| CENSURA
INDICATIVA
Informação:
Folha de São Paulo
- 03/07/2004
Editoriais - Folha Opinião
É
bem-vinda a portaria do Ministério da Justiça
que flexibiliza o acesso de crianças e adolescentes a
filmes classificados como impróprios para suas idades.
É ridículo até mesmo imaginar que censores
lotados em Brasília possam aferir com mais precisão
do que pais ou responsáveis o que cada jovem está
preparado para assistir.
A
iniciativa, no entanto, cria um complicado mecanismo que permite
o acesso do menor apenas à categoria de classificação
imediatamente superior à de sua idade. Assim, crianças
de 10 e 11 anos, acompanhadas dos pais ou responsáveis,
só podem ver filmes considerados impróprios para
menores de 12 anos. Também escoltados pelos pais, adolescentes
de 12 e 13 podem entrar em exibições catalogadas
como para 14 anos, e aqueles com 14 e 15 anos têm o direito
de comparecer a sessões só adequadas para maiores
de 16 anos. Mas os que têm 16 e 17 anos não podem
assistir a filmes vetados para menores de 18, a menos que sejam
legalmente emancipados.
A
regulamentação parece ficar aquém do mandamento
constitucional que torna a classificação etária
de diversões públicas apenas indicativa. Não
é preciso ser expoente da hermenêutica jurídica
para concluir que o termo "indicativo" aqui opõe-se
a "obrigatório". E o bom senso sugere que a
decisão sobre o que cada criança e adolescente
poderá assistir fique a cargo dos pais, que formariam
seu juízo a partir das indicações de conteúdo
fornecidas pelo ministério.
Vale
lembrar que em outros países a questão nem sempre
passa pelo poder público. Nos EUA, por exemplo, a classificação
é feita por uma associação privada, à
qual os produtores só submetem os filmes se desejarem.
É perigosa a lógica segundo a qual tudo aquilo
a que jovens tenham acesso precisa passar por alguma forma de
controle do Estado -raciocínio que poderia levar, por
exemplo, à classificação de livros.
A
classificação indicativa dos filmes deve ser mais
flexível?
SIM
Educar,
melhor que proibir
Informação:
Folha de São Paulo
- 03/07/2004
Folha Opinião - Tendências/Debates
Luiz Flávio Gomes
O
Ministério da Justiça, depois de ter posto em
pauta e em discussão o redimensionamento daquilo que
é adequado ou inadequado para ser visto pelos menores,
acaba de autorizar o acesso de crianças e adolescentes,
de faixa etária menor que a indicada, a produções
audiovisuais destinadas aos mercados do cinema e dos vídeos
(fitas e DVD). Portaria nesse sentido será publicada
na segunda-feira próxima e terá vigência
30 dias depois da publicação.
A
fundamental exigência estabelecida é a obrigatoriedade
de acompanhamento dos pais ou responsáveis legais ou
que eles autorizem expressamente outra pessoa, maior, a conduzir
o menor. De modo nenhum, entretanto, poderá assistir
a qualquer produção inadequada para menor de 18
anos.
O
Estado, de acordo com os parâmetros constitucionais e
legais, vem cumprindo seu papel de fiscalizar e classificar
os espetáculos ou produções, mas ao mesmo
tempo também vem sinalizando claramente que a responsabilidade
pela seleção daquilo que o menor vai ver (ou não)
é dos pais -ou dos seus detentores legais.
É
bem provável que nada seja mais sensato, coerente e oportuno
do que essa nova regulamentação, porque a tarefa
de bem educar a criança, cuidando do adequado desenvolvimento
da sua personalidade, bem como do seu equilíbrio emocional,
compete à família e aos professores, que integram
as bases primárias da transmissão dos valores
mais importantes da civilização -liberdade, paz,
justiça, solidariedade e respeito aos direitos e à
dignidade alheios.
Mas,
depois da revolução comunicacional iniciada há
15 anos, já não podemos nos comportar como antes.
Temos que mudar diametralmente nosso enfoque em relação
ao tema em debate. A postura proibitiva ou puramente repressiva
perdeu quase que por completo sua razão de ser com a
enorme facilidade que a internet e a TV nos proporcionam de
acesso a tudo quanto é informação ou imagem,
incluindo, obviamente, violência, drogas e sexo.
A lógica prioritária agora já não
pode ser a de proibir ou permitir -nada disso mais funciona-,
senão a de preparar espiritual e emocionalmente a criança
para saber se posicionar (sempre que possível, criticamente).
A
violência exposta nos cinemas e nos vídeos tornou-se,
de certa maneira, romântica diante do extraordinário
bombardeio de palavras, escritos, sons e imagens nocivos que
nos traz diariamente o mundo da web, da diversão (videogame
e desenhos animados) e da televisão.
De
qualquer modo, ainda que sejam perniciosos os efeitos da exposição
diária das pessoas às cenas de violência
e sexo -isso ficou claro na mais densa pesquisa já elaborada
em todos os tempos sobre o assunto e publicada na revista americana
"Science", em abril de 2002-, é certo que não
existe uma relação direta de causa e efeito entre
os meios de comunicação e a violência, que
é um fenômeno muito mais complexo do que parece.
Pais
e professores, ao que tudo indica, são a chave do enigma.
Cada lar e cada escola formam a essência da personalidade
do indivíduo, que deve interpretar e reelaborar o mundo
que o cerca. Consoante os estímulos que a criança
recebe e sua herança genética é que ela
vai crescer saudável ou não, infensa às
agressões diárias ou não, violenta ou não.
Elas
aprendem suas habilidades e desenvolvem seus valores pela imitação;
mas a raça humana, de qualquer modo, é a única
dotada de razão, discernimento e censo crítico.
A única que pode promover a paz onde só reina
a guerra, a falta de respeito mútuo e de solidariedade
e a intolerância.
Confiemos,
desse modo, nos homens, na sua capacidade de evoluir e de transcender
suas limitações -na sua responsabilidade, em suma-,
porque pouco podem nos ajudar, no mundo atual, as proibições
legais.
Luiz
Flávio Gomes, doutor em direito penal pela Faculdade
de Direito da Universidade Complutense de Madri, é diretor-presidente
da TV Educativa Ielf (www.ielf.com.br). Foi juiz de direito
em São Paulo (1983-98) e presidente do IBCCrim (Instituto
Brasileiro de Ciências Criminais), do qual é co-fundador.
A
classificação indicativa dos filmes deve ser mais
flexível?
NÃO
A
discussão vai além da faixa etária
Informação:
Folha de São Paulo
- 03/07/2004
Folha Opinião - Tendências/Debates
Rubens Naves
O
ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, assinou
portaria que muda as regras de classificação indicativa
para cinema, fitas de vídeo e DVDs. A portaria permite
que crianças e adolescentes tenham acesso a salas de
cinema cujo filme tenha recebido classificação
imediatamente superior à faixa etária da criança,
desde que acompanhada por seus pais. O principal objetivo das
mudanças propostas pelo Ministério da Justiça
seria a divisão da responsabilidade pelo conteúdo
do que assistem crianças e adolescentes entre o Estado,
a família e a sociedade.
Sem
dúvida, situa-se nesse tripé a rede protetora
que toda criança deveria ter, e isso está expressamente
dito em nossa Constituição, no artigo 227. No
entanto, considerando ser esse um tema com alto grau de subjetividade
e delicadeza, já que diz respeito ao acesso a conteúdos
que poderiam, em tese, afetar o desenvolvimento psicológico
e emocional da criança e do adolescente, uma mudança
dessa ordem deveria ter sido mais discutida com a sociedade.
O
Ministério da Justiça realizou pesquisa, em seu
site, com 263 pessoas que, em sua maioria, foram contrárias
a uma versão anterior da portaria, que abria brecha para
que uma criança de 11 anos pudesse assistir a um filme
desaconselhável para menores de 16. A atual portaria
representa uma mudança menos radical, mas não
deixa de ser apressada. Certamente, 263 cidadãos são
um universo reduzido de consultas, a despeito de terem sido
ouvidos especialistas no assunto.
Sabe-se
que o desenvolvimento de cada criança e adolescente é
único. Há os que parecem mais maduros apesar da
idade que têm, há os que parecem lutar contra o
amadurecimento. É uma questão com alta dose de
arbitrariedade, e a própria opinião dos pais pode
não ser consensual a respeito do grau de amadurecimento
de seus filhos. Qualquer mudança nessa área exigiria
um debate aprofundado com especialistas em educação,
em comunicação e com toda a sociedade.
A
súbita liberalização da classificação
nos cinemas (que não pode ser confundida com censura,
pois está prevista no próprio Estatuto da Criança
e do Adolescente, como forma de proteger as crianças
e adolescentes de conteúdos perniciosos) pode contaminar
a discussão sobre a qualidade da programação
voltada às crianças e adolescentes na televisão
brasileira. E esta, sim, é uma discussão com grande
alcance, pois atinge todos os níveis socioeconômicos.
Na
4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças
e Adolescentes, realizada em abril deste ano no Rio de Janeiro,
especialistas do mundo inteiro debateram esse conteúdo
e a importância de criar marcos regulatórios. Patrícia
Edgar, presidente da Fundação Cúpula de
Mídia para Crianças e Adolescentes e uma especialista
nesse tema, analisando a programação televisiva
para o público infanto-juvenil, afirmou que ela "está
submetida aos interesses da propaganda, do merchandising e do
consumo, quando deveria tratar de questões relacionadas
à vida humana, ao processo de crescimento e autoconhecimento
das crianças".
A
própria carta dos adolescentes presentes ao encontro
pediu a regulamentação dos meios de comunicação
de massa a partir da criação, pela sociedade,
de conselhos de ética e denúncias em todos os
países, além de espaço nas escolas para
que elas possam receber, buscar e utilizar as informações
de forma crítica e produtiva.
Os
marcos regulatórios que vêm sendo discutidos em
diversos países devem levar em conta análises
de conteúdo da violência no cinema e nas diversas
mídias. Pais e especialistas, meios de comunicação
e Estado, crianças e jovens, todos precisam ser ouvidos,
até que se chegue a um grau consensual de autonomia,
dentro do qual as famílias, tão diferentes entre
si, possam avaliar com algum critério o que seus filhos
vêem. Para isso, é preciso discutir mais profunda
e abertamente, analisar o tipo de influência que os filmes
exercem em pessoas em fase de formação, os diversos
tipos de violência (inclusive as sutis, como as que envolvem
preconceito social ou de gênero).
Uma
grande produção atualmente em cartaz mostra como
essa questão é complexa. Muitos pais que levaram
seus filhos pequenos para assistir à terceira aventura
de Harry Potter foram surpreendidos com a violência e
o impacto de algumas cenas. Certamente, ao tentarem conciliar
o sono de seus filhos à noite, refletiram sobre a adequação
ou não do filme, classificado como livre.
De
tão cercados por imagens violentas, seja em telejornais,
seja na ficção, será que não estamos
nos tornando gradativamente insensíveis a elas, esquecendo
que, aos olhos de uma criança ou de um adolescente, uma
imagem pode chegar tão potente como um tiro?
Até
que essas influências estejam claras, a medida mais prudente
seria revogar a portaria e reeditá-la mais adiante, enriquecida
pela discussão sobre a qualidade da produção
cultural e da programação de mídia que
começa a ganhar corpo na sociedade.
Rubens
Naves, 61, advogado, membro do Conselho da Transparência
Brasil, é diretor-presidente da Fundação
Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente.
|