entre os
EUA e o Japão, em 1995, foram instaladas 25 salas da
Interfilm, com 80 poltronas, cada uma com um conjunto de botões
e "joystick" para controlar a história durante
os 20 minutos de duração das obras, bastante criticadas
pela ausência de enredo. O game é de natureza não-linear.
De vídeo interativo há vários exemplos
em DVD, em exposição de arte interativa, em programação
de TV etc.
Roteirizar
significa prever toda e qualquer interação entre
obra e usuário? Isso implicaria em dizer que a interatividade
não possibilita que aconteça nada de "novo";
que tudo deve estar previamente programado? Uma hipermídia
de tamanho médio, com algo em torno de mil telas, traz
muita dificuldade ao roteirista em prever interação
entre a obra e o utilizador, ou quais telas e em que ordem o
utilizador seguirá. O roteiro tem o papel de definir
os possíveis caminhos pelos quais o utilizador poderá
circular. No livro lanço a possibilidade de um modelo
fundamentado no princípio da incerteza da física
quântica, em que, por mais que o roteirista tente manter
o controle dos caminhos traçados pelo utilizador, é
impossível saber quando ele passará por um determinado
conteúdo.
Qual
a diferença entre roteiro para hipermídia e design
de interfaces? Ao roteirista de hipermídia cabe, em linhas
gerais, desenvolver as narrativas e as relações
entre elas, sempre preocupado com o que o seu público
experimentará com a obra. Ao designer de interface e
ao autor de hipermídia cabe, principalmente, definir
a arquitetura de informação e o layout das telas.
O sr. poderia comentar este aparente paradoxo dos produtos hipermidiáticos,
apontado por Bolter e Grusin no livro "Remediation":
ao mesmo tempo em que se constituem com pesada mediação,
buscam apagar-se como mídia?
Todos
nós compreendemos que a hipermídia cresce e amplia,
de modo espantoso, a sua capacidade de conteúdos. Para
o utilizador da hipermídia, é necessário
tempo para que os conteúdos se reorganizem em sua mente
ou até mesmo sejam apagados da memória para dar
lugar a outros conteúdos. Mas o roteiro pode trabalhar
a partir de um fato ainda mais intrigante em hipermídia
e ainda pouco explorado nas mais diversas realizações:
como dois conteúdos apresentados simultaneamente em uma
única tela são organizados pelo usuário
e como se comportam em sua mente? No cinema já houve
alguns cineastas, como Eisenstein, que se preocuparam com o
que aconteceria com a percepção do espectador
depois de ver duas imagens distintas. A hipermídia pode
aprender muito com o cinema. Em hipermídia, muitas vezes
vários conteúdos aparecem na tela ao mesmo tempo.
Mas o que acontece com a interpretação do usuário
quanto à comunicação de conteúdos
e à narrativa, quando uma tela apresenta simultaneamente
dois ou mais conteúdos, é o grande desafio do
trabalho de roteirização de hipermídia.
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