| Informação:
Observatório
da Imprensa - 03/05/2005
Renato
Delmanto (*)
A
mídia festejou como um grande acontecimento a primeira
entrevista coletiva do presidente Lula em 28 meses de governo.
Pudera: desde janeiro de 2003 os coleguinhas de Brasília
esperavam a chance de um tête-à-tête com
o presidente. Durante quase uma hora e meia, Lula respondeu
a todas as perguntas, tocando em temas polêmicos que garantiram
as manchetes dos principais portais de notícias na internet
da sexta-feira (29/4), e das edições do dia seguinte
de quase todos os jornais do país.
Ao
final do encontro com a imprensa, o porta-voz André Singer
não conseguia esconder a satisfação em
ter finalmente conseguido que o presidente concordasse em participar
do encontro com a mídia. Se os profissionais da imprensa
gostaram tanto assim da experiência é outra história,
e não vem ao caso – pelo menos neste artigo, não.
Os
jornais do sábado reservaram várias páginas
à cobertura do evento inédito e de seus bastidores.
Uma leitura atenta permitiu saber que o jejum do presidente
com os jornalistas durou exatos 849 dias; que nesse tempo ele
fez 639 pronunciamentos (quase todos de improviso); também
que, durante a entrevista, falou 9.346 palavras, citou o Brasil
65 vezes e o seu governo, 220 vezes; e que seu colega americano,
George W. Bush, já concedeu 21 entrevistas coletivas
desde que assumiu a Casa Branca (nas quais escolhe os jornalistas
que poderão fazer perguntas). Enfim, muitos foram os
números pinçados da primeira coletiva de Lula.
Muitos foram ainda os comentários sobre o conteúdo
do que foi dito.
Mas
a coletiva chamou a atenção por outros motivos.
Não apenas pela rigidez da forma, que não permitiu
o direito de réplica aos jornalistas, ou pelo prévio
acerto, com a assessoria do Planalto, dos temas a serem tratados
nas perguntas.
Curioso
foi como foram selecionados os 14 jornalistas que participaram
da entrevista. Nove deles representavam veículos que
acompanham diariamente a agenda do presidente, mesmo que não
tenham sido os próprios setoristas que ocuparam o microfone
– como ficou claro na presença de Augusto Nunes,
do Jornal do Brasil (os outros eram do Correio Braziliense,
Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo, Rede Bandeirantes,
Rede Globo, Rede Record e Valor Econômico).
Os
demais 5 jornalistas foram sorteados entre representantes das
"outras mídias", a saber: rádio, jornal
regional, TV, revista e agência internacional. (Neste
bloco, figuraram Rádio Gaúcha, O Dia, Rede TV,
Época e Agência Lusa.)
E
a internet? Simplesmente ficou de fora.
Tendência
clara
A
internet é a mídia que melhor permite ao leitor
buscar informações sobre os assuntos do interesse
dele; é o meio que melhor permite a convergência
de outras mídias – textos, imagens, áudios,
vídeos, animações, infográficos
etc. É também a única maneira de acessar
o que foi dito pelo presidente, no momento em que o leitor quiser,
e sem o viés das edições dos telejornais
ou dos veículos impressos. Na web, o internauta pode
ler ou assistir à íntegra da entrevista –
e repetir isso quantas vezes desejar. É bom lembrar que,
embora transmitida ao vivo por algumas emissoras de TV e de
rádio, a entrevista presidencial foi realizada num horário
em que boa parte dos brasileiros se encontrava no trabalho.
Vale
lembrar ainda que foram os portais na internet que primeiro
abriram espaço às declarações e
à repercussão do encontro do presidente com os
jornalistas, logo no início da tarde da mesma sexta-feira.
Isto
posto, por que teria o Planalto ignorado os portais de notícias
no "sorteio" de jornalistas para a coletiva? Seria
a internet, no entender deles, uma mídia menor?
De
fato, pesquisas mostram que a consolidação de
marcas exclusivamente virtuais, principalmente as marcas "editoriais",
é bem mais difícil que nos meios tradicionais.
As pessoas costumam dizer que viram determinada matéria
no Jornal Nacional ou no Fantástico, que leram uma reportagem
na Veja ou no Estadão, mas em contrapartida dizem que
viram uma notícia "na internet". Raramente
citam o site ou portal que trouxe a matéria, mesmo que
se trate de um furo jornalístico.
Essa
percepção do público – que requer
tempo e aculturação para ser revertida –
não significa que nada de bom, do ponto de vista jornalístico,
esteja sendo feito na internet. Ao contrário, há
vários sites e portais que zelam pelo bom jornalismo,
pelas reportagens investigativas, pelo espaço à
análise e opinião de especialistas – espaço
este, aliás, cada vez mais escasso nos jornais impressos.
Há
uma tendência na internet, no Brasil e em outros países,
de seguir na contramão da notícia curta, da informação
do último minuto, do imediatismo sem contextualização
e do simples "copiar e colar" como principal ferramenta
de produção de conteúdo jornalístico.
A internet não precisa ser (e há bons exemplos
de que não é) uma mídia menor.
Controle
oficial
Seria
essa a postura dos tomadores de decisão do Planalto?
De que a internet é uma mídia menor? Seria uma
postura do próprio presidente Lula? Ou dos homens de
comunicação do seu partido, o PT? Ou seria uma
postura comum a todos eles em relação à
imprensa em geral, ao tratar os jornalistas de internet como
subprofissionais e, os demais jornalistas, como rebeldes sujeitos
a um controle coercitivo sobre o exercício da profissão?
Quem
trabalha em redação sabe que a maioria de nossos
coleguinhas é simpatizante do PT. Levantamento realizado
pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas),
em julho 1998, quando Lula era o principal candidato da oposição
a FHC, mostrou que 50,9% dos jornalistas pretendiam votar no
petista, contra 23,7% que preferiam o tucano.
Independente
desses dados, o número de profissionais de comunicação
ligados ao PT é grande, sempre foi, desde a fundação
do partido, em 1980. Por isso, as regras adotadas na entrevista
do presidente Lula são ainda mais chocantes. Porque partem
justamente de pessoas ligadas a um partido que nasceu dos movimentos
populares, que tanto lutou pelas liberdades democráticas,
pelo fim da censura e pela liberdade de expressão.
Imagino
o que estariam pensando alguns saudosos comunicadores petistas,
ao assistirem lá do Céu a uma situação
bizarra dessas – particularmente Perseu Abramo, Henfil
e Carlito Maia. É deste último, espirituoso como
poucos, uma frase que definia a diversidade do PT autêntico,
e a valorizava como diferencial:
"Ele
[o PT] é composto por seres humanos, com todos
os defeitos e virtudes: xiitas e xaatos, xiiques e xuucros,
xaaropes e xeeretas. Mas todos vão tirar as cismas
numa boa, democraticamente." |
Tenho
a impressão de que os xaatos, xuucros e xeeretas estão
dominando este governo e esse partido. Desse jeito, vão
acabar conseguindo aprovar algum tipo de Conselho Federal de
Jornalismo. E nós, profissionais de imprensa, teremos
todos de tomar cuidado com o que falamos, escrevemos e perguntamos
nas entrevistas coletivas.
Quando
chegar esse dia, os jornalistas de internet não terão
mais por que lamentar: todos os meios estarão nivelados
perante as duras regras de controle oficial da informação.
Seremos todos, então, representantes de submídias.
(*)
Jornalista, editor do portal AOL
e professor de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero
[e-mail: renatodelmanto@aol.com]
A
COLETIVA DO PRESIDENTE
Governo em cenas de exclusão digital
Informação:
Observatório
da Imprensa - 03/05/2005
Andrea
Fornes (*)
Como
um governo que se diz da inclusão digital convida emissoras
de televisão e de rádio, jornais, revistas e agências
de notícias a participar da primeira entrevista coletiva
do presidente da República, mas exclui a internet?
A
Presidência levou exatos 850 dias para receber formalmente
a imprensa brasileira. Não se pode dizer que tenha sido
um ato impulsivo. Pelas informações divulgadas
às vésperas do evento, houve um intensivo processo
de preparação por parte do presidente –
que convocou, entre outros assessores, até o publicitário
Duda Mendonça para orientá-lo.
O
staff presidencial preparou uma lista de temas "espinhosos"
que poderiam surgir durante a entrevista e reuniu dados para
que Lula pudesse rebater todos eles, sem embaraço. Havia
nitidamente a preocupação de blindar a coletiva
para evitar os tropeços tão freqüentes em
aparições públicas – afinal, estamos
diante de um presidente que é chegado ao improviso.
Essa
característica de líder sindical que discursava
na frente das fábricas durante manifestações
trabalhistas de décadas atrás já rendeu
a Lula numerosas gafes, como a proferida na África: "Quem
chega a Windhoek não parece que está em um país
africano. Poucas cidades do mundo são tão limpas,
tão bonitas arquitetonicamente e têm um povo tão
extraordinário como tem essa cidade", disse, durante
visita à Namíbia. Ou a mais recente e polêmica
declaração em que pedia que os brasileiros "levantassem
o traseiro" contra as altas taxas de juros em vigor no
país.
Presença
"virtual"
A
prática de conceder entrevistas coletivas regulares já
está incorporada à rotina da maioria dos governos
democráticos. Aqui, o governo precisou de dois anos e
meio para tomar a iniciativa e a cercou de tanta pompa e circunstância
que o resultado foi pouco ou quase nada "jornalístico".
O encontro não gerou notícia a não ser
pelo fato de a entrevista finalmente ter acontecido. Parecia
que o presidente, assessores e jornalistas convidados seguiam
um roteiro predeterminado, no qual não havia espaço
para imprevistos.
Aparentemente
só o presidente saiu do script: dispensou o discurso
de abertura e foi direto para o formato de perguntas e respostas,
sem direito a réplicas. A situação toda
estava sob controle a ponto de a palavra "traseiro"
nem ter sido mencionada – como bem lembrou o blogueiro
Ricardo Noblat, do iG.
Como
foram tantos os cuidados que cercaram a primeira entrevista
coletiva formal do presidente Lula, é no mínimo
surpreendente que a Presidência tenha cometido o deslize
de privar os portais de internet da possibilidade de fazer perguntas.
Justamente o governo que se diz defensor da inclusão
digital discriminou o meio de comunicação que
mais cresce em prestígio e utilização nos
dias de hoje.
Alguns
veículos de comunicação foram convidados
a fazer perguntas, outros precisaram participar de um sorteio
para ter esse direito. Mas, no caso da internet, não
foi concedida nenhuma das duas oportunidades. Os jornalistas
da web puderam apenas acompanhar o evento de dentro da sala.
Uma participação "virtual" – afinal
era como se não estivéssemos ali. Tal acompanhamento
poderia ter sido feito de qualquer lugar.
Decisão
arbitrária
Os
dois jornalistas do iG, Ricardo Noblat e Leandro Colon, entraram
mudos e saíram calados. E por quê? O que dá
o direito ao governo de discriminar a internet? O portal iG
atinge diariamente 2 milhões de pessoas, muito mais do
que a soma da tiragem dos principais jornais do Brasil. O Último
Segundo, jornal online do portal, mantém em Brasília
um correspondente que cobre diariamente o governo. A internet
vem crescendo como o meio que as pessoas procuram para se informar.
Então, qual a explicação para terem tirado
de nós o direito de perguntar?
Enquanto
nos Estados Unidos o notoriamente conservador governo de George
W. Bush permite que blogueiros se credenciem para entrevistas
na Casa Branca, aqui o nosso governo veta sem explicações
a participação da internet. Chega a ser irônico.
Para não dizer preconceituoso e retrógrado.
Durante
a gestão de Marta Suplicy na prefeitura de São
Paulo, o Último Segundo tentou repetidas vezes uma entrevista
exclusiva. E sempre ouvia como resposta que a prefeita não
falaria com jornais da internet. Deve ser mesmo verdade, pois
ela foi várias vezes entrevistada por jornais, revistas
e emissoras de TV durante seu mandato.
É
indiscutível a importância que a internet tem hoje
na vida das pessoas. Segundo levantamento divulgado pelo Ibope
na semana passada, os brasileiros bateram o recorde de permanência
na rede no mês de março. Os 20 milhões de
internautas do país passaram, em média, 14 horas
e 57 minutos navegando. Esses leitores poderiam ter se sentido
representados na manhã da sexta-feira (29/4) se o governo
não tivesse negligenciado a internet.
De
acordo com os mesmos dados do Ibope, a web no Brasil cresce
como principal fonte para notícias. Nos Estados Unidos,
subiu em 35% o número de adultos norte-americanos que
apontam a internet como sua principal fonte de informação,
segundo a empresa de pesquisas Jupiter Research, que comparou
dados de 2001 com os atuais. Com o objetivo de informar seus
leitores, o Último Segundo não fez perguntas,
mas transmitiu em tempo real a entrevista coletiva, com transcrição
e vídeo, simultaneamente.
Não
tentem me convencer de que a decisão do governo Lula
não foi arbitrária. Portais como o iG não
devem ser punidos por não terem por trás de si
uma poderosa organização de comunicação,
seja ela uma emissora de TV ou um jornal. Somos internet. E
ponto.
(*)
Diretora de Jornalismo do iG
A
COLETIVA DO PRESIDENTE - Mídia pega
leve e Lula dá olé.
Informação:
Observatório
da Imprensa - 03/05/2005
Luiz
Weis
É
de não acreditar. Só depois que terminou a primeira
coletiva formal do presidente Lula, na sexta-feira, 29, quando
ele já se retirava do Salão Oeste (ou Leste, conforme
o jornal que se leia) do Palácio do Planalto, uma repórter
lhe fez a única pergunta que não poderia ter deixado
de ser feita nos 79 minutos (ou 80, ou 115, conforme o jornal)
da entrevista que ele levou 850 dias (ou 849, conforme o jornal)
para dar.
Afinal,
três dias antes (conforme todos os jornais), Lula tinha
dito que o povo, em vez de ficar reclamando dos juros, devia
"levantar o traseiro" e ir atrás de crédito
mais barato, mesmo porque, segundo ele, hoje em dia se pode
abrir e fechar conta em banco pelo computador.
Mas
nenhum dos 14 entrevistadores tomou a iniciativa de interpelá-lo
sobre a expressão que se distingue de todas as impropriedades
já proferidas pelo loquaz presidente nestes 28 meses
de governo, por ter ofendido os sentimentos de muitos brasileiros,
a julgar pelo aluvião de mensagens de protesto enviados
à mídia – um fato sem precedentes, em se
tratando de alguma fala de Lula.
"O
senhor acha mesmo que se o brasileiro levantar o traseiro os
juros vão baixar", perguntou a repórter,
ao que o presidente devolveu, com reduza: "Responda você."
A
rigor, pode-se argumentar que a pergunta certa seria outra:
não propriamente sobre a relação entre
o estado do traseiro e o custo do dinheiro, mas sobre a reação
indignada dos que se sentiram ofendidos pela forma com que o
chefe do governo os culpou pelos juros extorsivos do cheque
especial e do cartão de crédito.
Será
que o presidente, com todo o respeito, não achava que
era o caso de pedir desculpas aos brasileiros feridos no seu
amor-próprio?, podia-se indagar dele. Mas, assado ou
assim, o traseiro tinha que aparecer na entrevista, quantas
e quaisquer que fossem as perguntas sobre o problema objetivo
da política monetária e da ganhança dos
bancos.
A
ausência daquela palavra pode não ter preenchido
uma lacuna, como seria o caso de dizer se se quisesse fazer
sarcasmo, mas representa o ponto extremo da falta de combatividade
– no sentido jornalístico, bem entendido –
dos participantes da entrevista que entrou para a história
da presidência Lula apenas porque "sempre tem uma
primeira vez", como ele chegou dizendo.
Meia
mordaça
Pegar
na veia de Lula, em vez de pegar leve nele, era ainda mais necessário
por causa do pecado original do formato da entrevista –
a proibição da réplica (embora transgredida
sem maiores conseqüências por três perguntadores).
Essa
meia mordaça, a impossibilidade de o autor da pergunta
contestar de bate-pronto o que acabou de ouvir, permitiu a um
político reconhecidamente bom de boca – apesar
da "quase-lógica" de suas falas improvisadas,
no dizer de uma pesquisadora – dar um olé.
"Excelente
desempenho", elogiou pouco depois na edição
online da Folha de S.Paulo o colunista Kennedy Alencar. No dia
seguinte, o insuspeitíssimo O Estado de S.Paulo, embora
ressaltasse que "um chefe de governo precisa ser muito
incompetente para sair derrotado de tais situações",
intitulou o seu editorial a respeito "O melhor do presidente".
Segundo
a unanimidade dos relatos e o que mostrou a TV, o entrevistado
acusou o golpe apenas uma vez, quando o repórter Roberto
Maltchik, da Rádio Gaúcha, representando também
as oito outras emissoras credenciadas no Planalto, perguntou
se ele dorme bem com "a realidade da população
brasileira" que tinha sido eleito "com a tarefa de
melhorar".
Mas
o desconforto durou pouco. Em instantes Lula se refez do que
talvez considerasse, no íntimo, uma provocação
– e saiu declamando em 757 palavras o que o faz dormir
"o sono dos justos todo santo dia": melhorias no emprego,
no salário mínimo, nas matriculas universitárias,
no comércio exterior, na relação com o
FMI, nos programas sociais… E encaçapou: "É
para isso que eu trabalho, meu querido".
Meia-verdade
Nessas
horas é que a limitação do direito de pergunta
do entrevistador mostra quanto vale. Pois mesmo que tivesse
vindo para a entrevista com a lição na ponta da
língua, só quebrando o protocolo o jornalista
poderia contrapor ao presidente números como os que apareceriam
no sábado na melhor matéria da imprensa sobre
as suas incorreções – "Lula utiliza
dado errado para defender o mínimo", de Gustavo
Patu, da Folha de S.Paulo.
O
texto demonstra por que não fica em pé a afirmação
de Lula de que "o Brasil vive hoje, talvez, um dos seus
melhores momentos no que diz respeito ao salário mínimo".
Já o Globo, em matéria não assinada, destacou
a "meia-verdade" de Lula sobre a queda do déficit
da Previdência. (Caiu em março sobre fevereiro,
mas subiu na comparação com o primeiro trimestre
de 2004.)
Ainda
no Globo, o leitor Charles Marcel Paixão Milner flagrou
a contradição de Lula que, segundos depois de
dizer que o governo erra "muito", saiu-se com um "é
difícil reconhecer um erro num governo que acerta tanto".
Com
a regra do jogo francamente favorável ao presidente,
os seus mais de 20 anos de janela ao microfone, os conselhos
do seu personal trainer de mídia Duda Mendonça,
podia-se passar perfeitamente bem sem o que a colunista Dora
Kramer chamou de "reverência e, em alguns momentos,
franca amabilidade dos entrevistadores". De fato, faltou
clima para as "cobranças mais fortes" que seriam
de desejar.
"É
difícil dizer qual dos dois lados se mostrou mais frustrante",
criticou Janio de Freitas, na Folha. Páginas adiante,
o colunista de mídia Nelson de Sá observou que
"os correspondentes palacianos sorriam ou riam à
solta e erguiam perguntas que deixavam Lula mais e mais simpático".
No Globo, o comentarista político Merval Pereira concluiu:
"A entrevista não doeu". E a sua homóloga
de economia Míriam Leitão atacou o "quase
monólogo".
Respostas
"pirotécnicas"
A
atitude do reportariado é uma parte do problema. Outra
foi o predomínio de perguntas sobre assuntos econômicos
– 8 em 17 (incluindo as réplicas e as duplas contrabandeadas).
Falar de economia quem sabe fosse tudo que Lula quisesse. Pelo
menos o assunto rendeu as respostas mais extensas e, diria a
oposição, mais "pirotécnicas".
É
verdade que a economia está no centro das atenções,
mesmo da mídia não especializada. Basta ver a
freqüência com que o tema e suas variações
estão nas manchetes da grande imprensa. É verdade
ainda que, dado o ineditismo do encontro, como escreveu o colunista
Fernando Rodrigues, da Folha, "seria impossível
sabatinar o presidente sobre todos os temas relevantes da República
em pouco mais de uma hora", numa entrevista que "tinha
ares de algo excepcional".
Mas
que ficaram faltando as perguntas presumivelmente mais incômodas
para o presidente, isso também é verdade.
A
começar daquela que o colunista Janio de Freitas apontou,
na mosca: "Presidente, por que, afinal de contas, dois
anos e quatro meses para dar uma entrevista coletiva(…)?
O que houve ou há que o presidente Lula sentiu a necessidade
de não se ver perguntado?"
Para
a maioria dos analistas políticos, seja lá "o
que houve ou há", a decisão de começar
a dar entrevistas – Lula deu a entender que virão
outras, não necessariamente em Brasília –
se explica pela aproximação do ano eleitoral.
E, de fato, Lula ganhou o dia. No sábado, os três
principais jornais deram ao acontecimento um total de 49 títulos
(incluindo editoriais e colunas assinadas), espalhados por 22
páginas.
Mas
também se fartaram de relacionar o que se deixou de perguntar:
o fracasso da reforma ministerial tida como essencial para a
"governabilidade", as atividades do ministro José
Dirceu como "chanceler paralelo" (expressão
do Estado no domingo), a sua rivalidade com o aliado Aldo Rebelo
na coordenação política do governo, a pobreza
da agenda legislativa do Planalto e a inédita perda de
controle do Executivo sobre a pauta da Câmara, o excesso
de medidas provisórias que a travam, a carga tributária
e a derrota do governo na MP dos impostos…
Este
leitor acrescentaria outra pergunta – além, naturalmente,
daquela do traseiro.
Lula
lê jornal?
Em
dado momento da entrevista, o presidente Lula disse à
repórter Renata Giraldi, de O Dia, que estava surpreso
ao saber por ela que "o serviço de segurança
da Presidência desaconselhou a sua ida à favela
da Rocinha, mesmo diante do lançamento do microcrédito
e da inauguração da farmácia popular".
O entrevistado ainda agradeceu à entrevistadora a informação
recebida.
Três
perguntas e respostas adiante, foi a vez da repórter
Tânia Monteiro, do Estado, merecer a gratidão presidencial.
Ela queria saber se Lula concordava com o ministro do Desenvolvimento,
Luiz Fernando Furlan, que havia afirmado que o governo não
se entende. Do entrevistado, textualmente: "Eu agradeço
ficar sabendo pela tua boca e vou perguntar para o Furlan qual
é o problema de falta de sintonia que existe".
Pena
que não ocorreu a nenhum dos cinco entrevistadores seguintes
indagar do presidente da República se ele não
lê jornais. Pois tanto a informação do veto
da segurança à sua ida à Rocinha quanto
a da crítica de Furlan – diante das quais reagiu
como se não tivesse idéia prévia de uma
coisa e outra – saíram em letra de forma, nos respectivos
diários onde trabalham as entrevistadoras.
Não
foi à toa que pelo menos meia dúzia de textos
dos jornais de sábado se perguntaram por que, diante
do que se passou – ou melhor, não se passou –
na véspera, Lula tanto tardou a convocar uma coletiva
em palácio.
Torcedor
de futebol que se preze não só vai ao campo, mas
também, voltando para casa, ouve os comentaristas de
rádio; no dia seguinte, lê no jornal – se
tiver esse costume – tudo sobre o jogo a que assistiu.
No
caso da entrevista de Lula, dado que a maioria dos brasileiros
nela eventualmente interessada tinha mais o que fazer entre
10h30 de um dia útil, quando a sessão devia começar,
e as 12h05, quando terminou, a dependência do que a mídia
levasse ao ar naquela noite ou publicasse no dia seguinte não
era uma questão de gosto, mas de necessidade.
Escolha
discutível
Daí
a importância do "tudo sobre" nos jornalões
do sábado. Os três grandes concordaram –
e deram em manchete – que o essencial da entrevista esteve
em Lula dizer que um dos maiores erros do governo foi "a
gente ainda não ter feito com que os juros não
sejam o único padrão de controle da inflação"
(na resposta a Fábio Pannunzio, da TV Bandeirantes).
Embora
unânime, a escolha é discutível. Porque,
ao ser perguntado pela entrevistadora seguinte (Cristiane Jungblut,
do Globo) no que mais o governo poderia estar pensando para
segurar os preços, primeiro Lula tirou o corpo, citando
o falecido Ulysses Guimarães: "Nem tudo o que você
pode fazer na economia você pode avisar antes, porque
se avisar não faz". Depois, gastou 852 palavras
para garantir que não irá fazer "como já
foi feito neste país", ou seja, "uma pirotecnia",
e sim "com o melhor senso possível".
Somado
à "total confiança" que disse ter em
relação ao ministro Antonio Palocci – "somos
unha e carne", comparou, em outra resposta –, as
garantias reiteradas por Lula talvez devessem ter prevalecido
nos títulos de primeira página sobre os tais "outros
instrumentos" antiinflacionários.
Pois
o sumo dessa entrevista banhada em política econômica
é que, para o bem ou para o mal, vem aí mais do
mesmo. Na política monetária (juros altos) e na
política fiscal (robustos superávits primários).
O
editorial do Globo, embora sustentando que o ponto alto da entrevista
foi o reconhecimento de que debelar a alta dos preços
não é problema apenas no Banco Central, pegou
direito o espírito da coisa: "(…) afastar
temores, restabelecer confianças, foi o que Lula conseguiu
ontem, ao reafirmar princípios estratégicos da
política econômica e proteger a política
econômica do movimento político de pressão
contra ela que vinha ganhando força nas últimas
semanas (…). Se alguém tinha dúvidas, deixou
de tê-las ontem pela manhã".
Pior
do que gafe
O
Estado disse quase o mesmo. Depois da "apaixonada convicção"
com que Lula defendeu Palocci, conclui o seu editorial, "será
perda de tempo duvidar da solidez da posição do
ministro – e da aversão de Lula ao aventureirismo
em política econômica".
Globo,
Estado e Folha registraram o abismo entre o Lula da entrevista
e o Lula dos improvisos. "O presidente", beliscou
a Folha, "não precisa dessa modalidade de contato
com a imprensa para incorrer em gafes".
Mas
a imprensa, nessa modalidade de contato com o presidente, precisa
ser mais contundente e menos amável – o que é
pior do que uma gafe.
[Texto
fechado às 17h55 de 2/5]
A
COLETIVA DO PRESIDENTE
Lula desarma entrevistadores
Informação:
Observatório
da Imprensa - 03/05/2005
Luciano
Martins Costa (*)
Não
é de hoje que os jornalistas têm dificuldade no
confronto direto com o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. Bem antes de se tornar presidente da República,
Lula já costumava desarmar os espíritos com suas
tiradas desconcertantemente simplistas e suas metáforas
populares. Já em sua primeira entrevista como presidente
do Sindicato dos Jornalistas de São Bernardo, em 1975,
Lula simplesmente aproveitou as perguntas dos jornalistas e
fez seu discurso sobre a conquista da autonomia sindical, seu
tema central naquela época.
Em
muitos dos seus encontros com a imprensa ao longo da carreira,
o que se viu foi a insistência dos entrevistadores em
obter a concordância de Lula com as teses trazidas da
pauta – e na realidade o que ocorria eram longas perguntas
seguidas por respostas que nem sempre tinham correlação
com o tema de interesse do jornalista.
Enquanto
esteve fora do poder, Lula também contou quase sempre
com certa cumplicidade de grande parte dos seus entrevistadores,
exceto nas ocasiões em que, convidado pelas direções
dos jornais, teve de se submeter a encontros mais formais. Foram
essas as poucas ocasiões em que perdeu o controle, como
em julho de 2002, quando interrompeu abruptamente uma entrevista-almoço
na sede da Folha de S. Paulo, irritado com uma pergunta de Otavio
Frias Filho, diretor de redação do jornal, sobre
como ele se havia preparado intelectualmente para ocupar a Presidência
da República.
Paz
e amor
Trinta
anos depois de iniciar a carreira sindical que o conduziu ao
Planalto, o que se viu em Brasília na sexta-feira (29/4)
passada foi o mesmo Lula seguro de si e à vontade diante
de alguns jornalistas aparentemente encabulados, provavelmente
desarmados pelo tom pessoal com que o presidente os tratou.
Mesmo os profissionais veteranos que ensaiaram um tom mais crítico
e tentaram pular as regras da entrevista coletiva buscando a
réplica foram batidos pela capacidade do presidente de
esticar os assuntos com metáforas e lugares-comuns.
Mesmo
não tendo sido, a rigor, a primeira entrevista coletiva
do presidente – ele já havia se encontrado, em
2003, com dez jornalistas durante almoço em Brasília
–, essa foi uma oportunidade rara para um encontro formal,
com regras definidas que permitiriam igualdade de condições
entre os principais veículos credenciados junto ao governo.
Esperava-se
dos profissionais destacados para o evento que entrassem mais
fundo em questões que poderiam ajudar a sociedade a melhor
avaliar o atual governo. Mas pouco se produziu de relevante.
A
permanência quase exclusiva nos temas econômicos,
com escorregões para a repercussão de uma frase
já mastigada e digerida sobre o suposto conformismo dos
cidadãos com os juros altos, com certeza ajudou o presidente
a manter o controle e transitar tranqüilamente pela fila
de entrevistadores, sem demonstrar insegurança e sem
ter que abrir mão de seu estilo coloquial.
Faltou
mais preparo aos jornalistas? Pela média de tempo na
estrada, difícil imaginar que os entrevistadores não
tivessem questões mais instigantes a endereçar
à autoridade maior do país. O mais provável
é que, escalados para um confronto e preparados para
arrancar afirmações polêmicas, os profissionais
da imprensa tenham ficado sem armas diante do renascimento do
Lula afável, aquele "Lulinha paz e amor" que
se antecipa no reconhecimento de suas limitações
e parece ter aprendido a lidar com as impossibilidades da vida
real.
(*)
Jornalista
|